Seleção e especulação

O método científico é a principal diferença entre as ciências e as outras formas de aquisição de conhecimento. Através do método podemos não só organizar nosso conhecimento prévio sobre determinada área do saber, mas principalmente coletar novas informações e dar um sentido adequado e coerente a essas informações. Na verdade, o método científico tem mais a ver com a eliminação de explicações estapafúrdias e místicas do que propriamente com a elaboração de explicações corretas. Noutras palavras, a ciência é mais um processo de eliminar as explicações equivocadas do que um processo de encontrar as explicações corretas.

Apesar de relativamente nova, a biologia evolutiva é certamente uma ciência e, como tal, possui seu método. Podemos usá-lo para coletar novas informações acerca do mundo ao nosso redor, para elaborarmos propostas estatisticamente testáveis, para construirmos experimentos ou percebermos experimentos que a própria natureza executa, para descartarmos as hipóteses incorretas e para, por fim, construirmos um conjunto de teorias capazes de se manter de pé após todas as tentativas (e os seus próprios criadores devem se esforçar nessa tarefa) de derrubá-las. Esse aspecto da biologia evolutiva está mais relacionado ao presente: apesar de não nos darmos conta, há experimentação em biologia evolutiva, há trabalho de laboratório a ser feito, formulação de hipóteses, condução de experimentos, formulação de novas hipóteses, reelaboração de experimentos em novas situações, etc. Nesse aspecto, a biologia evolutiva se assemelha à citologia, à fisiologia, à microbiologia etc.

Mas o aspecto que de longe se sobressai, quando pensamos na biologia evolutiva como um todo, é aquele relacionado ao passado. Para muitos, aliás, esse é o único papel da biologia evolutiva: explicar o passado. Descrever a história da vida no planeta Terra, estabelecer as relações de parentesco entre os diferentes seres vivos, explicar os mecanismos responsáveis direta e indiretamente pela formação da assombrosa riqueza e diversidade atualmente existentes. Numa palavra, a biologia evolutiva que olha para o passado é aquela que tenta descrever as mudanças e explicar por que essas mudanças ocorreram da forma que ocorreram.

Em relação a essa biologia evolutiva há algo que me incomoda. Na verdade não é algo do processo científico em si que me incomoda, o que tenho é uma impressão incômoda sobre a natureza de algumas de suas conclusões. Tal como um crime que ocorreu, o passado histórico da vida sobre a terra é um fato, não iremos questionar isso. Do mesmo modo que o investigador forense que analisa o crime, o biólogo evolutivo tenta propor um cenário o mais parecido possível com o cenário real, também não vamos questionar esse ponto. O que me incomoda é que as explicações para um determinado padrão são facilmente aceitas como fatos científicos apenas por terem passado no crivo de análise estatística e da experimentação mental, quando para mim parecem ser principalmente especulações. Possíveis, contudo especulações.

Trugannini (em foto de 1866), a última aborígene da Tasmânia. Como explicar a manutenção de uma pele escura num ambiente tão longe dos trópicos?

O que eu quero defender aqui é que devemos tomar cuidado com a explicação para determinados padrões, pois padrões podem ter explicações diferentes ou, às vezes, nenhuma explicação! Além disso, aquilo que parece ser um padrão para o ser humano pode muito bem não sê-lo, uma vez que somos dotados de uma máquina cerebral ávida por padrões e reconhecidamente capaz de criá-los quando eles não existem. Vou tentar me fazer claro com um exemplo propositadamente simples, apenas uma experiência mental. Imaginemos um besouro negro, melânico, que se distribui num ambiente cuja superfície é bem enegrecida (podemos pensar numa serapilheira escura ou mesmo num solo com uma terra mais negra). A explicação tentadora para explicar a predominância de indivíduos negros é a que segue: os besouros são negros para melhor se camuflar naquela superfície. Essa explicação pode ser posta à prova e passar com louvor em nosso experimento, onde besouros pintados de branco foram significativamente mais predados que os besouros melânicos. Mas como eu posso saber se foi exatamente essa a razão para o aumento da frequência desse caráter na população, se há outras explicações? Talvez a razão mais importante seja que os besouros melânicos absorvem mais calor que os besouros claros, ou talvez haja uma preferência sexual dos besouros fêmeas em relação à cor negra, que levou à mudança deste caráter naquela população. Ou talvez nem tenha ocorrido processos seletivos, sendo a cor negra devida unicamente à deriva. Todas essas razões podem coexistir com o fato de que naquele ambiente besouros menos escuros são mais frequentemente predados que besouros melânicos. Vou tentar ser o mais claro possível: suponha que você experimentalmente meça as taxas reprodutivas de besouros melânicos e não melânicos naquela população, e descubra que os besouros negros têm uma maior taxa reprodutiva. Há, portanto, seleção: mensurável, objetiva, inegável. Esse é o fato. Porém, quando se questiona o porquê da taxa reprodutiva dos besouros melânicos ser maior, entramos no reino da especulação.

É um hábito comum dos biólogos raciocinar, refletir, cogitar: “por que esse organismo X possui essa estrutura Y? será porque ela desempenha essa função Z?”. Em seguida, após experiências reais ou mentais o pesquisador conclui que, se há bom respaldo estatístico para apoiar sua hipótese, ela está correta. Minha crítica a essas conclusões é que, mesmo que tenhamos o respaldo estatístico adequado, a explicação que damos para a presença de uma determinada estrutura numa dada população ou espécie é apenas uma especulação. Uma especulação com um enorme grau de certeza estatística, mas ainda assim uma especulação.

Não quero afirmar que toda e qualquer tentativa de explicar uma diferença nas taxas reprodutivas (isto é, uma seleção) me incomoda. Há muitos e muitos casos em que a explicação que os pesquisadores dão para o fenômeno seletivo é praticamente certa, e chamá-la se especulação seria injusto. Tomemos por exemplo a lebre do ártico: seus pelos são brancos no inverno, praticamente da mesma cor que a neve; na primavera, os pelos mudam para um cinza-azulado, de cor semelhante ao solo pedregoso. Não haveria nenhuma imprudência em afirmarmos que esse fenômeno seletivo é explicado pelo fato de que as lebres brancas no inverno e cinza na primavera e no verão são mais dificilmente percebidas pelos seus predadores.

Em outras ocasiões, contudo, podemos considerar como certeza algo que não é tão certo assim. Vejamos o caso da cor da pele humana.

Aparentemente (mais adiante explicarei o porquê desse termo), a cor da pele humana depende da incidência de radiação UV, que por sua vez depende da latitude. Pessoas que vivem em latitudes próximas a zero têm a pele mais escura, melânica, ao passo que pessoas que vivem em latitudes mais distantes de zero (mais próximas dos polos) têm uma pele mais clara, que vai do amarelo pálido ao rosado. Por quê?

Nossa primeira e quase instantânea resposta é dizer que se trata de um processo seletivo. Supondo que de fato tenha ocorrido seleção, cabe a pergunta: qual a vantagem de se ter pele escura nos trópicos e pele branca longe dos trópicos? Jared Diamond, no excelente “The third chimpanzee”, lista nada menos que oito hipóteses:

  • A pele mais escura nos trópicos protege contra queimaduras e câncer
  • A pele mais escura nos trópicos evita doenças renais devidas à hiperprodução de vitamina D, e a pele mais clara nas regiões temperadas favorece a síntese da vitamina D
  • A pele mais escura nos trópicos protege os órgãos do superaquecimento promovido pela radiação infravermelha
  • A pele mais escura nos trópicos mantém os indivíduos quentes quando as temperaturas caem
  • A pele mais escura nos trópicos provê camuflagem nas selvas
  • A pele clara nas regiões temperadas é menos sensível a queimaduras de frio
  • A pele mais escura nos trópicos protege contra a intoxicação por berílio
  • A pele mais escura nos trópicos evita a fotodestruição do ácido fólico

Perceba que algumas dessas explicações não são mutuamente excludentes, e podem se somar; outras são contrárias, mutuamente excludentes; outras são, a meu ver, pura tolice. Enfim, seja qual for o caso, o fato de nós mostrarmos e comprovarmos experimentalmente que pessoas de pele clara no norte da Europa produzem mais vitamina D do que as pessoas de pele escura, ou que pessoas de pele escura nos trópicos têm menos deficiência de folato do que as pessoas de pele clara, nada disso nos assegura, ou melhor, nada disso nos autoriza a dizer que essa é a causa do processo seletivo (ou seja, das diferenças nas taxas reprodutivas). São suposições, algumas mais adequadas que outras, mas ainda assim suposições.

O problema maior vem agora: há uma grande quantidade de “furos” nessa nossa visão simplificada de que humanos nos trópicos têm pele escura e nas zonas temperadas pele clara, e que essas diferenças se devem à seleção. Os paleoamericanos, por exemplo, vivem na zona equatorial da América do Sul (onde eu estou, por sinal!) há pelo menos 11 mil anos, e nenhum grupo desenvolveu algo sequer próximo à pele escura de muitos dos africanos. E, antes que se questione, 11 mil anos é tempo mais que o suficiente. Por outro lado, os humanos de pele escura que ficaram isolados na Tasmânia há dez mil anos (mais uma vez, tempo suficiente), quando ela se separou da Austrália, mantiveram a pele escura nessa ilha quase polar até seu extermínio no século XIX. No centro da África há regiões em que, pelo regime de chuvas e nuvens, a incidência UV é baixíssima, e ainda assim a pele de seus habitantes é bastante escura.

Jared Diamond defende, de forma bastante razoável, que a cor da pele humana pode sim ter um componente seletivo, mas que, além disso, tem um componente de estampagem sexual: pessoas de pele escura procuram como parceiros pessoas de pele escura, assim como pessoas de pele clara escolhem geralmente pessoas de pele clara. Por isso os “índios” americanos mantiveram-se com sua pele clara em pleno equador, e os tasmanianos com sua pele escura à beira do polo sul. E, juntamente com o componente seletivo e a estampagem sexual, as diferentes cores de pele dos seres humanos espalhados pelo globo podem ser devidas a um componente puramente aleatório nos processos evolutivos: a deriva gênica. Ou seja, o acaso.

7 comentários sobre “Seleção e especulação

  1. Excelente texto! Compartilho da mesma inquietação com certezas estatisticamente plausíveis. A inquietação é proporcional a grandiloquência da afirmação. Devo dizer que minha preocupação atinge seu limite quando as afirmações não são sobre estruturas, mas sim sobre comportamentos (sejam em padrões ou predisposições), já que, neste caso, as possibilidades alternativas são ainda maiores (graças ao segundo nível de seleção ambiental, conhecida como a seleção do comportamento por suas consequências). De qualquer forma, o que importa é investigar, e nessa empreitada, um pouco de ceticismo é sempre proveitoso.

  2. Porra Gerardo (desculpe o trato rude, mas ‘Muito legal’ nem de longe substitui o velho palavrão),

    Muito bom esse texto. Agora eu acho que os dois exemplos que você comentou (Tanzanianos e Ameríndios) estão mais para excessões que coroam a “regra” (entenda, por favor, o sentido amplo que estou no momento dando a palavra) do que para “furo” em determinada teoria.

    Como você bem sabe, sempre que vemos na natureza um padrão que parece contrariar a lógica evolutiva temos dois caminhos, ou pensar em seleção sexual ou na deriva e foi exatamente o que você aventou quando falou dos dois grupos supra-citados.

    Agora, quando examinamos o quadro geral, é visível uma coincidência entre cor de pele e latitude, creio, assim, que ao longo do tempo, latitude seja um componente mais “forte”(com maior poder de seleção) que o componente sexual, talvez não sendo ainda observado por, nessas regiões específicas que citaste, pois se passou pouco tempo (eu sei que 10, 11 mil anos pode ser tempo suficiente, mas -especulo – temos duas tendências antagônicas com alto valor adaptativos em questão) dai podemos pensar que esses exemplos são apenas “ruido”.

  3. Pingback: O caráter especulativo da biologia evolutiva

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