We are the fishes, my friend

Deposito uma grande esperança na sistemática filogenética não apenas como uma ferramenta poderosa para os cientistas que trabalham direta ou indiretamente com biologia evolutiva, zoologia, botânica, micologia etc., mas sobretudo como uma sistemática que possibilite uma visão mais adequada por parte dos estudantes, tanto dos colégios como das universidades, do que vem a ser a diversidade biológica, e especialmente do que foi a história evolutiva do planeta. Numa palavra, deposito uma grande esperança no aspecto didático da sistemática filogenética, que possa finalmente alçar a biologia, pelo menos na visão dos estudantes, a um ramo das ciências caracterizado pela estruturação, pela coerência e pela lógica, e não pela imensidão de memorizações de bobagens erradas e ultrapassadas, que caracterizou a biologia nos meus anos de aluno de segundo grau, na década de oitenta.

Não me refiro aqui ao ensino da sistemática filogenética propriamente dita, que muitos alunos não encaram com bons olhos; na verdade, quase tudo que é obrigatório e principalmente descontextualizado cai nessa categoria de chato e maçante. Refiro-me à utilização dos conceitos da sistemática filogenética nos outros ramos da biologia, na sua utilização durante as aulas de genética, de biologia molecular, de ecologia, mas principalmente nas disciplinas responsáveis pelo estudo direto da biodiversidade: microbiologia, micologia, botânica e zoologia. É nessas últimas que uma sistemática mais moderna e robusta pode e provavelmente fará uma grande diferença.

O que está acontecendo hoje em dia, contudo, é uma espécie de mistura entre a abordagem antiga e a nova… Para ser mais sincero ainda, a impressão que se tem é que os livros e demais materiais didáticos do ensino médio (e por que não dizer, alguns textos universitários) estão tratando de sistemática filogenética mais pela obrigação de tratarem desse assunto que por afinidade propriamente dita, e que se mostram incapazes de se livrar de antigas muletas e organizar a biodiversidade de forma mais adequada, tendo em vista a história evolutiva dos organismos. Deixe-me exemplificar o que eu estou alegando: a maioria dos livros do ensino médio já cita os táxons Eubacteria e Archeobacteria, mas praticamente todos (até onde eu saiba, são todos; esse “praticamente” foi apenas um adorno para evitar uma frase mais grosseira) os livros ainda trazem um capítulo intitulado de “Reino Monera”, ou “Os moneras”, mostrando que são claramente incapazes de se livrar de um grupo parafilético, principalmente quando se trata de um termo com um longo tempo de uso, com uma grande tradição.

Posso dar vários outros exemplos: normalmente os alunos vão do riso à incompreensão quando dizemos que não existem “répteis”. É claro que não estamos defendendo que os crocodilos, as cobras, as tartarugas, os lagartos e as anfisbênias não existam, que sejam frutos de nossa imaginação fértil. É óbvio que não. O fato é bem mais simples, Reptilia é um agrupamento parafilético, e como tal deve ser evitado. Porém, duvido muito que ao menos pelos próximos dez ou vinte anos os livros de ensino médio, as apostilas de pré-vestibular ou os planos de aula dos colégios mudem a sua tradicional programação: anfíbios, répteis, aves, mamíferos… Até a sequência é a mesma! Herança dessa infausta scala naturae.

Exemplos de grupos parafiléticos que os livros e professores recusam-se em abandonar abundam: gimnospermas, invertebrados, agnatos, pteridófitas, briófitas, poríferos, turbelários, apterigotos, dicotiledôneas, procariontes, artiodáctilos e muitos outros. Mais grave ainda, não faltam sequer exemplos de grupos polifiléticos: protozoários é um termo comumente usado em salas de aula; o que dizer do ubíquo “algas”? Não por acaso, ambos são normalmente arremessados num grupo denominado Protista, que ainda dá as caras em praticamente (eufemismo outra vez…) todos os livros de biologia.

Quase todos os biólogos defendem a eliminação de grupos polifiléticos, substituídos por agrupamentos monofiléticos mais adequados. Contudo, alguns cientistas dizem não ser necessária a eliminação de grupos parafiléticos, principalmente aqueles cujo uso e tradição já estão bem estabelecidos, como Reptilia por exemplo. Sou contrário a essa idéia. No meu entender, só deveríamos manter os grupos monofiléticos (clados), e em seguida reagrupar adequadamente os grupos merofiléticos, tanto os parafiléticos como os polifiléticos. Se a tradição é um argumento válido, por que não passamos a ensinar de vez em salas de aula a scala naturae? Nada mais tradicional.

O grupo que dá título a esta breve nota é exatamente um dos mais tradicionais, e logo um dos que mais teremos dificuldade em reformar adequadamente: “peixes”. Todos sabemos se tratar de um grupo parafilético, na verdade não apenas um, mas vários (Pisces é parafilético; Agnatha é parafilético; Osteichthyes é parafilético), mas ainda assim seu uso é extremamente comum. Que fazer?

Comparação entre a sistemática tradicional (esquerda) e a sistemática filogenética (direita). Perceba que, nessa última, nós somos Osteichthyes (fonte: "Analysis of vertebrate structure", Hildebrand & Goslow, 5th edition).

Penso que a primeira coisa é deixar bem claro para os estudantes que “peixes” é um grupo parafilético, assim como “peixes ósseos” também o é. Isso é importante, mas não representa nenhuma grande mudança, uma vez que nós iremos continuar usando o termo “peixes” e, em nossas cabeças, imaginar os peixes como sendo um grupo (“aqueles bichos que vivem na água, que têm escamas, respiram por brânquias blá-blá-blá…”) e os tetrápodos como sendo outro grupo. Renomear o grupo para torná-lo monofilético é impraticável, do mesmo jeito que seria impraticável renomear os répteis. A solução pode ser mais simples, e mesmo assim mais difícil de ser aceita: do mesmo jeito que Reptilia torna-se monofilético se agrupar as aves, Osteichthyes tornar-se-ia monofilético se agrupar um conjunto de organismos tradicionalmente deixado de fora, mas que não são outra coisa senão peixes ósseos: nós! Nós, os tetrápodos, como eu e você.

Essa mudança estará completa no dia que o professor, tanto no ensino médio como nos cursos universitários, disser “agora iremos estudar os répteis”, e só considerar o módulo concluído quando as aves também tiverem sido discutidas. Da mesma forma, quando o professor disser “turma, passaremos agora a falar dos peixes ósseos”, e em seguida mostrar que a turma irá estudar os actinopterígeos, os dipnóicos, os anfíbios, os mamíferos e os répteis (incluindo as aves), ele estará tratando os “peixes ósseos” da forma correta, como um grupo monofilético, que nesse caso deve ser um grupo que nos inclua.

5 comentários sobre “We are the fishes, my friend

  1. Gerardo,

    o Poug já inclui aves em Reptilia. Mas, é incrível com nossa professora de Cordados prefiriu tratar-se de répteis, excluindo aves. Acho que, ao lado dos ajustes dos cladogramas (estabelecimento de grupos monofiléticos), precisamos disponibilizar acompanhamento psicológico para tratar esse Complexo de scala nature.

    Gostei do texto.
    Abraço.

    • No, I don’t, those are original writings of mine; you can use them, but please quote me as the author.
      By the way, do you read in portuguese? Or are you automatically translating the posts using Google or something like that?

  2. Pingback: Baleia é peixe? « Vertebrata

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