Seleção para o comportamento

Prolegômeno: Antes que os puristas da língua e gramáticos de plantão reclamem do título da presente nota (“quem seleciona seleciona algo”, dirão, “portanto é seleção de, e não seleção para”), a fórmula seleção para tem um sentido bem determinado em biologia evolutiva, conforme proposto por Sober. Esse, por sinal, pode ser o tema para uma nota futura.

Que muitas pessoas vivem de aparência não é novidade pra ninguém. Um infeliz exemplo disso é a triste condição de uma quantidade inimaginável de cães abandonados e em perfeitas condições para adoção, preteridos em favor de cães “de raça”, seja isso o que for (para quem não compreendeu o sarcasmo, eis uma nota a respeito), comprados em pet shops ou, absurdo dos absurdos, em puppy mills. Escolhendo o seu cão por critérios puramente estéticos, esquecem ou escolhem ignorar a principal característica dos cães, aquilo que tanto contribuiu para nossa relação com essa variedade de lobo: seu comportamento.

Já é passada e muito a hora de esquecermos a aparência e privilegiarmos o comportamento nos cruzamentos (eu poderia falar de humanos, mas antes que me acusem de eugenia positiva, vou ficar só nos cães mesmo…), ou, para não sermos tão radicais, pelo menos dar mais importância ao comportamento que à aparência, na determinação dos cruzamentos e nos chamados “padrões da raça”, estabelecidos por criadores e Kennel Clubs. Eu, que recentemente tive minha cadela atacada e quase morta por outro cachorro (minha cadela tem mais de 40 quilos, daí dá pra imaginar o tamanho dos combatentes), cujo proprietário imbecil levou pra passear sem coleira, sei bem da importância disso. Para passear sem coleira o cão tem que ser perfeitamente submisso ao dono (ou ao tutor, pra não usar a palavra “dono”). E essa submissão seria facilitada com a seleção de cães mais dóceis, mais amigáveis e mais companheiros. Como telespectador e fã do Cesar Millan, sei que na imensa maioria das vezes (poderei chutar uns 95%, uns 19 de cada 20?) os problemas comportamentais dos cães são resultado de erros, incompreensões, abusos ou estupidezes praticadas pelos seus tutores. Já que a maioria dos tutores não sabe impor disciplina e dar carinho (nessa ordem) a seus cães, cães mais amigáveis e dóceis ajudariam e muito os humanos que, em sua maioria, têm dificuldades em educar corretamente seus cães.

Bem, escrevo essa nota com o intuito de divulgar uma entrevista sobre esse assunto feita com o professor James Serpell, da Escola de Medicina Veterinária da Universidade da Pennsylvania, que tive o grande prazer de conhecer e assistir uma de suas palestras num congresso de etologia em Brasília, há alguns anos. A entrevista original, publicada pela Stay Free Magazine, está aqui. Devo avisar de antemão que se trata de uma revista de variedades e, sendo assim, há algumas incorreções científicas aqui e acolá, mas nada de muito grave; a tentação foi grande, mas procurei não alterá-las.

Escrevi para os editores da revista diversas vezes requerendo autorização para traduzir a entrevista, mas não me responderam. Bem, mesmo sem autorização, eis a tradução. As notas são minhas.

Por que cães “de raça pura” não brincam de ir pegar: Uma entrevista com James Serpell

Como os lobos se transformaram nos Greyhounds, Pugs e Yorkshires dos dias de hoje? Algumas teorias tentam explicar. A maioria dos historiadores acredita que antigos humanos[1] adotavam filhotes de lobo órfãos e os criavam como companheiros de caçada. Outra perspectiva sugere que lobos corajosos o bastante para procurar comida perto de assentamentos humanos tinham maiores taxas de sobrevivência e reprodução. Com o tempo, segundo essa teoria, essa população de lobos perdeu seu medo dos humanos.

Esses antigos humanos tinham poucos recursos para manter esses animais como “pets” e necessitavam que eles trabalhassem para justificar sua manutenção. Moradores rurais criavam cães para proteger contra predadores, para ajudar a lidar com o gado e para caçar. Os hábitos de criação mudaram, contudo, quando as exposições e competições caninas surgiram na Inglaterra Vitoriana. Uma grande classe ociosa buscava símbolos de status, que os criadores forneceram com os recém-descobertos princípios da genética e da seleção natural de Darwin.

Ao manter registros das genealogias e ao adotar práticas como o endocruzamento (acasalando um reprodutor com sua progênie), os criadores passaram a produzir cães tão variados que eles pareciam diferir de seus ancestrais como diferiam de gatos ou bodes. O American Kennel Club e o British Kennel Club emergiram na década de 1880 para regulamentar os aspectos morfológicos de “raças” específicas, gerenciar registros de cruzamentos e organizar exibições para designar cães campeões. Ao dar prioridade à aparência dos cães, contudo, os Kennel Clubs negligenciaram outras características – nomeadamente, seu comportamento e sua saúde. Como resultado, cães de “raça pura” manifestam centenas de patologias devido a seu histórico de endocruzamentos.

Em sua longa associação com seres humanos, os cães têm sido criados de acordo com as necessidades humanas. Mas quais são essas necessidades hoje? Estamos satisfazendo-as ao criarmos cães com morfologias cada vez mais extremas, sem considerar seu comportamento ou sua saúde? O Dr. James Serpell, diretor do Center for the Interaction of Animals and Society, na Universidade da Pennsylvania, tem escrito extensivamente sobre criação de animais de estimação e sociedades humanas. Seu trabalho mais bem conhecido sobre o tema é In the company of animals. Stay Free entrevistou o Dr. Serpell por telefone, em março de 2004.

James Serpell

Stay Free: Em um programa recente da TV Nova, Dogs and more dogs, você sugeriu que os criadores de cães deveriam cruzá-los focando seu comportamento, ao invés da aparência e outras características morfológicas. Dado que a maioria dos norte-americanos vive em cidades, quais seriam as características desses cães?

James Serpell: Eu conduzi uma pesquisa, há alguns anos, para saber se o que as pessoas esperavam de um cachorro era diferente do que elas esperavam de um gato. Contrariamente à minha hipótese, não houve praticamente diferença alguma. As pessoas querem animais de estimação que sejam carinhosos e interativos, que as deem bastante atenção e que não tenham aquelas características indesejáveis: não seja agressivo ou excitável, que não lata[2] muito. Elas querem uma certa previsibilidade. Uma vez que há certa uniformidade em relação ao que as pessoas querem, por que não reproduzir cães com essas características? Era assim que as pessoas originalmente reproduziam cães: se você precisava de um cão que reouvesse patos (um retriever), você faria uma seleção para essa função, o que incluiria ter a forma correta, a pelagem correta, entre outras características. Tudo vem junto, num pacote, que é a forma como a evolução opera. Por que nós não fazemos isso para os pets?

Stay Free: Pode-se achar isso óbvio. Porém, a criação[3] de cães – pelo menos nos Kennel Clubs – parece focar inteiramente na estética. Muitas raças não podem mais sequer executar suas funções originais. Há muitos retrievers de “raça pura”, por exemplo, que não brincam de ir pegar. Que papel tem nisso os padrões estabelecidos para as raças?

James Serpell: Todo ano, o American Kennel Club publica o The complete dog book, que contém os padrões das raças. Para cada raça há uma descrição bem específica do tamanho do nariz, da cor das orelhas, e assim por diante. Mas, ao falar de comportamento, o livro lista termos vagos como “corajoso e impassível”. Se você parar pra pensar, significa que o cão tem um temperamento em que não se pode confiar. Nós não queremos cães “corajosos e impassíveis” no ambiente urbano, mas esse é o padrão da raça. Se desafiado, o American Kennel Club vai dizer que está selecionando para certas funções. Mas não faz sentido criar cães de companhia com as características de um cão de guarda potencialmente perigoso.

Stay Free: Muitos cães de “raça pura” não são saudáveis. Bulldogs, por exemplo, precisam nascer por cesariana. Por que isso?

James Serpell: Quase todos os criadores de bulldogs com pedigree fazem o nascimento por cesariana por causa da estreiteza da bacia da cadela e o tamanho da cabeça dos filhotes. Essa é uma clássica ilustração do problema dos “padrões de raça”. O padrão original para os bulldogs era que a cabeça deveria ser o mais larga possível, e por isso os criadores têm continuamente acentuado essa característica.

Stay Free: As pessoas ainda tentam usar a genética para assegurar a pureza de uma raça específica?

James Serpell: Sim, isso está implícito no processo. Criadores consideram um cão “misto” como uma coisa terrível. Há muito orgulho em relação à linhagem do cão, ao seu pedigree – como se os criadores estivessem falando de sua própria árvore familiar, como se fossem descendentes de uma aristocracia. A ideia de um exocruzamento, de cruzar com uma raça distinta para atenuar uma característica não saudável, é uma blasfêmia, porque destrói a “pureza” da linhagem. Criadores justificam isso dizendo “se a raça é pura, ela é previsível, e as pessoas saberão o que têm em mãos”. Mas na realidade ainda há uma grande variação dentro de uma raça. Isso é devido parcialmente à genética e parcialmente às condições nas quais os cães se desenvolvem.

Stay Free: A genética é capaz de distinguir as raças?

James Serpell: Não, você não pode fazer uma distinção entre duas raças de cães com as técnicas genéticas atuais. Na verdade, você não pode sequer diferenciar um cão de um lobo de forma confiável. Algumas análises de DNA mitocondrial põem o lobo no meio das outras raças, fazendo o lobo parecer apenas outra raça[4]. Além disso, você pode ter dois cães da mesma raça separados por quilômetros num mapa de DNA. Na Inglaterra, quando decidiram banir o American Pit Bull Terrier, eles imediatamente tiveram problemas em identificar geneticamente os cães. Havia tantos híbridos que a lei teve que ser, afinal, modificada.

Stay Free: Eu ouvi que alguns veterinários tem tentado achar um “gene para violência” em Pit Bulls. Essa procura ainda continua?

James Serpell: Muitas organizações gostariam de continuar. Mas isso não foi muito longe, por uma série de razões. Primeiro, não há muita verba. Pesquisadores em genética comportamental preferem camundongos e moscas-das-frutas, que eles podem reproduzir rapidamente, enquanto reproduzir cães tem um custo elevado. Outra razão é que a genética do comportamento é imensamente complicada; eles nunca vão achar um “gene para violência”.  Eles podem achar um gene que, quando presente em certos indivíduos, os predispõe a mais provavelmente expressar certos traços de violência, mas tanta coisa é filtrada pelo ambiente no qual eles se desenvolvem que você não pode prever com certeza que indivíduo irá se comportar mal. Até cientistas em genética populacional humana falam disso o tempo todo: de que forma eles vão achar um gene para esse comportamento ou para aquele comportamento… Mas é uma maneira simplificada de falar de algo que é enormemente complexo. Eu acho que ainda há um longo caminho até haver um quadro genético da agressão.

Stay Free: Você vê alguma conexão entre o pensamento racista e alguns dos pensamentos dos criadores de cães?

James Serpell: Nunca fui capaz de estabelecer uma conexão explícita, mas é difícil imaginar que não haja alguma.

Stay Free: As outras partes do mundo praticam a criação de cães da forma como os Estados unidos e a Grã-Bretanha fazem?

James Serpell: Cada país tende a focar em sua raça nacional, ou pelo menos em sua raça preferida. Eu me lembro de ficar assustado ao ver quantos Setters Ingleses há na Noruega. Não é uma raça que se vê frequentemente em outros lugares. Os alemães têm academias para pastores alemães com programas de treinamento, onde eles são treinados como cães de guarda – quase cães de guerra. Eles os fazem passar por vários testes, como por exemplo ficar ao lado de uma espingarda que dispara e não se assustar.


[1] A data mais provável para a domesticação do lobo é 15 mil anos antes do presente (paleolítico superior), em regiões da Ásia central e oriental.

[2] No original, “fart”. Creio que houve um mal entendido, e o Dr. Serpell tenha dito “bark”; afinal, foi uma entrevista pelo telefone, e “fart” não faz muito sentido no contexto.

[3] O termo “criação”, ao longo da entrevista, é usado não no sentido de “cuidar” e sim no sentido de cruzar seletivamente, selecionar. Refere-se, portanto, aos criadores profissionais e à cinofilia.

[4] Na verdade, por incrível que pareça, os cães são biologicamente uma variedade do lobo, não constituindo uma espécie distinta. São todos, portanto, Canis lupus.

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