Onde situar os ancestrais comuns?

O homem não veio do macaco. Todo biólogo sério deve ser capaz de explicar didaticamente esse enunciado, mesmo que não seja um especialista em biologia evolutiva – um botânico, um bioquímico, um zoólogo, um parasitologista, um ecólogo, enfim… – e, de preferência, explicar também que o macaco não veio do homem; Explicar que o homem (Homo sapiens) e o macaco (Macaca mulatta) são dois animais diferentes, duas espécies distintas, e que estão historicamente unidas por um outro motivo: compartilham um ancestral comum. A compreensão deste fato, de que o homem não veio do macaco – e de que muito menos o macaco veio do homem – é uma das premissas para afundar de vez a concepção de scala naturae, infelizmente ainda tão comum. O que se deve ter em mente é relativamente simples: dados dois elementos quaisquer, A e B, há um ancestral comum a ambos, e dados três elementos quaisquer, A, B e C, há um ancestral comum a dois deles e que não é ancestral do terceiro. Com essas regras simples em vista, constrói-se mentalmente uma árvore que deve ser capaz, depois de certo tempo, de enterrar essa “great chain of being”.

Mas um problema geralmente se impõe: as pessoas têm que visualizar esse ancestral comum. Apesar de não desejável, essa é uma atitude plenamente normal, e até mesmo esperada quando se trata do comportamento do ser humano: não basta dizer que dois seres quaisquer A e B têm um ancestral comum; esse ancestral tem que ser imaginado, desenhado mentalmente, sua imagem e sua gestalt têm que ser sentidas, pois afinal é com elas que boa parte dos estudantes irá construir a idéia de um ancestral comum. Daí a indagação: como, e “onde”, classificar esse ancestral comum? Em que grupo inserí-lo? Essas são perguntas que devem ser respondidas. O problema é que quando tentamos imaginar a gestalt do ancestral comum (próximo) de homens e macacos é mais provável que imaginemos um primata muito mais parecido com um “macaquinho”; quando tentamos imaginar o ancestral comum de musgos e samambaias, é mais provável que visualizemos uma plantinha como um musgo; e quando tentamos fazer o mesmo com o ancestral comum do atum e do tigre, imaginaremos uma espécie de “peixe”… E isso, infelizmente, favorece toda sorte de concepções equivocadas sobre a história evolutiva (estou falando, não poderia deixar de ser, da scala naturae).

Classificar o ancestral comum, uma vez que se trata de uma entidade biológica real, que num dado momento existiu, é certamente uma necessidade. Mas essa classificação pode gerar uma série de incorreções e de raciocínios deturpados que minarão seriamente a capacidade do estudante de compreender o processo evolutivo. Isso fica particularmente claro quando se usa a sistemática clássica, e penso que esse é um dos principais argumentos a favor do uso da sistemática filogenética em detrimento dessa já capenga sistemática clássica. Senão vejamos:

A sistemática clássica trabalha com categorias taxonômicas. Seja qual for o taxon estudado, deve haver uma categoria taxonômica a ele associada. Tomemos como exemplo os vertebrados terrestres. Segundo a sistemática clássica, temos quatro Classes: Mammalia, Aves, Reptilia e Amphibia. Onde então seria classificado o ancestral, digamos, do homem e da iguana? Se esse ancestral era um vertebrado terrestre, ele deve possuir uma determinada Classe (assim como uma Ordem, uma Família etc.), e deve portanto ser enquadrado numa das quatro Classes existentes. Historicamente, como é bem conhecido, esse ancestral era inserido na Classe Reptilia. A partir daí, é normal e quase obrigatório dizer que “os mamíferos vieram dos répteis”. A mesma situação teríamos ao se pensar no ancestral comum ao jacaré e ao sapo: esse ancestral seria enquadrado na Classe Amphibia, e daí mais que normal dizer que “os répteis vieram dos anfíbios”.

O problema que surge aqui, como se torna fácil perceber, é que não se pode querer classificar o ancestral comum de dois grupos dados num dos dois grupos. Nem num terceiro, se for de uma categoria de mesmo nível (por exemplo: “o ancestral comum de um animal da Classe Mammalia e de um animal da Classe Aves era um animal da Classe Reptilia”). Não se pode classificar o ancestral comum de briófitas e pteridófitas como uma briófita, nem o ancestral comum de répteis e anfíbios como um anfíbio (em seu tempo: para piorar ainda mais as coisas na sistemática clássica, vários desses grupos que denominei são parafiléticos. Isso, contudo, é assunto para outra ocasião). Criar taxa novos, apenas para conter os ancestrais, seria pior ainda. A sistemática clássica, com suas categorias taxonômicas engessadas, é incapaz de classificar adequadamente os ancestrais, e acaba infelizmente contribuindo para a manutenção dessa concepção absurda de scala naturae.

Em sistemática filogenética, os clados (ou grupos monofiléticos) contém todas as formas ancestrais. No esquema acima, os clados são formados não só pelos terminais (as pontas dos ramos), mas também pelos seus ancestrais, contidos na área colorida.

A solução que a sistemática filogenética dá para esse problema é simples e elegante, mas devemos avisar de antemão que, em algumas situações, sua compreensão não é nada fácil, e requer um considerável esforço mental. A resolução é a seguinte: um grupo monofilético é formado pelo conjunto de todos os elementos derivados de um determinado ancestral comum, incluindo o próprio ancestral comum e todos os demais ancestrais dele derivados. Assim, tomando-se um clado (isto é, um grupo monofilético) qualquer, o ancestral comum dos elementos daquele clado pertence àquele mesmo clado, o que na verdade é bem lógico, uma vez que o ancestral comum possui, como seus descendentes, as apomorfias que definem aquele grupo. Vamos exemplificar, para tornar a compreensão mais fácil: o ser humano é um amniota, e a iguana é um amniota. O ancestral comum do ser humano e da iguana, portanto, era um amniota. Ele possuía todas as apomorfias, assim como nós e as iguanas, que definem e distinguem os amniotas. Do mesmo modo, os répteis são tetrápodos, assim como os anfíbios. Dessa forma, o ancestral de répteis e anfíbios era um tetrápodo, e como tal possuía as características que definem os tetrápodos como um grupo monofilético. A coisa toda, portanto, é bastante simples e lógica, e não precisamos recorrer a nenhuma scala naturae ou coisas do tipo. Todos os descendentes de um dado ancestral estão com ele no mesmo clado. O ancestral dos tetrápodos era um tetrápodo, o ancestral dos amniotas era um amniota, e o ancestral dos mamíferos era um mamífero. Nada de dizer que os primeiros tetrápodos foram os anfíbios, nem que as primeiras plantas foram os musgos. Perceba que na sistemática clássica a necessidade de atribuir categorias taxonômicas para o ancestral fará, inevitavelmente, que o ancestral seja posto num taxon com vários de seus descendestes, mas que outros descendentes seus estejam num taxon diferente, o que é inadmissível.

Para finalizar, há um empecilho que devemos trazer à tona: o problema da sistemática filogenética é que ela requer nomes. Muitos nomes. Uma vez que a quantidade de clados que se pode construir é inimaginavelmente grande, nos deparamos às vezes com certos grupos taxonômicos cujos nomes não são conhecidos ou sequer foram criados, o que deixa o estudante perdido na hora de enquadrar mentalmente um dado ancestral comum. O pior, contudo, se dá quando a denominação do grupo monofilético considerado é tal que pode levar a interpretações erradas. Tomemos, para exemplificar, um ser humano e um atum. O ser humano e o atum formam um grupo monofilético, mas infelizmente um grupo monofilético cujo nome pode ser bem enganador para alguns: Osteichthyes! Quando se fala em osteíctio, muita gente pensa em peixes ósseos apenas. Contudo, o termo Osteichthyes é usado para definir o grupo monofilético que contém os actinopterígeos e os sarcopterígeos, sendo esse último por sua vez o grupo que contém todos os tetrápodos. Logo, por mais estranho que seja, você, um elefante e uma coruja são Osteichthyes, ou seja, “peixes ósseos”.

4 comentários sobre “Onde situar os ancestrais comuns?

  1. Que delícia de texto!!

    Muito bem escrito e muito claro! Não sei se achei assim tão claro por eu ser bióloga, mas fiz questão de divulgar! Difícil encontrar um texto tão orgânico que consiga esclarecer muitas das construções erradas feitas nas escolas…

    O sr. é biólogo pesquisador?

    Parabéns mais uma vez!

    Lydia Getschko

  2. Bem exclarecedor seu texto. Porém tem um pequeno equívoco em relação aos Osteichthyes. Esse grupo na verdade é um grupo parafilético, contudo, ele ainda é usado de forma didática (e também na forma tradicional), para englobar os Sarcopterygii e Actinopterygii. Quando abrange os tetrápodas também, não se usa o termo Osteichthyes, mas sim Teleostomi. Sendo assim, elefante e coruja não é Osteichthyes e sim Teleostomi!

    • Oi, Victor, entendo o que você disse, mas muitos paleontologistas e sistematas usam Osteichthyes como sinônimo de Euteleostomi, enquanto grupo monofilético. Esse foi o uso que eu fiz de Osteichthyes (=Euteleostomi). Mas você tem razão, se eu tivesse usado Euteleostomi haveria menos espaço para mal-entendidos.
      Abraço,

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