Futebol e superorganismos

Estou passando por uma overdose de futebol, especialmente agora que estamos na fase final da copa e que os jogos melhoraram um pouco (nunca vi uma série de jogos tão horrorosa quanto essa fase de grupos na África do Sul). E olha que eu nem gosto tanto de futebol assim: meu esporte sempre foi automobilismo. Se bem que as lobotomias que os antigos circuitos vêm sofrendo, juntamente com esses novos “estacionamentos de shopping center” à la Tilke que surgiram na última década, estão me fazendo rever minhas preferências… Mas isso é outro assunto. Voltemos ao futebol.

Uma coisa que sempre me chamou a atenção é a forma como narradores e comentaristas referem-se aos times e seleções: como seres possuidores de vida própria, com suas personalidades, defeitos, qualidades e intenções particulares. É claro que esse fenômeno não acontece apenas no futebol, mas em qualquer outro esporte coletivo (como o vôlei e o basquete, por exemplo); contudo, no futebol ele é muito mais facilmente percebido. Até que ponto uma seleção pode ser encarada como uma entidade própria, diferenciada? Será válida a forma dos locutores e comentaristas se referirem a um time ou seleção como algo além da simples soma dos jogadores (animais da espécie Homo sapiens) que o compõe?

Eu penso que sim. E a defesa de meu argumento começará por um conceito ao qual já me referi várias vezes nesse weblog, e de forma mais explícita numa postagem sobre a Gestalt: o conceito de propriedade emergente. O que defendo aqui é que uma montagem ou organização pode facilmente ser algo maior que a simples soma de suas partes. Um time de futebol ou uma seleção nacional pode apresentar características que vão além da simples soma dos comportamentos individuais dos onze animais (juntamente com os jogadores do banco, a comissão técnica, os membros de apoio etc…) que formam aquela seleção. Já afirmei em postagens anteriores, mas nunca é demais repetir: isso nada tem a ver com misticismo ou ocultismo; eu, um materialista convicto e declarado, entendo as propriedades emergentes como fenômenos naturais decorrentes da interação de processos distintos. Vamos explicar um pouco melhor:

Um neurônio multipolar é uma célula bem conhecida para grande parte das pessoas que se interessam por ciências. Dessas, uma razoável porção deve lembrar que neurônios são células cuja membrana pode se encontrar polarizada ou despolarizada (um nome bastante infeliz, uma vez que a polaridade é apenas invertida) e que, em seus telodendros, pode secretar mediadores químicos que estimulam (PPSE) ou inibem (PPSI) a despolarização de neurônios contíguos. De forma bastante lacedemônica, isso é um neurônio. Conhecendo um neurônio, estudando-o de alto a baixo, compreendendo todos os seus mais escondidos detalhes, nunca seríamos capazes de predizer que um conjunto de neurônios poderia fazer surgir fenômenos tão complexos como a consciência, a memória, a intencionalidade e tantas outras elaboradas características do funcionamento do sistema nervoso dos animais (dos mamíferos ao menos…). A consciência surge a partir da interação dos neurônios; contudo, não podemos explicar a consciência a partir do funcionamento de um neurônio individual (essa é minha grande crítica aos reducionistas); um neurônio individual não é “nada”.

Essa última frase me fez lembrar imediatamente das formigas: apesar de cada formiga individualmente ser um ser vivo, da forma que costumamos compreendê-los e defini-los (com epiderme, tubo digestivo, olhos, sistema circulatório, patas…), uma formiga sozinha não é “nada”. Na verdade, nem podemos tentar criar uma formiga isolada, separada do formigueiro, como conseguiríamos fazer com um lobo. Esse último, criado sozinho, teria uma série de problemas comportamentais (a não ser que identificasse o tratador como membro da alcatéia). Uma formiga, por outro lado, nem sobreviveria: uma formiga social só “faz sentido” em interação com as outras formigas do formigueiro.

Formiguinhas jogando bola: seriam as seleções comparáveis a um superorganismo, como o formigueiro? (fonte: Shutterstock)

O formigueiro é uma propriedade emergente, que não poderíamos antecipar estudando apenas formigas isoladamente. O formigueiro é um superorganismo, ou seja, um organismo constituído por diversos outros organismos, que perdem sua relativa independência (nesse ponto do argumento eu deveria trazer à tona a discussão das diferenças entre indivíduo e organismo, uma vez que em biologia os dois termos não são sinônimos, apesar de constantemente tratados como tal. Mas, para não me alongar em demasia, deixarei esse assunto para outra ocasião). Logo, o formigueiro possui uma série de propriedades emergentes em relação às formigas individuais, e deve ser tratado de uma forma distinta.

Não posso nem irei aqui dizer que um time de futebol é um superorganismo, pois isso seria um erro biológico crasso. Mas há uma série de semelhanças que podem ser úteis em nossa análise. Do mesmo modo que num formigueiro, o jogador isolado não faz sentido (não naquilo que nós denominamos futebol; há diversas variações do esporte, como o gol-a-gol, em que duas pobres crianças solitárias chutam de um gol para outro em uma quadra ou em um campinho – já brinquei muito disso. Apesar de o “time” ser formado por um só jogador, gol-a-gol não é futebol…). Quando unidos, os jogadores, constituindo um time, desenvolvem propriedades inexistentes num jogador isoladamente.

Quais seriam as propriedades emergentes que podemos encontrar numa seleção? Os comentaristas e locutores falam muito de características psicológicas: “o Brasil está mais agressivo”, ou “a Alemanha está mais cautelosa”, ou “a Argentina está mais violenta”, ou “a Espanha está mais veloz”. Contudo, características como agressividade, cautela, violência ou velocidade são encontradas em seres humanos individualmente; não se tratam exatamente de propriedades emergentes. É claro que um ser humano isolado pode estar pacífico, e em meio a uma turba ensandecida ter sua agressividade despertada. Mas isso é um fenômeno de massas psicologicamente já bem conhecido e descrito, não tendo a ver com as propriedades emergentes que discuti anteriormente. Então, qual seria uma propriedade emergente num time de futebol?

Uma resposta possível é a famosa organização tática. Do mesmo modo que em um exército, a organização tática refere-se a um grupo de indivíduos, mas nunca a um indivíduo isoladamente. A forma como um time se distribui em campo parece ser uma propriedade emergente: 4-4-2, 4-5-1, 5-3-2, 4-3-2-1, com ou sem pontas, com líbero, em carrossel, com ou sem 3º volante… Esses esquemas táticos são propriedades do time como um todo, mas nunca do jogador individualmente.

É claro que um esquema tático é dinâmico, podendo mudar de acordo com as vicissitudes da partida; em outras ocasiões, o esquema tático é mais difícil de ser definido. Às vezes, ele nem existe (são só um bando de desvairados correndo para qualquer lado…), mas até sua inexistência é uma característica.

Em minha opinião, as propriedades emergentes, por si só, justificam que locutores e comentaristas refiram-se a times e seleções como entidades biológicas próprias, seres estranhos e míticos, com suas características particulares. E o esquema tático seria uma dessas propriedades emergentes. Se alguém puder pensar em outra, um comentário será muito bem vindo. Porém, antes de finalizar, creio que há ainda algumas palavras para fazer pensar um biólogo evolutivo.

Para que analisemos evolutivamente um time de futebol (não usarei aqui a palavra “seleção”, para não criar confusão com a seleção biológica…), esse superorganismo deveria, como um formigueiro, se reproduzir, e essa reprodução, quantificada, nos permitiria determinar a ocorrência ou não de processos seletivos. Contudo, os times não se reproduzem: os jogadores, organismos individuais, geram sua prole; e para piorar ainda mais a comparação, o filho de um jogador não será necessariamente jogador na seleção seguinte, e muito menos os jogadores atuais têm de ser filhos de jogadores mais velhos. Então, que características (se é que há alguma…) dos times de futebol podem ser analisadas evolutivamente? A resposta bem poderia ser, mais uma vez, as propriedades emergentes! Pensemos novamente no esquema tático. Temos aqui uma característica cultural, hereditária sem ser genética. O processo seletivo seria a taxa de propagação de um esquema tático, de uma unidade de tempo determinada para outra. Se um esquema tático é vantajoso, um maior número de equipes o adota num momento posterior. É claro que essa concepção tem um grande número de falhas: esquemas táticos vantajosos podem mudar subitamente por razões políticas, como a substituição do técnico, ou por questões contingenciais, como fulano ter se contundido. Ainda assim, seria um exercício interessante criar um cladograma de esquemas táticos, mostrando suas ramificações e mudanças com o passar do tempo. Fica aqui a dica.

3 comentários sobre “Futebol e superorganismos

  1. Isto min lembra, talvez não por acaso, o argumento que Dawkins defende no livro O Gene Egoísta (pág 93) sobre a analogia entre os remadores e genes, Talvez nesse sentido as equipes posam ser comparados com organismos, da mesma forma que os remadores da analogia feita pelo Dawkins. Não sei se nesse ponto estou errado mais cada jogador pode mais ou menos se replicar na medida em que se torna bem sucedido, por exemplo, se um bom zagueiro tem certas características que o tornam um bom zagueiro (e conseqüentemente favoreça seu time), talvez os treinadores das divisões de base comecem a selecionar seus garotos com as mesmas habilidades (e isso abre caminho para “mutações”) que este jogador (talvez seja por isso que vez ou outra se anuncie um novo Péle na equipe do Santos).
    Talvez se afirmar que uma equipe é ofensiva seja mesmo uma propriedade emergente, afinal de contas mesmo a equipe tendo zagueiros ela pode jogar no ataque, e isto vai emergi durante a partida.
    E voltando a questão da reprodução das partes, talvez o que realmente se reproduza seja as atitudes dos jogadores (a pedalada, a paradinha, a forma de reger a equipe, as técnicas de preparação física dos jogadore), tudo isso talvez se reproduza na mente do que será a próxima geração da equipe, assim como os memes do ultimo capitulo do livro citado.

  2. O blogue está expectacular. Com a comparação das formigas, do futebol e da água para explicar as entidades emergentes, fiquei a perceber do que é que se tratava.
    Excelente trabalho!

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