Será possível “atrapalhar” o processo evolutivo?

Há alguns anos, estava conversando com uma amiga minha sobre encalhes de cetáceos. Faz muito tempo que não pesquiso mais sobre esse assunto, que já me interessou bastante na época em que comecei a estudar biologia. Lembro-me, contudo, de ter lido que em muitos dos cetáceos encalhados a quantidade de vermes encontrada era bem maior que o normal para aquela determinada espécie. Independentemente de se essa elevada parasitose é causa ou consequência das alterações orgânicas, uma das hipóteses levantadas à época era que a grande quantidade de vermes de alguma forma interferiria na orientação dos animais, que acabavam encalhando. Disse isso à minha amiga, e a resposta dela é a razão de eu ter escrito essa nota: “mas se nós salvarmos esses golfinhos encalhados, não estaremos preservando animais geneticamente susceptíveis aos vermes, que irão assim propagar seus genes? ou seja, ao salvarmos esses animais, não estamos atrapalhando a evolução, uma vez que esses animais iriam necessariamente morrer?”

Atrapalhar a evolução, esse é um conceito interessante, e acho que deve ser examinado em maiores detalhes. Primeiramente, temos que considerar adequadamente o que vem a ser um processo evolutivo: evolução é mudança, e é inclusive a falta ou a cessação dessas mudanças. o que caracteriza a evolução são as vicissitudes do mundo vivo, vicissitudes essas inimaginavelmente complexas e praticamente imprevisíveis.

Equipe resgatando golfinhos do gênero "Delphinus"

Equipe resgatando golfinhos do gênero "Delphinus"

Isso dito, em minha opinião, nada pode atrapalhar o processo evolutivo. O que acontece, seja o que for, faz parte do processo evolutivo. Deixe-me ilustrar minha concepção com um exemplo hipotético: imagine um dado animal X, ou uma dada variedade X em uma espécie animal. Imagine que essa variedade X tenha perdido a capacidade de sintetizar um produto protéico qualquer, e que por isso apresente uma desvantagem considerável em sua competição com seus pares. Ora, é de se esperar que seus genes não sejam propagados, pois essa variedade X acabará sendo seletivamente eliminada; Contudo, imagine que repentinamente ela passe a fazer uma relação simbiótica com um microorganismo Z, que sintetiza aquele determinado produto protéico do qual a espécie X carecia. Por causa dessa relação, que se iniciou por motivos outros particulares, a variedade X, fadada ao fracasso, irá prosperar, ajudada pela sua companheira, a espécie Z. Até que ponto podemos dizer, a partir daí, que a espécie Z “atrapalhou” o processo evolutivo, uma vez que, por sua causa, a espécie X continuará a propagar seus genes? O que significaria, se é que significa alguma coisa, atrapalhar a evolução? Organismos competem, cooperam, aniquilam, lutam, trapaceiam, ajudam, enganam, escravizam, unem-se… tudo isso é evolução. O processo evolutivo é um balé infindável, um teatro inesperado de probabilidades inesgotáveis.

No meu entender, essa relação fortuita da espécie X com a espécie Z é evolução, faz parte do processo evolutivo. Se por causa dessa relação uma outra espécie W desaparecer, e imaginando que ela não desapareceria se X houvesse anteriormente sucumbido, isso também é evolução. Nesse modo de ver as coisas, devemos encarar o ser humano e suas construções, apesar de sua feiúra inerente ao concreto e ao asfalto, como fenômenos e estruturas naturais (essa é uma discussão muito frequente entre as mais diversas áreas da ciência, e podemos voltar a ela numa nota futura…), uma vez que o ser humano é apenas um animal, originado por fenômenos evolutivos naturais. Assim, tanto um ninho de abelhas como uma cidade humana são estruturas naturais, visto terem sido construídas por organismos evolutivamente formados (apesar de a última ser muito mais desagradável e repulsiva para os amantes do que convencionalmente chamamos de “natureza”, entre os quais eu me incluo…).

Apesar da tristeza do cenário seguinte, se a evolução em suas vicissitudes levou ao aparecimento do ser humano, e se esse ser humano desenvolveu uma linguagem elaborada e passou a viver em sociedades conflituosas, e se aprimorou tecnologias e, por fim, vier a destruir toda a biosfera num ataque termonuclear entre nações (coisa que por pouco não ocorreu na era Reagan e que pode eventualmente ainda vir a ocorrer), bem, isso é evolução. A evolução gerou um componente que acabou com todo o sistema. Assim sendo, não há como “atrapalhar” a evolução.

Voltando para o caso dos golfinhos encalhados, penso que essa forma de entender o processo evolutivo deve evitar uma série de incongruências em nossas atitudes. O ser humano entupiu o mar de navios, poluentes e pesqueiros que capturam até a última minúscula sardinha; não esperemos, então, que as espécies marinhas resolvam seus problemas com desenvoltura, altivez e galhardia. Salvar esses golfinhos, mesmo que sejam variedades mais susceptíveis a verminoses, não vai “atrapalhar” o processo evolutivo, pois temos aqui duas possibilidades: ou deixar que diversas espécies, do urso polar ao salmão, desapareçam (o que, apesar de não ser a minha escolha e me entristecer muitíssimo é, pela minha definição, um processo natural, posto que foi desencadeado por um animal resultante do processo evolutivo), ou então trabalhar para salvar emergencialmente as espécies mais afetadas, e procurar modificar o modo de vida extremamente destruidor do homem moderno.

Irrita-me particularmente, além disso, ver que o purismo empregado na concepção de “deixemos a natureza se virar sozinha, para não atrapalhar o processo evolutivo”, ou seja, de tratar a natureza como se a humanidade não existisse, me irrita ver que esse purismo não existe do outro lado, quando o ser humano atinge uma população de sete bilhões (um número intolerável…) de pessoas, com seus lixos, seus poluentes e suas demandas crescentes. Penso que tentar minimizar os efeitos nocivos da humanidade no planeta Terra é uma opção moral, e não uma necessidade natural, opção essa que escolho voluntariamente.

3 comentários sobre “Será possível “atrapalhar” o processo evolutivo?

  1. Gerardo, adorei seu texto. Acho mesmo que o problema da ação humana no planeta está numa parte que vc explicou:

    “(…) devemos encarar o ser humano e suas construções, apesar de sua feiúra inerente ao concreto e ao asfalto, como fenômenos e estruturas naturais (…)”

    A indiferença com relação à implicação primeira e lógica da Teoria da Evolução de que o ser humano é apenas um animal é a raiz do problema. Derrubar esse pilar divino da humanidade foi um golpe muito forte e muitos ainda negligenciam suas implicações. O entendimento desse princípio é um passo essencial para a compreensão de que somos parte da natureza e, com tal, estamos inseridos no processo evolutivo.

    Um abraço.

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