Heroínas desprezadas

Quem trabalha com biologia evolutiva, e principalmente quem ensina, direta ou indiretamente, esse ramo da biologia, já deve ter se deparado com uma dificuldade gigantesca: estabelecer que, uma vez que os organismos não foram criados seguindo um plano preestabelecido, não há sentido algum em falar de “funções” ou “papéis” de uma determinada espécie. Lembro-me de como me incomodavam aquelas aulas elementares de ecologia no primeiro grau (hoje em dia ensino fundamental), em que a professora dizia “o papel do capim é ser comido pela vaca”, e em seguida “o papel da vaca é ser comida pelo tigre”. Imaginamos o capim fazendo de tudo para ser comido por uma vaca: sinalizando, se mostrando acessível, oferecendo-se descaradamente e — caso possuísse sistema nervoso — implorando para a vaca: “me coma!”. O mesmo pode-se pensar da vaca, passeando languidamente em frente ao tigre, oferecendo suas ancas musculosas aos caninos proeminentes daquele.

É bastante claro que a professora não quis dizer isso, argumentarão alguns. Não concordo: a importância e o peso psicológico de um discurso mal elaborado vão além do que costumeiramente se imagina. É, de fato, bastante comum falarmos em ecologia sobre os “papéis” de determinadas espécies, como se elas estivessem lá para isso. Por essa razão, é imprescindível que o aluno compreenda que a grama, enquanto indivíduo, não “quer” (no sentido evolutivo) de forma alguma ser comida pela vaca, e toda uma série de modificações adaptativas surgiu, nessa corrida armamentista incessante, para tentar escapar, sem pés ou sem asas, daquela boca voraz.

Mesmo entre os círculos universitários ou entre os biólogos profissionais costumamos ouvir falar de papéis ecológicos. Coisas comuns, como o papel das minhocas na produtividade primária, ou o papel dos osmotróficos (fungos e bactérias) na decomposição da matéria orgânica, ou o papel das algas marinhas na produção de oxigênio atmosférico, são formas de discurso que, apesar de supostamente corretas, podem nos levar a inconscientemente (ou mesmo conscientemente, no caso de certos indivíduos…) achar que as algas existem “para” produzir o oxigênio atmosférico. Na verdade, as algas marinhas não se importam (e nem teriam como) com o metabolismo aeróbico dos indivíduos que dependem desse oxigênio. Quem pensa que o oxigênio é um composto que a fotossíntese libera “com o intuito” de permitir a sobrevivência dos aeróbicos não conseguirá perceber a complexidade do que ocorre na realidade: o oxigênio é um subproduto da oxidação da água (utilizada para reduzir o dióxido de carbono), e por sinal um subproduto tóxico, do qual as algas e as plantas querem se livrar o mais prontamente possível.

Foi isso que me veio à mente para responder a um aluno que me perguntou, na semana passada, qual a “função” dos mosquitos. Naturalmente, pedi para que ele repetisse a pergunta, dissimulando um não entendimento. Ele a refez, dizendo que queria saber qual o papel dos mosquitos na natureza. Executei o meu velho discurso, explicando que a noção de “função” e de “papel” ecológico que procuramos atribuir às espécies não é correta evolutivamente et coetera… Mas, dessa vez, finalizei a resposta com algo um pouco diferente: nós podemos atribuir, sim, um papel ecológico aos mosquitos, e por sinal um papel ecológico de importância incalculável nesse nosso malfazejo século XXI. Não estou me contradizendo; deixe-me explicar melhor:

Havia comprado há dois meses aproximadamente um livro muito interessante, que recomendo com prazer, intitulado “Insect Lives — Stories of mystery and romance from a hidden world”. É uma coletânea de diversos textos sobre insetos, desde artigos científicos até charges de jornal. Um dos artigos que mais me chamou a atenção foi “Sympathy for the devil”, de David Quammen, publicado originalmente na revista Outside, em 1981.

O argumento central de Quammen é simples, e vários de nós já o sentimos na carne: as mosquitas são o principal fator biológico para tornar as florestas tropicais praticamente insuportáveis para o ser humano moderno. A partir desse ponto usarei o termo mosquitas e não mosquitos, para que nos acostumemos a pensar nelas como fêmeas (é bastante comum que até mesmo em propagandas do governo, como em panfletos e outdoors, os mosquitos sejam caricaturados como machos. Mas não custa nada lembrar que em culicídeos tanto os machos como as fêmeas são nectívoros, ou seja, se alimentam de néctar; na maioria das espécies de culicídeos, contudo, as fêmeas podem tornar-se hematófagas durante a produção de seus ovos, alimentando-se do sangue de mamíferos prioritariamente, mas atacando também répteis ou até mesmo anfíbios).

As mosquitas não só transmitem uma série de doenças, desde protozooses como a malária, passando por helmintoses como a filaríase até viroses, como o dengue e a febre amarela: a própria picada das mosquitas em si, independente da transmissão de patógenos, pode ser absurdamente perturbadora. Em minha experiência na Amazônia, num acampamento às margens do rio Urubu, passei por certos momentos de grande incômodo, mas nada como a nuvem negra de mosquitas que havia imaginado antes da viagem; só algum tempo depois meu amigo Felipe Pessoa, entomólogo especializado exatamente em dípteros, me explicou que em rios de águas negras, como é o caso do Urubu, a coisa não é tão grave (em razão da acidez das águas). Segundo ele, se eu tivesse acampado numa região da Amazônia com rios de águas brancas, onde a taxa de picadas chega facilmente a várias milhares de picadas por hora, a coisa teria sido bem diferente…

"Anopheles stephensi" alimentando-se em um ser humano (Fonte: Science Photo Library).

Excetuando-se umas poucas e corajosas populações de paleoamericanos que conseguem viver nessas áreas, tal situação é praticamente insuportável para o colonizador europeu. Esse é o argumento central de Quammen: se não fosses as mosquitas, tornando as florestas insuportáveis para os seres humanos e espalhando a malária (que atualmente mata apenas 850 mil pessoas por ano, segundo a OMS) e outras viroses, as florestas equatoriais, como a amazônica, já teriam virado pastos, plantações de soja para gado ou seja lá o que a fúria destrutiva da revolução industrial inventasse. Segundo Quammen:

Tropical rainforest constitutes by far the world’s richest and most complex ecosystem, a boggling entanglement of life forms and habits and equilibriums and relationships. Those equatorial forests — mainly confined to the Amazon, the Congo basin and Southeast Asia — account for only a small fraction of the Earth’s surface, but serve as home for roughly half of  the Earth’s total Plant and animal species, including 2000 kinds of mosquito. But rainforests lately, in case you haven’t heard, are under siege.

They are being dear-cut for cattle ranching, mowed down with bulldozers and pulped for Paper, corded into firewood, gobbled up hourly by human development on the march. The current rate of loss amounts to eight acres of rainforest gone poof since you began reading this sentence within a generation at that pace, the Amazon will look like New Jersey. Conservation groups are raising a clamor, a few of the equatorial governments are adopting plans for marginal preservation. But no one and no thing has done more to delay this catastrophe, over the past 10000 years, than the mosquito.

Isso não é pouca coisa. Se não fossem as mosquitas, a floresta amazônica, bem como outras florestas equatoriais, já teria desaparecido.

Não estou desejando a morte de seres humanos, muito menos me felicitando por isso. Mas quem, senão a humanidade, deve ser responsabilizada pelo inacreditável número de sete bilhões de habitantes (e crescendo!)? É interessante como, em toda essa discussão atual sobre redução do consumo e a necessidade de desenvolvimento de hábitos sustentáveis, quase nenhuma atenção é dada ao problema do crescimento populacional humano. Do que adianta um determinado carro ser mais econômico e emitir menos gases estufa, se o número de automóveis em circulação é crescente? Recentemente calculei minha pegada ecológica num desses vários sites que realizam esse cálculo. Reciclo todo meu lixo reciclável, ponho todo meu lixo orgânico na compostagem que tenho no quintal, ando de moto elétrica (arriscando minha vida, enquanto muita gente dirige sozinha em SUVs que fazem menos de 6 km por litro), evito ao máximo comer carne (apenas lembrando, frango e peixe também é carne…), e assim por diante. Mesmo com tudo isso, o resultado foi que se todos os humanos tivessem meus hábitos de consumo, seria necessária 1,3 Terra para nos sustentar. Como é que eu posso mudar mais ainda meus hábitos? A questão não é essa, o problema na equação é outro: são tantos seres humanos que, mesmo que todos mudem para hábitos de consumo mais adequados e corretos, não há recursos para todos.

E a situação já estaria bem pior se não fossem as mosquitas.

10 comentários sobre “Heroínas desprezadas

  1. Quanto a discussão de como conceitos mal explicados podem ser pior do que não explicados eu pego do caso da “Hipótese de Gaia” que é uma das mais fortes correntes a estimular uma falsa ideia de que as espécies vivem em harmonia, que cada uma tem o seu papel e todas juntas e felizes se mantêm em equilíbrio. Vejo isso sendo ensinado até em cursos de graduação de biologia. Claro que da mesma forma da professora do seu exemplo, com a melhor das intensões.

    Ótima conclusão final. Sem uma mudança urgente na nossa concepção de espécie que se multiplica sem controle não adianta todos nós fazermos “nossa parte” como pregam os ambientalistas.

    O Breno fez um post interessante sobre este assunto:
    http://scienceblogs.com.br/discutindoecologia/2009/03/quer-salvar-o-planeta-nao-tenha-filhos.php

    Abraços e parabéns pelo blog.

    • Penso que não é errado se falar de função mitocondrial, pois diferentemente da relação entre indivíduos de que falei, as mitocôndrias perderam suas propriedades de organismo há muito tempo. Além disso, nessas relações mutualísticas, é comum usarmos o termo “função”.

  2. Ler esse post me fez lembrar do meu entusiasmo ao conhecer a Teoria da Evolução e mais sobre Darwin. Tive a sorte de conhecer ainda no começo do ensino médio. Depois disso, passei a me interessar e questionar mais as aulas dos professores de Biologia!

    Parabéns pelo post!

  3. Professor,tenho citar que a materia acima da nature citada pelo Luiz Bento tem lá sua lógica,Lógicamente vendo pelo seu ponto de vista os insentos sao de uma importancia imensa,diria até vital,mais há de se ressaltar que a matéria tambem mostra algum sentido pois ele leva em conta o papel do mosquito na natureza,levando em conta só o seu sistema biológico e não causas externas,logo se não fosse pela natureza predatória humana os insentos não teria funçao na natureza(de acordo com o artigo),oque automáticamente me leva a supor que se algum dia o ser humano evoluir ao estágio de harmonia com a natureza,os insentos seriam descartáveis.

    Obs: O artigo não deixa de ser pobre e xulo nas informaçoes,pois é tolice dos criadores do tal citar que os insetos não tem menor funçao no quadro crítico que o mundo vem tomando com a dominaçao da espécie humana.

    • Penso que o conceito de “papel na natureza” ou “função na natureza” é completamente equivocado e horrivelmente tendencioso. Por isso o artigo é sófrível. Além disso, segundo esse conceito de “papel na natureza”, o ser humano, não tendo nehum, também é descartável…
      PS: leia os comentários após o artigo, lá na página da Nature.

  4. Ainda sim professor, eu não sou muito conhecedor do assunto e a unica coisa que eu fiz foi interpretar, eu entendo plenamente seu ponto de vista de que a vida não necessita de função,a vida por si só já se explica sem necessidade de mais nada, mais ainda acredito que a máteria não tinha intenção de abordar tal assunto e muito menos tem a intençao de erradicar os insentos,tudo que ela fez foi supor quais seriam os problemas causados pela ausência dos insentos pudessem causar a NOSSA espécie e tudo que necessitamos a nossa volta,então continuo a dizer mesmo NÃO concordando com a máteria que ela possui um sentido.

    obs : Escrevi na pressa no intervalo do clássico paulista então desculpe a pontuaçao,erros ortográficos e falta de construçao no argumento.

    abraço.

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