Sobre uma nova forma de ver o mundo: ratos e baratas.

Fico na indecisão sobre uma ou outra, mas de fato as duas coisas são uma só: será que eu gosto tanto de falar sobre cladogramas por causa das características e propriedades desses sistemas ou por que os cladogramas deitaram uma boa pá de cal nessa herança capenga e nefasta que é a scala naturae? Que ambas as opções são uma e a mesma é fácil perceber quando se estuda a sistemática filogenética e, sobretudo, quando se concebe as conseqüências absurdas que emanam da utilização da “great chain of being”.

A scala naturae é absurda não apenas porque ela é biologicamente errada, mas sobretudo porque ela é injusta e moralmente inaceitável. Para grande parte dos machos adultos e brancos, é difícil perceber à primeira vista essa injustiça, pois o que pode haver de errado em ser considerado o mais perfeito dos seres, o apogeu da criação, em ser petulantemente alçado ao topo do mundo, à elite? Nada mais natural, pois a maioria de nós se vê com muito bons olhos e se pinta com cores mais belas do que o realismo aconselharia (como disse Hamlet para Polonius, “use every man after his desert, and who should ‘scape whipping?”). Mas como seria para um africano, no século XIX ou mesmo no século XX, observar a scala e se ver abaixo do europeu, qualquer que seja o europeu? Como seria para uma mulher se ver abaixo dos homens machos, apenas por ser mulher? E como seria, se após um hercúleo trabalho fôssemos capazes de romper a barreira comunicativa da etologia cognitiva e conseguíssemos nos comunicar com os chimpanzés ou bonobos, a tentativa de explicar para eles que sua posição é acima do gorila mas abaixo de nós, abaixo dos negros e das mulheres, ou quem sabe das mulheres negras?

Talvez tenha sido um exagero meu falar em pás de cal, pois a scala naturae ainda está bem viva no imaginário de boa parte das pessoas, quando essas divagam sobre a biodiversidade… Ainda assim, a presença dos cladogramas em salas de aula, cada vez mais comum, é um movimento felizmente sem volta, que se aplicado e compreendido corretamente nos fará de uma vez por todas abandonar termos como plantas superiores, plantas inferiores, animais superiores, mais evoluídos e menos evoluídos.

O que um cladograma nos mostra é muito claro: estamos todos conectados por (diversos) graus de descendência comum. As regras para a interpretação de um cladograma são simples, e apenas duas: dados dois elementos A e B, há um ancestral comum a A e B; dados três elementos, A, B e C, há um ancestral comum a dois desses elementos e que não é ancestral do terceiro. Com isso, e com a devida paciência, todos os mais complexos cladogramas podem ser interpretados, seus grupos monofiléticos podem ser visualizados, e com o tempo e o uso a determinação de clados será quase que automática por parte do estudante.

Mas um dos maiores ganhos do estudante é enterrar em seu imaginário a scala naturae. O homem não veio do macaco, nem o macaco veio do homem; ambos compartilham um ancestral, apenas isso. Ambos representam extremidades dos ramos de um cladograma, ambos têm o mesmo “tempo” de distância ao último nó compartilhado. Essa interpretação, como é bem sabido, retira o ser humano de seu pedestal e o deposita numa posição bem mais humilde, lado a lado com os outros organismos que compõem a diversidade biológica. E não podemos subestimar a importância dessa representação, a capacidade que ela terá em modificar a maneira pela qual as futuras gerações (se é que existirão tais…) tratará os outros organismos desse planeta.

A relação dos homens com os outros organismos, e em especial com os outros animais, é um dos mais importantes temas da antropologia, etologia, psicologia, história, filosofia etc., e tem uma importância inquestionável nos dias de hoje. Não quero discutir aqui as causas das relações de dominação e degradação do ambiente natural, ou da tirania humana em relação à diversidade animal. Inúmeros e excelentes textos já foram escritos sobre isso, desde Plutarco até Peter Singer. As razões e causas psicológicas para essa tirania são inúmeras e complexas, envolvendo desde aspectos religiosos a distorções histórico-científicas. O que quero discutir aqui é outra coisa: como o estudo de cladogramas pode contribuir para um comportamento mais saudável em frente à diversidade biológica.

Em sala de aula, é bem interessante observar o comportamento do Homo sapiens em relação a alguns outros organismos vivos. Quando aparece uma barata, por exemplo, é um verdadeiro pandemônio: gritos, pessoas se descabelando, uivos de desespero, choro e ranger de dentes. A dificuldade, o trabalho hercúleo, é fazer as pessoas perceberem uma barata como um inseto. Parar, por um minuto que seja, e observar a “insetitude” do animal: suas antenas, o aparelho mandibular, as quatro asas saindo do seu tórax, a inconfundível “falta de cintura”, como nas joaninhas… Sim, joaninhas: por que as pessoas não fogem de joaninhas como de baratas? “Porque as baratas andam no esgoto”. Vale lembrar que o esgoto é humano, e as fezes são humanas… e que coleópteros (grupo das joaninhas) também comem fezes. O que tento fazer, normalmente sem sucesso, é pedir para que eles tentem visualizar uma barata em seu ambiente de adaptação natural: onde elas vivem, o que elas comem, como se locomovem? Trazer a barata para seu ambiente natural é a primeira forma de mostrar para as pessoas que esses animais não surgem abiogeneticamente nos esgotos.

Uma barata (Blattaria) em seu ambiente de adaptação natural (fonte: Flickr).

Algo semelhante ocorre com os ratos. Como estudante de biologia e sobretudo de evolução, não consigo deixar de achar “bonita” quase nenhuma forma de vida (os parasitas, especialmente os parasitas intestinais e sanguíneos, constituem um caso à parte), e sim, antes que me perguntem, as baratas estão inclusas. Mas os ratos são mais interessantes ainda: são mamíferos, como nós; cobertos de pêlo, limpando os bigodes, coçando as orelhas com a pata, amamentando seus filhotes… O rato não desperta a simpatia do camundongo, mas mesmo assim não se justifica o terror. A mesma comparação que fiz da barata com a joaninha pode ser feita entre o rato e o esquilo: por que o encanto pelo último e o terror pelo primeiro? Devido ao fato dos ratos viverem em esgotos? Mais uma vez se faz necessário tentar imaginar os ratos em seu meio natural de adaptação, levando suas vidas, fazendo o que fizeram por muito tempo, antes da origem das cidades (que não têm mais de 11 mil anos). Não estou aqui defendendo a obrigatoriedade de se achar os ratos animais bonitos, apesar de ter falado disso no início do parágrafo, do mesmo modo que não defendi essa opinião em relação às baratas. Não estou falando de beleza, e sim de compreensão biológica, ou melhor, compreensão zoológica. Ver o “roedorismo” nos ratos da mesma forma que nos esquilos, e ver a “insetitude” nas baratas da mesma forma que nas joaninhas, insetos dos quais ninguém (ainda) sai correndo. Ratos e baratas transmitem doenças não por uma particularidade biológica deles, mas sim por uma particularidade biológica nossa. Não esqueça que o animal que mais transmite doenças para um ser humano é outro ser humano.

Um rato marrom comum observa a noite.

O que a análise de cladogramas pode fazer nesses casos é bem superior ao que nos permitia a sistemática clássica. Sim, na sistemática clássica os ratos também eram mamíferos, mas também não eram mamíferos os leões, as baleias, os gorilas e os chimpanzés, e mesmo assim não estavam abaixo do homem, subordinados ao homem? A barata também era um inseto, mas nas representações gráficas vinham invariavelmente abaixo dos vertebrados.

Num cladograma de dois elementos, baratas e homens, temos um nó e dois ramos. Temos um grupo monofilético, compartilhando homologias. O parentesco é algo real, visível. O mesmo se dá entre seres humanos e ratos, sendo que nesse último caso as homologias são bem mais claras para a grande maioria dos alunos, as apomorfias bem mais facilmente determinadas.

O respeito pela biodiversidade deve ser completo. Não há como se respeitar o esquilo sem se respeitar o rato, nem como respeitar a joaninha sem se respeitar as baratas. Isso talvez seja possível quando a maioria das casas tiver fossas ecológicas ou fossas verdes, e as cidades deixarem de ser imensos centros produtores de fezes. Contudo, há que se gastar muito dinheiro para isso…

Fico na indecisão sobre uma ou outra, mas de fato as duas coisas são uma só: será que eu gosto tanto de falar sobre cladogramas por causa das características e propriedades desses sistemas ou por que os cladogramas deitaram uma boa pá de cal nessa herança capenga e nefasta que é a scala naturae? Que ambas as opções são uma e a mesma é fácil perceber quando se estuda a sistemática filogenética e, sobretudo, quando se concebe as conseqüências absurdas que emanam da utilização da “great chain of being”.

A scala naturae é absurda não apenas porque ela é biologicamente errada, mas sobretudo porque ela é injusta e moralmente inaceitável. Para grande parte dos machos adultos e brancos, é difícil perceber à primeira vista essa injustiça, pois o que pode haver de errado em ser considerado o mais perfeito dos seres, o apogeu da criação, em ser petulantemente alçado ao topo do mundo, à elite? Nada mais natural, pois a maioria de nós se vê com muito bons olhos e se pinta com cores mais belas do que o realismo aconselharia (como disse Hamlet para Polonius, “use every man after his desert, and who should ‘scape whipping?”). Mas como seria para um africano, no século XIX ou mesmo no século XX, observar a scala e se ver abaixo do europeu, qualquer que seja o europeu? Como seria para uma mulher se ver abaixo dos homens machos, apenas por ser mulher? E como seria, se após um hercúleo trabalho fôssemos capazes de romper a barreira comunicativa da etologia cognitiva e conseguíssemos nos comunicar com os chimpanzés ou bonobos, a tentativa de explicar para eles sua posição é acima do gorila mas abaixo de nós, abaixo dos negros e das mulheres, ou quem sabe das mulheres negras?

Talvez tenha sido um exagero meu falar em pás de cal, pois a scala naturae ainda está bem viva no imaginário de boa parte das pessoas, quando essas divagam sobre a biodiversidade… Ainda assim, a presença dos cladogramas em salas de aula, cada vez mais comum, é um movimento felizmente sem volta, que se aplicado e compreendido corretamente nos fará de uma vez por todas abandonar termos como plantas superiores, plantas inferiores, animais superiores, mais evoluídos e menos evoluídos.

O que um cladograma nos mostra é muito claro: estamos todos conectados por (diversos) graus de descendência comum. As regras para a interpretação de um cladograma são simples, e apenas duas: dados dois elementos A e B, há um ancestral comum a A e B; dados três elementos, A, B e C, há um ancestral comum a dois desses elementos e que não é ancestral do terceiro. Com isso, e com a devida paciência, todos os mais complexos cladogramas podem ser interpretados, seus grupos monofiléticos podem ser visualizados, e com o tempo e o uso a determinação de clados é quase que automática por parte do estudante.

Mas um dos maiores ganhos do estudante é enterrar em seu imaginário a scala naturae. O homem não veio do macaco, nem o macaco veio do homem; ambos compartilham um ancestral, apenas isso. Ambos representam extremidades dos ramos de um cladograma, ambos têm o mesmo “tempo” de distância ao último nó compartilhado. Essa interpretação, como é bem sabido, retira o ser humano de seu pedestal e o deposita numa posição bem mais humilde, lado a lado com os outros organismos que compõem a diversidade biológica. E não podemos subestimar a importância dessa representação, a capacidade que ela terá em modificar a maneira pela qual as futuras gerações (se é que existirão tais…) tratará os outros organismos desse planeta.

A relação dos homens com os outros organismos, e em especial com os outros animais, é um dos mais importantes temas da antropologia, etologia, psicologia, história, filosofia etc., e tem uma importância inquestionável nos dias de hoje. Não quero discutir aqui as causas das relações de dominação e degradação do ambiente natural, ou da tirania humana em relação à diversidade animal. Inúmeros e excelentes textos já foram escritos sobre isso, desde Plutarco até Peter Singer. As razões e causas psicológicas para essa tirania são inúmeras e complexas, envolvendo desde aspectos religiosos a distorções histórico-científicas. O que quero discutir aqui é outra coisa: como o estudo de cladogramas pode contribuir para um comportamento mais saudável em frente à diversidade biológica.

Em sala de aula, é bem interessante observar o comportamento do Homo sapiens em relação a alguns outros organismos vivos. Quando aparece uma barata, por exemplo, é um verdadeiro pandemônio: gritos, pessoas se descabelando, uivos de desespero, choro e ranger de dentes. A dificuldade, o trabalho hercúleo, é fazer as pessoas olharem uma barata como um inseto: parar, por um minuto que seja, e observar a “insetitude” do animal: suas antenas, o aparelho mandibular, as quatro asas saindo do seu tórax, a inconfundível “falta de cintura”, como nas joaninhas… Sim, joaninhas: por que as pessoas não fogem de joaninhas como de baratas? “Porque as baratas andam no esgoto”. Vale lembrar que o esgoto é humano, e as fezes são humanas… e que coleópteros (grupo das joaninhas) também comem fezes. O que tento fazer, normalmente sem sucesso, é fazer com que eles visualizem uma barata em seu ambiente de adaptação natural: onde elas vivem, o que elas comem, como se locomovem? Trazer a barata para seu ambiente natural é a primeira forma de mostrar para as pessoas que esses animais não surgem abiogeneticamente nos esgotos.

Algo semelhante ocorre com os ratos. Como estudante de biologia e sobretudo de evolução, não consigo deixar de achar bonita quase nenhuma forma de vida (os parasitas, especialmente os parasitas intestinais e sanguíneos, constituem um caso à parte), e sim, as baratas estão inclusas. Mas os ratos são mais interessantes ainda: são mamíferos, como nós; cobertos de pêlo, limpando os bigodes, coçando as orelhas com a pata, amamentando seus filhotes… O rato não desperta a simpatia do camundongo, mas mesmo assim não se justifica o terror. A mesma comparação que fiz da barata com a joaninha pode ser feita entre o rato e o esquilo: por que o encanto pelo último e o terror pelo primeiro? Porque os ratos vivem em esgotos? Mais uma vez se faz necessário tentar imaginar os ratos em seu meio natural de adaptação, fazendo o que fizeram por muito tempo, antes da origem das cidades (que não têm mais de 11 mil anos). Não estou aqui defendendo a obrigatoriedade de se achar os ratos animais bonitos, do mesmo modo que não defendi essa opinião em relação às baratas. Não estou falando de beleza, e sim de compreensão biológica, ou melhor, compreensão zoológica. Ver o “roedorismo” nos ratos da mesma forma que nos esquilos, e ver a “insetitude” nas baratas da mesma forma que nas joaninhas, insetos dos quais ninguém (ainda) sai correndo. Ratos e baratas transmitem doenças não por uma particularidade biológica deles, mas sim por uma particularidade biológica nossa. Não esqueça que o animal que mais transmite doenças para um ser humano é outro ser humano.

O que a análise de cladogramas pode fazer nesses casos é bem superior ao que nos permitia a sistemática clássica. Sim, na sistemática clássica os ratos também eram mamíferos, mas também não eram mamíferos os leões, as baleias, os gorilas e os chimpanzés, e mesmo assim não estavam abaixo do homem, subordinados ao homem? A barata também era um inseto, mas nas representações gráficas vinham invariavelmente abaixo dos vertebrados. Num cladograma de dois elementos, baratas e homens, temos um nó e dois ramos. Temos um grupo monofilético, compartilhando homologias. O parentesco é algo real, visível. O mesmo se dá entre seres humanos e ratos, sendo que nesse último caso as homologias são bem mais claras para a grande maioria dos alunos, as apomorfias bem mais facilmente determinadas.

O respeito pela biodiversidade deve ser completo. Não há como se respeitar o esquilo sem se respeitar o rato, nem como respeitar a joaninha sem se respeitar as baratas. Isso talvez seja possível quando a maioria das casas tiver fossas ecológicas ou fossas verdes, e as cidades deixarem de ser imensos centros produtores de fezes. Ah, mas há que se gastar muito dinheiro para isso…

3 comentários sobre “Sobre uma nova forma de ver o mundo: ratos e baratas.

  1. Oportuno, elucidativo, o texto-post Sobre Uma Nova Forma de Ver o Mundo … ao citar as cidades como imensos produtores de fezes realça a pista, o insight, em que coloquei-me a observar, sobre a propensão de ativamento do click da contenção natural duma espécie pelo volume de excrementos que climaticamente a afoga. Vendo igrejas lindamente a “boiar” sobre esgôtos (em bairros e bairros e bairros, em cidades e cidades) e as pessoas como que completamente imersas em imensa poluição ambiental, quanto de tempo, e dinheiro, jogamos fora em vidas jogadas fora, em desperdício por atolamento em crenças e completa falta de instrução e educação civil e científica?

  2. Interessante, já tinha parado pra pensar nesses seres pelo que eles são, seres vivos,são desagradáveis e até nocivos para nós ,mas tem o direito de existir, só faltou falar dos pombos

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