O ENEM e o pobre Lamarck

Não, não pretendo falar sobre a confusão que orbita a mais recente edição do Enem; isso as mais diversas agências de informação podem fazer melhor. O que me interessa aqui é discorrer brevemente sobre algo que foi praticamente deixado de lado, que é o conteúdo do exame, especificamente no que diz respeito à única questão diretamente relacionada com a biologia evolutiva.

Para aqueles que não fizeram a prova ou não tiveram a oportunidade de lê-la, convém apresentarmos a questão, antes de partirmos para sua análise:

Alguns anfíbios e répteis são adaptados à vida subterrânea. Nessa situação, apresentam algumas características corporais como, por exemplo, ausência de patas, corpo anelado que facilita o deslocamento no subsolo e, em alguns casos, ausência de olhos.

Suponha que um biólogo tentasse explicar a origem das adaptações mencionadas no texto utilizando conceitos da teoria evolutiva de Lamarck. Ao adotar esse ponto de vista, ele diria que:

a) As características citadas no texto foram originadas pela seleção natural.

b) A ausência de olhos teria sido causada pela falta de uso dos mesmos, segundo a lei do uso e desuso.

c) O corpo anelado é uma característica fortemente adaptativa, mas seria transmitida apenas à primeira geração de descendentes.

d) As patas teriam sido perdidas pela falta de uso e, em seguida, essa característica foi incorporada ao patrimônio genético e então transmitidas aos descendentes (sic).

e) As características citadas no texto foram adquiridas por meio de mutações e depois, ao longo do tempo, foram selecionadas por serem mais adaptadas ao ambiente em que os organismos se encontram.

Há tantas formas interessantes de se abordar a biologia evolutiva, há tantas possibilidades para a formação de questões bem elaboradas, criativas, instigantes, que só posso lamentar que a comissão elaboradora tenha escolhido essa questão. Por quê?

Em primeiro lugar, abomino isso que eu denomino de questões mediúnicas, onde o aluno é solicitado a dizer o que se passa na mente de outra pessoa. Há inúmeras questões de vestibular em que se pergunta “como Darwin teria explicado isso”, ou “como Lamarck teria explicado aquilo”, como já discuti numa postagem anterior… Ora, como é que eu poderia saber de que maneira eles explicariam tal ou tal fenômeno? Perguntar a eles é algo impossível, uma vez que Lamarck (cujo nome era Jean-Baptiste de Monet) morreu há 181 anos e Darwin há 128 anos. O que podemos saber sobre suas ideias está em suas correspondências, seus diários, seus artigos e, o mais importante de tudo, seus livros. É sobre suas hipóteses (chamar as ideias evolutivas de Lamarck de teorias é imputá-las aceitação, coisa que muitos fazemos sem perceber, mas que nem por isso torna-se correto) que podemos elaborar perguntas e questionamentos. A questão do ENEM, neste caso, evita esse erro, pois pergunta como um certo biólogo explicaria um determinado fenômeno, usando os conceitos de Lamarck; mas, ao mesmo tempo, além de não deixar de ser uma questão mediúnica, coloca um novo filtro no processo: como esse biólogo interpretou o que leu? É bem sabido que o que ele leu e o que ele compreendeu são coisas bem diferentes. Além disso, que conceitos ele utilizou (pois as ideias evolutivas de Lamarck têm vários e diferentes conceitos)? Falarei disso no terceiro ponto de minha contestação.

Estátua de Jean-Baptiste de Monet (Chevalier de Lamarck) no Jardin des Plantes, em Paris.

Em segundo lugar, eu particularmente estou cansado desse antagonismo tolo e sobretudo inexistente entre Lamarck e Darwin. A explicação não poderia ser mais clara: todos nós percebemos, e ninguém irá contestar, que o elaborador da questão queria que o aluno associasse Lamarck à ideia do uso e do desuso das partes e da transmissão das características adquiridas à descendência. Acontece que esses conceitos, além de não terem sido criados por Lamarck, são conceitos aceitos e afirmados pelo próprio Darwin! É hora das pessoas lerem sobre as obras que comentam: ao que parece, poucos leram On the origin of species (e, certamente, menos ainda leram Philosophie zoologique), em que Darwin fala de transmissão de caracteres adquiridos em pelo menos 12 vezes. Assim, caso o comando da questão nos tivesse dito que o biólogo utilizou os conceitos evolutivos de Darwin, estariam corretas as opções A, B e D. Mas, sendo nos afirmado que o biólogo utilizou os conceitos de Lamarck, estariam corretas as opções B e D. Por que essas duas opções?

Por causa da minha terceira observação, que segue. Os alunos são tão massacrantemente levados a decorar certos conceitos que geralmente nem param para analisar com calma e critério as certezas que asseveram. Em praticamente todas as salas de aula em que eu afirmei que a opção D estava correta os alunos imediatamente contestaram, dizendo que “a genética não era conhecida na época de Lamarck”. Vamos tentar entender isso direito: será mesmo que na época de Lamarck, em que já eram conhecidos os gametas e o fenômeno de fecundação, os cientistas não compreendiam ou percebiam que algum material presente nessas estruturas deveria comandar o desenrolar ontogenético do futuro embrião? É claro que sim. Antes de Lamarck, desde o século XVIII, as mais diversas doutrinas tentavam explicar as regras da genética e da hereditariedade, assunto de especulações desde a antiguidade clássica. O que não era sabido à época de Lamarck era a genética mendeliana, com seus loci e alelos. Mas a existência de um patrimônio genético, ou seja, um patrimônio que é passado à descendência, é algo já óbvio para os naturalistas do fim do século XVIII e início do século XIX, sendo denominado pelos mais diversos termos, como por exemplo germe. E, segundo Lamarck, esse germe poderia ser modificado quando características individuais eram a ele incorporadas (o que Mayr chama de “material genético soft”). Eis uma passagem do Philosophie Zoologique bastante clara quanto a isso:

De plus, si la nature n’avoit pu donner aux actes de l’organisation la faculté de compliquer de plus en plus l’organisation elle même, en faisant accroître l’énergie du mouvement des fluides, et par conséquent celle du mouvement organique; et si elle n’avoit pas conservé par les reproductions tous les progrès de composition dans l’organisation, et tous les perfectionnemens acquis, elle n’eût assurément jamais produit cette multitude infiniment variée d’animaux et de végétaux, si differens les uns des autres par l’état de leur organisation et par leurs facultes (…) On verra que chaque progrès acquis dans la composition de l’organisation et dans les facilités qui en ont été les suites, a été conservé et transmis à d’autres individus par la voie de la reproduction, et que par cette marche, soutenue pendant une multitude de siècles, la nature est parvenue à former successivement tous les corps vivans qui existent.

Em quarto lugar, devo mais uma vez enfatizar: não convém falar sobre o que não se leu, ou sobre o que se sabe apenas através de resenhas ou resumos de terceiros. Há uma legião de “leitores de orelha”, que poderiam empregar seu tempo em ler de fato os livros que comentam. Eu mesmo, devo confessar, apesar de já ter lido e relido On the origin of species, só li alguns trechos do Philosophie Zoologique, e por isso não me sinto seguro para falar sobre essa obra; mas, não obstante, sei que a conceitualização evolutiva de Lamarck vai muito além do uso e desuso das partes seguido da transmissão dos caracteres adquiridos (conceitos que ele não criou): é uma nauseante mistura de abiogênese com tendência inata à perfeição, dentro de uma concepção de scala naturae totalmente inaceitável atualmente.

Por último, uma palavra de advertência, e a justificativa para o adjetivo “pobre” no título desta presente nota. É muito cômodo atribuirmos estupidez a pessoas que, tendo vivido antes de nós, não chegaram a conhecer o que nós conhecemos. A maioria dos professores trata Bonnet como um completo idiota, por ter defendido o preformacionismo (ou preformismo), ou do mesmo modo Needham, por ter defendido a abiogênese. Já tendo lido a prosa elaborada de Bonnet, desconfio que ele deva ter sido mais inteligente que muitas das pessoas que conheço. Não estou defendendo o preformismo, o que estou defendendo é o respeito à intelectualidade e a racionalidade de cientistas do passado, mesmo que esses tenham defendido correntes que o tempo mostrou completamente erradas ou absurdas. É fácil falar “Lamarck estava errado e Darwin estava certo”, ou “Ptolomeu estava errado e Copérnico estava certo”, ou “Needham estava errado e Pasteur estava certo”. O problema é que isso facilmente vira um “Lamarck é um imbecil e Darwin um cara inteligente”, “Ptolomeu é um imbecil e Copérnico um cara inteligente”, “Needham é um imbecil e Pasteur um cara inteligente”. E isso nós devemos evitar.

Enfim, com tantas coisas importantes e interessantes para se discutir a respeito da biologia evolutiva, creio que não deveria mais haver espaço para essas abordagens históricas mistificantes.

10 comentários sobre “O ENEM e o pobre Lamarck

  1. Absurdos, absurdos, absurdos…

    Nada mais scala naturae que a seguinte questão de vestibular a qual você nos apresentou:

    Questão:
    Na filogenia, a ordem correta de aparecimento das apomorfias relacionadas a estruturas locomotoras é:
    a) pata nos tetrápodes, pés humanos, pseudópodes e parapódios.
    b) pseudópodes, parapódios, patas nos tetrápodes e pés humanos.
    c) parapódios, patas nos tetrápodes, pseudópodes e pés humanos.
    d) pés humanos, patas nos tetrápodes. parapódios e pseudópodes.

    Resposta: B
    Comentário: Apomorfia é o termo usado para definir uma característica mais recente derivada de uma característica primitiva de uma espécie ancestral. Nesse caso, pés humanos são apomórficos em relação às patas nos tetrápodes, que são apomórticas em relação aos parapódios (apêndices laterais dos anelídeos), que por sua vez são apomórficas em relação aos pseudópodes (projeções citoplasmaticas dos protozoários rizópodes).

    Essa também doeu muito!
    What ever happen to humanity?

  2. Pingback: Tweets that mention O ENEM e o pobre Lamarck « Biologia Evolutiva -- Topsy.com

  3. Eu fiz a prova do Enem, apesar de possuir pouco conhecimento sobre o assunto,havia estudado a teoria de Lamarck, li essa questão apenas uma vez, pois pra mim estava evidente que seria a letra D (apesar de a B não estar errada, só estava,ao meu ver, certa por incompleto.),pois como você bem explicou,nos estudos de Lamarck não havia nenhuma referência à PALAVRA ‘material genético’, mas afirmava que essas características adquiridas pelo uso e desuso de órgãos eram TRANSMITIDAS AOS DESCENDENTES,ou seja.. de alguma forma foi transmitida, ele só não possuía o termo correto para isso. Ao conferir no gabarito oficial a resposta, fiquei indignada! É ridículo o modo como foi elaborada essa prova, tanto que tiveram outras questões como a do ciclo do carbono e nitrogênio dentre outras, com respostas duplas, até triplas!Sem comentar outros erros ABSURDOS de elaboração e execução..Lamentável… Obrigada pelas suas explicações, me deu um certo alívio por ter pensado dessa maneira, (apesar de na concepção dos examinadores do enem eu estar completamente errada…)

    • Oi Luisa,
      mais uma vez o aluno com um pouco mais de percepção e entendimento é levado a marcar a opção “incorreta”, enquanto o aluno regular marca o item oficialmente correto.
      Isso acontece. Não desanime, e boa sorte.

  4. A questão do ENEM leva à uma análise do texto que é apresentado. Ler vai além do fato de decodificar as palavras.
    O texto da questão mostra que “em alguns casos, os répteis não têm olhos”.
    A opção B estaria errada? Não. Ela diz claramente que a ausência de olhos teria sido causada pelo desuso dos memos (Lei do uso e desuso).
    O equívoco da opção D, o que a torna incorreta, está na palavra “perdida”. As patas não foram perdidas e sim modificadas (atrofia das características em desuso). Perdida não palavra para uso científico em se tratando de evolução.
    Quanto à Lamarck, pobre ele é por ser “coitado”. A sua ideia de evolução abriu caminhos para a biologia evolutiva e hoje ele é considerado infeliz nas suas ideias.
    Entretanto, se olharmos para o neodarwinismo e o lamarckismo, as duas teorias formam um conjunto de ideias semelhantes. Enquanto a última descreve de forma limitada as transmissões das características, a segunda apenas complementa com o uso de palavras como “mutação”, “permutação”, “seleção natural”, entre outras.

    • Meu caro,
      Perda é um termo amplamente usado em biologia evolutiva. Em segundo lugar, o enunciado fala claramente de “ausência de patas”, e a ausência é o resultado de uma perda. Além disso, você acha mesmo que um jogo de palavras (inexistente) é um critério válido não só para tornar falsa a opção como para nortear um processo avaliativo importante como esse?
      Em relação ao seu último parágrafo, a única semelhança entre o Lamarckismo e o Neodarwinismo é o fato de serem concepções sobre o processo evolutivo. Dizer que o Neodarwinismo apenas complementa o Lamarckismo é um equívoco histórico e epistemológico.
      Abraço.

  5. Sinceramente não concordo. Não considero que Lamarck tenha errado na sua teoria. O problema dele é que sua época é distante e trata das primeiras hipóteses de evolução propriamente dita. Não digo que sua ideia vale como explicação para a evolução, apenas que se trata de uma teoria indevidamente esnobada. A epigenética traz à tona justamente a ideia de que uma característica adotada por um ser pode ser transmitida ao descendente. Um exemplo é o “jeito de caminhar ou de falar igual de um pai”. E quando digo que Lamarck e a teoria sintética da evolução se assemelham, é porque vejo nesta as ideias do lamarckismo, não que uma complemente a outra.
    Em relação à questão do ENEM, devo concordar que o jogo de palavras muitas vezes é indevidamente cobrado pelas bancas examinadoras, a fim de levar o aluno ao erro. Mas são as “competências exigidas pelo ENEM”. Outro erro da questão: a necessidade de olhos e patas as fariam surgir, e não o desuso das mesmas, conforme o grau de complexidade dos seres vivos.

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