Câncer e os becos sem saída evolutivos

Quando um termo científico é criado especificamente para denominar uma estrutura ou descrever um fenômeno quase não há margem para mal-entendidos ou confusões de significação: aquele termo simplesmente não existia anteriormente. Essa é uma das principais vantagens dessas construções gregas ou latinas que abundam nas ciências e que infelizmente parecem afugentar os iniciantes e o público leigo em geral: diaheliotropismo, leucocitopenia, paramagnetismo, entalpia, hipercolesterolemia, pirólise, cromossomo, termodinâmica… são todos eles termos que dão pouco espaço para interpretações equivocadas. É bom lembrar, para os mais incautos, que apesar de esses nomes conterem raizes gregas ou latinas, eles não existiam na Grécia ou em Roma: μεταβολή, mudança (que origina o termo “metabolismo”), é uma palavra que existia no grego antigo; já hemodiálise, polissacarídeo, entropia e tigmonastismo são termos construídos a partir de palavras gregas, mas que não existiam no grego clássico: se você abrisse a boca e falasse “polissacarídeo” na Atenas de Péricles, significaria algo como “o filho de muitos doces”…

Por outro lado, quando o termo científico é emprestado da língua comum, já tendo portanto um significado prévio diferente nessa língua, os problemas de interpretação e de significação ocorrem de forma mais freqüente. Termos científicos como relatividade, evolução, inconsciente, mistura, teoria, repressão, clima e desenvolvimento se encaixam nessa categoria: são termos que possuíam um significado prévio às vezes bem diferente do significado científico.

Se você supôs que a partir daqui eu irei me ater ao termo “evolução”, você acertou redondamente! O problema que irei focalizar não é novo nem desconhecido, e já foi tratado em diversas publicações de divulgação científica; eu mesmo já falei sobre isso umas três ou quatro vezes neste blog. Contudo, o objetivo principal desses meus artigos é exatamente falar sobre coisas já relativamente bem conhecidas entre os profissionais da área, mas que o público em geral desconhece ou conhece de forma equivocada. Portanto, eis o problema: a diferença entre o significado popular e o significado científico do termo evolução.

Historicamente, o termo evolução significa desenvolver, desenrolar. É uma palavra que veio do latim evolutio (desenrolar e ler um rolo com textos), que por sua vez veio do verbo latino evolvo (infinitivo evolvere), que significa desembaraçar, desenrolar, destacar, explicar. Segundo o Merriam-Webster, “evolution” aparece na língua inglesa pela primeira vez em 1622. O primeiro uso biológico do termo, apenas no século XVIII, foi para se referir ao processo de desenvolvimento embrionário, e não ao que hoje em dia compreendemos como evolução biológica (curiosamente, até os dias de hoje, os termos “evolução” e “ciclo evolutivo” em medicina referem-se ao desenvolvimento embrionário ou ao desenvolvimento de uma patologia). Com seu significado biológico atual, o termo “evolução” só começou a ser usado em fins do século XIX: nunca é demais lembrar que em “On the origin of species”, publicado em 1859, a palavra “evolution” não aparece em nenhuma de suas 490 páginas.

À parte desses usos biológicos, o termo “evolução” continuou sendo usado pelo público comum como desenvolvimento, melhoria, e sobretudo progresso. Não há nada de particularmente errado quando alguém diz que “a empresa tal evoluiu bastante nessa última década”, ou que “o produto tal não evoluiu adequadamente e por isso perdeu sua fatia do mercado”, ou que “verificou-se uma notável evolução na turma tal nesse último semestre”. Em todos esses casos, evolução está sendo utilizada como sinônimo de melhoria, de aprimoramento, de progresso. O problema surge quando as pessoas passam a achar que a evolução biológica também é melhoria, aprimoramento e progresso. Mas não é.

Essa noção equivocada traz uma série de problemas quando se decide estudar mais a fundo o processo evolutivo, para não falar dos danos oriundos de uma concepção incorreta de evolução disseminada entre o público leigo, cuja alfabetização científica deveria ser tratada com mais carinho, importância e atenção. Biologicamente falando, evolução é mudança, e não melhora, nem aprimoramento, nem progresso.

Essa indesejável porém ubíqua associação entre evolução e progresso impede que percebamos algumas características importantes do processo evolutivo:

  • A evolução é uma contingência: nenhuma população necessita evoluir. Um determinado grupo biológico pode passar um grande tempo geológico sem quase nenhuma mudança genética, mesmo que o ambiente se altere nesse período.
  • A evolução gera e mantém imperfeições de engenharia: uma vez que o processo evolutivo é históricamente constrangido, a série de vicissitudes pela qual uma característica passa faz com que ela geralmente seja bem pior do que se fosse hipoteticamente criada especialmente para o ambiente atual daquele organismo.
  • A evolução pode levar a becos sem saída: as mudanças evolutivas ocorrem aqui e agora, não tendo como prever ou supor situações futuras. Logo, o que agora é vantajoso pode se mostrar um desastre em pouco tempo.

Quero me alongar nesse último aspecto da lista. Quando se entende evolução como progresso ou melhoria, dificilmente se concebe que as mudanças evolutivas podem acabar num beco sem saída. Mas podem, e há diversos exemplos disso. Um dos mais interessantes casos parece ser o do próprio gênero Homo… mas esse será um assunto para outro artigo.

A sucessão ecológica constitui um exemplo bem parecido. Da forma como é ensinada nas escolas, a sucessão sempre culminará numa comunidade clímace (ou clímax), e que geralmente é uma floresta! Mas isso não é correto, pois além da sucessão cíclica ou sazonal, podemos pensar no que ocorre numa carcaça em decomposição: há uma clara sucessão de comunidades, mas que não culminará numa comunidade clímace estável.

Para tentar ilustrar um processo evolutivo fadado ao desastre, vou reduzir o tempo das mudanças evolutivas de milhares de séculos para poucas semanas ou meses, de forma que essas mudanças evolutivas sejam bem mais facilmente detectáveis e mensuráveis. Sim, há processos evolutivos que ocorrem em poucos dias, e por sinal eles estão entre os mais comentados nos livros-texto de evolução: imagine por exemplo as mudanças na constituição bacteriana (bacterias resistentes versus bacterias susceptíveis…) de sua garganta infeccionada ao longo de uma quimioterapia com cefalosporinas. Isso é evolução, ocorrendo no seu corpo, e em poucos dias…

Vamos ilustrar um processo evolutivo desastroso falando de cânceres, ou de neoplasias para ser mais exato (pois não nos interessará aqui se a neoplasia é maligna ou benigna). Não é muito comum pensarmos nas neoplasias como um processo evolutivo, mas isso pode ser feito mudando nossas definições de indivíduo e de população: num artigo anterior, eu havia mencionado que nós humanos, como indivíduos, não podemos nem iremos evoluir jamais. Isso se dá porque evolução é um fenômeno populacional, como se depreende da própria definição de evolução. Contudo, se estabelecermos o ser humano inteiro como uma população e suas células constituintes como os indivíduos daquela população, poderíamos verificar situações em que o ser humano evolui (como população, e não como indivíduo).

Células de um neoplasma se multiplicam num alvéolo pulmonar. Micrografia eletrônica de varredura (Fonte: Science Photo Library).

Mas há um pequeno problema: as células humanas são geneticamente iguais (excetuando-se os crossing-over mitóticos, que são bem raros, e as recombinações dos linfócitos B), e dessa forma os processos de seleção e deriva nenhuma mudança fariam na constituição genética da população como um todo (que é o ser humano). Não vamos falar de fatores epigenéticos nesse momento, pois perderíamos a clareza do argumento…

Temos, portanto, um grupo de indivíduos (as células) geneticamente iguais, trabalhando em conjunto para a manutenção da população (por Zeus, jamais diga “para manter a espécie”…). Mas mudanças evolutivas podem ocorrer: ao longo da vida de um ser humano ocorrem 1016 divisões mitóticas, sendo que em média (num ambiente livre de agentes mutagênicos) ocorre 10-6 mutações por gene por divisão celular. Isso nos diz que, ao longo da vida de um ser humano, cada um de seus 25 mil genes (esse número ainda não está bem estabelecido) sofrerá 1010 mutações! Esse não é um número pequeno.

Imaginemos que uma dessas mutações inative a proteína Rb, ou a P53, ou que desregule a produção de ciclinas. É claro que um câncer não se desenvolve por causa de apenas uma mutação, mas estamos trabalhando com um modelo, e por isso manteremos as coisas simples. Bem, esse novo indivíduo mutante terá uma taxa reprodutiva maior que os indivíduos geneticamente normais ao seu redor, e sua prole, mantendo suas diferenças genéticas, será igualmente prolífera. Em pouco tempo essas variantes genéticas irão ficar bastante comuns na população, como infelizmente muitos de nós sabemos, ou por experiência própria ou pela morte de seres queridos.

Está claro que o resultado desse processo evolutivo, onde certos indivíduos se reproduzem incomparavelmente mais rápido que outros, é o fim da população (representado pela morte do indivíduo humano). Não há como as células individualmente saberem o que estão fazendo, nem que seu comportamento irá arruinar a população. O que talvez ocorra é outra coisa: populações (seres humanos…) onde indivíduos (as células…) não se comportem de tal forma podem ser selecionadas ao longo do tempo, o que nos dá mais um curioso exemplo de seleção em níveis diferentes que o do indivíduo.

Um comentário sobre “Câncer e os becos sem saída evolutivos

  1. Vim conhecer seu espaço e gostei muito! Muito seleto e diversificado. Parabéns. A educação é a base do ser humano para sua vida em sociedade e para uma vida feliz. Também sou educador e vejo que nossa base holística é o caminho mais ameno a seguir, repleto de aprendizados diários em rumo a uma qualidade de vida equilibrada.
    Obs: Me tornei seu seguidor.
    Prof. José Carlos

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