Cabeleira cabeluda

“Por que isso é assim? Por que aquilo é assado?”. As ciências têm que responder uma série de perguntas, e elas são infinitas. Para muitas pessoas leigas, contudo, pode ser bastante decepcionante o fato de que a certeza estatística não é a mesma coisa que elas definem como certeza, que correlações não implicam em causalidade, e que em muitas situações os cientistas não querem ou não podem (lembre-se que o operador “ou” pode incluir ambas as opções) responder as perguntas que lhes são endereçadas. No caso da biologia evolutiva, creio sinceramente que há uma série de perguntas que não apenas não podem ser adequadamente respondidas como, eventualmente, é uma perda de tempo tentar respondê-las, pelo menos quando aquela área de conhecimento ainda não acumulou informações o bastante.

A biologia evolutiva é capaz de determinar se uma característica (o termo correto é “estrutura”, mas não vamos nos preocupar com isso agora; isto aqui é apenas um blog, e não um livro técnico) é adaptativa ou não, se ela resultou de um processo de deriva ou se foi selecionada, qual seu ajustamento (forma como eu me referirei ao fitness) e uma série de outras coisas. Contudo, para algumas características adaptativas, isto é, tornadas comuns por processos seletivos, não é possível ou às vezes nem mesmo pertinente respondermos “porque aquela característica elevou o ajustamento dos seus portadores”. O que eu volto a questionar, pois já bati nessa tecla anteriormente, é que podemos perfeitamente determinar o coeficiente de seleção de uma característica, demonstrar na natureza ou experimentalmente suas vantagens e assim por diante, mas quando tentamos explicar por que ela confere essas vantagens entramos no pantanoso terreno das suposições.

Algumas características não oferecem a menor dificuldade. Asas servem para voar, espinhos protegem o vegetal, olhos capturam informações visuais, flagelos impulsionam células e assim por diante. Contudo, nem todas as características adaptativas de um ser vivo podem ter sua vantagem seletiva facilmente explicada, e o pantanoso terreno está logo ali na frente. Vamos começar com um exemplo exageradamente simples: suponha duas variedades de uma determinada mariposa, uma vermelha e outra marrom, que freqüentam ambientes com fundo marrom, como cascas de árvores por exemplo. Você determinou que o ajustamento relativo para cor marrom é maior que o para cor vermelha, e simplesmente não pode evitar de pensar que isso se deve ao fato das marrons se camuflarem melhor. Assim sendo, a melhor camuflagem é a razão do maior ajustamento das mariposas marrons, certo? Muito provavelmente, mas ainda assim é apenas uma suposição, podem haver outras explicações que você não percebeu, somando-se a essa. “Mas eu estabeleci experimentos e concluí definitivamente que as vermelhas são mais predadas”. Primeiramente, o que você conclui no experimento é que há uma diferença no fitness, apenas isso. E, em segundo lugar, se em seu experimento você considerou apenas a taxa de predação, seu experimento não simulou o ambiente natural, e mediu apenas a diferença na predação dessas duas variedades, eliminando uma série de outros fatores que poderiam constituir a explicação daquela diferença no ajustamento.

Eu exagerei propositadamente: no exemplo acima, eu também acho que a causa da diferença nos ajustamentos seja a melhor camuflagem. Mas é importante que lembremos que essa é apenas uma “excelente explicação” (mais uma vez: o que você estabelece estatisticamente é a diferença no ajustamento, e não a explicação de porque essa diferença ocorre), pois em outras situações a coisa fica muito mais complicada. Aqui chegamos ao tema sobre o qual eu queria discutir nesta postagem: por que nós humanos temos pelos mais longos na cabeça (ou seja, cabelos) que no resto do corpo?

Será que temos pelos mais longos na cabeça pela mesma razão que (provavelmente) os leões têm? (Fonte: Science Photo Library)

Nós temos um corpo que não apenas possui uma menor densidade de pelos que o da maioria dos outros mamíferos como também pelos mais curtos. Porém, nota-se claramente que na região pubiana e nas axilas os pelos são maiores, além de mais densamente presentes. Mas nada se compara à cabeça: aqui não só a densidade é maior como os pelos são gigantescamente maiores que os do resto do corpo, chegando às dezenas de centímetros de comprimento. Antes de continuarmos pela biologia evolutiva, convém uma breve digressão para explicar por que (no sentido fisiológico, ou seja, causa próxima) um pelo pode ser maior ou menor. A formação do pelo ocorre em fases: no anágeno há o crescimento do pelo propriamente dito; no catágeno há deterioração da base do pelo, e no telógeno o pelo é perdido, recomeçando um novo anágeno. Nos pelos do seu braço, por exemplo, o anágeno dura um mês mais ou menos. Como a velocidade de crescimento é por volta de 1 cm por mês, os pelos do seu antebraço têm em média 1 cm de comprimento. Você não tem que “aparar” o antebraço: depois de atingirem 1 cm de comprimento, os pelos entram em catágeno e telógeno, caem, e crescem novos pelos. Portanto, se você tirar uma foto do seu antebraço agora e outra daqui a 5 meses, com certeza todos os pelos são novos, não há nenhum pelo que apareça nas duas fotografias! Por outro lado, o anágeno na cabeça (menos o da sobrancelha e dos cílios) dura vários anos, até 5 anos em média! Assim, temos pelos na cabeça que podem chegar a 1 metro de comprimento, ou mesmo mais.

Muito bem, qual a razão de nós humanos termos essa juba na cabeça? Primeiramente, lembrando da introdução desta postagem, devemos determinar se essa juba é adaptativa ou não, pois podemos muito bem ter aqui um exemplo de característica não adaptativa, de uma deriva associada a uma exaptação remota ou algo assim. Mas vamos supor que nossa juba seja adaptativa, ou seja, há seleção operando a favor dos portadores da juba; então, qual a razão?

A maioria dos leigos nos diz que os cabelos longos na cabeça servem para proteger mecanicamente nosso frágil crânio. Ouço essa explicação desde que me entendo por gente, e ela serve não apenas para os cabelos do topo do crânio, mas também para as sobrancelhas. “Temos sobrancelhas para proteger contra choques mecânicos”. Muito bem, vamos analisar isso. Se o choque mecânico é sutil, não vai fazer diferença alguma para o processo seletivo. Se o choque mecânico for severo, não há sobrancelha que proteja contra um corte. Eu mesmo já experimentei isso, após entrar numa briga: briguei com a válvula de um cilindro de gás que um incompetente estava regulando, e o resultado foi 15 pontos no supercílio. Então, por que teríamos sobrancelhas? Bem, o argumento principal desta postagem é que essas explicações são apenas suposições, mas algumas suposições são melhores que outras, e podem sobreviver por mais tempo. Por exemplo, as sobrancelhas são fundamentais para a comunicação humana. Quem já desenhou (ou apenas leu) quadrinhos sabe disso. Além disso, sobrancelhas são atraentes (me lembro de, quando adolescente, como achei desconfortavelmente estranho o Bob Geldof sem sobrancelhas no “The wall”… antes que perguntem, sobrancelhas raspadas voltam a crescer perfeitamente), e juntamente com os cílios constituem um dos aspectos da subjetiva beleza facial. Aqui voltamos à juba (cabelo nas mulheres, cabelo e barba/bigode nos homens) propriamente dita: por que a temos?

Minha suposição, e enfatizo que é uma suposição, é que a cabeleira nada tem a ver com proteção mecânica, ou com proteção contra raios UV ou qualquer coisa semelhante. Tem a ver com sexo, com atração sexual. Nós humanos temos juba pela mesma razão que um leão tem juba: é um display sexual, que não apenas evidencia maturidade como influencia na escolha dos parceiros (detalhe: para as leoas, a cor da juba parece ser mais importante que o comprimento em si). O fato de ambos os tipos sexuais em seres humanos exibirem uma cabeleira, diferentemente dos leões, não oferece grandes complicações: um display sexual pode valer para ambos os tipos sexuais ou para um só, e pode ocorrer apenas em certas populações numa dada espécie, ou apenas em determinadas circunstâncias. Desta forma, o papel do cabelo no passado evolutivo humano foi o mesmo papel de atualmente: um adorno, uma estrutura de importância estética.

O estabelecimento da cabeleira como atrativo sexual, considerando essa uma explicação plausível, se deu, provavelmente, após o rareamento nos pelos corporais em nossos ancestrais (que deve ter ocorrido entre 1,8 milhão e 200 mil anos atrás). O que é muito interessante nessas hipóteses de display sexual é que, primeiramente, muitas delas são arbitrárias: excetuando-se os famosos casos em que o display sexual relaciona-se com a saúde geral do animal (os chifres dos alces, as penas do pavão etc.), muitos desses displays sexuais não tem aparentemente nenhuma razão para serem assim, e poderiam ser diferentes: “por que as fêmeas são atraídas por um macho de penas azuis, e não por um de penas vermelhas? Por que aquele inseto é atraído por um canto de 200 Hertz, e não por um de 300 hertz?”, e assim por diante. Isso nos leva à segunda coisa interessante nesses displays sexuais, que é a Estratégia Evolutivamente Estável (ESS, em inglês): ainda que arbitrários, quando se estabelecem numa população esses displays dificilmente conseguem ser alterados. Numa população onde todos se interessam por pessoas cabeludas, uma criatura pouco favorecida capilarmente vai ter poucas chances. Contudo, nessas questões comportamentais, o ser humano consegue estabelecer mudanças relativamente rápidas: o “corte romano” está aí para mostrar isso.

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