Seleção e transmissão cultural

Quando estava a ponto de concluir o capítulo sobre seleção do meu livro me deparei com um problema de definição para o qual não havia atentado antes. Quase que ao acaso, deixando as idéias fluírem livremente, havia começado a escrever sobre um comportamento de defesa em elefantes africanos (que descreverei pormenorizadamente em seguida), e então me vi numa encruzilhada: como associar a transmissão cultural ao conceito de seleção atualmente utilizado pela larga maioria dos biólogos evolutivos?

Antes de tudo, é interessante que se faça um esclarecimento introdutório sobre o que é transmissão cultural do conhecimento e o que é seleção.

Pode-se definir seleção de várias maneiras, e diferentes textos usam construções distintas para a mesma coisa. Mas atenção: ao contrário da segunda lei da termodinâmica, que pode ser definida de dezenas (isso não é um exagero) de formas diferentes, a definição de seleção é bem mais restrita, e muitas das definições que lemos e ouvimos por aí estão completamente equivocadas. De maneira simples, seleção é “uma diferença consistente e não-aleatória nas taxas reprodutivas de entidades biológicas geneticamente distintas”. Ou seja, há seleção quando uma variante A tem uma taxa reprodutiva maior que uma variante B, sendo que, em conseqüência disso, as formas alélicas próprias da variante A terão sua freqüência aumentada, enquanto os alelos da variante B terão sua freqüência reduzida. Dois pontos são fundamentais: as diferenças nas taxas reprodutivas devem ser consistentes e não-aleatórias. Por quê? Para descartarmos o fenômeno da deriva gênica. Em segundo lugar, as diferenças nas taxas reprodutivas devem ser devidas a diferenças genéticas entre os variantes considerados, pois só assim teremos uma alteração nas freqüências gênicas da população ao longo do tempo e, portanto, o efeito acumulador da seleção. Vou exemplificar de forma simples: se você e seu irmão gêmeo monozigótico (geneticamente idêntico, portanto) resolvem ter, por razões particulares, filhos em números diferentes – por exemplo, você tem só um filho, enquanto ele quis ter quatro filhos – não se pode dizer que houve aqui seleção, pois essa diferença nas taxas reprodutivas não se deve a diferenças genéticas entre vocês (e nem é consistente, do ponto de vista estatístico…).

Uma vez que compreendemos o conceito de seleção, passemos para o de transmissão cultural do comportamento. Muita gente, inclusive boa parte dos acadêmicos que compõem as ciências humanas, acha que “cultura” é um fenômeno exclusivamente humano. Grande engano. Todos os mamíferos que estudei até hoje têm comportamentos culturais, e há registros de cultura para vários outros grupos animais. De maneira simples, podemos dizer que um comportamento ou conhecimento é cultural quando foi aprendido por um membro da população, e ensinado por outro membro, geralmente mais velho, mas não necessariamente seu progenitor. Por exemplo, um macaco que aprende como lavar um alimento ao ver os membros mais velhos lavando-os, ou uma gralha que aprende que um dado bicho desconhecido que se aproxima é um inimigo, depois de ser avisada por outra gralha, ou o famoso exemplo dos chimpanzés que aprendem a quebrar nozes com os mais velhos.

O comportamento dos elefantes africanos a que me referi no início desse artigo está descrito no livro “Ethology”, de James Gould (1982). Trata-se de um exemplo fantástico de transmissão cultural: em 1914, numa área da África do sul onde agora está o Addo Elephant National Park, um grupo de 140 elefantes foi caçado (principalmente por trazerem prejuízos a plantações), e em um ano menos de 20 restavam. Quando o parque foi criado, em 1931, só havia 12 elefantes, dois machos e dez fêmeas. Esses elefantes reproduziram-se, e o número de elefantes no parque passou a crescer. Apesar de não terem sido caçados desde então, e dos sobreviventes originais já terem morrido há muito tempo, a então quarta geração de elefantes do parque mantinha-se tímida, noturna, e agressiva contra humanos. Isso se dava porque os jovens observavam os idosos direcionando seu alarme espécie-específico para os turistas, e aprendiam que os humanos são perigosos. Muito trabalho foi feito, e, pelo que pesquisei, hoje em dia (quase 30 anos depois da publicação do Gould) os elefantes do parque estão menos agressivos.

Elefantes no Addo Elephant National Park

Elefantes no Addo Elephant National Park

A importância desse tipo de aprendizado para os elefantes é obvia, e quase dispensa comentários: eles listam os seres humanos como espécie perigosa, sem precisar ter tido uma experiência anterior com um rifle ou um fuzil, o que é quase sempre fatal.

Aqui, precisamente, me deparei com o problema. Nas definições de seleção que comumente usamos, como falei, é condição sine qua non, ou seja, imprescindível, que haja diferenças genéticas que embasem as diferenças morfológicas, anatômicas, bioquímicas ou comportamentais, porque só assim haverá uma alteração na constituição alélica da população seguinte; sem essa alteração, não haveria o efeito acumulativo da seleção.

E como enquadrar a transmissão cultural em meio a isso tudo? Utilizando-se a definição corrente, não poderíamos dizer que haja seleção em casos de transmissão cultural, pois os variantes não se distinguem geneticamente. Indubitavelmente, contudo, a transmissão cultural altera as freqüências nas gerações seguintes, mas não as freqüências alélicas! A alteração que se dá é nas freqüências de “indivíduos com o comportamento” versus “indivíduos sem o comportamento”. Claramente, há descendência com modificação. O que fazer então? Alterar a definição de seleção, retirando o componente genotípico da definição, não me parece adequado. Como disse antes, não basta afirmar que toda e qualquer diferença nas taxas reprodutivas entre variantes duma população é uma seleção; essas diferenças devem ter uma causa, seja ela qual for, cuja freqüência (a ocorrência desta “causa”) seja alterada na geração seguinte, pelo próprio fato de variantes distintas possuírem taxas reprodutivas diferentes.

A saída que proponho aqui é bem simples. Qual a semelhança entre o comportamento cultural e uma característica geneticamente determinada? Ambos são hereditários, passados de uma geração para a seguinte. Assim, para termos uma definição de seleção que dê conta da transmissão cultural, poderíamos usar algo como: “uma diferença consistente e não-aleatória nas taxas reprodutivas de entidades biológicas anatômica, bioquímica, fisiológica ou comportamentalmente distintas, e cujas distinções são hereditárias”. Essa não é uma definição comum de seleção, mas seria adequada? De que outra forma poderíamos tratar a seleção de comportamentos culturais?

Vale a pena lembrar que hereditário não é o mesmo que genético. Esse, contudo, será o assunto do próximo artigo.

10 comentários sobre “Seleção e transmissão cultural

  1. Prof. Gerardo, se possível gostaria de fazer algumas observações sobre a evolução que o senhor tanto valoriza.
    Estava lendo o seu livro que uma prima minha adquiriu a pouco, e vi sua total descrença para com qualquer outro tipo de teoria, o que não me parece muito sensato. A sua crítica ao desing inteligente feita no livro, tem algum fundamento? Porque para alguém criticar algo tem que primeiro conhecê-lo, para só então depois descarta-lo.
    Deixe- me começar por alguns pontos:
    Qual a primeira lei da biogênese? Vita ex vita( vida gera vida) Já imagionou a evolução? A evolução vai contra a lei, ela diz que não vida gera vida. Todo livro de biologia começa criacionista, não é verdade? A evolução tenta mostrar o contrário, indo contra à própria biologia.
    Agora é interessante porque essa idéia do desing inteligente, muitas pessoas dentro das universidades tem dito que isso é uma contra proposta à teoria da evolução. Para informação disso, deixe-me mostrar uma coisa. A tese do relojoeiro, base do design inteligente, que diz ” Se um dia, ao andar por um campo, você se deparar com um relógio, aquele relógio provaria uma coisa: a existência de um relojoeiro. Portanto o design do universo testifica a existência de um design inteligente.” William S. Paley. Sabe em que ano ele disse isso? 1802. Darwin leu os livros dele! Ou seja, a tese do design inteligente apareceu, pelo menos, 50 anos antes da teoria darwiniana. Se alguma coisa está tentando combater alguma coisa, é o darwinismo tentanto combater o design, e não o contrário. Isaac Azimove disse na década de 80 que deveria ser eliminado da área de ciências tudo aquilo que se refere a Deus ou tem qualquer conotação com Deus. Johannes Kepler era cirstão! Frase dele:” O mundo da natureza, o mundo do homem o mundo de Deus: Todos eles se encaixam.” Vamos seguir a idéia de Azimove e tirar as 3 leis de Kepler? Não se mandava mais espaçonaves para o universo! Isaac Newton era cristão! Já pensou o que ia acontecer com a física clássica se tirassemos ele simplesmente porque era cristão? Leonhard Euler era cristão! Um dos maiores matemáticos que o mundo já conheceu! Maxwell, cientista na parte de eletricidade, era cristão! Joule disse: ” O próximo passo pós o conhecimento e a obediência à vontade de Deus, deve ser conhecer algo sobre os seus atributos de sabedoria, poder e bondade manifestas nas obras de Sua mão.” Você esperaria encontrar isso em que tipo de livro? Que tal termodinâmica?! Foi onde foi pego essa pequena citação. Em um livro de termodinâmica! E o pessoal diz que fé e ciência não se misturam! Uau! Ta na hora de lerem alguma coisa. Von Braun, pai dos foguetes, era cristão. Ele disse: ” AO CONTEMPLAR OS VASTOS MISTÉRIOS DO UNIVERSO, TEMOS APENAS A CONFIRMAÇÃO DA NOSSA FÉ NA CERTEZA DO CRIADOR. ACHO DIFÍCIL COMPREENDER UM CIENTISTA QUE NÃO RECONHECE A PRESENÇA DE UMA RACIONALIDADE SUPERIOR POR TRÁS DA EXISTÊNCIA DO UNIVERSO, TANTO QUANTO SERIA DIFÍCIL COMPREENDER UM TEÓLOGO QUE NEGASSE OS FATOS DA CIÊNCIA.” Seria mesmo sensato a sua total descrença ao design?!

    • minha cara,
      a ciência, antes de tudo, é discussão, debate, verificação de idéias. algo só é científico se puder ser falseado, essa é uma premissa básica. nunca em minha vida desprezei qualquer teoria, pois em ciência o termo “teoria” designa uma hipótese validada. vale a pena dizer que eu não acredito em teoria alguma: como hipóteses validadas, teorias requerem compreensão, e não crença.
      estou aberto para discutir qualquer hipótese científica, lembrando que hipóteses científicas podem ser falseadas e devem, sempre, ser “falseáveis”. o que não aceito são enunciados baseados em argumentos de autoridade, pois isso não é ciência.
      abraços.

      • Concordo que enunciados baseados em argumentos de autoridade não são ciência. O ponto é: Por que estudiosos como esses citados acima, cientistas dedicados integralmente ao estudo do universo, viram a assinatura de um criador em cada pedacinho deste. Não estou tentando lhe impor fé ou algo relacionado a isso, até porque acreditar que existe um criador, ou vários criadores, não é fé, é ciência, porque existem várias comprovações disso, que não caberiam colocá-las aqui. Acreditar em quem é o criador, isso não é ciência, é fé. Portanto não é religião que está sendo discutida aqui. É puramente ciência. Pois acho que ela está sempre aberta a discussões por entre seus admiradores. Desculpe se aparentei querer lhe impor algo, ou ser agressiva. Não foi essa a intenção. Apenas vi seu blog e livro, e me pareceu ser um verdadeiro biólogo, passível de admiração. Logo, achei que trocar idéias seria interessante. Nunca desmerecendo a crença do outro.

        Obrigada pela atenção.

      • Minha cara,
        não gosto muito de falar sobre coisas pessoais, mas acho que isso é pertinente: o Felipe Pessoa, meu co-autor, que foi exatamente quem criticou o “design inteligente” no prefácio, é evangélico assembleísta (pentecostal). e, assim como eu, um adversário do criacionismo e de suas vertentes.
        abraço.

  2. Ana Paula,

    é notável que vc refletiu sobre sua crença e fez uma boa análise. Entretanto vc ignorou um ponto fundamental em Ciência (do qual o Gerardo já falou): nós, cientistas, trabalhamos com hipóteses testáveis e falseáveis, portanto a crença em qualquer entidade sobrenatural não é nem nunca poderá ser científica, pois não é testável e, como tal, não pode ser falseada. Ciência e Religião são coisas diferentes. A primeira trabalha com o mundo natural e a segunda com mundos sobrenaturais. Nós usamos a experimentação em Ciência com e os religiosos usam a crença em Religião.

    Continue lendo e refletindo… é um bom exercício, mas cuidado com os tipos de leituras.

    Um abraço.

    • É, Rafael, você disse que crença em entidade sobrenatural nunca poderá ser ciência, pois não poder ser comprovado, certo? Então, seguindo o mesmo raciocínio, a descrença em entidade sobrenatural tbm não é ciência, é uma espécie de fé tbm, pois não se pode provar que não exista!
      Abraço.

  3. Ana Paula,

    permita-me comentar que você tocou num ponto delicado quando falou que a evolução define que não vida gera vida – gostaria de enfatizar o uso que foi feito do verbo no tempo presente.

    O que entendo é que existe um processo contínuo de mudança. E dentro desse processo de mudança, em condições bem distintas das encontradas hoje na Terra, organizações precursoras de células foram geradas gradualmente ao longo de um espaço de tempo enorme.

    Já a abiogênese postula que entidades vivas são geradas cotidianamente a partir de matéria bruta.

    Nenhuma relação é aqui estabelecida com o criacionismo.

    O cientista, como ser humano, pode ter a crença que for.

    A ciência como corpo teórico não requer a existência de uma entidade sobrenatural (antropomórfica ou não) como pressuposto básico para a explicação de fenômenos naturais.

    Abraço.

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