O romantismo e a scala naturae

Há certos livros que classificamos como clássicos, e cuja leitura admitimos como obrigatória. Há um ensaio de Jorge Luis Borges em que ele define, de forma nada honrosa, o que torna uma obra um clássico. De qualquer forma, seja o que for o que define um clássico, a segunda metade de meu enunciado parece ser verdadeira: não podemos deixar de ler livros como Crime e castigo, de Dostoievski, O processo, de Kafka, a Divina comédia, de Dante, Admirável mundo novo, de Huxley, Ilíada, de Homero, O vermelho e o negro, de Stendhal, Édipo rei, de Sófocles, Eneida, de Vergilius, Os assassinatos da Rua Morgue, de Allan Poe, e tantos e tantos outros. Entre os chamados clássicos, tenho vergonha – e devo admiti-lo – de nunca ter lido o Quixote de Cervantes, apesar de ter uma excelente edição em minha pequena biblioteca…

Creio que entre os livros científicos e de divulgação científica também há aquilo que poderíamos definir como os clássicos, pelo menos para cada área. Desnecessário dizer que em se tratando de biologia evolutiva a origem das espécies é um clássico, bem como certos livros recentes, a exemplo do gene egoísta, merecem essa definição. Há um livro em biologia evolutiva que defino como clássico; nunca o havia lido, até que criei coragem (ou melhor, deixei de preguiça), encomendei-o pela amazon (uma vez que não há tradução em português) e comecei a ler semana antepassada. Trata-se de Ontogeny and Phylogeny, de Stephen Jay Gould.

Uma das gratas surpresas que tive ao ler o primeiro capítulo do livro, e que até então nunca havia atentado mais detalhadamente, é a relação entre o romantismo e o antropocentrismo, que Gould deixa bastante clara e quase obrigatória, particularmente no que se refere à scala naturae. Já havia comentado num artigo anterior, e volto a comentar nesse: uma das razões de eu ter iniciado esse blog e, principalmente, de eu ter escrito meu livro, é contribuir para tentar retirar esse estorvo medieval da estrutura teórica da biologia evolutiva atual, esse anacronismo sem sentido que ainda hoje é tão comum: postular que há “superior” e “inferior”, que há “imperfeito” e “perfeito”, que há teleologismo na evolução (lembrando que a scala naturae é um conceito totalmente pré-evolucionista) e que o ser humano é o ápice e o esplendor da natureza.

Goethe, uma das mais importantes figuras do romantismo alemão

Goethe, uma das mais importantes figuras do romantismo alemão

No ontogeny and phylogeny, Gould inicia uma análise histórica do famoso e famigerado princípio da recapitulação de Haeckel, dentro do seio da naturphilosophie dos fins do século XVIII e início do século XIX. De forma resumida, a naturphilosophie (ou filosofia da natureza) foi um movimento romântico dos séculos dezoito e dezenove da biologia alemã, em que se buscava a unificação de todos os fenômenos e processos naturais através de crenças transcendentais. Assim sendo, pode-se encarar a naturphilosophie como a encarnação do romantismo alemão nas ciências.

Logo no capítulo 3, Gould (citando Von Aesch), resume os aspectos principais do pensamento romântico:

  • O estabelecimento de uma ordem universal de validade metafísica;
  • A determinação de um lugar para o homem compatível com a fé na superioridade humana;
  • A substanciação da crença na fraternidade humana e mesmo a identidade com toda a vida e, assim, com toda a existência.

Em seguida, Gould inicia uma descrição introdutória do papel do romantismo alemão na formação da naturphilosophie, que culminará na elaboração da lei biogenética de Haeckel. Porém, o que me interessou particularmente nesse trecho do livro, foi a relação entre o romantismo e a scala naturae; como o romantismo, quase que obrigatoriamente, requer a concepção do mundo nessa escada, e como ele foi um elemento responsável pelo aprofundamento da noção do homem como entidade superior, distinta (Etienne Serres chegou mesmo a classificar o homem num Reino próprio, à parte!).

Descrevo os dois parágrafos que mais me interessaram; farei uma tradução o mais próximo possível do original. Peço, contudo, perdão por qualquer incorreção que cometa. Vou tirar as referências que o Gould dá ao longo do texto; para quem quiser vê-las, e aproveitar para ler o texto original, o livro se encontra na íntegra no Google books (para quem agüenta ler no monitor…).

A insistente percepção de unidade de Goethe levou a naturphilosophie a conectar todos os objetos. Uma vez que eles raciocinavam em termos de desenvolvimento e viam nada além de uma única direção progressiva de movimento, essa conexão tomou a forma de uma única cadeia ascendente. Como Herder escreveu em seu Ideen zur philosophie der geschichte: “das pedras aos cristais, dos cristais aos metais, destes às plantas, das plantas aos animais e dos animais ao homem, vemos a forma da organização ascender; e com ela a força e a propensão das criaturas tornarem-se diversas, até que finalmente todas elas, tanto quanto possível, unam-se ao homem”.

O desenvolvimento da complexidade durante a ontogenia (tão evidente que os preformacionistas afirmaram-no) e o reconhecimento de que há espécies “superiores” e “inferiores” são dois fenômenos inegáveis da biologia. Se há apenas uma direção para o desenvolvimento orgânico, e se todos os processos são governados pelas mesmas leis, então os estágios da ontogenia devem ter paralelos com o arranjo uniserial das formas adultas. Se há apenas uma via de ascensão ao homem, e se o embrião humano deve iniciar-se no que Oken denominou de caos inicial, então os estágios da ontogenia humana devem representar as formas completas de organismos inferiores. Como Oken postulou, o que são os animais inferiores senão uma série de abortos humanos? Ou, como Robinet os descreveu, “o aprendizado da natureza em tentar produzir o ser humano.

Os parágrafos que se seguem são igualmente interessantes em lançar luz sobre esse assunto, mas esses dois já são por hora suficientes. Não dá pra deixar de sentir um profundo incômodo ao se ver quão preconceituosa é a scala naturae, e quão enviesada é a forma do ser humano ver a si próprio (e os outros organismos). Convém lembrar, principalmente para quem está começando a ouvir falar de scala naturae, que esse não é em hipótese alguma um conceito do romantismo, já existindo desde a antiguidade grega. Porém, serviu como uma luva para o romantismo e a naturphilosophie estabelecerem uma posição gloriosa para o ser humano, que nos dias de hoje é encarada como absurda e indefensável.

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