Um antagonismo inexistente

o texto original, da 1a edição inglesa (1859) diz: “From the facts alluded to in the first chapter, I think there can be little doubt that use in our domestic animals strengthens and enlarges certain parts, and disuse diminishes them; and that such modifications are inherited. Under free nature, we can have no standard of comparison, by which to judge of the effects of long-continued use or disuse, for we know not the parent-forms; but many animals have structures which can be explained by the effects of disuse“.

A tradução em português poderia ser: “Os fatos citados no primeiro capítulo não admitem, creio eu, dúvida alguma sobre este ponto: que o uso, nos animais domésticos, reforça e desenvolve certas partes, enquanto que o não-uso as diminui e, além disso, que estas mudanças são hereditárias. No estado natural, não temos termo algum de comparação que nos permita julgar os efeitos do uso e do não-uso constante, porque não conhecemos as formas tipo; muitos animais, contudo, possuem órgãos cuja presença somente se explica pelos efeitos do não-uso” (trad.: Eduardo Fonseca, ed. Hemus, 5a ed.).

Folha de título da 1a edição, "the origin of species"

Folha de título da 1a edição, “the origin of species”

O texto, como facilmente se depreende da data da primeira edição, é de C. Darwin, e não de Jean Baptiste de Monet (vulgo Chevalier de Lamarck).

Durante toda a nossa vida acadêmica, de ambos os lados do processo (primeiro como alunos e em seguida como professores) falamos – e ouvimos – da inerente dicotomia, do incontornável antagonismo entre a noção de transmissão de caracteres para Lamarck e a noção de transmissão de caracteres para Darwin. Este antagonismo já foi cobrado exaustivamente em incontáveis exames de ensino médio, em praticamente todos os vestibulares do Brasil, e consta nos principais livros-texto adotados no território nacional. Poucas noções de biologia são tão maciçamente repetidas, e quase sempre da mesma maneira. Contudo, até que ponto este antagonismo existe e, principalmente, até que ponto, caso exista, sua análise tem sido corretamente elaborada?

Penso que se verifica facilmente a fragilidade desta dicotomia produzida ao longo do século XX. Primeiramente, a leitura d”a origem das espécies” deixa claro (principalmente nos capítulos I, II e V) que a transmissão de caracteres adquiridos era vista seriamente por Darwin (Ernst Mayr, em sua introdução ao fac-símile da 1a edição – da Harvard University Press – cita páginas em que Darwin fala do uso e do desuso das partes na transmissão de características à descendência: 11, 43, 134, 135, 136, 447, 454, 455, 472, 473, 479 e 480). Darwin era, quanto a isso pouca dúvida resta, um gênio, e sua contribuição ao conhecimento foi uma das mais importantes dos últimos 500 anos, sem risco de exageros. Porém, ele era, como todo cientista, uma pessoa imiscuída nos paradigmas da época, e a transmissão de caracteres adquiridos só vai perder seu valor na segunda metade do século XIX (veja August Weismann), já próximo à morte de Darwin.

O fator decisivo para esta mudança veio com o paradigma mendeliano. Este sim opõe-se completamente ao paradigma lamarckiano: as idéias sobre o uso e o não-uso das partes e sua transmissão não são pertinentes apenas à evolução, mas principalmente à genética. O lamarckismo (como ensinado em salas de aula) trata-se, portanto, de uma hipótese genética, e como tal vai se bater com o paradigma de Mendel, este sim o grande antagonista (científico) de Lamarck (como é tratado em salas de aula, repita-se). Em 1892 os neo-lamarckistas sofreram um de seus mais duros golpes, com os trabalhos de Weismann, cujas idéias sobre linhagem germinativa são genéticas, não evolutivas.

É bem mais óbvio o caso russo. T.D.Lysenko, o famoso lamarckista de Stalin, não se opôs diretamente aos darwinistas: ao contrário (como fica claro pelo que foi acima exposto…), perseguiu os adeptos do paradigma mendeliano. Um dos mais importantes geneticistas da época, N.I.Vavilov, foi preso e morto na prisão em 1943. A perseguição política que Lysenko realizou nos anos Stalin e, em menor grau, nos anos Khrushchov, bem como o estabelecimento de seu neo-lamarckismo, atrasaram o desenvolvimento da biologia russa de forma bastante grave.

O paradigma de Lamarck, com a transmissão de caracteres adquiridos, opõe-se ao paradigma de Mendel, com a transmissão de fatores celulares responsáveis pela determinação dos caracteres, e ao de Weismann, com essa transmissão se dando pelos gametas apenas. Darwin, perdido no tiroteio, vai usar em alguns pontos de sua estrutura teórica a transmissão de caracteres adquiridos, mas sempre modulada pelo efeito final da seleção natural, sua grande contribuição. A partir dos trabalhos de Weismann, Sutton, de Vries, Morgan e outros, a biologia do século XX (Mayr, Dobzhansky, Fisher, Haldane, Wright…) retira o componente uso e não-uso do darwinianismo, entre outras modificações, dando origem ao atual paradigma evolutivo.

2 comentários sobre “Um antagonismo inexistente

  1. Gerardo,

    Mas não há, contudo, uma diferença de como Lamarck e Darwin encaram a evolução. Lamarck pensava na evolução de forma transformacional e Darwin de forma variacional? Ou será que eu estou me confundindo?

    • oi júlio,
      com certeza, as diferenças não só são inúmeras como gigantescas… o que eu quis dizer é que não há aquela tão comentada diferença acerca da transmissão de caracteres adquiridos, que o Lamarck aceitaria e que o Darwin rejeitaria: apesar de ter mínima importância na estrutura darwinista, ambos aceitam a transmissão de caracteres adquiridos.

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