Em defesa de um certo determinismo biológico

Por Zeus, não acredito que estou prestes a fazer isso! Irei mesmo defender um tipo de determinismo biológico? Já prevejo os comentários enfurecidos, uma vez que, em relação a certos tópicos e certos temas, apenas a opinião do establishment acadêmico é aceita, e todo o resto é anátema… Bem, dentro daquela ótica do “falem mal, mas falem de mim”, pelo menos o blog estaria recebendo algumas visitinhas extras.

Estava essa semana assistindo a algumas palestras do TED, um dos meus passatempos preferidos atualmente, e apesar de achar que ele não tem uma retórica muito boa (por outro lado, ele escreve muito bem), resolvi assistir a uma palestra de Steven Pinker, sobre o conceito de tabula rasa.

E eis que, logo no início da palestra, me deparo com uma frase de Stephen Jay Gould que não poderia ir mais de encontro às minhas opiniões sobre etologia (para quem não tem uma boa capacidade de compreensão textual, “de encontro” significa que eu não concordo!). Na verdade, não foi surpresa para mim, uma vez que eu já conhecia a completa fúria de Gould contra todo tipo de conceito ou alegação que remotamente cheire a determinismo biológico. Mas, de qualquer forma, me desconcertou um pouco. Eis a frase, em um slide na apresentação de Pinker:

Slide da apresentação de Steven Pinker no TED

Antes que eu prossiga, devo alertar para um fato importante (em defesa de Gould): Steven Pinker não foi completamente honesto em sua citação. De fato, a frase é quase essa, e quem já leu bastante Gould não duvida que ele tenha querido dizer isso mesmo, uma vez que já se pronunciou a esse respeito outras vezes (o ataque que Gould faz ao Konrad Lorenz é de deixar o leitor constrangido, tamanha a deselegância – e, segundo minha opinião, tamanho o equívoco). Mas a frase está dentro de um parágrafo maior, num texto em que Gould critica Edward Wilson, e a leitura do parágrafo como um todo faz com que a frase tenha seu peso bem reduzido, pois Gould diz (pelo menos aqui!) que não defende um total “ambientalismo não-biológico”. Para quem quiser ler, eis o texto original de Gould:

Thus, my criticism of Wilson does not invoke a nonbiological environmentalism; it merely pits the concept of biological potentiality – a brain capable of the full range of human behaviors and rigidly predisposed toward none – against the idea of biological determinism – specific genes for specific behavioral traits.

Com esse ponto esclarecido, vamos tentar esboçar o pano de fundo histórico.

O determinismo biológico foi uma corrente de pensamento que defendia que os comportamentos humanos eram devidos a diferenças biológicas, hereditárias e inatas. De forma absurda e falaciosa, o determinismo biológico estabelecia que as diferenças sociais entre os diversos componentes de uma sociedade, particularmente no que diz respeito ao bem estar econômico e ao sucesso financeiro, se deveria a diferenças biológicas. Os diferentes níveis tecnológicos entre as diferentes etnias do século XIX e início do século XX eram explicados em termos de “superioridade” e “inferioridade” dessas etnias, respaldadas em suas diferenças biológicas. Do mesmo modo as diferenças entre os sexos. Propensão à criminalidade, ao alcoolismo, ao fracasso, estaria tudo determinado biologicamente.

Não há dúvidas de que o determinismo biológico clássico do século XIX é um absurdo, da mesma forma que seu contemporâneo e derivado, o darwinismo social. Gould é um humanista na melhor acepção do termo, e sua voz se levanta contra essa e outras formas de falácia. Há livros inteiros dedicados a esses “desmandos” cometidos por grandes autoridades científicas de suas épocas, como por exemplo “A falsa medida do homem”, obra com tradução em português.

O problema é que às vezes, tentando nos afastar de algo que discordamos, fazemos um movimento tão violento e exagerado que acabamos parando muito além de onde deveríamos ter parado, indo demasiadamente para o outro lado e incorrendo em um erro normalmente tão grave quanto. Para Margareth Mead, Skinner, Franz Boaz, John Watson e muitos outros, o ser humano não tem qualquer restrição comportamental. Não há nenhum comportamento pré-determinado no aparelho mental humano, e todo e qualquer comportamento é culturalmente definido, determinado pelo meio. O ser humano nasce como uma completa tabula rasa, e é capaz de exibir todo e qualquer comportamento imaginável. A cultura é capaz de fazer o comportamento variar em qualquer direção possível.

Os críticos dessa postura tão comum entre as ciências sociais denominam-na de Modelo Padrão das Ciências Sociais (SSSM, Standard Social Science Model), ou “determinismo cultural”. Não vou usar essa nomenclatura, pois ela nasceu no seio da psicologia evolutiva, e eu tenho tanto ou mesmo mais críticas em relação à psicologia evolutiva que em relação à abordagem clássica das ciências sociais (apesar de louvar a intenção original da psicologia evolutiva). Portanto, vou fazer uma brincadeira aqui e, com galhardia, denominar essa visão de “Total Desvinculação da Biologia”.

Eu simplesmente não admito, apesar de compreender as razões disso, que essa seja ainda a visão predominante entre as ciências sociais, em pleno século XXI. Querer ignorar que nós temos um sistema nervoso evolutivamente construído, repleto de módulos comportamentais e de redes neurais espécie-específicas, que nós constituímos uma espécie e que, como qualquer outra espécie, temos uma série de características morfológicas, fisiológicas e comportamentais específicas me lembra bastante Cremonini, dizendo que não fará bem algum em olhar pelo telescópio de Galileu…

Além disso, o que me incomoda bastante na postura vigente entre as ciências sociais é seu duplo padrão, sua dupla medida, quando afirma que o comportamento humano é completamente plástico e sem nenhuma base biológica, mas simultaneamente diz que o comportamento de todos os outros animais (um grupo claramente merofilético!) é determinado biologicamente. Da sociologia à psicologia, passando pela história e a geografia, pessoas que (em sua maioria) não têm noção alguma de zoologia, não conhecem biologia evolutiva, nunca leram sobre etologia, nunca estudaram etologia cognitiva, afirmam que todos os outros animais, com exceção do ser humano, são autômatos, desprovidos de consciência, sentimento ou estados mentais internos, porque Descartes disse assim! Mais uma vez, Cremonini com Aristóteles debaixo do braço. Nesse ponto eu tenho que ser honesto com os behavioristas clássicos: pelo menos eles são mais coerentes, quando dizem que todas as espécies são uma tabula rasa.

O que defendo aqui, espero que fique bastante óbvio, não é o determinismo clássico absurdo e criminoso, usado para justificar em nome de uma ciência enviesada todo tipo de opressão e dominação. Não estou falando de diferenças entre os seres humanos. O que estou falando aqui é da espécie humana como um todo: nós formamos um grupo animal com uma história evolutiva única, um sistema nervoso particular e que, apesar das pequenas diferenças entre os indivíduos de nossa espécie, tem um modelo característico e fácil de ser identificado. Nós já nascemos repletos de comportamentos determinados, somos animais com uma quantidade gigantesca de comportamentos geneticamente modulados, o que o público leigo chama de instintos. Isso mesmo! É elementar que somos capazes de aprender, mas a nossa própria capacidade de aprender, a maneira como nós aprendemos, as particularidades de nossos processos de aquisição cognitiva, até isso é determinado pela arquitetura de nosso sistema nervoso. Esse é o “determinismo biológico” que defendo, como afirmei na introdução da presente nota. Entre os filósofos, ele é chamado de “soft determinism” ou, ainda, de “compatibilismo”. Trata-se de repelir com rigor a falácia naturalista ridícula do determinismo biológico clássico, mas trata-se também de não abraçar completamente e de forma estúpida a igualmente ridícula “Total Desvinculação da Biologia”.

Nosso comportamento não é completamente livre para se manifestar de todas as maneiras possíveis e imagináveis. Como uma espécie animal, nosso comportamento é claramente variável, e pra quem gosta de uma competiçãozinha (sempre alguém tem que falar “mas o ser humano é a espécie mais numseiquê do mundo”…), posso sem problema algum admitir que o ser humano é o animal com o comportamento mais variavelmente plástico entre todas as espécies existentes. Mas esse comportamento varia dentro de certos limites, limites estabelecidos por nossa biologia, por nossa arquitetura cerebral, por nossa história evolutiva.

Creio que nada mais conveniente que encerrar com uma passagem do psicólogo e filósofo William James, que diz de forma bem mais profunda e elegante o que tentei defender aqui. Vale à pena a leitura:

It takes a mind debauched by learning to carry the process of making the natural seem strange so far as to ask for the why of any instinctive human act. To the metaphysician alone can such questions occur as : Why do we smile, when pleased, and not scowl? Why are we unable to talk to a crowd as we talk to a single friend? Why does a particular maiden turn our wits so upside down? The common man can only say, “of course we smile, of course our heart palpitates at the sight of the crowd, of course we love the maiden, that beautiful soul clad in that perfect form, so palpably and flagrantly made from all eternity to be loved!”

And so probably does each animal feel about the particular things it tends to do in presence of particular objects. They, too, are a priori syntheses. To the lion it is the lioness which is made to be loved ; to the bear, the she-bear. To the broody hen the notion would probably seem monstrous that there should be a creature in the world to whom a nestful of eggs was not the utterly fascinating and precious and never-to-be-too-much-sat-upon object which it is to her.

Thus we may be sure that, however mysterious some animals’ instincts may appear to us, our instincts will appear no less mysterious to them. And we may conclude that, to the animal which obeys it, every impulse and every step of every instinct shines with its own sufficient light, and seems at the moment the only eternally right and proper thing to do. It is done for its own sake exclusively. What voluptuous thrill may not shake a fly, when she at last discovers the one particular leaf, or carrion, or bit of dung, that out of all the world can stimulate her ovipositor to its discharge? Does not the discharge then seem to her the only fitting thing? And need she care or know anything about the future maggot and its food ?

4 comentários sobre “Em defesa de um certo determinismo biológico

  1. Um dos comportamentos inatos que eu acho mais interessante é a noção de profundidade em bebês. Fica claro que redes neurais espécie-específicas são desenvolvidas para tal faculdade, e que como uma estrutura neural evolutivamente construída parece ficar claro que ela estabelece um certo “grilhão” onde não é necessário “testar” novas adaptações, resultando em um certo determinismo biológico…Se foi isso que eu entendi.

  2. ESSE JAY GOULD É UM IDIOTA POLITICAMENTE CORRECTO..NEGAR QUE O GENOMA SEJA UM SEMI-ALGORITMO MOLDADO POR X TEMPO NUM MEIO EVOLUTIVO Y É MUITA CANALHICE E PSEUDO-CIENCIA DELE..TINHA QUE SER JUDEU COMO O FREUD, FRAUDEINSTEIN, MARX, ETC..PUTZ

  3. Prezado Gerardo…
    Meus parabéns pelo excelente texto que estranhamente só conheci agora, apesar de já conhecer o blog e estudar o assunto há anos. Eu sempre defendi que, no sentido clássico, o Determinismo Biológico é uma espécie de ficção, pois de fato nunca foi defendido por biólogos no sentido contemporâneo do termo, e sim por sociólogos, filósofos e teólogos, em geral antes mesmo do Evolucionismo se estabelecer. E continuo afirmando que não existe Determinismo Biológico nesse sentido clássico, muitíssimo menos entre os evolucionistas, e muitíssimo menos ainda entre os psicólogos evolutivos. Disso, retiro meu primeiro pedido. Se você conhece algum biólogo minimamente renomado que nos últimos 150 anos tenha defendido uma forma radical de determinismo biológico, eu gostaria muitíssimo que me informasse, pois tenho repetido por aí que isso simplesmente inexiste.

    Meu segundo pedido é com relação a suas críticas contra Psicologia Evolutiva. Eu gostaria muito de apreciá-las, uma vez que este tem sido um de meus principais pontos de estudo. Bem como solicitar sua opinião sobre os meus textos http://evo.bio.br/LAYOUT/PsicologiaEvolutiva.html e http://evo.bio.br/LAYOUT/TabulaRasa.HTML

    Amigavelmente

    Marcus Valerio XR
    xr.pro.br

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