Os negros nativos da América: tempo suficiente?

Eu havia discutido, numa postagem anterior, a relação (ou a possível falta desta) entre seleção e a cor da pele em seres humanos. Naquela ocasião eu havia argumentado que há bons indícios, ou pelo menos indícios que devem ser adequadamente explicados, que nos levam a crer que a seleção não é o único fator a determinar a cor da pele em humanos, e que essa característica pode em boa medida ser determinada também por deriva genética associada a uma estampagem sexual.

De maneira bastante resumida, o que temos aqui é o que segue: pensa-se haver uma correlação positiva entre a incidência de radiação UV e a cor escura da pele em humanos, de tal maneira que populações próximas ao equador, submetidas a uma grande incidência de radiação, têm uma pele mais escura, ao passo que as populações das latitudes mais elevadas, tanto ao norte quanto ao sul, têm uma pele mais clara. Há diferentes explicações biológicas para as diferenças no ajustamento (fitness) que poderiam ser responsáveis pela correlação, e detalhá-las não é o meu intuito aqui; basta-nos, por ora, dizer que o pensamento biológico ortodoxo sobre a questão é que as diferenças nas cores de pele em humanos são devidas à seleção, seleção esta que favoreceria os indivíduos de pele escura num ambiente de grande incidência UV. Contudo, há dois problemas para o estabelecimento de uma correlação perfeita entre latitude e cor da pele: a presença de populações de pele negra no sul da Austrália, já bem próximo à Antártica, e o assunto principal desta presente e breve nota, a ausência de paleoamericanos negros nos trópicos.

Mapa da distribuição da cor da pele em seres humanos. Perceba a ocorrência de australianos de pele escura, bem como a falta de americanos de pele escura na região equatorial (Fonte: Wikimedia Commons)

Há boa dose de certeza de que os primeiros humanos a chegar às Américas foram asiáticos, de pele clara, há aproximadamente 12.000 anos. Eles atravessaram o estreito de Bering ou, alternativa que não anula a primeira, navegaram do sul da Sibéria à costa oeste do Alasca, por cabotagem. Qualquer que tenha sido a rota o que se sabe é que, por incrível que pareça, em menos de mil anos os humanos, migrando para o sul, atravessaram o equador e chegaram aos confins da América do sul, na Patagônia; No caminho, fizeram o favor de exterminar leões, camelos, elefantes, cavalos, preguiças gigantes, tatus gigantes e tantas outras espécies (os cavalos que os índios montam nos filmes de “velho oeste”, por exemplo, foram reintroduzidos pelos europeus). Desta maneira, sabe-se que há pelo menos 11.300 anos existem seres humanos na região tropical das Américas, onde a incidência de radiação UV não deixa em nada a desejar quando comparada àquela da África equatorial. Mesmo assim os peleoamericanos, ou paleoíndios, nunca desenvolveram uma cor de pele que sequer se aproximasse da dos negros Africanos. Em minha postagem anterior eu havia reproduzido a opinião de Jared Diamond em “The third chimpanzee”, onde ele afirma que, caso a seleção fosse a única (ou a principal) responsável pela determinação da cor da pele em seres humanos, 10.000 anos (ou até mais do que isso) seria tempo o suficiente para o surgimento de paleoamericanos negros. Esse, por sinal, é o principal argumento que ele usa contra a ideia de que a seleção é o principal fator condicionador da cor da pele.

Esse é o ponto que eu gostaria de focar. Seriam 10 mil anos tempo o suficiente?

Antes de continuarmos é bom esclarecermos algo, para aqueles pouco familiarizados com o método científico: se a resposta for sim, isto é, se 10 mil anos forem tempo o suficiente para o surgimento de negros entre os paleomericanos, teríamos aqui um forte argumento a favor das ideias de Diamond, que diz que a seleção não é o fator principal na determinação da cor da pele. Contudo, se a resposta for não, isto não quer dizer que Diamond esteja nem errado nem certo: neste cenário, a seleção tanto pode ser o fator principal (e os negros americanos não surgiram porque não houve tempo o suficiente) como não ser (e os negros não surgiriam, mesmo em um intervalo de tempo maior), e pesquisas adicionais teriam de ser feitas para responder o problema.

Para considerarmos a questão, vamos supor que a cor da pele em humanos é prioritariamente determinada por forças seletivas (Quero deixar bem claro que essa não é a minha opinião, pois eu penso que a cor da pele depende não só de processos seletivos mas também de deriva genética e de estampagem sexual — ou seja, eu concordo com Diamond). Tendo isso sido aceito, passaremos para a análise: foi tempo o suficiente?

A cor da pele em seres humanos é uma característica complexa, tanto do ponto de vista genético quanto do bioquímico.  De maneira clássica, a cor da pele em humanos era considerada um caso de herança quantitativa, onde diferentes genes, cada um com seus alelos, estão envolvidos. Apesar de a opinião ortodoxa estar entre dois ou três genes segregando-se independentemente, alguns geneticistas chegaram a supor que mais de 30 genes (60 alelos) deveriam estar operando conjuntamente para determinar a cor da pele! Atualmente, contudo, as análises levam a crer que bem menos genes estão envolvidos, e que o principal é um só: o gene MC1R.

O receptor de melanocortina. Os pontos vermelhos e azuis representam a membrana plasmática.

Mais um outro esclarecimento, antes de continuarmos: o leitor deste blog que for familiarizado com a genética moderna poderá argumentar que o gene MC1R determina apenas a razão entre eumelanina e feomelanina, e não a concentração de melanina na pele, que dependeria de outros genes, como o TYR, P, MATP ou SLC24A5. Mesmo que esse seja o caso, o argumento que usarei mais abaixo para o MC1R aplicar-se-ia também a esses outros genes.

O gene MC1R codifica uma proteína transmembranar, chamada receptor de melanocortina tipo 1. É um receptor serpentina, ou seja, um receptor acoplado à proteína G, que quando estimulado por um ligante externo determina uma cascata de eventos que leva à produção de eumelanina. O que nos interessa aqui é que esse gene é essencial para a produção de uma pele escura.

Entre os africanos há baixa variação nucleotídica nesse gene, quando analisamos as regiões codificantes (entre as regiões não codificantes a variação nucleotídica é maior que entre os europeus, pelo fato desses últimos serem mais recentes filogeneticamente falando). Em outras palavras, ambas as cópias alélicas são funcionais e muito semelhantes, levando à produção de uma pele bastante melânica.

O que provavelmente ocorreu quando os humanos dirigiram-se para latitudes mais elevadas foi não uma seleção (seleção positiva, como dizem alguns) para alelos recessivos e disfuncionais do gene MC1R: os dados levam a crer que, ao contrário, houve simplesmente um “relaxamento” da pressão seletiva contra os alelos recessivos, que ocorria em regiões mais ensolaradas. Em regiões com menor incidência UV, em que uma pele mais clara é bem vinda, as mutações recessivas e não funcionais do gene MC1R começaram a se acumular, simplesmente por que não havia mais a seleção em favor dos alelos selvagens, dominantes. Isso explica porque o polimorfismo do gene MC1R é tão grande entre os europeus e os asiáticos (em menor grau entre esses últimos) quando se analisa os alelos recessivos, não funcionais.

Assim, os primeiros paleoamericanos, de pele clara, tinham alelos não funcionais (mutações loss-of-function) do gene MC1R. Se esse for o caso, 10 mil anos poderia não ser tempo suficiente para o surgimento de negros nas Américas. Por quê?

Quando pensamos na seleção alterando o reservatório gênico em uma população, pensamos na mudança das frequências de dois alelos já existentes naquela população. Vou tentar me fazer mais claro. Imagine dois alelos, A1 e A2, sendo que A1 determina uma pele escura, enquanto A2 determina uma pele clara. Convém lembrar que a definição de qual é o alelo dominante ou mesmo se nenhum dos dois é dominante é certamente importante, mas mesmo que suponhamos que A1 é recessivo (cenário em que o aumento de sua frequência seria mais lento), algo em torno de 500 gerações bastariam para levá-lo de raro a fixado. Eu imagino que Jared deva ter imaginado que, nesse cenário, 10 mil anos seriam tempo o suficiente para elevar a frequência do alelo A1, de modo que encontraríamos americanos com pele escura ou, pelo menos, mais escura que a típica pele dos ameríndios tropicais. Se o cenário fosse esse, Jared estaria correto.

Mas há outro cenário possível. Se os invasores originais não traziam alelos dominantes do gene MC1R, não é mais uma questão da seleção aumentar a frequência deste ou daquele alelo, e sim, em primeiro lugar, do alelo existir: para quem não percebeu, é muito simples uma mutação loss-of-function danificar um alelo funcional e produzir um alelo recessivo; por outro lado, uma mutação transformar um alelo recessivo num alelo perfeitamente funcional, dominante, é algo imensamente mais raro! Mesmo que a seleção estivesse sedenta por favorecer aquele alelo, ele deveria primeiramente surgir! E todos sabemos que as mutações não são súditas da necessidade…

Mutações deste tipo, contudo, já ocorreram antes: o ancestral dos primeiros homens africanos de pele negra foram hominídeos com cobertura de pelos espessa, mas cuja pele era branca. A diferença, aqui, é o tempo: o processo de perda dos pelos associado ao escurecimento da pele (que se deu entre 2 milhões e 1,5 milhões de anos atrás) deve ter levado muito mais que 10 mil anos.

A conclusão que me parece adequada, portanto, é que 10 mil anos pode muito bem não ser tempo o suficiente para o surgimento de negros entre os paleoamericanos. A lição que fica, e neste ponto eu estou me referindo a mim, é ser sempre crítico e analítico quanto às opiniões que lemos, mesmo que sejam escritas por divulgadores que admiramos e dos quais gostamos.

12 comentários sobre “Os negros nativos da América: tempo suficiente?

  1. Parabéns pelo blog, explicou de maneira simples o assunto em que eu estava com duvida. Então, uma pergunta: pessoas que vivem próximo ao equador tendem a ter a pele escurecida, pelo efeito do ambiente alterando o fenótipo. Mas essa não é uma caracterisitica hereditária, certo? Seria necessário “aparecer” um alelo (pela deriva genética) do gene MC1R, e aí sim, atuaria o processo de seleção. Entendi certo?
    sou apenas uma curiosa do assunto, e discutimos muito estas e outras questões em família. Obrigada por ajudar.

    • Oi Carla,
      pessoas submetidas a uma maior taxa de radiação UV têm uma maior concentração de melanina e uma distribuição diferente dos melanossomos. Na verdade, essa característica, apesar de não ser genética, é hereditária, pois pais no equador têm filhos que vivem no equador! Perceba que hereditário e genético são conceitos diferentes, apesar de normalmente as pessoas os usarem como sinônimos.
      A questão é que essa norma de reação tem limites (ou seja, para um dado genótipo, há um limite de concentração de melanina que ele pode alcançar), e uma vez que não há diferenças genéticas envolvidas na determinação de uma pele mais escura, não haverá seleção, e a geração seguinte será semelhante à geração anterior quanto a esses genes. portanto, você está certa, não há seleçào ocorrendo aqui.
      Abraço.

  2. Obrigada pela resposta.
    Vi também seu artigo sobre a diferença entre hereditário e genético.
    Então, certos comportamentos de animais são hereditários sem, necessariamente, serem genéticos.
    Como o caso daquele peixe que fica sempre perto de outro maior (que não é seu predador, lógico) com o objetivo de se alimentar dos restos deixados por ele nas refeições. É um comportamento hereditário, certo?
    E, nesse contexto, onde se situam os instintos atávicos? Ou seja, aquele comportamento instintivo, que não tem influência do ambiente: dos pais ou do grupo (diretamente)? Por exemplo, o ato do cachorro de marcar território com sua urina. Seria genético?

    • Na verdade, ambos os comportamentos que você citou têm um forte componente genético, ou, como se diz em etologia, são geneticamente modulados. O que há, e isso é o mais interessante, é que um comportamento geneticamente modulado pode ser alterado pelo aprendizado, seja esse hereditário (o que chamamos cultural) ou não. No seu exemplo, a marcação de território de um cão é um comportamento genético, mas através do aprendizado o cão aprende onde fazê-lo, quando fazê-lo, se é conveniente ou não em relação à sua posição social no grupo, etc…
      É muito complicado achar um módulo comportamental que seja puramente genético ou puramente aprendio. Na verdade, esse é um conceito comum para o público leigo, pois dificilmente um etólogo espera encontrar um comportamento cuja variação populacional não envolva componentes genéticos e ambientais simultaneamente.

  3. Creio que um exemplo do embate “genético versus cultural” seria quanto aos nosso próprios filhos: a educação que lhes damos é a mesma, no entanto, suas personalidades (componente genético?) moldam reações e resultados bem diferentes. Também existe a interferência do ambiente e seus múltiplos fatores, incontroláveis, agindo sobre o indivíduo (ou população).
    É por isso que a evolução é tão aleatória, não é? Ela não apresenta uma racionalidade, uma lógica sequencial, minimamente linear…e então, agora sim, ela faz todo sentido pra mim!
    A dúvida que tínhamos era essa, quando entramos no seu blog: se a evolução é tão lógica assim, porque é que certas estratégias de sobrevivência bem sucedidas, surgidas em um certo grupo (espécie), não se propagam em todos os outros grupos?
    É porque é tudo um jogo de dados, não é mesmo?

    • Oi Carla,
      que bom que as coisas estão ficando claras pra você. De fato, a extrema complexidade do processo evolutivo e a falta de teleologia (mais ou menos o que você chamou de lógica) deixam muitas pessoas desconfortáveis.
      Eu gostaria de fazer apenas uma pequena ressalva em relação ao seu primeiro parágrafo: irmãos, criados juntos, não recebem a mesma educação! cada criança é tratada de forma diferente, passa por experiências diferentes, recebe informações diferentes e particulares, e as influências ambientais são diferentes pra cada uma. Do ponto de vista biológico, as diferenças de personalidade de irmãos criados juntos se deve a diferenças ambientais também! Quando, por exemplo, você fala mal do seu marido para o seu filho, você pode pensar que está falando do seu marido, mas o seu marido é uma pessoa e o pai do seu filho é outra! Por exemplo, numa sala com você, seu marido e seu filho, temos 9 pessoas:
      – você na sua visão
      – seu filho na sua visão
      – seu marido na sua visão
      – seu marido na visão do seu marido
      – seu filho na visão do seu marido
      – você na visão do seu marido
      – seu filho na visão do seu filho
      – você na visão do seu filho
      – seu marido na visão do seu filho
      Portanto, nada de pensar que as crianças têm as mesmas influências ambientais apenas porque estão na mesma casa e compartilham os mesmos pais…
      Abraço.

  4. Gerardo…acredito que quando vc fala mal de alguém, está antes de tudo, falando mal de si mesmo….rs

    Mas, vc por acaso sabe quem foi que disse:
    “medimos nossa maturidade pela capacidade que temos de lidar com a total incerteza”.

    É dificil aceitarmos que não temos controle de nada e assim mesmo, continuar planejando nossas vidas, colocando o máximo de nós mesmos em cada projeto, mas sem esquecer que o destino também fará sua parte….que poderá ser decisiva.

    Uma vez li (acho que foi no “o andar do bebado” de Leonard Mlodinow) que não existe, realmente, um evento aleatório. Jogar um dado, por exemplo; seu resultado é imprevisível porque não temos como medir/controlar cada variável: a força de cada dedo no dado, a velocidade do ar, temperatura, etc. Tivéssemos essas informações, saberíamos dizer qual face iríamos ver.

    Ainda que exista o jogo de dados, a meu ver, é Deus quem os joga. E isso faz toda a diferença.
    (sei que saí um pouco do contexto, mas foi inevitável, desculpe).

    • Muito bom esse livro do Mlodinow, eu já o li.
      O que ele explica nessa passagem é que se todas as variáveis fossem conhecidas, os resultados físicos poderiam ser previstos. Isso é o que se chama de Caos Determinístico, ou, simplesmente, teoria do caos. Há um livro muito bom, em português, caso você queira ler sobre isso, chamado “Dos ritmos ao caos”. Por sinal, a teoria do caos determinístico é uma das áreas das ciências/matemática mais deturpada e distorcida entre o público leigo…

  5. Gostei do post, me deu curiosidade de me aprofundar numa série de tópicos mencionados, mas durante toda a leitura me martelou um fator que me parece óbvio e não foi mencionado: nos últimos 10.000 a África tem sido um mosaico de desertos, savanas e matas fechadas e a Austrália tem sido um grande deserto cercado por um tênue anel verde. Os trópicos americanos são muito mais predominantemente florestais, isso definiria pressões seletivas bem distintas (em função do maior sombreamento) e do ponto de vista meramente ecológico/ambiental já seria um indício de adaptações divergentes não apenas no tempo, mas até na direção, não?

    • Oi, Daniel, interessante seu raciocínio, mas o problema é que os trópicos americanos são um mosaico assim como a África: há também desertos, savanas e matas fechadas, exatamente como você se referiu à Africa.
      Abraço,

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