Desastres naturais, falácias idem

Nesses últimos anos, a escrita do meu livro e a escrita deste blog me obrigaram a estudar algumas áreas da filosofia que, de outra forma, dificilmente eu estudaria. Principalmente por ter me obrigado a escrever sobre o famigerado “darwinismo social”, tive oportunidade de ler bastante sobre as falácias naturalistas. Antigamente, ao me deparar com uma dessas, eu sabia, de forma mais ou menos consciente, que se tratava de um raciocínio torto e capenga, mas não sabia explicar o porquê disso para meu interlocutor, nem por em palavras, de forma adequada, as minhas objeções; hoje em dia já não tenho quase mais nenhuma dificuldade em identificar uma falácia naturalista quando me deparo com uma, e nem de explicar adequadamente por que elas são falácias.

O caso mais recente de falácia naturalista tem a ver com uma situação que está ocorrendo bem perto daqui, e sobre a qual leio nos jornais praticamente todos os dias: as inundações da Austrália. Além dos terríveis acontecimentos em terra, há um desastre iminente: toda essa lama, toda essa água lotada de partículas em suspensão que está inundando o leste australiano irá, naturalmente, ser despejada no oceano. O problema é que essa quantidade gigantesca de lama e sedimentos irá causar um impacto fortíssimo na grande barreira de corais, e em uma série de outros ecossistemas marinhos.

Os sedimentos das inundações (centro da imagem, marrom claro) aproximam-se dos corais. Imagem obtida em 6 de Janeiro de 2011. Fonte: NASA Earth Observatory

A água turva das enchentes vai, primeiramente, dificultar bastante a fotossíntese. Há relatos na Austrália onde os pesquisadores dizem que, percorrendo a área de encontro das águas em seus barcos, percebe-se claramente que a água do mar, límpida, tem uma visibilidade de mais de 30 metros, enquanto a água barrenta das enchentes mal tem uma visibilidade de meio metro. Além disso, nunca é demais lembrar que a água doce é menos densa que a água do mar, e fica sobre esta. Outro problema é que essas partículas vão acabar se depositando, sufocando e soterrando os corais. Por fim, essa água das enchentes vem lotada de fertilizantes, trazidos das planícies agrícolas, e de toda sorte de pesticidas e poluentes. A morte dos corais e das algas terá um efeito terrível, afetando desde pequenos peixes e crustáceos até os dugongos, golfinhos e baleias. Numa palavra, quem estuda biologia sabe como os efeitos de um desequilíbrio ecológico podem ser vastos, variados e imprevisíveis.

E onde está a falácia naturalista em tudo isso?

Nas conversas com amigos, nos telejornais, nos jornais escritos, ouço quase sempre a mesma coisa: o iminente e sério impacto que as inundações terão sobre a grande barreira de corais, apesar de lamentável, é um “desastre natural”. Como falei antes, hoje em dia sou capaz de farejar uma falácia naturalista a quilômetros. E essa é claramente uma.

Em primeiro lugar, a imensa maioria das pessoas, e estou tentado a escrever “toda a população humana exceto alguns poucos cientistas”, não percebe que a própria causa das inundações, a imensa quantidade de água precipitada nas nascentes, está diretamente relacionada ao efeito estufa. O efeito estufa, aquecendo os oceanos, aumenta a taxa de evaporação, e a atmosfera terrestre tem um limite de saturação para água. O efeito estufa não apenas aumenta a pluviosidade, ele também altera o regime de chuvas: mais chuvas em regiões já chuvosas, e menos chuvas ainda em regiões já castigadas pela estiagem. Uma amiga minha disse recentemente à minha mulher que o efeito estufa é uma balela, pois na cidade em que ela mora nunca havia nevado em novembro, e não só nevou em novembro como os centímetros de neve foram recordes. O que ela não percebe é que isso é o efeito estufa: mais precipitação (no caso, mais neve), mais irregularidade, recordes de pluviosidade aqui e de seca acolá.

Em segundo lugar vem o mais importante, para se desmascarar essa falácia naturalista em particular. Quando se diz “ah, esse é um fenômeno natural”, se está implicitamente dizendo que esse fenômeno ou processo costuma ocorrer, e que o ecossistema afetado irá se recuperar normalmente. Não vai. O que ocorre é que os recifes de coral, como praticamente todo e qualquer ecossistema neste planeta, está seriamente fragilizado por toda sorte de intervenções humanas. Não se trata de um ecossistema “normal”, sofrendo um revés. É um ecossistema ameaçado e já profundamente alterado, sofrendo um golpe terrível. Numa comparação bem infantil, imagine uma pessoa normal recebendo uma carga de Candida: ela se recupera rapidamente, e excetuando um ou outro sapinho na língua, provavelmente sem sinal algum. Agora imagine um imunodeprimido com TB recebendo uma carga de Cândida: ela será provavelmente fatal.

Canso de ouvir dizer que incêndios florestais são fenômenos naturais. De fato, há queimadas sazonais, e diversas espécies vegetais estão bem adaptadas a esse fenômeno, sendo famosa a quebra da dormência da semente pelo fogo. Contudo, quando o jornal noticia uma reserva florestal de mata atlântica ou de cerrado sendo devastada pelo fogo , não se trata de um ecossistema do Plioceno (quando não existiam humanos) sofrendo um estresse, e sim de um ecossistema explorado, poluído, retalhado, fragmentado e sucateado sofrendo um estresse. Esse ecossistema não vai se recuperar, e esse desastre não é um desastre “natural”.

Além de evitarmos as falácias naturalistas nos discursos morais e éticos em geral, é hora de evitarmos as falácias naturalistas quando nos referimos aos ecossistemas da Terra. Não há mais um único centímetro quadrado neste planeta, por mais escondido que esteja, que já não sofra direta ou indiretamente as conseqüências da presença humana. Não há mais espaço para o discurso “isso é um desastre natural, vamos deixar pra lá”. Os incêndios têm que ser combatidos logo no início; os vazamentos de petróleo têm de ser evitados, de preferência reduzindo o consumo de petróleo (e não achando que o petróleo é a grande maravilha do futuro, como faz o governo do Brasil); o sufocamento dos corais tem que ser evitado, e se isso for tecnológica e mecanicamente impossível, dada a quantidade extraordinária de lama, outras ações podem ser imaginadas, desde proibir temporariamente a pesca até restringir o tráfego naval.

O interessante das falácias naturalistas é que elas são usadas apenas nas ocasiões em que interessam ao falante. Nós humanos temos devastado o planeta de todas as formas possíveis e imagináveis. Porém, quando é hora de interferir, dizemos “ah, esse é um fenômeno natural, a natureza vai se recuperar sozinha”. Mas não vai.

3 comentários sobre “Desastres naturais, falácias idem

  1. Perfeito Gerardo. Usam esse termo de forma tão apelativa quanto sem coerência lógica.

    Capa da revista Época de 15/01/2011

    Os dramas, as lições e a retomada da vida após o pior desastre natural da história do Brasil.”

    http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMT1147-15210,00.html

    Dentro da revista encontramos uma reportagem indicando 9 possíveis casusas da tragédia ou o que fazer para evitar que ela se repita. A primeira pergunta:

    “O que transformou uma chuva comum no verão em uma catástrofe?”

    http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI202477-15223,00-CAUSAS+DA+TRAGEDIA+E+O+QUE+FAZER+PARA+EVITAR+SUA+REPETICAO.html

    Bem, não precisamos sequer de conhecimentos elementares em física, geologia e biologia para perceber logo de cara que talvez essa catástrofe não tenha sido tão natural assim.

    Passamos da hora de começar a se mexer.

    Belo texto!

  2. Até na penúltima frase citada de muitas similares, lê-se:

    “A Natureza sozinha pode se virar.
    Não precisa da ajuda de nós, os Sobrenaturais!”

    Não percebemos que é dever de consumidores, que somos, garantir o suprimento, ao menos, de nossa própria demanda.

    Que o ser humano, de maneira geral, tenha se acostumado à idéia de ser um consumidor, até certo ponto, no harm done. Realmente, não somos autótrofos. Porém, se não extendermos esse entendimento do que é ser consumidor, seremos consumidos por nossa própria ignorância e inércia.

    Afinal, que consumidor deseja consumir a si?

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