Darwin, Lamarck e formigas

Quem acompanha este blog já deve ter percebido que tenho uma série de críticas à maneira como a biologia evolutiva é explorada no ensino médio (sempre acabo sem querer escrevendo “segundo grau”), bem como à maneira como esses conhecimentos são avaliados. Não só há incorreções, como elas são praticamente as mesmas, em diferentes materiais didáticos, de diferentes cidades e épocas. Na verdade, os livros de biologia de ensino médio do Brasil são assombrosamente parecidos: até a sequência dos capítulos é a mesma! Lembro-me de em 94 ter vindo às minhas mãos, por acidente, um livro de biologia francês, de um nível equivalente ao nosso segundo grau (mas um pouco mais aprofundado, pois era para o baccalauréat scientifique)… fiquei fascinado: não porque o livro fosse fantástico, mas sim porque a abordagem era tão diferente, a sequência dos capítulos e a estruturação em geral era tão incomum, as questões eram tão inesperadas… devo confessar que me arrependo até hoje de ter devolvido o livro para o dono; mas, enfim, temos que praticar a honestidade.

Não só os livros-texto são bastante semelhantes, mas as questões de prova, em seus vários aspectos, também o são. Quem já não perdeu a paciência em resolver, sendo aluno ou professor, questões do tipo “qual a sequência correta do processo de especiação”? Isso é tão repetitivo que a maioria dos alunos, sem nem ao menos compreender adequadamente a interrupção do fluxo gênico, acha que todo processo de isolamento geográfico levará inexoravelmente a um isolamento reprodutivo.

Uma outra categoria de questões de biologia evolutiva em exames do ensino médio e em vestibulares, e que será o assunto deste artigo, é a daquelas questões que nos pedem para dizer se tal frase ou enunciado está de acordo com Darwin ou com Lamarck. São inúmeras, e não param de surgir mais delas ano após ano.

Eis um exemplo, retirado não de um livro-texto do ensino médio, nem de um vestibular, mas do provão (o Exame Nacional de Cursos, que avalia alunos universitários) de 2001: “Cepaea nemoralis é um caracol terrestre capaz de produzir uma ampla variedade de padrões de coloração da concha, desde clara até escura. Esse caracol é predado por uma ave, o tordo, que o localiza através da visão. Em uma área habitada por essa espécie, houve aumento da cobertura vegetal e censos realizados em diferentes épocas mostraram que o número de caracóis com concha escura foi aumentando gradativamente. Explique porque passaram a predominar os caracóis com concha escura nessa área, segundo as idéias: a) lamarckistas; b) darwinistas.”

Minha crítica se refere a diferentes problemas que, a meu ver, esse tipo de questão de prova apresenta. Em primeiro lugar, há o aspecto mediúnico dessas questões: não sou capaz de saber o que se passaria na cabeça de dois europeus que morreram no século XIX, nem mesmo seria se fosse amigo deles e supusesse saber o que eles diriam, pois muitas dessas questões cobram que o aluno responda “como Darwin e como Lamarck explicariam tal fenômeno?”. O que essas questões querem saber é se tal enunciado se enquadra num paradigma darwinista ou se num paradigma lamarckista (algumas dessas questões evitam esse erro crasso, como é o caso da questão do provão supracitada). Em segundo lugar, definir exaustivamente se determinado enunciado é lamarckista ou darwinista, com a série de ciladas típicas desses exames e toda a complexidade inerente à maneira de se expressar numa frase, não é a meu ver uma forma adequada de se medir o processo de aprendizagem da biologia evolutiva do ensino médio.

Mas a minha maior objeção é que há um problema filosófico e epistemológico nesses tipos de questões: o aluno tem de identificar como Lamarck interpretaria um dado fenômeno, e em seguida identificar como Darwin interpretaria o mesmo fenômeno. Acontece que, em ciências, uma estrutura teórica, ou antes disso, uma hipótese, é descartada exatamente quando não consegue mais explicar adequadamente os fenômenos com que se depara, e o número de “furos” se torna tão grande e tão evidente que não há mais como ela se sustentar. O paradigma lamarckista é incorreto, e isso já é sabido desde o século XIX. Desta maneira, o que ocorre não é apenas que um enunciado lamarckista será diferente de um enunciado darwinista, ou que um lamarckista explicaria um fenômeno de uma forma e um darwinista de outra forma: há uma enormidade de fenômenos que os darwinistas explicariam de uma forma (atualmente aceita, mas a ciência está sempre se revolucionando…) e que os lamarckistas não explicariam! De forma nenhuma!

Gosto de exemplificar com o caso das formigas.

Castas em formigas da espécie "Pogonomyrmex badius": rainha (acima), operária menor e operária maior

Castas em formigas da espécie "Pogonomyrmex badius": rainha (acima), operária menor e operária maior

Deparei-me com esse questionamento pela primeira vez ao ler a “origem das espécies”. Não é demais lamentar que muita gente que se dedica aos mais diversos ramos da biologia nunca tenha lido a “origem”. Não interessa que esteja ultrapassado: é uma obra de uma clareza, sobriedade e didática impressionantes… isso dito, voltemos ao problema. O trecho sobre as formigas a que me refiro é esse, bem no final co capítulo VIII: “Com efeito, os hábitos particulares próprios das fêmeas estéreis, seja qual for a existência que tenham tido, não poderiam, de maneira alguma, afetar os machos ou as fêmeas férteis, únicos que deixam descendentes. Estou maravilhado de ninguém ainda ter impugnado o caso dos insetos com castas estéreis contra a teoria muito conhecida dos hábitos hereditários de Lamarck.”

Tente se perguntar: como seria a explicação darwinista para a evolução das diversas espécies de formigas (ou de qualquer outro inseto social, com castas estéreis), e como seria a explicação lamarckista? Faça esse exercício mental. Gosto de perguntar isso vez ou outra a colegas da área, e é curioso ver como alguns tentam, de todas as formas, imaginar como um lamarckista explicaria esse fenômeno. Surgem as mais mirabolantes explicações.

O que interessa não é qual seria a explicação lamarckista: o paradigma lamarckista simplesmente não conseguiria elaborar explicação alguma para a evolução dos insetos com castas estéreis! São essas falhas do corpo teórico, juntamente com uma série de outros processos históricos e científicos, que derrubam um paradigma vigente ou que estava em vias de sê-lo. Não é necessário, então, que o aluno dê uma resposta. Ele pode simplesmente dizer, para o item A da questão do provão: “não há explicação”.

A estrutura teórica de Darwin é muito mais ampla que a de Lamarck, e tão distintas, uma em seu essencialismo e outra em seu materialismo, que nem parecem ser do mesmo século. Minha opinião é, para finalizar, que já basta dessas questões de prova que exploram a dicotomia darwinismo/lamarckismo. Existem tantas outras abordagens interessantes, tantas formas engenhosas de avaliação, tantos aspectos importantes da biologia evolutiva para serem cobrados, que um avaliador competente e criativo pode facilmente elaborar questões verdadeiramente adequadas e eficazes.

14 comentários sobre “Darwin, Lamarck e formigas

  1. Puxa, professor, fiquei tão feliz por descobrir a existência desse blog! Eu fui sua aluna no ensino médio há um certo tempo e sinto muita falta das suas aulas. Acho que você foi o melhor professor que eu ja tive, sem exagero. E ter a oportunidade de ler esse blog é quase a experiência de estar na sala de aula. =)

    As vezes, quando eu nao consigo entender porque algumas coisas acontecem, penso “puuxa, queria poder perguntar isso pro professor Gerardo..”

    No outro post, que vc falou sobre a impossibilidade de se parar a evolução, eu pensei numa parada que eu li em alguma revista dessas de curiosidades que dizia que quanto mais poluído um ambiente, maior a possibilidade de nascerem fêmeas. e isso é bom, a titulo de preservação da especie, né? O que vc acha disso?

    Natália

    • oi Natália, obrigado pelo elogio. sobre o seu último parágrafo, a coisa é um pouco mais complexa, depende de muitas particularidades, e em alguns casos a alteração nas proporções sexuais por poluentes pode levar até ao desaparecimento de certas populações. abraço.

  2. A descrição do comportamento social das formigas também é uma de minhas partes favoritas em “A Origem das Espécies”. Especialmente a descrição um tanto antropomórfica de um espécime sobrevivente de Formica fusca cujo formigueiro fora atacado por Formica sanguinea. “parecia a imagem do desespero gemendo pelo domicílio desfeito”. Sei que não era a intenção de Darwin ser engraçado ao descrever a cena, mas para mim ela representa um dos raros momentos do livro que me levam a rir.

    • esse capítulo é muito bom, não é? confesso que a primeira vez que peguei a “origem” pra ler me preparei psicologicamente para uma leitura chata e enfadonha… e foi exatamente o que não encontrei no livro. quando acaba, a sensação é que o “breve argumento” foi breve demais…

  3. Eu, como estudante do ensino médio, tenho que concordar com a sua opinião, porém, ainda “não estou” nessa parte de darwinismo vs lamarckismo. Gosto muito de estudar biologia pois é uma matéria que exige curiosidade – qualidade a qual eu tenho de sobra, mas isso não vem ao caso. Estudo em escola pública, 1º ano do ensino médio. O tema para o 1º bimestre foi fotossíntese, não preciso dizer que foi praticamente aquela mesma estudada na 4ª ou 5ª série. E para o 2º, relações ecológicas. Tudo muito repetitivo, tornando a biologia uma matéria chata e sem novidades, porém, eu o sei que não é assim.

    Quanto ao livro do Darwin, eu o comprei, mas ainda não tive tempo de ler, pois quando o recebi ainda estava lendo outro.

    Gostaria de dizer-te também que seu blog é extremamente interessante!
    Parabéns!

  4. Caríssimo Professor Geraldo Furtado:
    Inicialmente parabéns pelo breve e inteligente artigo. Sou professor de zoologia no Centro de Ensino Supeior de Juiz de Fora no curso de Ciências biológicas e concordo plenamente com suas considerações acerca dos livros de biologia utilizados no ensino médio e de como erroneamente tratam a questão da evolução das espécies.
    Gostaria de saber a sua opinião sobre a possibilidade de se enfocar os conceitos de equilíbrio pontuado e gradualismo filético no ensino da biologia como uma nova forma de discutir a evolução…

    • Caro Rogério,
      acho perfeitamente viável, principalmente em se tratando de alunos de ensino superior, abordar os conceitos de equilíbrio pontuado e de gradualismo filético como forma de aprofundar as discussões sobre evolução. os biólogos evolutivos ainda se dividem a favor de uma ou outra abordagem, e penso que aqui reside a vantagem de discutir esses conceitos: como nem o equilíbrio pontuado nem o gradualismo “venceu” o combate (apesar de o gradualismo ainda representar a visão ortodoxa…), esse combate pode exatamente ser usado para que os alunos percebam a construção do conhecimento, e a dinâmica do processo científico… eles podem defender uma ou outra das abordagens, justificando suas defesas, sem que determinado grupo esteja necessariamente “errado”…
      abraço.

  5. Saudações! Parabéns pela iniciativa da página e pelas discussões pertinentes, Gerardo.

    Vejo-me tentado a fazer alguns comentários:

    ao ler a “Origem” pela primeira vez, assim como você, tinha a expectativa de ler um livro chato – de fato, não posso concordar com a “clareza, sobriedade e didática impressionantes” que você alega! Estas são virtudes que eu percebo, na verdade, nos escritos de A. R. Wallace.

    Se por um lado parece-me que poucas pessoas de nosso tempo já leram a “Origem”, quantas leram a “Filosofia Zoológica” de Lamarck? Até que ponto existe, de fato, esta dicotomia? Darwin fez uso da herança de caracteres adquiridos em suas teorizações – uma idéia que ele mesmo atribuiu à Lamarck. Isto é óbvio na “Origem” e em publicações subsquentes. Mais interessante, porém, é o que escreveu o próprio Lamarck em sua segunda “lei”: “Tudo que a natureza fez os individuos adquirirem ou perderem pela influência das condições às quais sua raça esteve exposta por um longo tempo (…), a natureza preserva, pela reprodução, nos novos individuos surgindo deles, CONTANTO QUE AS CARACTERÍSTICAS ADQURIDAS SEJAM COMUNS (…) ÀQUELES QUE PRODUZIRAM ESTES NOVOS INDIVÍDUOS” (trad. livre, Lamarck, 1809). Ao reconhecer que APENAS características comuns ao reprodutores seriam reproduzidas, Lamarck atesta que nem todos os indivíduos são similares; as características que passam às novas gerações o fazem apenas através da combinação adequada de reprodutores que possuem tais características, às quais interagem com o ambiente, adequando o organismo a este. Lamarck era um naturalista experiente e renomado em sua época, e estava consciente da variação que existe em populaçÕes naturais. Assim como Darwin, ele também usou domesticação de plantas e animais como argumento transformista. Nada poderia ser mais darwiniano – a não ser o próprio Darwin, é claro! Evidentemente, Lamarck não formalizou este tópico o bastante – a ponto de os 200 anos de seu tratado fundamental às modernas Biologia e Zoologia ter sido ofuscado pelos 150 da obra seminal de seu “discípulo rebelde”.

    O que dizer dos pesquisadores atuais que tentam “reviver” a perspectiva lamarckiana, ainda que revisada? A biologia molecular revelou muitos mecanismos que foram ignorados durante a maior parte do desenvolvimento da biologia evolutiva no século XX, como mecanismos epigenéticos. Isto não é novidade, mas mostra um quadro muito, muito mais complexo da história da biologia que aquele pintado pelos livros-texto.

    • Pedro,
      eu, particularmente, gostei muito do estilo de escrita de Darwin… talvez, porque eu esperasse encontrar algo muito chato pela frente. mas concordo que não é o melhor estilo de todos; nesse quesito, ainda fico com Freud e com Lorenz.
      sou bastante contrário a uma série de dicotomias comumente ouvidas, como por exemplo “Darwin estava correto e Lamarck estava errado”. dá a impressão de que havia um embate pessoal, além da sempre inadequada sensação de que pessoas de épocas passadas eram inerentemente mais estúpidas, por desconhecerem coisas que nós desconhecemos. não gosto desses julgamentos morais.
      de fato, Darwin usa a idéia de transmissão de caracteres adquiridos 13 vezes em seu livro! creio, mas tenho que me documentar melhor, que não se trata de um conceito lamarckista, e sim de um conhecimento comum à época.
      contudo, o que me incomoda (bastante) em lamarck não é essa história de transmissão de caracteres adquiridos, que todo mundo repete à exaustão… o que me incomoda é a ausência de cladogênese associada de forma irremediável à scala naturae, pra mim um dos mais nefastos conceitos da pré-biologia e da biologia. para mim, a visão teleológica de Lamarck é absurda, e seu uso da scala naturae deve ser evitado de todas as formas nos paradigmas evolutivos. devo dizer que só li um capítulo (o que trata da organização das massas), em francês, da “philosophie” em pdf, pois ler no micro é um treco muito incômodo…
      agora, daí a descartar totalmente sua produção, e execrá-lo completamente, há uma enorme diferença.

  6. Pingback: O ENEM e o pobre Lamarck « Biologia Evolutiva

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