Seleção Natural versus Seleção Artificial

Gosto de trabalhar com definições claras e precisas não por um amor a convenções rígidas, que não tenho nem acho que algum dia terei, nem por achar que a ciência é imutável e constituída de certezas, o que não é verdade. Para mim, as definições oferecem um campo de embasamento para o trabalho, para a comunicação científica e para o desenrolar (não posso usar aqui o verbo latino “evolvere”…) da atividade científica. Todos nós gostamos de conversar e trocar idéias com pessoas inteligentes, com raciocínios lógicos e coerentes, principalmente no que tange à nossa vida acadêmica. Porém, não é incomum que muitas dessas pessoas, por indolência ou por excesso de confiança, não dêem importância a alguns princípios fundamentais da ciência com a qual trabalham e a algumas das definições dessas ciências.

Isso dito, gosto de ser bastante criterioso quanto à definição de seleção. Na literatura não especializada, não nos espanta encontrar definições pouco rigorosas de seleção (o que não é, contudo, uma justificativa para os jornalistas dessas revistas semanais, de grande circulação, escreverem todo o tipo de absurdos pseudocientíficos). Mas mesmo na literatura especializada há usos particulares do termo, o que acaba comprometendo a unificação da linguagem e dos conceitos.

A definição de seleção que comumente uso é bastante matemática, e por isso mesmo bem decepcionante para alguns: diferença consistente e não-aleatória nas taxas reprodutivas de entidades biológicas fenotipicamente (e genotipicamente) distintas. Assim, não querendo parecer reducionista (corrente da qual, quem me conhece bem sabe, divirjo e sou diametralmente oposto), trato a seleção como uma diferença: dadas as taxas reprodutivas, a diferença entre 4 e 3 é 1, a diferença entre 3 e 5 é menos dois, a diferença entre 2,6 e 2,6 é zero, e assim por diante. Para mim não faz sentido o tão propagado conceito que a “medicina atrapalha a seleção”, tomando como exemplo o diagnóstico e a terapia de uma doença como, por exemplo, a fenilcetonúria ou a hemofilia tipo A. Não há como atrapalhar uma diferença, que é numérica: pode-se apenas alterá-la. Perceba que quando se fala que a medicina está atrapalhando a seleção, há em cena um perigoso juízo. O que temos aqui é que a diferença nas taxas reprodutivas entre indivíduos normais e indivíduos fenilcetonúricos, que era um determinado número x, passou para um número y, provavelmente bem próximo de zero, apenas. Além disso, tecendo uma rápida digressão do assunto deste artigo, como a medicina “atrapalharia” a seleção? A resposta comum é “aumentando a freqüência de alelos letais”. Mas, se a medicina faz isso tratando a patologia e retirando-a de sua condição de mortal, em que extensão esse alelo ainda é considerado letal, usando a definição genética do termo?

Por usar essa definição de seleção procuro, sempre que possível, evitar os adjetivos “natural” e “artificial”. Se a seleção é apenas (sem reducionismos…) uma diferença nas taxas reprodutivas de entidades biológicas distintas, qual a diferença entre seleção natural e seleção artificial? Matematicamente, nenhuma; a única diferença que poderíamos imputar é a respeito do agente da seleção… Mas precisamente aqui reside minha contestação: tratando a seleção como uma diferença matemática, o que queremos dizer por agente? O que é, se é que a pergunta faz algum sentido, esse agente seletivo?

Famoso exemplo de seleção artificial: número de cerdas em moscas do genero "Drosophila"

Famoso exemplo de seleção artificial: número de cerdas em moscas do genero "Drosophila"

A explicação de que a seleção natural tem como agente a natureza e que a seleção artificial tem como agente o homem carece, para mim, de sentido, por duas razões: primeiramente, não é adequado procurarmos um agente para a seleção. A definição de seleção refere-se sobretudo à conseqüência do processo, e não ao seu desenrolar mecânico. A segunda objeção é mais complicada filosoficamente: não seria o homem parte da natureza?

Apesar dessas objeções, os termos seleção natural e seleção artificial são comumente utilizados na literatura especializada. Assim sendo, como proceder? Acho que é conveniente iniciarmos analisando, quanto aos resultados, o que de fato difere a seleção natural da seleção artificial. Na primeira, as entidades biológicas embatem-se no que poderíamos chamar de mundo real externo, seu ambiente de adaptabilidade completo e íntegro… Nessas circunstâncias, todas as características das entidades biológicas somam-se para determinar sua dinâmica naquele meio, e acabam contribuindo, em maior ou menor grau, para as diferenças nas taxas reprodutivas. Já na seleção artificial, um organismo (no caso, o homem), escolhe os indivíduos cruzantes por causa de uma só característica, ou de algumas poucas, e que não necessariamente contribuiria para elevar o ajustamento (a taxa reprodutiva média per capita) daquela variedade no ambiente natural.

Assim, percebe-se que a seleção artificial promove uma alteração quantitativa muito mais rápida que a seleção natural, em relação àquele caráter considerado. Além disso, como praticamente todos os biólogos compreendem, a seleção artificial, visando um só caráter, faz que toda uma série de genes e de características a eles relacionadas flutuem aleatoriamente. Por exemplo, se eu escolho para a cruza vacas com elevada produção de leite, evitando a cruza de suas companheiras com baixa produção, não me interessa (inicialmente) se essas vacas com elevada produção têm pelos curtos ou longos, se são malhadas ou não, se têm audição normal ou se são surdas, se seus cascos são mais largos ou mais estreitos… Nada disso interessa originalmente para o criador. Desta forma, determinamos uma seleção sensivelmente diferente da que ocorreria naquele mesmo ambiente, a fazenda, se as vacas fossem deixadas a seus próprios cuidados.

Logo, se a diferença fundamental entre a seleção natural e a artificial são seus resultados vis-à-vis o ambiente de adaptabilidade natural daquele organismo, prefiro usar o termo seleção, sem nenhum adjetivo, para me referir ao processo seletivo de forma geral, tanto à “natural” como à “artificial”, e usar o termo “seleção experimental” para me referir, quando julgar necessário, à seleção artificial em particular. Mark Ridley, no livro “Evolution”, usa frequentemente o termo artificial selection experiment. Creio que é uma forma mais adequada de se referir a este processo, mas lembrando que o termo experimento não está necessariamente associado a laboratórios ou à ciência moderna: o ser humano faz experimentos de seleção desde o início da revolução agrícola, há mais de dez mil anos.

9 comentários sobre “Seleção Natural versus Seleção Artificial

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