Por que sou utilitarista

Quando estou numa aula de biologia evolutiva, ou num seminário sobre evolução, ou mesmo nos intermináveis debates sobre criacionismo versus ciências, percebo que há dois conceitos-chave das idéias de Darwin e da biologia evolutiva atual (pois, como é adequado lembrar, são coisas diferentes) que incomodam bastante aqueles que têm um pensamento mais profundamente religioso, mais místico, e que são mais devotos de forma geral. Uso aqui o termo religioso em sua concepção mais simples, referindo-me àquele que tem escrúpulos religiosos, em oposição ao humanista; poderíamos pensar em qualquer religião moderna, mas baseado em minhas experiências pessoais, estou aqui me referindo às variantes cristãs, o catolicismo e o protestantismo.

O primeiro desses conceitos-chave é o da descendência comum, que tira o ser humano de uma posição confortavelmente privilegiada, onde ele mesmo se colocou, para posicioná-lo em meio ao mundo vivo, como (apenas) mais um ramo terminal de uma árvore complexa. Freud já havia comentado, naquele famoso parágrafo em seu texto sobre as resistências à psicanálise, que esse foi o golpe biológico contra o amor-próprio humano… De fato, não é um golpe muito fácil de ser assimilado, principalmente por quem tem problemas sérios em aceitar que não é superior, que não é privilegiado e que não é o centro do mundo, para nos referirmos aqui ao golpe cosmológico de Copérnico.

O segundo conceito-chave, sobre o qual quero aqui me debruçar, é a questão da competição, da luta pela vida, a incessante batalha pela sobrevivência. Praticamente todas as populações tendem a crescer exponencialmente, se não são restringidas; contudo, as restrições são reais, e não apenas abstrações matemáticas. A conclusão que daí advém é bastante elementar: nem todos os organismos que nascem terão chance de chegar à fase adulta, muito menos de se reproduzir e gerar descendentes. Isso, para a maioria das pessoas que procura uma intrínseca harmonia na natureza, e que lutam por um mundo menos brutal, em busca de uma nova age d’or, é inadmissível. Custa bastante aceitar que o equilíbrio (e não a harmonia) da natureza é atingido pela constante luta entre seus componentes constituintes, onde há morte e dor onde quer que se olhe. Evolução, como muitos biólogos evolutivos bem sabem, não é “a natureza rubra em dentes e garras” de Tennyson (Who trusted God was love indeed / And love Creation’s final law / Tho’ Nature, red in tooth and claw / With ravine, shriek’d against his creed); contudo, a comparação é inevitável. A imagem geral fica bem pior quando compreendemos que a conclusão de que nem todos chegam à fase adulta nos evidencia que as mortes são principalmente entre aqueles que menos temos condição psicológica de ver sofrer: os filhotes, os imaturos. A cena mais comum da natureza rubra em dentes e garras nos documentários sobre vida selvagem, a de uma leoa perseguindo uma zebra ou uma gazela, é clara… muitos não percebem, ou preferem não ver, mas a vítima geralmente é uma zebrinha ou uma gazela filhote.

Mostrar que não há na natureza a imagem paradisíaca de um idílio singelo, que não há a harmonia sem dor de um paraíso onde as aves coliribrincam sobre o bosque verdejante ou que não há paz e bonança na terra da cocanha, são atividades inevitáveis de quem trabalha com o ensino da biologia evolutiva. Mas, justamente aqui, surge o problema, infelizmente muito mais comum do que poderíamos supor: quando mostramos a luta pela vida e o sofrimento nos ecossistemas naturais, a maioria das pessoas imediatamente usa essa concepção para estabelecer suas falácias do apelo à natureza.

As falácias do apelo à natureza estão entre as mais graves e deletérias, na minha modesta opinião. Como muitos leitores desse blog são estudantes, talvez nunca tenham ouvido falar de falácias do apelo à natureza; por isso, pretendo escrever em breve um pequeno artigo sobre esse tipo de falácia. Enquanto isso, para quem não sabe o que é, há muitos textos na internet sobre falácias do apelo à natureza, e entre eles recomendo o artigo sobre moral non-naturalism da Stanford Encyclopedia of Philosophy.

De forma simplificada, a falácia do apelo à natureza aqui é que “na natureza, a dor e o sofrimento são normais”, e por isso se deve aceitar a dor e o sofrimento como fenômenos naturais e, segundo a falácia, justificáveis. Não estou aqui falando de dor e sofrimento apenas em seres humanos: estou me referindo a dor em todos os animais, que sejam capazes de sentir dor. Somos frutos de uma tradição cartesiana, onde os animais não-humanos (grupo parafilético, mas temos que nos referir aos outros animais nesses termos) são incapazes de sentir dor ou de ter quaisquer outras emoções. Apesar de muitos acadêmicos da área das ciências humanas ainda erguerem essa barreira desprovida de razão científica, apenas porque Descartes assim disse (lembra-me os teólogos medievais negando a realidade óbvia, porque Aristóteles havia dito de outra forma…), não há mais hoje em dia dúvidas sobre capacidade senciente, pelo menos entre os amniotas. Quanto à dor, creio que convém deixar claro que o que entendemos por “dor” é uma sensação, uma emoção repleta de significância. Há uma cena no “Exterminador do futuro 2” bastante didática a esse respeito: após a fuga da instalação psiquiátrica onde estava presa, a personagem Sarah Connor retira as balas do exterminador. Seu filho, John Connor, pergunta à máquina “você sente dor?”, e o exterminador responde: “percebo o ferimento. O dado pode ser denominado dor”. Isso não é dor; não se trata apenas de perceber. Uma sensação, como o azul da cor azul ou a doçura do sabor doce são construções mentais complexas, que os filósofos ainda sofrem para tentar compreender. Torture um ser humano numa delegacia, atropele um cachorro, esfaqueie um porco que vai ser abatido, e olhe nos olhos desses três animais… perceba os gritos, as contrações faciais, as expressões no olhar: isso é dor.

Nunca baseei minha moral em falácias do apelo à natureza e, por isso, a dor, em seres humanos ou em animais não-humanos, é algo que me incomoda. Por essa razão sou utilitarista.

De forma bem simples, o utilitarismo é uma doutrina que busca criar uma ética e uma moral baseada na conseqüência dos nossos atos (e, por isso, é uma forma de consequencialismo), e postula que esses atos devem ser tais a aumentar ao máximo o prazer (bem-estar) dos seres sencientes associados a esses atos, ou de forma contrária diminuir ao máximo o desprazer (a dor) desses seres sencientes. Assim, podemos simplificar a doutrina utilitarista postulando que devemos agir de forma a produzir a maior quantidade de prazer (bem-estar) entre a maior quantidade de seres, ou de forma a produzir a menor quantidade de desprazer (dor). Entre os filósofos elaboradores do utilitarismo (em inglês, utilitarianism) estão Jeremy Bentham e John Stuart Mill, cujos escritos podem ser achados na internet. Para o meu atual argumento, o mais importante teórico é o filósofo Peter Singer, autor do excelente “Animal Liberation”, que pus na página de livros “prateleira”.

A perspectiva utilitarista de Singer não diz respeito apenas aos seres humanos; como seres sencientes, outros animais devem ser levados em consideração.

Quando digo que não como carne, a maioria dos meus alunos ri, e pensa que eu sou doido ou algum outro tipo qualquer de retardado. A questão é que eu adoro carne, sou fascinado pelo cheiro e pelo sabor de um churrasco mal passado. Como diria Oscar Wilde, “resisto a qualquer coisa, menos a uma tentação”. Mas não como carne por dois motivos: o ecológico, que tem a ver com a destruição dos ambientes naturais para pastagens e a perda de energia nos níveis tróficos, e o utilitarista: o sofrimento animal. Aqui, novamente, a maioria das pessoas ri: “não estou nem aí para o sofrimento animal”, e completam com falácias do apelo à natureza: “eles foram feitos para sofrer”, ou “na natureza é assim mesmo”.

Gosto de carne, mas minha compreensão do mundo infelizmente não me permite mais certos prazeres. Com 7 bilhões de seres humanos no mundo, sou radicalmente contra; talvez comesse carne se a população fosse menor. O mesmo raciocínio aplico aos peixes, que procuro evitar ao máximo: a taxa de pesca nos dias de hoje é tão absurdamente grande que não há a menor chance de estabilização populacional para a maioria das espécies exploradas, como o atum e o bacalhau. Mesmo sendo cearense, não como caranguejo, pois já acompanhei o processo de coleta desde o Parnaíba (que pouca gente conhece) até as barracas de praia, e sei o absurdo que aquilo é… a maioria das pessoas acha que “tem o direito” de comer caranguejo, como se estivéssemos tratando de uma questão de direito… bem, legalmente eles têm, mas não por muito tempo.

Essas são razões ecológicas, mas mais importantes que elas são as razões utilitaristas. Como carne e peixe vez ou outra, uma vez por mês ou algo assim, mas ainda me incomodo com isso. Penso na forma como o animal foi criado e na forma como foi morto. Jamais comeria um boi que foi morto por um judeu de forma “kosher”; para saber por que, procure no youtube por algum vídeo que mostre a forma kosher de matar um animal, como esse (não pude por o vídeo aqui, pois foi tachado como impróprio para menores, portanto quem quiser vê-lo deve fazer o login no youtube). Acho inadmissível que coisas como essa (ainda) sejam feitas porque um texto mitológico infeliz, tacanho e mesquinho assim ordene.

Curiosamente, logo após ter a idéia de escrever esse artigo, no meio da semana, me deparei por coincidência no site do Uol com dois vídeos, que estão também no youtube e que reproduzo abaixo. O primeiro é o trailer do documentário “the cove”, que mostra a matança de golfinhos para consumo humano, no Japão; o segundo mostra como a indústria de aves se descarta dos pintinhos machos: triturando-os vivos. Aqui o problema é outro: a lógica do capitalismo.

Sendo utilitarista, não entendo porque um embrião humano de poucas células, sem sistema nervoso funcional, tem mais direitos que um chimpanzé, um elefante, um cavalo ou um cachorro adulto, seres com capacidades sencientes e cognitivas bastante superiores. Sendo utilitarista, sou a favor da eutanásia, não só para animais não humanos, mas para seres humanos também. O discurso de certas religiões, de que a “vida” está acima de tudo é absurdo para um utilitarista. Primeiro, porque eles não estão se referindo à “vida” propriamente, como fica bem fácil se perceber. E em segundo lugar, porque o bem-estar é completamente negligenciado, como se fosse importante apenas produzir a maior quantidade possível de seres, com a maior quantidade possível de dor.

Há muitas críticas ao utilitarismo. Algumas delas referem-se ao utilitarismo negativo: pela perspectiva utilitarista, uma das formas de diminuir o desprazer no maior número possível de entidades é eliminá-las todas, de forma indolor. Não consigo evitar de lembrar aqui de Sófocles, ao dizer “jamais ter nascido pode ser a maior dádiva de todas” (o trecho completo, de Édipo em Colono, é: “Jamais ter nascido é o melhor; mas, tendo visto a luz do dia, o segundo melhor é voltar para onde veio o mais rápido possível”). Não penso dessa forma, e creio que devemos encarar a vida de frente, sem negações ou niilismos. Contudo, não há porque deixar de evitar sofrimentos desnecessários.

Post Scriptum: consegui achar no youtube, em duas partes, o filme “a life connected” com legendas em português (de portugal). É um filminho interessante sobre os aspectos ecológicos e sociais do consumo de carne, e que procura atrair adeptos de forma elegante e ponderada. Vale a pena assistir.

13 comentários sobre “Por que sou utilitarista

      • Gerardo, esse assunto trouxe-me a memória o documentário “A Dieta do Palhaço” que aborda a má alimentação proviniente do consumo de Fast Food no qual inclui a ingestão de Hamburger (carne bovina).
        Realmente, a negligência provocada pelas falácias naturalistas de muitas pessoas, deixam-nas insensíveis a dor dos animais.
        A carne tem seus benefícios (nutricionalmete), contudo os males são mais abundantes.
        Não critico quem é vegetariano, na verdade creio que essa posição exige coragem, pois a tendência dos humanos, infelizmente, é o consumo de carne (o que é errado).

      • concordo, bruno. mas queria também dizer que não gosto de definir como “errado” o hábito de comer carne (pois, se eu for proselitista, a primeira coisa que devo evitar fazer é irritar o meu público-alvo, ou seja, aborrecer quem come carne…). relembro que eu mesmo adoro (ou adorava…) carne, e parar de comê-la foi uma decisão moral e ética, baseada na justificativa etológica (o sofrimento animal) e na ecológica (a destruição do meio), independentemente da questão nutricional. abraço.

      • O documentário “A carne é fraca” também aborda esse triste tema sobre o consumo de carne e o bem-estar dos animais.

  1. Defendes muito bem teu lifestyle🙂
    Gostei do texto, gostei do blog. Sempre que puder, passarei aqui por aqui! Faço biotecnologia e achei utilidade em seu blog.

    Até mais!

  2. Muito bom!!! Parabéns! Deveria ser mais divulgado a vida VGETARIANA ou VEGAN. Gostaria de receber mais instruções para divulgação, sou vegetariana, mas me faltam argumentos, eu sempre digo: “Eu não come defunto.” Agradeço desde já!

  3. Olá Gerardo.

    Gostaria de saber qual a utilidade de se encaixar em alguma doutrica ética como utilitarismo, consequencialismo, deontologia, etc. Essa não é uma pergunta retórica, realmente tenho essa curiosidade.

    Abraços.

    Ney.

    • Oi Ney,
      Eu penso que a questão não passa pela “utilidade”, como você pôs na sua pergunta, se eu a entendi direito. Na verdade o que se passou, usando o meu exemplo, é que eu sempre fui utilitarista, mesmo sem saber quem era Mill ou o que era o utilitarismo; quando eu li a respeito eu pensei “concordo com quase tudo isso” e, então, me identifiquei com essa doutrina ética.
      Do ponto de vista da língua (mas acho que não é disso que você está falando), dizer “sou X” é, para algumas pessoas, uma etiqueta, e por isso indesejável. Não concordo: dizer “sou X” é uma maneira rápida de se definir, sem ter que explicar detalhadamente em que consiste o X.
      Abraço.

      • Obrigado por responder.

        Pois é, as vezes eu vejo debates em que pessoas de diferentes escolas ficam envergando éticas opostas até um ponto sem “utilidade prática”, como se dizendo – Tá vendo como sua escola não lida bem com determinada situação.

        Nada contra seu texto, também me adequo ao utilitarismo(sem nunca ter pensado a respeito), minha pergunta foi para continuar buscando um bom motivo para esses rótulos. Acho uma area da Filosofia que representa um grande desperdício de recursos.
        Completamente diferente do estudo de falácias, isso sim contribui em MUITO para o entendimento de discursos, principalmente os religiosos e políticos.

        Abraços.

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