As palavras e as coisas

Não, eu não vou escrever sobre Foucault. Meu objetivo nesta presente e curta nota é bem mais simples e pontual, e mesmo assim não se pode descrevê-lo como destituído de controvérsias. Nomeadamente, este objetivo é descrever como a necessidade de nomear as coisas e as estruturas pode levar a complicações gratuitas e desnecessárias na biologia evolutiva.

Certamente temos que dar nome às coisas (para não falar nos fenômenos e nas atividades) que estudamos e descrevemos. Não podemos usar apenas dêiticos e adjetivos para nomear toda a infinidade de estruturas que existem no mundo vivo, se quisermos ter uma comunicação científica minimamente adequada (ainda assim, é enorme o número de estudantes que acha que certos nomes complicados foram inventados com a expressa intenção de dificultar a vida dos alunos…). Nomeamos as estruturas tanto com raízes gregas modificadas, às vezes com a adição de alguns elementos de latim, como com palavras comuns próprias de nossa língua.

Costumamos nomear as estruturas do mundo vivo nos baseando em suas funções, ou em suas supostas funções. As asas de uma mosca, por exemplo, só têm esse nome por causa da sua relação com o vôo, pois seria bem mais adequado um nome mais técnico, como notoplaca ou algo que o valha. Ainda falando de moscas, denominamos-lhes os apêndices torácicos de patas tendo em vista apenas sua função (não consigo esquecer de Sócrates e Cairefonte tentando calçar as patinhas de uma pulga com botinhas de cera, numa das passagens mais fantásticas de Aristófanes…), e chamamos de pêlos as projeções filamentosas de seu exoesqueleto apenas porque se parecem com os pêlos dos mamíferos, que são estruturas bem diferentes, oriundas da atividade mitótica de células epiteliais. Alguns outros nomes, por razões filológicas e etimológicas, são completamente inadequados, pois abandona-se uma nomenclatura técnica em favor de uma denominação histórica. O que dizer de pâncreas, que significa “todo carne” (παν κρεας)? Um caso ainda mais curioso: fígado, em latim, é iecur; denominava-se iecur ficatum o fígado de aves engordadas com iguarias como figo. Com o tempo, foi-se o substantivo e ficou apenas o adjetivo, ficatum. Ósculo, a abertura da espongiocele nos poríferos, significa boquinha (do latim os, com o sufixo do diminutivo neutro, -ulum).

"Pêlos" no corpo de uma mosca-das-frutas, 'Drosophila busckii'.

E aqui, portanto, surgem os problemas. Por que a adequada denominação das estruturas seria tão fundamental e importante para a biologia evolutiva? Porque, na biologia evolutiva, estudamos diferentes organismos, diferentes entidades biológicas, cujas estruturas e componentes mudam radicalmente ao longo do tempo. Assim, uma das principais tarefas da biologia evolutiva (e certamente da sistemática filogenética) é dar conta de toda essa biodiversidade, e explicar, da melhor maneira possível, a história evolutiva das entidades biológicas, esclarecendo e detalhando suas relações de parentesco.

Quando o biólogo evolutivo tenta estabelecer as relações de parentesco entre diferentes taxons, dois conceitos fundamentais devem estar bem claros: as homologias e as homoplasias. O conceito de homologia é unificador, pois evidencia que as entidades biológicas possuidoras de uma determinada estrutura compartilham um ancestral comum, que lhes forneceu a estrutura em questão. Não menos importante é o conceito de homoplasia, que nos mostra que uma dada estrutura pode ser compartilhada por razões outras que a ancestralidade comum. Citando literalmente o prof. Dalton Amorim, em seu já clássico “Fundamentos de sistemática filogenética”:

Homoplasia: s.f., Relação de semelhança entre estruturas em indivíduos ou espécies distintas presente em cada um deles devido à ocorrência independente, em níveis de generalidade distintos, de modificações que resultaram na condição apomórfica semelhante.

Desta forma, poderíamos muito bem dizer que os pêlos de uma mosca e os pêlos de um mamífero são uma homoplasia, pois se trata de uma condição apomórfica semelhante. Mas precisamente aqui reside meu argumento e minha contestação: até que ponto há semelhança estrutural entre o pêlo de uma mosca e o pêlo de um mamífero, se hipoteticamente conseguirmos nos livrar por um instante do nome “pêlo”? Qual o papel do nome “pêlo” em nossa imagem mental da estrutura? Quanto a esse ponto já havia alertado o prof. Charles Morphy, em um artigo sobre homologia, quando diz que “existem asas de aves, de pterossauros, de morcegos, de insetos, asas de aviões e asas da imaginação”.

Considero que não há relação alguma entre os pêlos de um mamífero e os pêlos de uma mosca, ou seja, que essas estruturas não são nem homólogas nem homoplásicas, simplesmente porque são estruturas completamente distintas. Para uma demonstração do que quero defender, pergunte a si mesmo: “as folhas de uma laranjeira e o fêmur de um rinoceronte são estruturas homólogas ou homoplásicas?” Fiz um exemplo propositadamente exagerado, para mostrar que é perfeitamente cabível a resposta “nenhum dos dois”. Tratando-se de estruturas tão notadamente diferentes, não cabe aqui a determinação de homologia ou de homoplasia.

Uma objeção ao meu argumento seria dizer que, quando definimos como homoplasias o pêlo de uma mosca e o pêlo de um mamífero, a asa de um gafanhoto e a asa de uma coruja, o ósculo de uma esponja e a boca de um tubarão, a pata de uma aranha e a pata de um cachorro, estamos esclarecendo para o aluno que essas estruturas não são compartilhadas nos diversos organismos citados por estarem presentes em seus ancestrais comuns, ou seja, que não se trata de semelhança por descendência. Mas a mesma mensagem seria enviada se disséssemos que não é nem uma homologia nem uma homoplasia, pois já quando definimos não se tratar de uma homologia estamos deixando bem claro que a estrutura em questão não ocorria no ancestral comum dos organismos considerados.

O que me preocupa, nesses casos, é que o aluno não perceba que o nome “pêlo” é histórica, antropológica, social, linguística e filologicamente restringido, e que independente de seu nome a estrutura em questão deve ser adequadamente compreendida: anatomicamente, histologicamente, ontogeneticamente, molecularmente etc…

Convém, portanto, chamar os “pêlos” das moscas de cerdas. Bom, isso evitaria uma série de mal entendidos… Mas espere um instante: qual a relação das cerdas das moscas com as cerdas dos ctenóforos? E a coisa não tem mais fim…

2 comentários sobre “As palavras e as coisas

  1. Muito bom esse texto, Gerardo.

    Desde que me entendo como estudante de biologia que penso: o que, as vezes, complica tanto o ensino desta disciplina, nem são seus processos elaborados (até porque os mesmos muitas vezes não nos são exigidos em testes, avaliações et coetera), mas a capacidade que pequenos nomes possuem de travar, por motivos vários, nosso raciocínio.

    Não podemos apenas decorar os nomes das coisas, se não sabemos exatamente o que as coisas são. Se uma pessoa sabe o meu nome apenas, não sabe quase nada sobre mim. Se há outra pessoa com o meu nome, ela não será obrigatoriamente igual a mim, mesmo que tenha nascido no mesmo dia. E foi ai que seu texto se destacou. O nome importa a princípio – continuando nossa analagia, é uma das primeiras palavras que falamos ao conhecer alguém-, mas a função, origem embrionária… da estrutura é o que realmente importa em nosso estudo.

    Realmente muito bom o texto,

    Abraço

  2. O caso clássico das asas é mesmo interessante. Muitos dizem que as asas dos morcegos e dos pássaros são convergentes enquanto asas porém homólogas enquanto membros anteriores, mas o nome que nós damos a essa estrutura não altera a história evolutiva pela qual ela passou.

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