Ainda há quem fale em “sequência evolutiva correta”…

Lá vou eu, de novo, investir feito um Quixote contra o moinho da Scala Naturae. Esse monstro-conceito continua bastante vivo nos dias de hoje, para quem achava ser uma curiosidade histórica de uma epistemologia pré-Darwin, tanto nos falares dos alunos como nos dos professores, tanto implícita como explicitamente, tanto de forma consciente como de forma inconsciente.

Estava lendo um artigo do professor Dalton Amorim, uma das maiores autoridades brasileiras em sistemática filogenética, intitulado “Paradigmas pré-evolucionistas, espécies ancestrais e o ensino de zoologia e botânica” (em “Ciência & Ambiente”, n. 36, 2008), em que se discute os anacronismos (para sermos gentis…) comuns no ensino da zoologia e da botânica. Um trecho em particular me interessou:

A compreensão deficiente do conceito de filogenia tem implicações tanto na pesquisa quanto no ensino. Quando um agrupamento que não corresponde a uma unidade histórica — tecnicamente, um grupo que não seja monofilético — é equivocadamente tomado como tal, muitas das inferências feitas com base nesse tipo de “grupo” são equivocadas. Não apenas as conclusões a que se chega são errôneas, mas também se perde o poder preditivo que a filogenia como ferramenta gera. Alguns docentes de diferentes níveis de ensino, incluindo universitário, dizem que ministram Zoologia na seqüência evolutiva.

Tantas e tantas vezes já ouvi isso! Temos que ensinar os grupos “na sequência correta”, ou então “na sequência evolutiva”, ou pior, “na sequência em que surgiram”… Por Zeus, o que diabos é uma sequência evolutiva correta? Vamos examinar essa questão em maiores detalhes.

Não resta dúvida que a sobrevivência atual da Scala Naturae não só impede o aluno (e os professores…) de visualizar as relações evolutivas de forma mais adequada, como principalmente o mantém preso a um paradigma que leva, necessariamente, a interpretações incorretas e absurdas. Em primeiro lugar, devemos deixar bem claro para os iniciantes em biologia evolutiva ou em zoologia (área do exemplo que estamos trabalhando, mas poderíamos ter aqui qualquer outro campo de estudo biológico) que grupos atuais não deram origem a grupos atuais; ou seja, tomando os nove filos classicamente estudados no ensino médio, não há o menor sentido em falarmos que existe uma sequência evolutiva do tipo Porifera → Cnidaria → Platyhelminthes → Nematoda → Mollusca → Annelida → Arthropoda → Echinodermata → Chordata (perceba que a coisa ficou bastante estranha no final…). Ou seja, não há sentido algum em falarmos que os poríferos deram origem aos cnidários, nem que os cnidários deram origem aos platelmintos, e assim por diante. É imprescindível, com 150 anos de biologia evolutiva e 50 anos de sistemática filogenética, que abandonemos imediatamente esse paradigma, principalmente no que se refere às atividades pedagógicas, direta ou indiretamente relacionadas à sala de aula.

Interpretando um cladograma, o que podemos concluir de forma válida é que grupos são monofiléticos, e quais os graus de parentesco entre determinados grupos. Apenas isso. Não podemos nem sequer precisar quando um determinado bauplan surgiu (para isso, precisamos das informações da paleontologia). Dessa forma, os diversos filos animais poderiam ser “ensinados” em qualquer sequência, uma vez que é necessário que haja uma. A maioria dos professores vai se revoltar contra o que acabei de afirmar, mas a quebra de paradigmas, processo doloroso, envolve naturalmente essas resistências e defesas.

Cladograma generalizado dos principais grupos animais.

Cladograma generalizado dos principais grupos animais.

Há alguma facilidade em se ensinar zoologia na sequência clássica, isto é, poríferos, cnidários etc.? Sim, veremos que há uma série de facilidades, mas elas devem ser exploradas de forma bastante cuidadosa, pois do contrário o aluno (e o professor…) irá imprudentemente achar que grupos atuais originam grupos atuais. Tomando o cladograma generalizado dos filos animais, apresentado acima, podemos traçar algumas vantagens que temos ao se ensinar os filos, denominados no topo do cladograma, na ordem da esquerda para a direita.

  • As apomorfias deixadas “de fora”, em uma aula sobre um determinado filo, são progressivamente mais complexas (aqui caberia um questionamento sobre o que se entende por mais complexo, mas vamos aceitar provisoriamente…). Assim, numa aula sobre poríferos, são deixados de fora os animais com tubo digestivo; numa aula sobre cnidários, ficam fora os animais com simetria bilateral, e assim por diante.
  • Essas apomorfias deixadas “de fora” numa determinada aula definem grupos monofiléticos. Assim, numa aula sobre poríferos, sobra o grupo monofilético Eumetazoa; numa aula sobre cnidários, sobra o grupo monofilético Bilateria, e assim por diante.

Contudo, há uma série de problemas quando se tenta justificar, a todo custo, a adoção de uma “sequência evolutiva correta”, ou, para aqueles que já têm algum conhecimento de sistemática filogenética mas que não conseguem abandonar certos hábitos, uma “sequência didática tradicional”. O primeiro é que, tomando um nó no cladograma, temos sempre um ramo no qual se identifica uma apomorfia, indicando que o outro nó leva a organismos que possuem aquele caráter na condição plesiomórfica. Contudo, estamos aqui nos referindo a apenas uma condição homóloga de caráter: certamente o outro ramo tem apomorfias próprias. Exemplificando no cladograma da figura acima, há apomorfias próprias dos Porifera, não encontradas em qualquer outro grupo animal (lembre-se que estamos falando de apomorfias: a propriedade “ausência de tecido nervoso”, por exemplo, ou a mais comum em salas de aula, “ausência de tecidos verdadeiros”, não é uma apomorfia em poríferos, e sim a simples manutenção de uma condição ancestral — a não ser que se trate da perda de uma característica previamente existente).

O segundo problema, muito mais grave, é que a partir de um dado nó saem dois ramos, e nenhum critério nos pode assegurar que um dos ramos seja mais importante que o outro, nem mesmo a biodiversidade de cada ramo. Isto é particularmente claro quando se chega aos Bilateria: o ramo dos protostomados é tão complexo quanto o ramo dos deuterostomados. O professor pode, sem problema algum, trabalhar os deuterostomados inicialmente (cordados e equinodermos), e deixar os protostomados (anelídeos, artrópodes, moluscos etc.) para o final do curso. Mas duvido que alguém consiga fazer isso sem que chovam as mais diversas reclamações, tanto no ensino médio como, o que é pior, no ensino universitário.

Ao ensinar táxons (sejam eles quais forem), ao escrever um livro ou uma apostila, ao preparar um plano de aula, o professor tem que escolher uma sequência para seus assuntos, isso é inevitável, não há como fugir. Na zoologia, ou na botânica, ou na micologia, o professor tem que determinar a sequência em que os grupos serão estudados. Porém, penso que é fundamental que ele deixe bem claro para seus alunos que a sequência escolhida não reflete uma “sequência evolutiva”, coisa que não existe em biologia evolutiva, e que, se há alguma razão ou vantagem didática na sequência determinada, que ele explique e evidencie essas razões.

13 comentários sobre “Ainda há quem fale em “sequência evolutiva correta”…

  1. Outro problema em relação particularmente ao reino animal e que torna essa noção de “sequência evolutiva correta” mais absurda ainda é que um consenso entre os pesquisadores sobre as relações filogenéticas entre os principais grupos deste reino está longe de ser atingido. Temas chave que poderiam tornar essa discussão mais clara para estudantes como a explosão do Cambriano e a biologia evolutiva do desenvolvimento são simplesmente ignorados nos currículos.

  2. Outra “sequência evolutiva” muito citada encontramos no reino das plantas. Nesse caso os táxons são descritos na clássica ordem: Briófitas, Pteridófitas, Gimnospermas e Angiospermas, mas diferentemente do que ocorre no reino animal, essa sequência é de certa forma coerente quanto a abordagem de certos padrões característicos desse reino, como o aumento na duração da fase esporofítica em relação a gametofítica no ciclo vital e um aumento geral na diversidade de espécies.

    Lembro bem dos bons tempos da olimpíada de Biologia quando o Gerardo nos explicou que uma vantagem da fase diplóide sobre a haplóide seria a presença de uma cópia extra de cada gene na primeira, uma analogia com um HD reserva em um computador. Essa característica, junto com várias outras, como embrião protegido por semente, polinização por insetos, resistência a perda de água, são distinguíveis no nível de organismo. Poderíamos então com base nisso desconsiderar o domínio das Angiospermas no reino Plantae como um caso de seleção no nível de clado?

    • só há um probleminha, ricardo: ao que parece, o predomínio da fase esporofítica é uma característica ancestral nas plantas… assim, os grupos de briófitas (pois não se trata de um taxon monofilético) eram originalmente como as demais plantas, e ao longo de sua história evolutiva passaram a ter a fase gametofítica como predominante. não sei em que pé está a aceitação dessa abordagem, mas é algo interessante para se pesquisar.

      • Gerardo, você está se referindo ao fato de algumas algas verdes apresentarem um ciclo de vida haplodiplonte com a fase diplóide predominante? Se for esse o caso, você acha que isso é evidência suficiente para se aceitar que o predomínio da fase esporofítica seja uma apomorfia em plantas?

      • ricardo,
        não sei o que você está falando sobre as algas verdes… li que os ancestrais das briófitas tinham a fase esporofítica como dominante num artigo da nature, há muito tempo, no site da revista.
        abraço.

  3. Estou a montar uma aula de Aves e Mamíferos e estou tentando tomar bastante cuidado com essa coisa coisa de “sequencia evolutiva correta!” Só fiquei com uma dúvida no seu texto – O que você quer dizer com: “grupos atuais não deram origem a grupos atuais” ????

    grata

    • Oi Lígia,
      o que eu quero dizer é bem simples: nós, humanos, não viemos dos macacos. Macacos (Macaca mulatta) são uma espécie atual, e nós (Homo sapiens) somos uma espécie atual. O que podemos dizer é que macacos e humanos têm um ancestral comum. Da mesma forma, dizer que os répteis vieram dos anfíbios é um absurdo…

      • Sua resposta me fez recordar de uma questão de prova na época que eu ainda cursava Zoologia 4 na faculdade. Esta começava assim: Os homens não vieram dos macacos, são macacos. Explique a afirmação.
        Neste contexto, a questão estaria errada???

        Desculpe mas não pude resistir pra fazer outra pergunta agora em relação ao parentesco de aves e Dinossauros:
        São inúmeros os caracteres que enquadram os dromeossauros como o grupo mais próximo das aves.
        Assim, é correto considerar Aves uma ramificação especializada deste grupo de dinossauros, certo?
        Porém… Pelo fato de Aves pertencer ao clado dinossauria, e todos os outros animais dentro deste clado estarem extintos, podemos considerar as aves como os únicos dinossauros viventes?

        Ps: Virei fã de carteira do blog!

  4. Olá boa noite!! Primeiro parabéns pelo blogger. Sou principiante em biologia evolutiva e estou com uma dúvida que está me tirando o sono…rsrs Bem, eu posso dizer que o ramo de deu origem aos Poríferos surgiu primeiro que o ramo que deu origem aos Platelmintos?

    • Oi, Diêgo, a resposta para essa sua pergunta pode ser sim ou não, depende de como a pergunta for estruturada.
      Um nó se divide em dois ramos. Por isso, quando o ancestral dos animais deu origem, para um lado, ao ramo que foi formar os poríferos e, para o outro lado, ao ramo que foi formar os Eumetazoa, nos quais os platelmintos estão incluídos, os dois ramos surgiram exatamente ao mesmo tempo. Nesse caso, a resposta é não.
      Mas se você estiver falando do ramo exclusivo dos platelmintos, que surgiu bem depois do surgimento da bilateralidade, a resposta é sim: quando esse ramo surgiu o ramo dos poríferos já houvera, há muito, surgido.
      Mas tudo isso fica mais complicado ainda por causa do seguinte fato: os poríferos são, muito provavelmente, um grupo parafilético.
      Abraço,

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