Ontogênese e Filogênese: o caso da leitura

Discutir os aspectos nefastos e perniciosos da scala naturae é uma das minhas mais diletas atividades. Creio que, se é que posso deixar alguma contribuição na mente dos alunos entre todos os assuntos de biologia que ensino, essa seria a eliminação da scala naturae do nosso modo de pensar e de compreender a evolução. Como me disse certa vez um colega, que recentemente também se enveredou pelos caminhos do magistério, meu livro poderia facilmente se chamar “Por que acho que a scala naturae é um absurdo”.

É muito fácil, tentador até, pensarmos que em nosso desenvolvimento embrionário revivemos as fases adultas de invertebrados, peixes, anfíbios, répteis e mamíferos primitivos que, numa ótica evolutiva enviesada e capenga, seriam nossos antepassados. Contudo, essa forma de compreender o processo de desenvolvimento embrionário está equivocada, por duas razões: em primeiro lugar, os peixes, anfíbios, répteis etc. atualmente existentes não foram nossos antepassados, nem tinham como sê-los. Em segundo lugar, e aqui reside o principal, não revivemos as fases adultas dos nossos ancestrais, quem quer que eles tenham sido, em nosso desenvolvimento embrionário. O que eu estou afirmando aqui é algo já bem estabelecido desde o início do século XX (bem pouco tempo depois de Haeckel ter elaborado o conceito em sua forma mais famosa): a ontogênese não revive a filogênese.

Já temos um adequado conhecimento de biologia evolutiva e de sistemática filogenética nos dias de hoje para explicarmos com certa facilidade por que a recapitulação, ou “lei biogenética” (nomes pelos quais é conhecido o conceito de que a ontogênese revive a filogênese), é um equívoco científico. Porém, vale a pena perguntar por que tantos cientistas defenderam-na, e por que tantos estudantes aceitaram-na com facilidade. É sempre bom ressaltar que Haeckel não era um ignorante desvairado, noção que costumamos ter de pensadores que elaboraram hipóteses posteriormente derrubadas (como Lamarck, Ptolomeu e tantos outros).

A scala naturae é a resposta para essa indagação. Se hoje em dia, com nossa visão sistemática da história evolutiva dos organismos e com os conhecimentos (ainda incipientes) desse fascinante ramo da biologia denominado evo-devo, a recapitulação não faz mais sentido, o mesmo não se pode dizer de uma época histórica em que a scala naturae permeava o imaginário de praticamente todos os naturalistas e pensadores. A recapitulação, portanto, faz todo sentido num processo evolutivo em que os organismos estão postos numa fila continua, em que um “peixe”, um “réptil” e uma “esponja” são meus antepassados. Para quem se interessar sobre esse tema, há um excelente livro de Stephen Gould intitulado “Ontogeny and Phylogeny” (há um link na Prateleira), que tive o prazer de ler recentemente (infelizmente, não há tradução em português). Foi o primeiro livro publicado por Gould, e na verdade um de seus poucos livros: para os mais desavisados, a maioria das obras de Gould são coletâneas de artigos publicados na sua coluna mensal na revista Natural History.

Voltando à minha alegação original, é muito tentador supormos que nosso desenvolvimento embrionário recapitula passo a passo nossa história evolutiva. Algumas características praticamente nos pegam pelo colarinho e nos obrigam a pensar dessa forma, nos levando a equívocos. Quero falar sobre uma delas.

Na verdade, o que eu agora discutirei nada tem de novo, e é um fato bem conhecido, documentado e registrado pelos linguistas, além de ser do conhecimento de pedagogos, psicólogos, historiadores e pediatras, entre outros. Contudo, vivemos num sistema de aprendizagem cada vez mais fragmentado e especializado, em que os estudiosos pouco conhecimento têm de “áreas” do saber que não sejam a sua. Logo, como esse blog é visitado em sua maioria por pessoas relacionadas ao campo das ciências biológicas, pensei em falar sobre recapitulação discutindo um processo bem pouco familiar para a maioria de nós: o desenvolvimento da leitura.

Μέγας Ἀλέξανδρος, Alexandre o Grande. Seria Alexandre um leitor silencioso?

Lembro-me da última vez que vi uma pessoa lendo em voz alta: estava eu sentado num ônibus, e aquele som baixo e sussurrado me chamou a atenção. Localizei-o na cadeira do lado oposto ao corredor, um homem de seus trinta anos lendo uma revista, movendo os lábios e emitindo aquele som fraquinho. Excetuando-se os casos em que o leitor deseja memorizar melhor um texto (como um ator ou um palestrante, por exemplo), os adultos costumam ler em silêncio. Por isso, toda vez que me deparo com tal cena não consigo evitar pensar que aquela pessoa teve problemas em seu desenvolvimento.

O que ocorre é que, no desenvolvimento da leitura, a criança aprende a associar um grafema a um fonema. Há diferentes pedagogias e técnicas para essas associações, mas em média podemos dizer que isso se dá até os seis anos de idade. Em seguida, entre os seis e sete anos de idade, a criança começa seu processo de leitura propriamente dito. Nesse início, a criança sonoriza sua leitura, ou seja, lê falando o que está lendo. Algumas crianças necessitam de um período de leitura em voz alta maior que outras, mas em geral, por volta dos oito anos de idade, a criança já é capaz de ler em voz baixa ou de ler sem fazer som algum, habilidade que ela irá manter ao longo de sua vida de leitor.

E de que forma isso se relaciona com o tema do presente artigo, a famigerada “lei biogenética”? Bem, o fato curioso para trazermos à tona aqui é que por dezenas de séculos, desde o início da escrita até meados da alta idade média, o normal era as pessoas lerem em voz alta!

Há muitas coisas curiosas sobre o desenvolvimento da linguagem escrita (lembrando que a leitura faz parte da escrita…) que nós ignoramos, principalmente por achar que as coisas sempre foram como são hoje. Lembro-me de, quando comecei a estudar grego clássico, estranhar o fato de que não havia espaços entre as palavras, e nem pontuação. Para que espaços, se voceécapazdeentenderumtextosemespaços? Outra coisa curiosa era a ausência de diacríticos (os acentos), que não fazem sentido se você sabe falar a língua. Na visão grega, os acentos servem para os bárbaros não se enganarem na pronúncia, mas os gregos em si não precisavam deles. Assim, todos nós imaginamos a biblioteca de Alexandria ou o Liceu de Aristóteles com estudante compenetrados e silenciosamente estudando seus rolos, quando o mais provável era que se tratasse de uma confusão de murmurinhos.

Foi nesse ambiente de leituras ruidosas que algumas pessoas começaram a se destacar. Pessoas estranhas, criaturas exóticas, que tinham o curioso hábito de ler em silêncio! Dizem que Alexandre lia em silêncio… Comenta-se que César lia em silêncio na frente de outras pessoas (ou seja, um despudor público!). Perceba que era quase um elogio, uma atribuição de intelecto elevado dizer que alguém era capaz de ler em silêncio. Lembro-me de ter lido (em silêncio…) no “Touro que veio do mar”, de Mary Renault, uma cena em que Teseu recebe uma carta e na presença de outras pessoas a lê em silêncio, para ocultar seu conteúdo dos presentes. Não sei se Renault escreveu essa cena sem perceber o quão deslocado da realidade cotidiana dos atenienses seria a leitura silenciosa de Teseu (que teria vivido quase um milênio antes de Alexandre ou de César) mas, sabendo de sua erudição, acho isso bem difícil.

Há um excelente livro de Alberto Manguel intitulado “Uma história da leitura”, em que há um capítulo onde ele fala exatamente do desenvolvimento histórico da leitura silenciosa (Curiosamente, Manguel foi um dos leitores de Borges, ou seja, lia e voz alta para Borges quando esse já se encontrava praticamente cego). Eis um trecho desse capítulo, em que Manguel fala do assombro de Agostinho ao ver Ambrosio lendo em silêncio:

De acordo com um mosaico do século V, Ambrósio era um homem de estatura baixa e aparência inteligente, com orelhas grandes e uma barba bem cuidada que antes diminuía do que avolumava sua face angulosa. Era um orador extremamente popular: seu símbolo na iconografia cristã posterior foi a colméia, emblemática da eloqüência. Agostinho, que considerava Ambrósio afortunado por merecer tanto respeito por parte de tanta gente, viu-se impossibilitado de lhe fazer perguntas sobre as questões de fé que o perturbavam, porque quando o bispo não estava fazendo suas refeições frugais ou recebendo um de seus muitos admiradores, ficava sozinho em sua cela, lendo.

Ambrósio era um leitor extraordinário. Nas palavras de Agostinho: “Quando ele lia, seus olhos perscrutavam a página e seu coração buscava o sentido, mas sua voz ficava em silêncio e sua língua quieta. Qualquer um podia aproximar-se dele livremente, e em geral os convidados não eram anunciados; assim, com freqüência, quando chegávamos para visitá-lo nós o encontrávamos lendo em silêncio, pois jamais lia em voz alta”.

Olhos perscrutando a página, língua quieta: é exatamente assim que eu descreveria um leitor de hoje, sentado com um livro num café em frente à igreja de Santo Ambrósio em Milão, lendo, talvez, as Confissões de santo Agostinho. Tal como Ambrósio, o leitor tornou-se cego e surdo ao mundo, às multidões de passantes, às fachadas desbotadas dos edifícios. Ninguém parece notar um leitor que se concentra: retirado, absorto, o leitor torna-se lugar-comum.

Porém, aos olhos de Agostinho, essa maneira de ler parecia suficientemente estranha para que ele a registrasse em suas Confissões. A implicação é que esse método de leitura, esse silencioso exame da página, era em sua época algo fora do comum, sendo a leitura normal a que se fazia em voz alta. Ainda que se possam encontrar exemplos anteriores de leitura silenciosa, foi somente no século X que esse modo de ler se tornou usual no Ocidente.

A descrição que Agostinho faz da leitura silenciosa de Ambrósio (inclusive a observação de que ele jamais lia em voz alta) é o primeiro caso indiscutível registrado na literatura ocidental. Exemplos anteriores são muito mais incertos. No século V a.C., duas peças mostram personagens lendo no palco: no Hipólito, de Eurípedes, Teseu lê em silêncio uma carta presa na mão da esposa morta; em Os cavaleiros, de Aristófanes, Demóstenes olha para uma tabuleta mandada por um oráculo e, sem dizer em voz alta o que contém, parece ficar surpreso com o que leu. Seguindo Plutarco, Alexandre, o Grande, leu em silêncio uma carta de sua mãe no século IV a.C., para espanto de seus soldados. Cláudio Ptolomeu, no século II d.C., observou em Sobre o critério (um livro que Agostinho talvez conhecesse) que às vezes as pessoas lêem em silêncio quando estão se concentrando muito, porque dizer as palavras em voz alta distrai o pensamento. E em 63 a.C. Júlio César, de pé no Senado, perto de seu oponente Catão, leu em silêncio uma pequena carta de amor mandada pela própria irmã de Catão. Quase quatro séculos depois, São Cirilo de Jerusalém, numa palestra catequética feita provavelmente na Quaresma de 349, suplica às mulheres na igreja que “leiam enquanto aguardam as cerimônias, porém quietas, de modo que, enquanto seus lábios falam, nenhum outro ouvido possa ouvir o que dizem, uma leitura sussurrada”, talvez, na qual os lábios vibravam com sons abafados.

É tentador dizer que uma criança, no curso do desenvolvimento de sua capacidade de leitura, revive toda a história da leitura nos seres humanos: principiando por uma fase em que é incapaz de ler, passa para uma fase de leitura em voz alta, em seguida a uma fase de leitura sussurrada, para finalmente chegar à leitura silenciosa. Tentador, certamente. Mas, em meu modo de ver, apenas mais um equívoco. O mesmo já foi dito até sobre outras particularidades do desenvolvimento infantil: partindo de uma situação amoral para uma situação pré-moral e, em seguida, chegando a um ser moral, a criança reviveria o desenvolvimento da civilização, desde a barbárie até a era das leis!

Há uma forma muito mais simples de explicarmos o que se passa. Não só mais simples como também mais sensata. Mais uma vez, trata-se da visão de Darwin sobre a recapitulação de Haeckel: indivíduos aparentados compartilham fases de seu desenvolvimento, por causa de sua ancestralidade comum, apenas isso. A leitura em voz alta foi a primeira a ser praticada pelos leitores da antiguidade por ser menos complexa e cognitivamente mais adequada. Da mesma forma, as crianças iniciam suas leituras como leituras sonorizadas. Quando a leitura silenciosa começou a ficar comum, em algum momento entre a alta idade média e a idade moderna, nada mais natural que essa capacidade ser treinada entre os alunos, até chegarmos à situação em que nos encontramos hoje em dia.

Por mais tentador que seja, trazer a recapitulação à tona para explicar uma associação entre a ontogenia e a filogenia é despertar um monstro que deve ficar adormecido onde está, como uma curiosidade e um equívoco do século XIX.

4 comentários sobre “Ontogênese e Filogênese: o caso da leitura

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