Riqueza filética relativa: uma proposta

Temos o hábito por vezes desagradável de querer comparar os mais diversos grupos e fenômenos na tentativa de estabelecer uma lista de posições, um ranking. Na minha opinião, esse hábito atinge o paroxismo da tolice entre os norte-americanos, com seu costume de estabelecer ranking para tudo: quais os dez melhores livros, quais os vinte melhores vinhos, quais os cinco melhores atletas olímpicos etc… Há coisas que são claramente subjetivas, e cujo posicionamento num ranking é, portanto, sem valor. Mesmo que a coisa não seja subjetiva, e geralmente é, o estabelecimento de um ranking é uma obrigação desnecessária. Por exemplo, costumam me perguntar “qual o melhor filme que você já viu?”. Mas eu não tenho que escolher um: por que razão eu sou obrigado a determinar o melhor, o único, o campeão isolado? Já vi tantos filmes excelentes, como Laranja mecânica, Apocalypse now, Cidadão Kane, Ran, Metropolis, Blade runner, O poderoso chefão, Cinema paradiso e tantos outros… por que eu teria que escolher um, ou ainda: por que eu teria que pô-los numa lista? O mesmo vale para livros: não me sinto obrigado entre Poe, Borges, Miller, Kafka, Dostoievski, Ramos, Aristófanes, Bukowski, Huxley, Eco, a escolher apenas um. Há também a famigerada pergunta: “que livro você levaria para uma ilha deserta?”. Essa pergunta nos abre duas possibilidades: levar um livro que já lemos (o que, no caso de Borges, que já leu alguns livros milhares de vezes, não seria mal maior), ou levar um livro que planejamos ler, possível causador de uma decepção incontornável.

Esse hábito norte-americano de pôr ranking em tudo certamente existe na biologia, e se mostra nas mais variadas formas. “Meu grupo é maior que o seu” (a insegurança do falo pequeno…) não é coisa incomum de se ouvir entre biólogos que falam sobre os bichos que estudam. Bem mais comum, contudo, é ouvirmos a pergunta “qual o grupo mais bem sucedido?”, ou “qual o grupo mais bem adaptado”.

Antes de tudo, devo deixar claro aqui que a própria noção do que seja bem sucedido e o valor biológico de tal conceito não é uma unanimidade entre os biólogos. Futuyma, em seu Evolutionary biology, argumenta que o conceito de “grupo bem sucedido” não tem valor biológico algum, e que não é possível determinar o sucesso biológico (também chamado de sucesso evolutivo).

Ainda assim, muitos livros determinam o sucesso biológico de um grupo como a diversidade (ou, falando mais corretamente, a riqueza) alcançada por aquele grupo. Assim, o grupo dos insetos é um grupo com grande sucesso biológico, com suas mais de um milhão de espécies. Pelo mesmo raciocínio, o grupo dos monotremados, com suas quatro espécies apenas, é um grupo praticamente sem sucesso biológico ou evolutivo.

Muito bem, suponhamos que o sucesso biológico seja um conceito válido e que possa ser associado à riqueza. Ainda que assim seja, a abordagem atual (francamente subjetiva) para se determinar o sucesso biológico ou evolutivo não é adequada. Isso porque, como tentei expor ao usar o termo “subjetiva”, a determinação dos grupos para comparação segue diferentes pesos e medidas.

Vejamos por exemplo a comparação entre gastrópodos e aracnídeos. Temos 80 mil espécies de gastrópodos e 100 mil espécies de aracnídeos (os números dependem bastante da fonte, e eu não sou um especialista; o que nos interessa aqui é que o número de espécies de aracnídeos é um pouco superior ao de gastrópodos). A comparação parece justa, pois tanto Gastropoda como Arachnida são Classes. Mas precisamente aqui reside minha crítica: a definição das categorias taxonômicas e a associação de táxos a essas categorias é um processo repleto de arbitrariedades, e que poderia facilmente ter ocorrido de outro jeito. Por exemplo, os zoólogos poderiam ter criado uma Classe denominada Conchifera, na qual os gastrópodos seriam apenas uma subclasse. Se isso tivesse ocorrido, o número agora tenderia para os gastrópodes, e diríamos que o sucesso evolutivo desses é maior que o dos aracnídeos.

Os insetos são considerados o grupo com maior sucesso biológico. Mas o que isso quer dizer? (Fonte: Science Photo Library)

Do mesmo modo, se quiséssemos comparar o sucesso evolutivo dos escorpiões com o sucesso evolutivo dos mamíferos alguns poderiam alegar que Mammalia é Classe, ao passo que Scorpionides é Ordem. Tudo muito arbitrário, se você parar pra pensar.

Por isso eu tenho uma proposta para a comparação do sucesso biológico, ou sucesso evolutivo, como queiram. Eu mesmo não tenho muita fé na minha proposta, pois sou um daqueles que pensam que o termo “sucesso biológico” é vazio de significado, e que associá-lo ao número de espécies não irá melhorar a situação (especiações podem ser devidas a fatores particulares: por exemplo, só porque os ciclídeos do lago Vitória estão sofrendo especiação numa taxa desvairada eles têm maior “sucesso biológico”?). Mas, ainda assim, penso que meu método é melhor do que o que se tem feito até os dias de hoje quanto a esse tipo de comparação. Denominei-o de Riqueza filética relativa (RFR).

Em primeiro lugar, a determinação da RFR não depende de grupos. Em outras palavras, não é adequado pensar na comparação entre mamíferos e aves, ou entre mamíferos e peixes, ou entre bivalves e crustáceos. Para se comparar a RFR, devemos escolher duas espécies: compararemos um homem com uma gaivota, ou um leão com um atum, ou um abalone com um chama-marés. Definindo o par a ser comparado, A e B, iremos retornar até o nó que representa o ancestral comum.

A partir desse nó temos dois ramos, um que leva à espécie A e outro que leva à espécie B. Determinar que apomorfia é causadora do sucesso evolutivo é uma tarefa complicada, e que facilmente pode levar a erros: como é que saberemos qual apomorfia dos insetos é responsável pelo seu sucesso biológico? Serão as asas (Pterygota)? Ou o músculo para dobrá-las (Neoptera)? Por isso, iremos incluir todas as apomorfias, do ancestral comum para cima. Assim, iremos determinar qual dos dois ramos, o que leva à espécie A ou o que leva à espécie B, tem o maior número de terminais (ou seja, de espécies). A espécie que pertencer ao ramo com mais terminais tem a maior Riqueza filética relativa.

Vamos tentar determinar a RFR entre homens e crocodilos do Nilo. Os homens pertencem à Ordem Primates, que contém quase 400 espécies (infelizmente, quase metade encontra-se atualmente ameaçada. Pelo homem!). Já os crocodilos do Nilo pertencem à Ordem Crocodilia, com não mais que 30 espécies. Poderíamos dizer que o grupo dos primatas é um grupo com maior sucesso evolutivo que o dos crocodilos. Porém, se usarmos o método para a determinação da RFR, deveremos voltar no tempo até o ancestral comum do homem e do crocodilo. A partir desse nó, temos o ramo que leva ao homem, de um lado, e o ramo que leva ao crocodilo, de outro. O ramo que leva ao primeiro é o ramo dos sinapsídeos, enquanto que o outro ramo (o dos crocodilos) é o dos diapsídeos. Ora, há muito mais espécies de diapsídeos que de sinapsídeos (apesar do ser humano ter dado uma forcinha aqui, levando nos últimos dez mil anos metade das espécies de aves do planeta à extinção!). Assim, o crocodilo do Nilo tem maior RFR que o ser humano.

Como já deixei claro, a RFR é uma proposta que eu mesmo não levo a sério. Contudo, penso que é bem melhor que a atual e subjetiva maneira de se determinar o sucesso evolutivo de um grupo, seja isso o que for.

Post scriptum: o selo no início do post é apenas uma brincadeira com o selo da “Research Blogging”, instituição séria e que não tem relação alguma com a paródia. A única intenção aqui é deixar claro que esse post trata de uma conjectura, de uma especulação.

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