Os 150 anos de “On the origin of species”

Nunca fui de dar muita importância para datas “redondas” (os 100 anos do nascimento de alguém, os 10 anos de algum campeonato, os 40 anos de alguma tragédia…), mas compreendo a importância que certos números têm para o imaginário de nossa espécie. O Réveillon, por exemplo, é apenas uma noite como outra qualquer, mas é interessante pensar que ela é imbuída de um significado especial.

Em 24 de novembro de 2009 comemora-se o aniversário de cento e cinqüenta anos da publicação de “A origem das espécies”, de Charles Darwin, cujo título completo é On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life. Custando quinze Shillings, 1170 exemplares das 1250 cópias impressas foram postos à venda, e esgotaram-se quase que imediatamente. Em vida, Darwin fez seis edições de sua obra mais famosa, modificando gradualmente uma ou outra passagem do texto, realizando pequenas correções ou mesmo incorporando considerações a críticas e comentários. Por exemplo, a famosa expressão “survival of the fittest”, criada por Herbert Spencer, só aparece na “Origem das espécies” a partir da quinta edição. Não há nem sinal dela na primeira edição.

Charles Robert Darwin (1809-1882)

Tive o prazer de ler “A origem das espécies” pela primeira vez numa excelente publicação da Harvard University Press (veja na página prateleira), que é um fac-símile da primeira edição, de 1859. Antes do fac-símile propriamente dito, há um interessante prefácio de Ernst Mayr. Sei que é normal um autor modificar gradualmente sua obra, e que dessa forma muitos costumam considerar as últimas edições, contendo as revisões finais do autor, como as melhores. Isto é válido para um grande número de obras e de escritores, mas penso (e não estou sozinho…) que “A origem das espécies” contraria essa regra. Por diferentes razões, considero a primeira edição da “Origem” a melhor, a que mais evidencia o espírito revolucionário das idéias de Darwin. Em muitos aspectos, Darwin abrandou seus argumentos nas edições posteriores, chegando a retirar nessas edições algumas de suas alegações originais. Bastante compreensível, quando se tem em mente a imensa pressão que Darwin sofreu, vinda dos mais diversos ramos da sociedade, em seus últimos 20 anos de vida.

Infelizmente não há, até onde eu saiba, tradução em português da primeira edição de “A origem das espécies”. Todas as edições em português (e a imensa maioria das edições em inglês) são traduções da sexta edição, considerada por vários críticos a pior de todas. Assim, para comemorar esta data, gostaria de disponibilizar alguns links para materiais referentes à primeira edição.

Para os heróis que conseguem ler sentados em frente ao monitor, no excelente e completíssimo site The complete Work of Charles Darwin online que, como o nome diz, contém praticamente tudo que foi escrito por Darwin (inclusive diários e correspondências), pode-se ler a primeira edição de “A origem das espécies”. Para quem tem uma banda beeeem larga, uma cópia em pdf da primeira edição pode ser baixada. O arquivo é enorme porque não é um arquivo de texto, e sim a imagem fotográfica de cada página.

Contudo, para aqueles que querem um pdf menor, ou para os afortunados que já têm um leitor eletrônico, há um arquivo com o texto integral da primeira edição, que pode ser baixado aqui.

Nunca gostei do termo “darwinismo”, pois o que estudo é biologia evolutiva. Tal distinção é importante, pois estamos tratando de uma ciência, com suas vicissitudes, e não das idéias de um homem apenas. Essa por sinal é uma concepção de quem não compreende o processo científico, e acha que Galileu está acima da física, que Darwin está acima da biologia, que Lavoisier está acima da química ou que Hutton está acima da geologia. Logicamente não estão: seu papel foi grandioso, e inauguraram cada um a seu modo um novo ramo do saber. Esses saberes, em suas constantes elaborações e melhorias, foram deixando certos paradigmas ultrapassados e inadequados. Quando se lê o “Sidereus nuncius”, de Galileu, ou “A origem das espécies”, da Darwin, se percebe uma série de conceitos e de paradigmas obsoletos. Isso, contudo, não diminui a genialidade de seus autores, nem o prazer em sua leitura.

4 comentários sobre “Os 150 anos de “On the origin of species”

  1. Uma diferença interessante entre os textos da 1ª e da 6ª edição reside no trecho final da obra:

    “There is grandeur in this view of life, with its
    several powers, having been originally breathed into a few forms or into one (…)” – 1ª edição

    “There is grandeur in this view of life, with its several powers, having been originally breathed by the Creator
    into a few forms or into one (…) ” – 6ª edição

    Como nos é lícito perceber, C. R. fez questão de creditar, em sua 6ª edição, a origem das primeiras formas de vida a “the Creator”; detalhe inexistente na 1ª edição…

    Outro ponto interessante a ser percebido são as referências que Darwin faz, ao longo do livro, à “scale of nature” – como em:

    “I am tempted to give one more instance showing how plants and animals, remote in the scale of nature, are
    bound together by a web of complex relations.”

    “The dependency of one organic being on another, as of a parasite on its prey, lies generally between beings remote in the scale of nature.”

    “It is probably from this same cause that organic beings low in the scale of nature are more variable than those which have their whole organisation more specialised, and are higher in the scale.”

  2. Gerardo,
    sou ou era seu aluno (não sei ao certo definir pois o ano não acabou porem já passei no vestibular) e não estou fazendo um comentário mas sim um pedido para você fazer um post sobre o método científico e outro sobre teoria dos jogos. Por favor não é combrança apenas dois pedidos dos quais você é livre para realizar ou não.
    Por último agradeço seu papel como meu professor e por ter aberto uma vontade muito grande de conhecimento e de verdades que ganhei este ano tão produtivo.
    Obrigado!

    • diego,
      tenho ainda que ler muito e comer bastante feijão pra ser capaz de escrever sobre teoria dos jogos, pois a matemática é muito pesada e já se vão 20 anos desde que eu cursei cálculo I… mas prometo que vou tentar. Tenho um excelente livro sobre esse assunto escrito pelo Maynard-Smith, mas que nunca li e cuja matemática vai além das minhas capacidades. além disso, há o aprazível “behavioral ecology”, do Krebs e Davies, que tem muitas informações interessantes sobre teoria dos jogos, gerenciamento de recursos, evolução e ecologia. Vou ver se acho uma parte interessante dele pra fazer um post. prometo que quando der (e já estamos quase de férias…) escreverei algo sobre teoria dos jogos, ou antes disso um artigozinho curto sobre o “dilema dos prisioneiros”, pra iniciar uma discussão do tipo “altruísmo versus egoísmo”, como um aperitivo, ok?
      abraços.

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