Gould e a sistemática filogenética

Efetuei alguns ataques a certas idéias e concepções de Richard Dawkins em posts passados. Poderia até paracer que sou contrário às suas idéias, ou mesmo que eu antipatizo com ele; contudo, não é o caso. O “gene egoísta”, por exemplo, foi fundamental à minha estruturação como um amante da biologia e, principalmente, da biologia evolutiva, quando eu tinha por volta de dezesseis ou dezessete anos. As idéias de Dawkins eram água fresca e límpida para a minha sede, sobretudo quando postas tête-à-tête com a imensidão de absurdos que eu li e ouvi durante meu segundo grau (não consigo escrever ensino médio…). Certas passagens, como a que tratava dos replicadores nos mares primitivos ou a em que Dawkins atacava a seleção de grupo, me pareceram fundamentais e modificaram substancialmente a forma como eu entendia e pensava o processo evolutivo. Gostaria muito de ter ido ao encontro da Animal Behavior Society ano passado (no qual Dawkins estava presente) em Goiás, mas minha liseira, de caráter crônico, progressivo e degenerativo, não me permitiu.

Acontece que a gente cresce, não no sentido morfológico certamente, e nossas concepções a respeito do mundo e de seus processos vão se modificando com o tempo, se não drasticamente, pelo menos em um ou outro ponto (um colega meu comentou recentemente, citando alguém que não lembro, que se você pensa aos cinquenta da mesma forma que pensava aos vinte, você perdeu trinta anos…). Nossas leituras se acumulam, nossas estruturas mentais ganham volume, tornam-se mais complexas e mais refinadas. Disso tudo se percebe que não é de se esperar (e seria na verdade um grave problema) que eu mantivesse exatamente as mesmas opiniões teóricas de há quinze anos. Se não concordo com muitas das idéias de Dawkins é porque tenho atualmente uma concepção bem diferente da epistemologia e da filosofia das ciências, e não consigo deixar de ver um reducionismo indesejável em vários de seus conceitos. Do mesmo modo, minha concepção de níveis de seleção é bem mais refinada hoje do que então, e por isso sou incapaz de aceitar a visão genecêntrica de Dawkins assim, a granel, como muitos fazem.

Contudo, a leitura de Dawkins, como já deixei claro há pouco, foi fundamental para minha formação. Se hoje não concordo com muito do que ele diz, não posso por isso dizer que eu seria o mesmo sem ter lido tal ou tal obra sua; não seria. Isso eventualmente me faz questionar se eu devo ou não atacá-lo (cientificamente falando, é claro) da forma como faço, pois me pergunto se dessa forma não acabo desestimulando algumas pessoas que se interessavam por ler “o gene egoísta”, por exemplo, perdendo assim uma leitura que, pelo menos para mim, foi muito importante.

Estou cada vez mais desenvolvendo a mesma impressão em relação ao nosso simpático paleontólogo, que tantos biólogos instruiu, Stephen Jay Gould. Descobri Gould um pouco depois de Dawkins, já na faculdade; naquela época, todo mundo tinha lido “o polegar do panda”, ou “o sorriso do flamingo” etc… Lembro-me de que o primeiro de seus livros que li foi “a galinha e seus dentes”, por sinal uma péssima tradução, tendo em vista o título original. Desnecessário dizer que Gould foi fundamental para minha instrução como estudante de biologia (o que eu ainda sou…), e que muito de seu estilo de escrever e de seu modo de pensar marcou minha própria maneira de entender o processo evolutivo. Mas, como já falei antes, não sou mais o mesmo de há quinze anos, e não aceito mais a granel tudo o que leio; questiono muito mais e, retrospectivamente falando, estou bem mais capaz de perceber certas entrelinhas e vieses não muito explícitos.

Stephen Jay Gould (1941-2002), na contracapa de seu último livro, "The structure of evolutionary theory".

O que tem me incomodado nas releituras (é um agradável esporte esse, o de reler livros lidos há tanto tempo que já nem lembramos mais do conteúdo…) de Gould é a percepção de que ele costuma contrariar uma de suas principais observações, enfatizadas em praticamente todos os seus livros: os cientistas devem ser destituídos de preconceitos, de vieses, devem perceber-se como produtos de seu tempo e de sua sociedade, e tendo sempre em vista essa percepção devem tentar fazer uma ciência o mais adequada possível para a explicação dos fatos. Isso tudo é bastante correto e sensato, ninguém discordará. Mas, ao que me parece, a dificuldade de Gould em aceitar algumas teorias ou vertentes da biologia e especificamente da biologia evolutiva não estão relacionadas à teoria em si, mas sim ao que ela simboliza, à estrutura social em que ela foi criada, e até mesmo quem a defende (o que é claramente uma questão pessoal). Tentarei dar um exemplo preliminar: Gould nunca viu com bons olhos a sociobiologia de Edward Wilson e companhia. Em linhas gerais, Gould não aceitava a determinação genética de comportamentos complexos, vendo assim na sociobiologia uma espécie de determinismo. Muito bem, eu também já deixei claro no início dessa nota e em outras ocasiões que não simpatizo com reducionismos, e posso dizer que também não gosto de determinismos, mas a questão não é essa: quer eu goste ou não, se houver evidências a favor das hipóteses, se elas forem plausíveis e aprovadas pelos testes científicos, temos que aceitá-las. O determinismo do darwinismo social, por exemplo, está errado por uma série de fatos, e não pelo fato de se tratar de um determinismo. Se Dawkins nos provar que os genes são a única unidade seletiva válida, teremos que aceitar isso, mesmo eu antipatizando com a filosofia do reducionismo e, no caso particular, do genecentrismo. Não quero aqui iniciar uma análise da sociobiologia e das críticas de Gould a ela; quero apenas expressar minha opinião de que o que incomodava Gould era a filosofia determinista da sociobiologia, estando a sociobiologia correta ou não. Lembro-me de uma famosa frase de Nélson Rodrigues, acerca de uma opinião futebolística sua: “E podem me dizer que os fatos provam o contrário, que eu vos respondo: pior para os fatos!”

Outro exemplo: em “Ever since Darwin”, num texto denominado “The nonscience of human nature”, o que me parece um ataque meio grosseiro, Gould critica Lorenz e a etologia porque, a seu ver, Lorenz é um determinista. Diz ele (p. 237):

Nonetheless, we have been deluged during the past decade by a ressurgent biological determinism, ranging from pop ethology to outright racism. With Konrad Lorenz as a godfather, Robert Ardrey as dramatist, and Desmond Morris as raconteur, we are presented with man, “the naked ape”, descended from an African carnivore, innately aggressive and inherently territorial.

De fato, Lorenz já escreveu algumas coisas comprovadamente incorretas. Contudo, quem está acostumado com suas obras, principalmente com “The natural science of the human species”, sabe que ele não é um determinista. Mas mesmo que ele tenha sido, isso não importa: o que importa é estabelecer se as hipóteses estão corretas ou não.

Mas o que mais me tem chamado a atenção nos textos mais recentes de Gould, e particularmente no último de seus livros (alguns outros foram publicados postumamente), “The structure of evolutionay theory”, de 2002, o ano de sua morte, é a completa falta de qualquer citação, explicação, comparação, correlação ou qualquer outro “ão” em relação à sistemática filogenética.

“The structure” é um verdadeiro tijolo de 1433 páginas, uma extensão incomum para um livro dessa natureza. Com toda a sua erudição, que não é pouca, Gould trata de uma infinidade de temas relacionados à biologia evolutiva. É uma leitura agradável, como quase todos os livros de Gould, mas bem num estilo bem mais seco que o normalmente encontrado em suas as famosas coletâneas de artigos. Ainda assim, a despeito do tamanho da obra, não há uma única passagem sobre sistemática filogenética. Antes de atingir o meio do livro, curioso, dei uma olhada no índice remissivo, para verificar. Cladística, nada… Grupos monofiléticos, nada. Sistemática filogenética, nada. Willi Henning, nada. Apomorfia, sinapomorfia, merofilético, nada. Porém, achei em “sistemática”, uma pequena alusão à cladistica. Está na página 605. E, diga-se, é uma crítica (em relação a um aspecto bem pontual da sistemática filogenética).

Many evolutionary biologists have failed to recognize that the so-called cladistic revolution in systematics rests largely upon this insistence that spe­cies (and all taxa) be defined as discrete historical individuals by branching (leading to the rule of strict monophyly) — and not as classes with “essential” properties by appearance (leading to the acceptance of paraphyletic groups). Many biologists reject (and regard as nonsense) the cladistic principle that no species name can survive the branching off of a descendant — and that both branches must receive new names after such an event, even if the ancestral line remains phenotypically unchanged. But this counterintuitive rule makes sense within cladistic logic — for cladists define new entities only as products of branching (the word clade derives from a Greek term for branch). A trans­forming species that does not branch cannot receive a new name even if the final form bears no phenotypic resemblance or functional similarity to the original ancestor. Thus, if such extensive transformation occurs in un-branched lineages, a cladist, by failing to designate a truly different anatomy with a distinctive name, retains the technical individuality of species at the price of a severe assault against legitimate intuition.

Quando Gould começou a publicar suas primeiras obras, na década de 70, a sistemática filogenética ainda era incipiente. Mas o mesmo não se pode dizer no século XIX. É óbvio que Gould era conhecedor da sistemática filogenética: num artigo em que ele ataca as análises cladísticas dos fósseis de Burgess Shale, intitulado “The disparity of the burgess shale arthropod fauna and the limits of cladistic analysis: why we must strive to quantify morphospace”, Gould cita o livro de Hennig, “Phylogenetic systematics”. Certamente ele o leu. Então, por que essa resistência de Gould em falar sobre sistemática filogenética?

No artigo sobre Stephen Jay Gould da Wikipédia alega-se que Gould nunca adotou a sistemática filogenética, “possibly because he was concerned that such investigations would lead to neglect of the details in historical biology, which he considered all-important”. Devido à questões de entropia, fica um pouco difícil mandar um e-mail para o Gould e perguntar se é mesmo por essa razão. Mas, se for, e eu penso que é, trata-se (além de uma hostilidade um tanto gratuita…) do que eu falei no início: Gould não seguiu seu próprio conselho.

“tijolo”

Um comentário sobre “Gould e a sistemática filogenética

  1. Recentemente ao preparar um texto sobre um assunto totalmente diferente consultei “A Estrutura” de Gould e me deparei com uma dessas raras passagens em que ele aborda a sistemática filogenética. Ela se encontra nas páginas 820-822, e, na minha opinião, seu conteúdo vai diretamente ao encontro do que você trata em seu texto. O referido trecho faz parte de uma seção na qual Gould expõe testes empíricos que comprovam o equilíbrio pontuado. No trecho especificamente Gold revela que sob a ação do equilíbrio pontuado é de se esperar o surgimento de um padrão cladístico recheado de politomias, pois a formação de sucessivas espécies a partir de um ancestral comum que permanece em estase por um longo tempo não poderia ser representada em um cladograma. Dessa forma Gould defende que as politomias podem ser explicadas pela ação do equilíbrio pontuado (“hard” politomies) bem como pela clássica ausência de dados que permite resolvê-las (“soft” politomies). Gould cita a existência de um método para diferenciar os dois tipos de politomias, elaborado por Wagner e Erwin (1995), mas pelo que eu entendi ele não o explica. Não consegui encontrar ainda o texto original de Wagner e Erwin embora meu interesse seja grande, principalmente após ler seguinte trecho do mesmo citado por Gould: “Our preferred cladogram for lophospirids [o táxon estudado – gastrópodes da famíla Lophospiridae] is rife with politomies”. Isso mesmo: “Nosso cladograma preferido […] está cheio de politomias”. Infelizmente a entropia não nos permite perguntar a Gould se teria sido essa uma das causas da sua frustação com a sistemática filogenética, mas acho uma idéia válida perguntar a Wagner e/ou Erwin como anda a história das politomias e se alguém já resolveu as que se encontram em seu cladograma preferido.

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