Ética e o sentido da vida

Um dos aspectos interessantes da biologia evolutiva é que ela está relacionada a várias das questões fundamentais de que trata a filosofia, desde sua aurora helênica. Uma dessas questões, que poderíamos facilmente classificar como a mais fundamental de todas, é a do sentido da vida. Esta breve nota é uma opinião que tenho, e que quero compartilhar, acerca desta relação.

Há um problema que surge quando se coloca a própria pergunta, “qual o sentido da vida?”. O problema, bastante óbvio, passa contudo despercebido para muitos: quando se coloca tal questionamento, supõe-se que a vida possua um sentido, coisa que, pelo desconhecimento expresso na própria pergunta, não pode ser sabida ao certo. Não quero aqui tratar das razões psicológicas pelas quais o homem sente necessidade de um sentido para a vida, nem das demandas relacionadas a esse suposto sentido; há diversos volumes escritos sobre esse assunto, que por sinal está bem longe de ser esgotado.

Uma imagem que nada tem a ver com esse artigo: como pensar no sentido da vida e não lembrar do fantástico filme do Monty Python?

Uma imagem que nada tem a ver com esse artigo: como pensar no sentido da vida e não lembrar do fantástico filme do Monty Python?

Não quero estabelecer como verdade que o estudante, ao se aprofundar no conhecimento da biologia evolutiva, passará ter essa ou aquela visão a respeito do mundo. Porém, quando se compreende o acaso relacionado às variações populacionais e a própria relação matemática do processo seletivo, e que para muitos parece uma tautologia, é quase impossível continuar procurando, pelo menos de forma explícita e consciente, um sentido para a vida, pois se mostra com muita clareza o problema que acabei de aludir: a pergunta leva a crer que haja um sentido para a vida, mas… e se esse sentido não existir?

Em minha concepção (que é minha e ao mesmo tempo de outros, e de muitos…), o processo evolutivo é uma contingência. Poderia até mesmo aqui dizer que a própria vida é uma contingência, mas prefiro não polemizar gratuitamente: fiquemos com o processo evolutivo, apenas. Por contingência, estou me referindo ao conceito filosófico do termo. De maneira simples, contingencial é aquilo que “ocorre de maneira eventual, circunstancial, sem necessidade, pois poderia ter acontecido de maneira diferente ou simplesmente não ter se efetuado” (Houaiss). O próprio processo seletivo, apesar de seguramente não ser um processo regido pelas leis do acaso, é um processo contingencial.

Como é fácil perceber, a impossibilidade de se determinar se a vida possui ou não um sentido não pode filosoficamente descambar na determinação de que a vida carece de sentido! Porém, uma vez que nem a presença nem a ausência de sentido podem ser determinadas, perguntas como “qual o sentido da vida” devem ser deixadas para um segundo momento, pois em primeiro lugar deve-se tentar determinar se há ou não tal sentido. Como estudioso do processo evolutivo, minha impressão é que não há sentido algum.

As pessoas normalmente não gostam de ouvir isso, e como afirmei anteriormente, há conhecidas razões psicológicas para esse desconforto, bastante bem descritas e estudadas. O que me incomoda, contudo, são as “conclusões” completamente falaciosas que as pessoas costumam fazer quando digo que não vejo sentido para a vida. Uma delas é que eu não posso amar a vida se não vejo um sentido para ela. Sinceramente, não conheço nenhuma outra pessoa que ame mais a vida que eu. Em minha casa, não mato bicho nenhum, nem baratas (que são apenas insetos), nem escorpiões (coloco-os no terreno em frente), nem mesmo ratos, que minhas cadelas eventualmente pegam – para brincar – e que eu pacientemente retiro de suas bocas, limpo das grossas camadas de baba e ponho lá fora. Ver beleza no mundo vivo não significa ter de ver sentido na vida, e eu vejo beleza onde quer que olhe. Não jogo papel algum na rua, reciclo meu lixo e faço compostagem do lixo orgânico em casa. Essa objeção (de ter que ver sentido na vida para amá-la), portanto, é completamente equivocada.

Outra conclusão bastante comum que as pessoas fazem é que quem não vê um sentido para a vida não pode desenvolver comportamentos éticos ou morais. O que temos aqui é uma falácia do tipo non sequitur, muito comum também em relação aos ateus: “se ele não acredita em deus, deve ser uma pessoa má”. Não há relação (causal) na crença em um sentido para a vida e o estabelecimento de regras morais para o convívio em sociedade, assim como não há entre a crença em deus e o estabelecimento dessas morais. Na verdade, a crença num sentido para a vida e o estabelecimento de regras morais tem uma origem comum, isto é, são formadas pela mesma “estrutura” psicológica do ser humano. Considero-me um homem razoavelmente bondoso, cumpro (a maior parte) das leis do país onde vivo, paro no sinal vermelho e não gosto de furar fila. Não é porque não vejo um sentido para a vida que me tornarei um assassino, um dilapidador ou um destruidor da natureza; na verdade, vários desses últimos acreditam em um sentido para a vida…

9 comentários sobre “Ética e o sentido da vida

  1. Sobre a sua visão de beleza e amor pela natureza, encontro um paralelo no livro “Curious Naturalists” de Nikolaas Tinbergen. Em certo trecho do livro, “Niko” relata que muitas vezes encontrou pessoas que não eram simpáticas às suas análises sobre o comportamento animal, pois argumentavam que tais abordagens faziam o pesquisador esquecer a beleza de seu objeto de estudo como um todo. Como se a seriedade e imparcialidade que um pesquisador tem (e deve ter) no estudo científico de seu espécime o transformasse em um ser sem sentimentos ou afeições pelo mesmo. A resposta do célebre etólogo é para mim tão admirável que eu nem sequer me atrevo a traduzi-la:

    “I believe that I myself am not at all insensitive to an animal’s beauty, but I must stress that my aesthetic sense has been receiving even more satisfaction since I studied the function and significance of this beauty” (Nikolaas Tinbergen)

    PS: Gerardo, não existe algum artifício que evite as pessoas de copiarem e colarem textos de outras fontes nos comentários, ou pelo menos que deixe você avaliá-los antes deles serem postados? Aparece cada um…

    • Caro Ricardo,
      Estou ciente de que a Etologia tem contribuído para mais avanços científicos e é justamente nesses avanços que o ponto de vista sobre a procura de um sentido para vida se encaixa. Você há de concordar comigo que a vida é composta pelo lado emocional e racional e que ambos andam fixados. Olhando pelo lado racional (ciência), percebemos que o comportamento dos animais diferem entre si e que há explicações sobre como a complexidade do homem tem encarado a vida e suas relações. Olhando pelo lado emocional, que de certa forma está ligado a razão pelo fato de o próprio homem tentar se conhecer por meio dos estudos, vemos que a “emoção” está presente em vários assuntos como a procura pelo sentido da vida, que aparenta ser imaginário, no entanto é real. Caso não houvesse um sentido para a vida, será que as pessoas estariam se indagando sobre algo aparentemente inexistente ou impossível, ou até mesmo muito complexo? É verdade que a procura salutar leva ao encontro. Um objetivo concreto leva a um destino seja ele bom ou mal. O fato de um ser humano ser pesquisador dele próprio e da natureza não o faz insensível a ele mesmo, ou seja, a imparcialidade e sobretudo a seriedade não faz com que um estudioso torne-se impassível ou até mesmo mudo. As expressões emocionais são características especiais que diferenciam o homem dos demais animais e o faz ímpar no que se refere ao modo de observar o mundo.

  2. esse lance de sentido da vida me fez lembrar do guia do mochileiro das galaxias, em que os seres superinteligentes constroem um megacomputador pra que ele respondesse à pergunta fundamental da vida, do universo e tudo mais, e a resposta que ele dá é 42.

    Os seres superinteligentes ficam frustrados com a resposta, e o computador retruca que eles nao sabem qual é a pergunta, e entao eles constroem um computador colossal para que ele calculasse qual era a pergunta, e esse computador foi chamado de planeta terra.

    genial =)

    • Natália,
      a coisa é muito mais maluca! no “vida, universo, e sabe lá o que mais”, o terceiro livro da série do “mochileiro”, ele explica que a pergunta fundamental e a resposta para a pergunta existem em universos separados, e os dois, pergunta e resposta, nunca podem ser conhecidos ao mesmo tempo. no universo alternativo está a pergunta, e no nosso está a resposta: 42!
      muito bom esse livro.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s