Linguagem e exaptação

Estou procurando por uma palavra e não consigo encontrá-la. Quero denominar um “rumor sem fundamento, que é considerado pela maioria das pessoas uma verdade e um fato científico”. Como, por exemplo, os humanos usarem apenas 10% de sua capacidade mental, a vitamina C proteger contra o vírus da gripe e o do resfriado, os esquimós possuírem dezenas de palavras diferentes para “neve”, o consumo de álcool cortar o efeito de antibióticos, entre tantos outros. A primeira palavra que normalmente nos vem à mente é mito. Acontece que eu me recuso a associar a palavra mito a um erro, um embuste ou uma inverdade. Sendo um helenista incipiente e insipiente, tenho muito respeito pela palavra mito, e considero muito inadequada essa associação de mito com inverdade. Mito, para quem não conhece, é uma história de origem, uma narrativa simbólica, que nos traz informações bastante valiosas de como um povo vê a si mesmo e o mundo que o cerca. Não estou dizendo que mitos como o de Eros e Psiqué, ou o de Odisseu enganado Polifemo, ou o de Io se transformando numa novilha tenham ocorrido literalmente, é claro que não! Contudo, associar o termo mito a um erro ou engano é extremamente empobrecedor. Como já disse Pierre Brunel, em seu “Dicionário dos mitos literários”, há de se escrever sobre “o mito do mito”.

Portanto, mito não me parece ser uma palavra adequada. Que outra usarei? Lenda? Penso que não, pelo mesmo motivo que mito. Depois de certa busca, creio que a palavra mais adequada para o que eu quero descrever seja crendice. Parece-me uma escolha interessante, pois deriva do verbo crer, que inclusive já foi tema de um post aqui neste blog. “Crendice” é um rumor sem fundamento científico, e que é considerado verdadeiro apenas porque a maioria das pessoas já ouviu de alguém, sem se lembrar de quem, onde ou quando, que isso era assim mesmo! Um verdadeiro argumentum ad populum, portanto…

A crendice que quero discutir aqui tem implicações importantes para a biologia evolutiva, e é uma das mais fortemente enraizadas de que tenho notícia. Praticamente todas as pessoas que conheço consideram-na verdade. Do que se trata? Da crença de que as crianças aprendem a falar ouvindo os pais. Acontece que, ao contrário do que o senso comum nos diz, a coisa não é bem assim. Primeiramente eu tentarei explicar por que essa concepção está errada, para em seguida tentar trazer à tona um ou dois pontos relevantes, para a biologia evolutiva, em relação à atual concepção científica de como os humanos aprendem uma língua (que, perceba, não é sinônimo de linguagem). Vamos lá:

Com quem mais um bebê aprenderia a falar, senão com seus pais e com os outros falantes que a cercam? Isso era tomado como certo pelos estudiosos, uma verdade cristalizada e sem ameaças por perto, até meados do século XX, quando alguma coisa começou a apodrecer no simpático reino da Dinamarca. O que se pensava até então era que a criança ouvia repetida e incessantemente os falantes ao seu redor, dia após dia, semana após semana, até ser capaz de conceber os conceitos de substantivo, verbo, objeto, conjugação, concordância, regência e assim por diante, além de formar o vocabulário específico daquela língua, familiarizar-se com seus fonemas e suas regras particulares.

O que ocorre na verdade é que a criança não aprende sintaxe, nem domina as regras da gramática, nem concebe as particularidades do sujeito, do verbo ou dos complementos apenas por ter ouvido repetidamente os falantes ao seu redor. Então ela já nasce sabendo? Sim, e aqui não se trata de uma brincadeira: a capacidade de construir uma estrutura gramatical coerente é um dos vários comportamentos inatos do ser humano, estruturalmente embutidos nessa maravilha evolutiva que é o sistema nervoso. Um instinto, se assim quiserem denominá-lo (o que deixa muita gente desconfortável, tema para um próximo artigo).

O ser humano já traz em seu aparelho mental a capacidade de organizar gramaticalmente os componentes da língua, ele não precisa aprender isso ouvindo seus pais ou seus parentes. Aliás, ele vai construir estruturas gramaticais mesmo sem nunca tê-las ouvido, seja de quem for. Jared Diamond relata diversos casos dessas criações espontâneas, que ocorreram abundantemente após as grandes navegações, quando diferentes grupos etnolinguísticos passaram a entrar em contato mais proximamente. Quando dois falantes de línguas distintas se encontram, como nos entrepostos comerciais ou nas colônias (onde escravos de diferentes etnias eram misturados), é comum que eles desenvolvam uma língua chamada pidgin, ou língua de contato, para que possam se entender. Essas línguas pidgins carecem de uma estrutura gramatical adequada (com concordâncias verbais, complementos, sujeitos, regências etc…), sendo na verdade um conjunto um tanto solto de palavras para que os interlocutores tentem se entender. Esses interlocutores, desnecessário dizer, falavam suas línguas quando entre os seus conterrâneos, línguas essas gramaticalmente estruturadas.

O que aconteceu em diversos momentos da história foi que crianças nascidas nessas áreas de contato, quando privadas da língua (gramaticalmente estruturada) de seus pais, tendo acesso apenas ao pidgin, transformavam espontaneamente esse pidgin “agramatical” numa língua repleta de estruturas de gramática, que chamamos de crioulo, sem nunca terem-na ouvido. Ou seja, as crianças criam espontaneamente uma estrutura gramatical onde ela não existe, literalmente do nada (biologicamente, do seu “órgão gramatical”, estabelecido em seu sistema nervoso). Steve Pinker cita um exemplo bastante interessante, onde crianças surdas na Nicarágua criaram, espontaneamente, uma língua de sinais gramaticalmente correta e estruturada, a partir de uma língua de sinais agramatical, ou seja, um pidgin.

Pidgins e crioulos relacionados ao português

O que a criança aprende ouvindo (ou vendo, no caso dos surdos) os mais velhos, durante seus primeiros anos de vida, é a língua em si, não a linguagem. O que eu quero dizer é que ela aprende o vocabulário daquela língua, os fonemas mais usados, as regras gramaticais particulares e específicas (uma vez que as regras gerais ela já possui), assim por diante. É óbvio que não faz sentido a criança já ter em seu sistema nervoso o vocabulário completo de uma língua. Ela não nasce sabendo a denominação da água (que é arbitrária), isso ela terá que aprender pela experiência: água em português, acqua em italiano, eau em francês, water em inglês , воды em russo e νερό em grego (moderno, se você voltar numa máquina do tempo para a época de Péricles, aconselho a pedir ύδωρ). Isso ela terá que aprender com os falantes daquela língua, pela repetição incessante. Noutras palavras, elas precisam saber que significantes estão associados a que significados.

As crianças já sabem uma “gramática geral”, elas precisam apenas de alguém falando uma determinada língua para poderem, num tempo relativamente curto, estarem falando elas mesmas. Para quem ainda não aceita isso, compare com a escrita: não há nenhuma estrutura neurológica que faça da escrita um ato espontâneo. O aprendiz tem que se submeter a um longo e cansativo processo de aprendizagem, formalmente estabelecido, com um tutor capaz de ensiná-lo adequadamente. Ninguém aprende a escrever apenas olhando o que os outros estão escrevendo. Por outro lado, você não pega uma criança de dois anos e meio, senta-a em seu colo e diz “bem, agora vamos aprender a falar”. Basta que pessoas falem perto dela e, num tempo assombrosamente curto, a criança se torna uma tagarela.

Tendo estabelecido esse ponto, nos resta um problema evolutivo a resolver. Se língua e linguagem não são a mesma coisa, e se os seres humanos têm, evolutivamente, um órgão neurológico responsável por estabelecer as estruturas gramaticais da linguagem, cabe a pergunta: por que uma tal capacidade, por que um tal “órgão” surgiu, se não havia ainda línguas para serem faladas? Como podemos explicar o surgimento de uma estrutura que, à primeira vista, só faz sentido se associada à comunicação oral? O que eu estou tentando pintar aqui é um problema de antecedentes: não é possível o surgimento da linguagem oral sem o surgimento do “órgão gramatical”, e não faz sentido o surgimento do órgão gramatical sem o surgimento de uma linguagem.

Devo já supor que nesse ponto muitos trarão à tona a questão da complexidade irredutível. Aconselho que não percam o meu tempo nem o vosso com estupidezes (o plural é esse mesmo).

O problema aqui é muito parecido com o da coloração apossemática: só faz sentido o emissor enviar a mensagem se o receptor puder compreendê-la, mas o receptor só irá compreendê-la se o emissor enviá-la. Porém, do mesmo modo que na questão da coloração apossemática, podemos supor que a evolução se deu lentamente, língua e linguagem desenvolvendo-se juntas, passo a passo. Esse é o caminho que a maioria dos biólogos e dos linguistas interessados em evolução tomam.

Eu creio, porém, que pode haver outra explicação, e aqui entra em jogo um processo de exaptação. É possível que o órgão gramatical tenha surgido com outra função evolutiva, em um outro cenário, e, só depois de ter surgido, ter sido requisitado para coordenar a língua falada. Qual poderia ter sido essa função?

É bem sabido (apesar de que aqui tenhamos, também, outra crendice…) que nós não pensamos em palavras, que o pensamento não depende da língua falada para se estruturar. Aliás, é bom enfatizarmos esse ponto, pois muitos desconhecedores de zoologia, etologia e ciências cognitivas consideram que os outros animais além dos humanos não podem pensar, por que não têm linguagem (o que, por sinal, é um triplo erro. Tente achar os três!). Infelizmente, portanto, uma gigantesca parcela não só das pessoas leigas como, principalmente, dos cientistas (direta ou indiretamente ligados às ciências humanas e da cognição) crêem que nós pensamos por palavras. Mas essa concepção não se sustenta, não sobrevivendo nem ao teste lógico nem à “observação”. Nosso pensamento não depende de palavras para se estruturar. Pensamentos podem ser transpostos para palavras e palavras podem ser transpostas para pensamentos, o que não significa contudo que os dois sejam a mesma coisa. Para quem ficou espantado com isso e não admite de forma alguma o que eu acabei de defender, procure se familiarizar com as descobertas mais recentes das ciências cognitivas e da linguística, pois houve uma série de trabalhos muito bem elaborados e interessantes nas últimas três décadas.

Apesar de nós não pensarmos em palavras, é possível que o órgão gramatical tenha surgido como uma estrutura cognitiva capaz de estabelecer certas modulações gramaticais para alguns de nossos pensamentos internos. Não que nossos pensamentos sejam palavras, volto a enfatizar. Contudo, a noção de causa e efeito, a concatenação temporal dos eventos, a atribuição de estados mentais internos a terceiros, a identificação dos sujeitos e de suas atitudes são uma série de processos de pensamento que poderiam ser estruturados num órgão gramatical, elaborador de módulos, posteriormente recrutado para a elaboração da linguagem humana. Assim, de certa forma, é possível que a capacidade modular do pensamento gramatical tenha incrementado nossa capacidade cognitiva, e a partir daí aberto o caminho para o surgimento das línguas faladas. Esses dois últimos parágrafos, é bom que eu diga, são a mais pura especulação de minha parte, como mostra o selo cuja explicação vem no post scriptum.

Post scriptum: o selo no início do post é apenas uma brincadeira com o selo da “Research Blogging”, instituição séria e que não tem relação alguma com a paródia. A única intenção aqui é deixar claro que esse post trata de uma conjectura, de uma especulação.

5 comentários sobre “Linguagem e exaptação

  1. Gerardo,

    A diferença entre língua e linguagem fica clara também quando observamos o comportamento de gêmeos. Eles, apesar de não se comunicarem com o mundo, são muito bom em se entenderem. O Pedro e o Tomé, por exemplo, só balbuciam (é normal gêmeos falarem mais tarde), mas se entendem perfeitamente, tendo uma comunicação bem complexa, inclusive.

  2. Como sempre textos com assuntos e desenvolvimento ótimos,mas nesse momento queria pedir ao Gerardo que se ele puder me mostrar onde é a fonte que diz que nós não usamos só 10 % do potencial do cérebro.Peço isso por curiosidade e por ter um professor atualmente que fala quase toda aula que nos usamos 10 %, como é sempre bom ver as fontes para entender por completo…
    Desde já obrigado.

    • Oi Oliveira,
      em primeiro lugar, o que esses 10% significariam? Raletivo à anatomia? Claramente não, pois senão poderiamos cirurgicamente remover 90% do cérebro. Relativo à fisiologia? Também claramente não, pois apesar de algumas funções estarem relacionadas a algumas áreas específicas do cérebro (visão ao lobo occiptal, fala à área de Broca e assim por diante), uma PET ou uma fRMN mostra claramente que ao longo do dia todas as áreas do encéfalo são utilizadas. Relativo à cognição? Aí a besteira seria maior ainda, pois como pode um elemento cognitivamente incapaz determinar a totalidade de sua capacidade cognitiva, para daí calcular 10%?
      Mando alguns links não pro seu professor, mas pra você ler sobre a origem dessa crendice:

      http://www.csicop.org/si/show/the_ten-percent_myth/
      http://www.scientificamerican.com/article.cfm?id=people-only-use-10-percent-of-brain
      http://www.ccmr.cornell.edu/education/ask/index.html?quid=1260

      Abraço.

    • Ah, Oliveira, só mais uma coisa, que é muito complicada pra algumas pessoas entenderem: revistas científicas (ou de divulgação científica) não podem ser usadas como fonte em relação a alguma coisa que não existe, ou seja, se fulano diz que coca-cola causa celulite e cicrano diz que não, fulano não pode dizer pra cicrano “pois me mostre uma fonte dizendo que coca-cola não causa celulite”, é fulano que tem que mostrar a fonte dizendo que coca-cola causa celulite, entendeu?

  3. Gerardo,muito obrigado pela resposta rápida,gostei da explicação e vim perguntar exatamente porque queria dizer para o meu professor que ele tinha que rever esse conceito mas como não tinha como mostrar “provas” para confrontar a idéia recorri ao texto que mostrou isso exatamente na semana em que o semestre começou.
    Mais uma vez obrigado pela prontidão na resposta.

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