Étimos biológicos

Minha professora de grego, extremamente competente e profunda conhecedora de seu ofício, não perdia uma chance de, durante as traduções que fazíamos em sala, me perguntar se eu falava para os meus alunos a respeito do significado de tal ou tal palavra relacionada à biologia que aparecesse nos textos. Ela sabia que eu era professor de biologia e, como de costume, sabia da imensa quantidade de termos técnicos de origem grega utilizados em biologia (e nas ciências em geral). Aliás, esse é um dos meus passatempos favoritos, que, devo confessar, eventualmente chega a irritar meus interlocutores (e em particular minha mulher, que costuma me dizer “isso tudo é arbitrário”): pesquisar, estudar e discutir a etimologia das palavras, suas mudanças, seus metaplasmos, seus significados originais e derivados.

Não estudei grego por ser professor de biologia, associação equivocada feita pela maioria dos meus colegas de sala. Estudei grego pelo grego em si, sem racionalizar ou listar o que eu esperava conseguir, e creio que por isso mesmo consegui muito mais do que poderia supor: aprendi muito sobre história, sobre filosofia, sobre linguística… Até meu português melhorou significativamente depois que eu compreendi o que é um nominativo, um acusativo, um genitivo, um dativo ou um vocativo (para aqueles que estudaram latim, o ablativo — assim como o locativo e o instrumental — fundiu-se aos outros casos no grego). Conheci autores excepcionais e fantásticos, como Aristófanes, ou outros dos quais eu já havia ouvido falar mas nunca lera, como Tucídides, Heródoto, Sófocles e o próprio Homero. Um fenômeno curioso é que boa parte dos alunos matriculava-se no grego devido à sua religiosidade cristã, para ler os evangelhos no original; contudo, três ou quatro semestres depois, estavam todos lendo Platão, Ésquilo, Aristóteles, e nem se lembravam mais dos evangelhos. Platão, apesar da complexidade de suas ideias, é um dos mais fáceis e acessíveis para os alunos iniciantes, pela sua escrita limpa e sem complicações.

Eu aconselho a todos (que tenham tempo e disposição, é claro) estudar grego ou latim, lembrando que o latim, em minha humilde opinião, é bem mais difícil que o grego (que espanta os iniciantes principalmente por usar um alfabeto diferente). E, para nós que trabalhamos com biologia, uma série de esclarecimentos bastante significativos vêm à tona. Como esse é um assunto que me interessa bastante, resolvi escrever essa breve nota (ou post…) para discutir de alguns termos biológicos de origem grega. Para aqueles que não são familiarizados com o alfabeto grego pus, ao final do post, uma tabela com o alfabeto grego e a pronúncia (restaurada) para cada letra.

  • Teoria: do grego θεωρία. É muito curioso como as vicissitudes e as mudanças pelas quais passa uma palavra podem fazê-la adquirir um significado contrário a seu significado original. Teoria vem do verbo θεάομαι (do qual por sinal vem a palavra θέατρον, teatro), que significa observar, contemplar, ver. Logo, “teoria” é a ação de observar, a ação de contemplar. Como para o grego a observação e a contemplação levam à análise, a palavra também significa meditação, estudo. Em seu significado original, portanto, quando você vai ao campo coletar dados, realizar filmagens, fazer observações ou executar medições, você está fazendo um trabalho teórico!
  • Catarro: do grego καταρρéω. Eis aqui uma palavra interessante, formada por dois termos. Κατά é uma preposição, e significa “para baixo”. Encontra-se em palavras como catabolismo, catálise, catalepsia e cátion. Já o verbo ῥέω significa correr, fluir, deslizar, e é encontrado em palavras como hemorragia, menorréia, diarreia. Assim, catarro é o que escorre para baixo, o que flui para baixo.
  • Eucalipto: do grego εὐκαλυπτός. O que “eucalipto” tem de interessante? Dois termos, para falar a verdade, e ambos relacionados com concepções incorretas sobre seus significados. Primeiramente temos o εὐ, advérbio que significa “bem”. De onde veio essa quase ubíqua ideia de que εὐ significa “verdade”, não faço a menor ideia. Verdade em grego é ἀλήθεια (alétheia), e verdadeiro é ἀληθής. Já é hora dos professores de biologia pararem de falar que εὐ significa “verdade” e passarem a falar que é apenas o advérbio “bem”. Καλυπτός, por sua vez, vem do verbo καλύπτω, cobrir, e desta forma significa “coberto”. O interessante aqui é que um verbo derivado, o verbo ἀποκαλύπτω (apokalýpto), significa descobrir. Dessa forma, o bastante famoso termo apocalipse significa apenas descobrimento, revelação, e não tem relação alguma com o que definimos como o fim dos tempos. Quem tem erudição o bastante sabe que o último livro do novo testamento é o “livro das revelações”, e não “o livro das destruições” nem “o livro do fim-do-mundo”. Assim, o termo εὐκαλυπτός significa bem coberto, e refere-se ao opérculo, feito por sépalas e pétalas, que cobre a flor antes dos estames expulsarem-no. Por sinal, a palavra cálice (conjunto de sépalas) vem de κάλυξ, que é o envoltório de uma flor.


    Flores de eucalipto, algumas ainda com o opérculo (fonte: Science Photo Library)

  • Zoologia: do grego ζῳον. Costumamos dizer que ζῳον significa animal. Na verdade, ζῳον pode ser usado para qualquer coisa viva, qualquer bicho vivo. Vem do verbo ζήω (zéo), que significa viver, passar a vida. Daí vem ζωή (zoé), que significa “vida”. Zoologia poderia ser, sem muito esforço, o estudo da vida. Assim, zoologia e biologia são termos muito mais próximos do que normalmente se supõe.
  • Lise: do grego λύω. Muita moleza para quem já estudou grego, pois praticamente todas as gramáticas ensinam as conjugações com esse verbo! Λύω significa desligar, separar. Perceba que aqui desligar está usado no sentido literal, que é o de desfazer uma ligação (e não no sentido atual, normalmente relacionado a um aparelho elétrico). Assim, uma hidrólise é uma separação (e não uma quebra) dos monômeros na estrutura polimérica. Λύσις (lise) é o substantivo derivado do verbo, e significa separação. A tradução por “quebra”, portanto, é incorreta, e só eventualmente acaba dando certo.
  • Bactéria: do grego βακτηρία. Logicamente, não se espera que os gregos tenham uma palavra para essas microscópicas criaturas procariontes, e como se percebe que a palavra foi usada quase sem modificações pela ciência, deve significar outra coisa… Bactéria é um bastão ou bordão de viagem, também usado como insígnia de juiz. Assim, o termo só descreveria adequadamente um bacilo (palavra que por sinal vem do latim baculum, bastão ou porrete), mas não os cocos, os espirilos etc.
  • Pteridófita: do grego πτερίς. Essa palavra costuma ser fonte de confusões cômicas, pois é muito fácil confundir πτερίς com πτέρυξ. Falando em voz alta a diferença é bem pronunciada, mas na escrita, e principalmente quando se transcreve para o alfabeto romano, a semelhança é grande: compare pteris com pteryx. Acontece que, enquanto a segunda palavra (πτέρυξ) significa “asa”, a primeira (πτερίς) significa “samambaia”, “feto”. Portanto, nada de “plantas com asas” por enquanto.

Há muitos outros termos interessantes, dos quais pretendo tratar numa breve (nos dois sentidos) continuação deste post.

Tabela: alfabeto grego e pronúncia aproximada (restaurada).

4 comentários sobre “Étimos biológicos

  1. Pingback: Biologia é zoologia, que é física, que é matemática « Biologia Evolutiva

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