Sobre cães, raças e preconceito

Um colega meu, que asseguro ser uma das mais promissoras mentes que conheço, me fez recentemente uma pergunta particularmente desconcertante quando se trata do conceito de espécie, e em particular ao uso do que chamamos de Conceito Biológico de Espécie (CBE), de Ernst Mayr: constituem as diferentes raças de cães uma só espécie, ou devemos considerá-las como espécies distintas?

Como todo biólogo que se preza sabe, esse é apenas um dos problemas que o CBE enfrenta. Coincidentemente, eu havia lido, na mesma semana, um artigo de Steve Mirsky na Scientific American, intitulado “Are dog breeds actually different species?”. Para quem não conhece, Mirsky é um comediante, e escrevia a extinta coluna “antigravity”; porém, apesar das galhofas, ele levanta questionamentos sérios. Nesse artigo em particular ele finda defendendo a opinião de que as diferentes raças deveriam, sim, ser consideradas espécies distintas, e mais uma vez baseando-se no critério da falta de cruzamentos entre determinadas raças.

Minha opinião é oposta: não se pode dizer que as diferentes raças de cães constituam espécies distintas com base nos cruzamentos. Como todos sabem, inseminações podem ser feitas, promovendo a mixagem de qualquer raça com qualquer outra raça. Além disso, quando se fala que o chiuaua não cruza com o mastiff, esquece-se que estamos aqui lidando com exemplos extremos: o chiuaua pode cruzar com o poodle, o poodle pode cruzar com o labrador, e o labrador pode cruzar com o mastiff. Em outras palavras, há (ou pode haver) fluxo gênico entre o chiuaua e o mastiff.

Atualmente, há uma tendência entre os biólogos evolucionistas, baseados em dados genéticos e em outras informações da biologia molecular, de considerar não apenas todas as raças de cães como uma só espécie, mas todos esses cães domésticos como variedades de Canis lupus, eliminando-se assim o status de espécie do Canis familiaris. Independentemente da posição preferida, e esse é um debate interessante para se discutir certos conceitos elementares da biologia evolutiva, o que me interessa neste pequeno ensaio é outro aspecto da questão “raças ou espécies”, geralmente relegada ao segundo plano: qual o significado biológico do termo raça? O que é uma raça, se é que existe tal entidade biológica?

Um chiuaua corajoso faz uma proposta a uma mastif... (da Scientific American de junho)

Um chiuaua corajoso e nada modesto faz sua proposta amorosa a uma mastiff… (fonte: Scientific American de junho)

Há um texto muito bom de Stephen Gould, bem didático e conciso, intitulado “Why We Should Not Name Human Races – A Biological View” (do livro ever since Darwin), em que ele argumenta que não há sentido biológico em atribuirmos valor taxonômico para raças ou para subespécies. Muitos argumentam que as raças, incluindo-se aí as raças humanas, são evidentes. “o que é evidente”, responde Gould, “são as variações geográficas”. O que temos aqui são histórias evolutivas distintas, levando a certas variações em padrões genéticos. Denominar as raças seria não só contraproducente como também enganador, pois o fluxo genético pode rapidamente misturar, distribuir ou alterar esses padrões genéticos. Devido às suas histórias evolutivas, os ameríndios têm certas características distintas dos africanos, ou dos europeus, dou dos australóides. Certos padrões genéticos distinguem um ameríndio de um africano ou de um europeu, de forma que podemos, com certa precisão, identificar a geografia de origem de um material biológico humano; isso, contudo, não significa dizer que o ameríndio seja uma raça, que o africano seja outra raça, ou que o europeu seja uma terceira. Essas variações no padrão só existem porque esses grupos geográficos ficaram um bom tempo sem fluxo gênico: o que dizer do Brasil, onde esses três grupos geográficos se encontraram? Serão os mestiços uma quarta, quinta ou sexta raça? E os mestiços dos mestiços?

Pode-se pensar no poodle ou no pastor alemão como variedades. Considerá-los como raças, além dos prejuízos já discutidos em se tentar estabelecer na biologia o conceito de raça, nos levaria a crer que cada raça formaria um grupo monofilético, onde o ancestral comum daquelas entidades biológicas é exclusivo. Ora, mas esse é justamente o caso! Qual seria, então, o problema em se pensar nas variedades de cães domésticos como raças?

O problema, e este é o ponto central desta pequena nota, surge quando se considera que os cães de raça, ou seja, o agrupamento de todas as raças, constituem um grupo monofilético. Do outro lado teríamos os cães sem raça, os SRD (sem raça definida). Em primeiro lugar, se raças não existem, nenhum cão teria raça! Isso é particularmente uma ofensa para aqueles que têm cão (“de raça”…) não exatamente por gostar da companhia desta espécie animal, mas sim pela arrogância de ostentar uma etiqueta, uma marca, como um carro ou uma roupa. Em segundo lugar, dizer que tal cão não tem raça nos faz crer que raça é uma característica, um atributo, uma propriedade, de forma que alguns cães a possuem, enquanto outros não.

Os cães SRD são tão diferentes geneticamente entre si (como um todo) quanto os cães de raça (como um todo). Esse último enunciado com certeza causaria polêmica, principalmente entre os veterinários, e portanto convém que eu me explique mais detalhadamente: tomando uma raça, e.g. border collie, podemos descrever suas características distintivas e supor que, tendo uma origem comum, apresentam grande semelhança genética. O mesmo vale, seguindo o raciocínio, para os schnauzers. Contudo, se compararmos um border collie com um schnauzer, encontraremos bastantes diferenças genéticas. Numa ilha ou numa comunidade isolada, os cães de rua podem formar um grupo genético tão limitado, com endocruzamentos tão freqüentes, que suas diferenças genéticas são tão pequenas como as de uma determinada raça. Ainda seguindo esse raciocínio, as diferenças genéticas entre um border collie e um schnauzer podem ser quantitativamente semelhantes às diferenças entre um border collie e um determinado SRD. E, ainda no mesmo raciocínio, um SRD da Ásia e um SRD do Brasil podem (e certamente irão) apresentar grandes diferenças genéticas.

Ouço muito, na cidade onde moro: “vacinei meus cães de raça, mas o meu cão fulano-de-tal, pé-duro (SRD), não precisa ser vacinado”… Por quê? As pessoas leigas, e até mesmo muitos veterinários, têm a impressão de que cães SRD (que não é um grupo monofilético!) são mais resistentes imunologicamente que cães de raça (novamente: não é um grupo monofilético!). O que ocorre aqui é outra coisa: cães SRD, submetidos à “selva” das ruas, são selecionados por sua capacidade de sobrevivência, diferentemente da seleção, cujos critérios são definidos pelo criador, à qual são submetidos os cães de raça. Poderíamos afirmar, isso sim, que os cães de rua de dada localidade, por terem sido sistematicamente expostos à virose tal ou à helmintose tal, têm mais resistência a essas viroses ou helmintoses que os cães de raça, não porque esses últimos sejam de raça, e sim porque não tiveram tal exposição.

Para quem gosta de cachorro: cão é cão, não importa a variedade! Paremos de olhar as etiquetas… Há comportamentos particulares para dada variedade, isso é bem conhecido, mas há um enorme grupo de comportamentos que todos os cães compartilham. Atualmente convivo com duas cadelas de raça, pois me foram dadas de presente… Mas, tão logo tenha chance, quero adotar um SRD. A maioria dos que já adotaram dizem que é uma experiência da qual eles não se arrependem.

13 comentários sobre “Sobre cães, raças e preconceito

  1. Sei que em seu livro você defende a hipótese da origem monofilética dos cães domésticos. Sobre esse assunto tenho duas dúvidas:

    Primeiro: uma origem monofilética para os cães está necessariamente atrelada a aceitação de que a domesticação desse animal ocorreu apenas uma única vez e em um único local na história, e vice-versa? Me refiro a hipótese de que caso o cão tenha sido domesticado mais de uma vez, em épocas e locais diferentes, a partir de populações distintas de uma mesma espécie ancestral, teríamos atualmente uma população canina potencialmente intercruzável, porém constituindo um grupo parafilético.

    Segundo: se você acha que o cão foi domesticado apenas uma única vez, gostaria de saber o porquê.

    • Ricardo,
      seu questionamento faz sentido: em meu livro, quando falo em origem monofilética dos cães domésticos, preocupei-me mais em defender a idéia de que os cães todos descendem de uma única espécie, o lobo, ao contrário das idéias sobre descendências múltiplas, em que certos grupos descenderiam do lobo e outros do chacal. De fato, mesmo se todos os câes descenderem, como se pensa atualmente, do Canis lupus, caso a domesticação se tenha dado em diferentes regiões e em diferentes épocas, não poderíamos falar de grupo monofilético. no livro, quando considerei os cães como grupo monofilético, estava me baseando em um artigo da science (que há nas referências) que postula uma origem comum para os primeiros cães dométicos, na Ásia, há 15.000 anos.
      eu, particularmente, penso ser mais provável que a domesticação tenha se dado em diferentes locais e épocas (e, assim, não poderiamos a rigor falar de grupo monofilético…). há um departamento da universidade de Cornell que questiona exatamente essa origem asiática; o link é esse.
      abraço.

      • Olá Gerardo, muito interessante o texto…e melhor ainda, é um tema que qualquer pessoa deve achar interessante, pois quase todo mundo gosta ou até tem cães.

        Quanto ao monofiletismo, fiquei pensando: mesmo que a domesticação de Canis lupus tenha ocorrido em diferentes regiões e épocas…ainda sim não seria monofilético, tendo em vista (se for mesmo o caso) que todos descedem da mesma espécie de lobo?

        Passando para uma discussão mais atual, em várias regiões dos EUA e Europa, os lobos estão cruzando com outras espécies de canídeos (como raposas e coiotes)…e estes também com cães domésticos.
        Os descendentes destes cruzamentos poderiam vir a cruzar com cães domésticos. Essa situação deve complicar mais ainda o debate.

        Abraço

      • Oi Célio,
        o problema dessa questão do monofiletismo é que nós costumamos pensar em termos de espécie… mas se nós formos bem rigorosos com o conceito, considerando como monofilético aquele grupo cujo ancestral comum é exclusivo, não sendo ancestral de nenhum outro elemento exterior ao grupo, então não poderíamos considerar como monofilético o agrupamento de duas populações de cães, uma descendente de um dado grupo de lobos na Ásia, e outra descendente de um dado grupo de lobos na Europa, por exemplo. o mesmo raciocínio pode ser feito dentro do seio de uma só espécie: uma família de cearenses associada a uma família de poloneses não forma um grupo monofilético (o ancestral comum não seria exclusivo…).
        sobre essa história dos cruzamentos lobo/coiote/cães, é coisa de deixar qualquer um zureta…
        abraço.

  2. Olá, Gerardo. Penso que o argumento das inseminações possíveis não pode ser usado para argumentar a favor da unidade dos cães enquanto espécie biológica, já que barreiras pré-zigóticas (como é o caso da incapacidade de um chiuaua de copular com um dinamarquês) são normalmente consideradas mecanismos de isolamento reprodutivo autênticos – ou seja, preenchem as exigências do conceito biológico para o reconhecimento de espécies distintas.

    Minha impressão é a de que, se tentamos decidir se os cães são ou não uma espécie biológica aplicando o CBE de maneira convencional, são possíveis duas interpretações contraditórias. Pensemos em um chiuaua e em um dinamarquês; eles não se cruzam. Entre eles, existe uma corrente cujos elos são outras variedades de cães. Cada um desses elos é capaz de cruzar com os elos adjacentes a si. Suponhamos que chiuauas e dinamarqueses sejam as duas extremidades da corrente – os elos terminais, e que tenhamos considerado o cruzamento entre eles, cujo fracasso implica, em uma interpretação estrita do conceito biológico, distinguirmos duas espécies – chiuauas e dinamarqueses. Se aplicamos o conceito biológico de espécie, comparando cada elo com o seguinte, a partir de cada extremidade, acabamos por concluir que o elo que se situa precisamente na metade da corrente pertence a duas espécies ao mesmo tempo – chiuauas e dinamarqueses (digamos, para evitar importunações matemáticas, que o número de elos seja ímpar. Um resultado igualmente incoerente é alcançado se for um número par). Por outro lado, se partimos diretamente do elo central, em direção a cada uma das extremidades, chegaremos à conclusão de que chiuauas e dinamarqueses são a mesma espécie – o que contradiz o cerne do conceito biológico de espécie, os cruzamentos.

    O mesmo argumento se aplica a espécies em anel.

    A solução me parece ser o fluxo gênico, como você disse. Mas não me parece que uma definição com base no fluxo gênico decorra da teoria da espécie biológica, pelo menos na sua forma convencional. Ou seja, acho que é, em certo sentido, uma modificação do CEB de maneira a contemplar esse tipo de problema, mas isso exige uma nova formulação, algo mais ou menos assim: “duas populações pertencem a uma mesma espécie se, em circunstâncias naturais (outro ponto problemático do conceito), cruzam entre si, seja diretamente, seja através de cruzamentos com populações ‘intermediárias'”.

    O que você acha?

    • Caro Marcos,
      quando comecei a estudar biologia, lembro de um colega ornitólogo dizer que “todas as categorias taxonômicas são artificiais, criadas pelo homem, menos as espécies“. hoje em dia, não sei mais se concordo com isso… às vezes penso que deveríamos falar apenas em populações e em metapopulações, e por vezes acho que até isso é demais. Sobre sua pergunta, penso que o fluxo gênico caracteriza uma população… mas e quanto à espécie? Não sei se chegaremos brevemente a um conceito de espécie adequado e funcional… mas, lembrando o que disse Lorenz em seu manuscrito russo, os conceitos e definições são algo que elaboramos no fim do processo científico, e não no começo. abraço.

      • Concordo com esse ponto de vista. Quando conheci o conceito biológico de espécie, fiquei fascinado pela elegância que ele contém, e exultante com a noção de que as espécies são categorias naturais. Hoje tenho muitas dúvidas a respeito (bem como sobre a natureza das populações), embora ache que o conceito possa ser refinado (duvido que venha a se ver livre de problemas) e que retenha a elegância original.

  3. OI, gostaria de saber porque cachorros muito diferentes sao considerados como raças diferentes e não como espécie diferente? Obrigado, Carla.

    • Oi,
      o problema inicial é o conceito de espécie, que rende muita discussão. Mas, usando o “conceito biológico de espécie”, a explicação é simples: qualquer raça de cães pode ser cruzada com qualquer oytra raça de cães (se o tamanho for muito diferente, usa-se inseminação), originando filhotes férteis.

  4. Oi, tudo bem? Gostaria que me tirasse uma dúvida, não tem muito a ver com o assunto acima.
    “As mutações são as únicas responsáveis pela variabilidade genética.”
    Essa questão é falsa ou verdadeira? Porque?
    Agradeço desde já. Abraços.
    Carla Cristina

    • Oi,
      está falso, pois a recombinação genética pode gerar variedades genéticas previamente inexistentes. Imagine uma população onde há indivíduos AB e indivíduos ab; após as recombinações, há uma nova variedade Ab, previamente inexistente.
      Abraço.

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