Étimos biológicos redux

Esta é a continuação de uma nota anterior, onde eu tratei da etimologia de alguns termos usados em biologia. De lá para cá alguns outros termos interessantes, cujos comentários acerca de suas etimologias valem a pena, me vieram à memória, daí a necessidade deste novo e breve artigo.

Quero começar pelo título: redux é um adjetivo latino, que significa “retornado”, ou “que retorna”. Muita gente imagina que redux tenha algo a ver com “reduzido”, e não foram poucos os que acharam que Apocalypse Now Redux era uma versão de menor duração do clássico de Francis Ford Copolla. Enganaram-se redondamente, certo? Errado! Na verdade, redux vem diretamente do verbo reduco (infinitivo reducere[1]), que é uma construção feita a partir do verbo duco (infinitivo ducere), verbo esse que significa levar, guiar, marchar à frente, puxar. A partir do verbo ducere uma quantidade enorme de verbos foi construída, adicionando-se prefixos: conduzir, introduzir, abduzir, traduzir, induzir, produzir (e tantos outros que me escapam agora), além é claro do nosso verbo reduzir. Desta forma, percebe-se facilmente que reduco em latim significa conduzir de volta, retornar, reestabelecer. Daí o redux do título. O uso de reduco para significar “diminuir o tamanho” ou “limitar” é posterior, e pode-se ver de onde vem: “retornar ao início”, “conduzir ao início”. Assim, reduzir e retornar eram, em seu uso original, praticamente sinônimos.

Passemos então às palavras:

  • Idiota: do grego ἴδιος. Esse termo é usado em diversas outras áreas além da medicina, como na linguística por exemplo. ἴδιος é um adjetivo e significa próprio, particular, que pertence a alguém. Daí vem ἰδίωμα, propriedade particular, ou o advérbio ἰδίως, particularmente. Mas como isso se relaciona com o significado atual do termo? ἰδιώτης é o homem privado, em oposição ao homem público, ao político, ao homem de estado. Acontece que na Grécia, sobretudo na Grécia ática do período clássico, não se importar com a cidade (pois “política” são as coisas da cidade, πόλις) era uma falha de caráter grave. Daí ἰδιώτης significar também “simples” e, com o tempo, “ignorante”, “tolo”, “abobalhado”, ou, simplesmente, idiota.
  • Patologia: do grego πάθος. Ao contrário do que poderia parecer à primeira vista, πάθος não significa exatamente doença; em grego, isso seria νόσος (nosos, que nos dá nosocômio, hospital). Πάθος é uma impressão, uma sensação, uma experiência, aquilo que incide sobre, o que acontece em, um sofrimento. Pateta (παθητός) é aquele que sofreu, enquanto patético (παθήτικος) é o sujeito capaz de sentir, de ter sensações, de sofrer. Bem diferente do significado que os iletrados modernos atribuem à palavra. No sentido ruim, πάθος é o sofrimento, a calamidade, daí o significado médico de “patologia”. Vale a pena falar do verbo πάσχω (provavelmente de origem semita, do hebreu pesakh), “ser afetado por um sentimento”, “sofrer”, que nos deu a palavra páscoa.
  • Aluno: do latim alumnus. Incluí esse termo nesta lista pelo fato de sua etimologia ser constantemente tratada de forma errada, sobretudo nos colégios e nos cursos de pedagogia. Costuma-se dizer que aluno significa “sem luz”. Duas palavras de advertência: em latim não há a- de negação (comum no grego), e sim in- (como em inútil, independente, irracional etc.). Além disso, lumem (luz) faz genitivo em luminis, e nada tem a ver com o tema de alumnus (e diga-se de passagem: que mal faz consultar um bom dicionário, como o Houaiss, antes de sair por aí divulgando etimologias incorretas?). Não há relação alguma entre aluno e “ausência de luz”. Portanto, o que é “aluno”? Em latim, alumnus é uma criança de peito, um lactente ou, por derivação, uma criança mais jovem ou, ainda, aquele que é nutrido. O verbo “alo”, alimentar, nutrir, vem de uma raiz do proto-indo-europeu que originou, por exemplo, o grego αὐξάνω, nutrir, fazer crescer, do qual por sinal vem o nome do hormônio vegetal auxina.

    Um "aluno", no sentido original da palavra (fonte: Science Photo Library).

  • Híbrido: do grego ὕβριδης, pelo latim hybrida ou hibrida. Esse é um termo cuja etimologia é bastante polêmica, e eu corro o risco aqui de cometer um erro, pois ficarei a favor de um dos lados na polêmica entre os etimologistas. Quais são? Boa parte dos linguistas e interessados por etimologia pensa que a aproximação entre híbrido e ὕβρις (hýbris) é apenas aparente, uma semelhança fonética, e que se trataria de mais um caso de falsa etimologia ou etimologia popular (como cadáver, religião, sincero, enfezado e tantos outros termos[2]). Por outro lado, alguns linguistas creem que híbrido vem de fato de ὕβρις, e eu aqui adotarei essa opinião. Ὕβρις é uma desmedida, um ultraje, um ir-além-dos-limites. Para quem já estudou mitologia grega ou história da Grécia antiga está claro que traduzir ὕβρις por “pecado” é algo não só inadequado como tolo, pois a hýbris grega é um fenômeno muito mais complexo. Para os gregos, a ὕβρις é uma desmedida porque o indivíduo, cheio de arrogância, ganância ou soberba, não sabe reconhecer seus limites. Agamêmnon comete uma hýbris ao não dar para Aquiles seus despojos de guerra; Aquiles comete uma hýbris ao maltratar o corpo do falecido Heitor e não querer entregá-lo a seu pai, Príamo, para que ele o enterre. Os sócios de Odisseu cometem uma hýbris ao matarem os gados sagrados de Hélio. Édipo cometeu duas; Alcibíades cometeu sabe-se lá quantas hýbris, e por aí vai. No significado biológico, ὕβριδης é o fruto de uma hýbris (com o sufixo de patronímico grego δη), ou seja, “o filho de uma desmedida”, pois o cruzamento entre seres que não “deveriam” cruzar é um afronta, um ultraje. Em latim, “hibrida” é usado tanto para designar o resultado do cruzamento de espécies diferentes, como a égua com o jumento, como também o filho de um romano com uma estrangeira, ou de um homem livre com uma escrava.

Por ora é só, outros termos interessantes poderão ficar para um artigo posterior. Se você quiser saber a etimologia de algum termo biológico de origem grega ou latina fique à vontade para escrever nos comentários, pois caso eu saiba ficarei feliz em ajudar.


 

[1] Em latim, os verbos são denominados pela primeira pessoa do indicativo ativo (como por exemplo “amo”), ao contrário do português, em que os verbos são denominados no infinitivo (como por exemplo “amare”).

[2] Para quem se interessou, aqui vão as etimologias corretas:

Cadáver: do latim “cadere”, cair (e não “carne dada aos vermes”).

Religião: do latim “relegere”, recolher; religião é um escrúpulo que impede algo, uma vergonha que intimida (a relação entre religião e “religar” é incorreta e atribuída a Tertuliano e Lactâncio).

Sincero: do latim “sincerus”, que cresce para frente, alongado, que cresce sem acidentes.

Enfezado: do latim “infenso”, ser hostil (e não “cheio de fezes”).

4 comentários sobre “Étimos biológicos redux

  1. A Etimologia das palavras é algo sempre bom de se aprender.
    Pena que muitos dos professores do ensino fundamental ou médio não se preocupam em ensinar de forma mais significativa, além daquelas palavras já muito conhecidas.

    Abraço.

    PS: Gerardo, valeu pelo toque sobre o “Research Blogging”. Já estou usando!

  2. Pingback: Biologia é zoologia, que é física, que é matemática « Biologia Evolutiva

  3. Olá! Muito interessante seu estudo de etimologia nas ciencias biológicas. Estou me graduando em licenciatura em biologia e quero muito estudar latim.
    Pretendo abordar esse tema de etimologia de palavras na biologia na minha monografia. Quero desenvolver um método de pesquisa e ensino disso para ajudar a aprendizagem de alunos do ensino médio. Como voce me orientaria??
    Agradeço a atenção!

    • Oi, Monalisa,
      Esse é um assunto muito interessante e com muita coisa a ser feita, mas antes que eu possa te ajudar eu queria te perguntar: o quê exatamente você tem em mente? Um método de pesquisa da etimologia, ou um método de ensino da etimologia? Tem como você detalhar um pouco mais? Abraço,

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