Coisas que são assim apenas por acaso

Tenho uma predileção nada secreta por discutir e divulgar o papel do acaso nos processos evolutivos, principalmente nas mudanças relacionadas ao comportamento animal, do qual o comportamento humano faz parte. Mas aqui farei uma abordagem diferente da habitual, trazendo à luz da discussão um conto. Sim, um conto. De Kafka. Chama-se “comunidade”. Vamos a ele:

Comunidade

Somos cinco amigos, certa vez saímos um atrás do outro de uma casa, logo de início saiu o primeiro e se pôs ao lado do portão da rua, depois saiu o segundo, ou melhor: deslizou leve como uma bolinha de mercúrio, pela porta, e se colocou não muito distante do primeiro, depois o terceiro, em seguida o quarto, depois o quinto. No fim estávamos todos formando uma fila, em pé. As pessoas voltaram a atenção para nós, apontaram-nos e disseram “os cinco acabaram de sair daquela casa”. Desde então vivemos juntos; seria uma vida pacífica se um sexto não se imiscuísse sempre. Ele não faz nada, mas nos aborrece, e isto basta: por que é que ele se intromete à força onde não querem saber dele? Não o conhecemos e não queremos acolhê-lo. Nós cinco também não nos conhecíamos antes e, se quiserem, ainda agora não nos conhecemos um ao outro; mas o que entre nós cinco é possível e tolerado não o é com o sexto. Além do mais somos cinco e não queremos ser seis. E se é que esse estar junto constante tem algum sentido, para nós cinco não tem, mas agora já estamos reunidos e vamos ficar assim; não queremos, porém, uma nova união justamente com base nas nossas experiências. Mas como é possível tornar isso claro ao sexto? Longas explicações significariam, em nosso círculo, quase uma acolhida, por isso preferimos não explicar nada e não o acolhemos. Por mais que ele torça os lábios, nós o repelimos com o cotovelo; no entanto, por mais que o afastemos, ele volta sempre.

F. Kafka


Antes de qualquer coisa, que prazer é ler Kafka! Para quem não o conhece, esse é um dos maiores escritores do mundo, detestado por muitos e idolatrado por muitos mais. Num conto curto, com menos de 300 palavras, ele desconcerta. Num português lhanamente simples, típico de nossa era iletrada, ele “mata a pau”.

Desde a primeira leitura esse texto curto pareceu-me perfeito para descrever a contradição, uma vez que fruto do acaso biogeográfico, da formação de etnias e principalmente da intolerância que se cria entre estas. É claro que o próprio Kafka não deve ter pensado a esse respeito quando elaborou o conto, e na verdade é altamente improvável que ele o tenha feito: isso não tem a menor importância para nós, nem para a análise literária em si. O que o autor quis dizer, se é que quis alguma coisa, é um problema exclusivamente dele, e de quem se interessa pela ontologia das obras literárias. Para nós o que nos interessa é o que nós sentimos, o que nós percebemos a partir da leitura.

O início do texto, que por sinal é esplêndido com essa sucessão de vírgulas separadas por dois pontos, já começa mostrando o ridículo e o cômico da formação do conjunto, do grupo. Não poderia pensar em imagem mais chapliniana que essa. O próprio Kafka pode estar ou não estar entre os cinco, uma vez que ele usa constantemente o “nós” mas, ao listar os cinco que saem de uma casa (como foram parar lá simultaneamente? acaso?), usa a terceira pessoa; sobre isso a gente não poder ter certeza.

Costumamos atribuir com grande naturalidade uma identidade ao grupo, e com igual naturalidade aceitamos a repulsão entre eles, nomeadamente a xenofobia. Na Ilíada encontramos os aqueus, os argivos, os mirmidões, os troianos, os frígios, os dardânios e outros mais aliando-se e lutando uns contra os outros, e esquecemos que o processo de formação desses grupos étnicos deve-se a pouca coisa além do acaso. Poderíamos pensar que essas tribos que mencionei, sendo indo-iranianas, ao invés de lutarem entre si deveriam unir suas forças, para por exemplo “descer a lenha” nos semitas. Mas, elevando o nível dos conjuntos na análise, a separação entre os indo-iranianos e os semitas não seria também um fruto do acaso biogeográfico?

Em seguida, a idéia de um grupo, a própria noção da existência do grupo parece estar obrigatoriamente atrelada à existência dos externos, dos bárbaros: nem bem o grupo foi formado e já é ameaçado pela presença do sexto. Aqui, o que mais me interessa é que Ele não faz nada, mas nos aborrece, como se a própria existência do sexto fosse motivo para aborrecimento. Ou seja: a ausência (não de fatores causais, porque eles existem: o acaso é um fator causal) de razão para a formação da etnia é a mesma ausência de razão para a intolerância, que se mostra completamente gratuita. Não quero aqui alegar que a luta entre bandos não seja um processo seletivamente vantajoso; o que quero apontar é que, como a própria formação dos bandos se deve ao acaso, o fato de A favorecer B mas ter ódio de C não se deve às características de personalidade de C, mas igualmente ao acaso. É o que se vê facilmente em Não o conhecemos e não queremos acolhê-lo, o que poderia ser também compreendido como uma tentativa de negar a própria existência do sexto, pelo menos para o grupo constituído.

O absurdo da formação do grupo chega ao paroxismo em Nós cinco também não nos conhecíamos antes, o que é óbvio e justificável, mas é completado por um arrasador e, se quiserem, ainda agora não nos conhecemos um ao outro. É claro, portanto, que pela falta de qualquer critério objetivo para um observador externo não se poderia sequer tentar distinguir o sexto dos outros cinco, mostrando assim que o acaso (no sentido simples da palavra) é o único responsável pela formação do grupo e pela definição dos excluídos, dos desafetos. Essa sensação desagradável da união descabida é então completada em E se é que esse estar junto constante tem algum sentido, para nós cinco não tem.

Contudo, uma vez formado o grupo, é praticamente impossível desfazê-lo: mas agora já estamos reunidos e vamos ficar assim. Apesar de lógica, a dissolução do grupo ou a aceitação do sexto não ocorrerão jamais. E a idéia toda chega ao absurdo final em não queremos, porém, uma nova união justamente com base nas nossas experiências.

Sei que nem todos os pontos do texto colaboram com essa minha interpretação: o fato do sexto voltar sempre, mesmo sendo repelido, é algo reservado a seu idiotismo (no sentido original da palavra): por que ele faz isso, não se saberá. Mas, afinal, o que é que se consegue saber em um escritor tão cheio de possibilidades?

6 comentários sobre “Coisas que são assim apenas por acaso

  1. Olá amigos, deixo aqui a minha dica:

    A Rede de Popularização da Ciência e da Tecnologia da América Latina e do Caribe (Red-POP) recebe até 15 de novembro, propostas de trabalho para a 12ª Reunião Bienal que acontece no Brasil, organizada pelo Museu Exploratório de Ciências (MC), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), de 29 de maio a 2 de junho de 2011.

    Com o tema “A profissionalização do trabalho de divulgação científica”, o encontro aceitará tanto trabalhos de pesquisa, de caráter acadêmico, quanto de profissionais da área, interessados em relatar suas experiências. Cinco eixos temáticos vão nortear a 12ª Reunião: Educação não-formal em ciências; Jornalismo científico; Programas e materiais para museus de ciências: materiais e práticas concretas; Museografia e museologia científica; Público, impacto e avaliação dos programas.

  2. Particularmente não sou muito simpático a interpretações de obras literárias em caráter pessoal, ou seja, fora do contexto original concebido pelo autor, pelo motivo de que do mesmo modo de que podemos imaginar interpretações descontextualizadas de boa fé, alguém pode elaborar uma interpretação descontextualizada a favor de concepções ideológicas levianas.

    Não raro encontramos em textos de divulgação científica citações de poemas e outros textos literários (Gould, diga-se de passagem, é um especialista no assunto), mas convém lembrar que os pesquisadores e estudiosos que escrevem sobre a ciência também tem preconceitos e opiniões próprias sobre os temas que dissertam e que constitui um perigo considerável usar a literatura, mesmo que involuntariamente, como um reforço para as suas próprias preferências, que, no seu caso, como você mesmo admite, é a predileção nada secreta pelo papel do acaso.

    Kafka de fato representa um caso a parte, pois a multiplicidade de interpretações é uma característica inerente ao seu estilo literário. Mesmo assim a sua interpretação do fragmento citado é baseada na sua própria simpatia pela deriva aleatória. Posso te demonstar isso elaborando outra interpretação a favor justamente de uma concepção aversa a explicações baseadas no acaso: Os indivíduos podem de fato serem beneficiados ao formarem alianças e essas alianças podem ser formadas a partir de fatores seletivos desconhecidos a todas as partes envolvidas. Eles podem rejeitar um intruso pelo fato deste ser um portador de algum patógeno letal, por ser um indivíduo egoísta que ameace a comunidade formada por altruístas, ou qualquer outra explicação semelhante, mas o fato dos envolvidos não estarem conscientes dos motivos que os agrupam ou dos motivos que os excluem não significa que esses motivos contemplem o acaso.

    A obra de Kafka é como um espelho, mas que pode refletir uma miragem.

    • Ricardo,
      a formação de grupos e a hostilidade contra grupos externos é um processo seletivamente construído; porém, a definição de com quem se une é um processo biogeográfico devido ao acaso.
      Eu sei que o fato dos envolvidos não estarem conscientes dos motivos que os agrupam ou dos motivos que os excluem não significa que esses motivos contemplem o acaso. Acontece que, sabendo do papel do acaso na história da formação dos grupos humanos entre o neolítico A e a idade do bronze, eu usei o texto de Kafka para mostrar alguns aspectos dessas formações. Eu não estou usando o texto do Kafka para justificar o papel do acaso biogeográfico nessas formações: esse papel é um fato.
      Além disso, a interpretação artística tem de ser pessoal e, repito, geralmente eu estou muito pouco interessado no “contexto original concebido pelo autor”.
      Abraço.

      • O acaso é uma hipótese suscetível a teste posteriores, não um fato. O fato aqui na minha opinião é que você tem mais simpatia por essa hipótese do que por outras.

        Abração

      • Vou tentar diligentemente explicar mais uma vez, para me fazer entender. Mesmo que o comportamento de criar grupos e hostilizar vizinhos tenha sido selecionado, e mesmo que os grupos assim criados e competindo sejam submetidos à seleção, as definições dos elementos internos e externos ao grupo devem-se a meros acasos biogeográficos. Eu não inventei isso da minha cabeça, essa é a opinião de boa parte dos antropólogos e etnólogos do século XX.

  3. Particularmente não sou muito simpático a interpretações de obras literárias em caráter pessoal, ou seja, fora do contexto original concebido pelo autor, pelo motivo de que do mesmo modo de que podemos imaginar interpretações descontextualizadas de boa fé, alguém pode elaborar uma interpretação descontextualizada a favor de concepções ideológicas levianas.

    Ricardo,

    Eu sei que você deixou bem claro que é uma opinião pessoal sua, mas qual o problema de interpretarmos um texto literário do modo que quisermos? Normalmente a interpretação dos textos nem levam em conta tanto assim a intenção do autor! Muito do que se lê sobre determinado texto é a opinião de um especialista sobre o texto, raramente vemos o próprio autor dar explicações sobre o que escreve, por um motivo simples, ele está ali para escrever, não para explicar. Tinha um escritor (não me lembro qual, sou péssimo em citações) que dizia, com muita propriedade, que o que ele escrevia, a partir do momento que estava no papel, já não era mais dele (ou algo assim).

    Agora, como bem disse no final de seu comentário, a interpretação dos texto, não apenas o do Kafka, normalmente fala mais de nós mesmos que dá obra em si.

    P.S.: Obviamente que o que disse NÃO se aplica as obras científicas. A interpretação dessas obras deve levar em conta o paradigma científico vigente.

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