A falácia do “grupo derivado”

Eis-me aqui, outra vez, a lutar contra essa nefasta scala naturae. Como já disse no post anterior, trata-se de uma luta inglória, contra algo que dificilmente vai sair assim, duma vez só, do nosso modo de visualizar e de organizar o mundo vivo; contudo, convém tentar…

O que me interessa agora é o conceito – errado – de grupo derivado. o que existe são características primitivas e características derivadas, características plesiomórficas e características apomórficas, e não grupo derivado ou grupo apomórfico… Isso não faz sentido algum. contudo, até mesmo a maneira como um cladograma é construído, ou seja, sua forma gráfica, pode nos levar a impressões erradas.

Lembro-me de um professor meu de zoologia, Paulo Cascon, alertando sobre algo que geralmente nós alunos nem percebemos: nos cladogramas triangulares ou diagonais, o aluno é levado a achar que a linha que vai da base ao canto superior direito leva ao grupo “normal”, “mais evoluído”, e que todos os outros taxons são desvios desse destino normal. para piorar essa imagem, na maior parte das línguas indo-eurpéias, se escreve da esquerda para a direita, aumentando a importância dos grupos que estão mais à direita…

Poderia servir-me de inúmeros exemplos para analisar isso. escolhi um cladograma simplificado dos grupos de fungos (Reino Fungi), em que é tão comum pensarmos nos zigomicetos como “menos evoluídos” e nos basidiomicetos como “mais evoluídos”. Vejamos:

cladograma 1

cladograma 1

Os basidiomicetos ocupam exatamente a posição de destaque, que mencionamos anteriormente: o canto superior direito. a impressão que temos, pelo fato do nó que separa os zigomicetos do grupo monofilético “ascomicetos+basidiomicetos” estar mais abaixo (anterior no tempo), é que os zigomicetos são mais primitivos que os outros dois. Além disso, são dadas 3 características apenas: a 1, presente em todos os fungos, a 2, exclusiva dos asco e basidiomicetos, e a 3, exclusiva de basidiomicetos.

Bem, comecemos por fazer uma mudança gráfica que em nada altera o cladograma, pois os nós podem girar livremente:

cladograma 2

cladograma 2

A posição ocupada pelos basidiomicetos, agora, tem um impacto psicológico muito menor. mas ainda há um problema: só os basidiomicetos têm características exclusivas, ou seja, têm características que os outros não têm… daí serem os “mais evoluídos”, certo? Portanto, vamos corrigir isso, pois é óbvio que os zigomicetos têm características exclusivas, bem como os ascomicetos:

cladograma 3

cladograma 3

Agora temos duas novas características: a 4, exlusiva dos zigomicetos, e a 5, exclusiva dos ascomicetos. esse ponto é fundamental, pois devemos perceber que, apesar dos basidiomicetos possuírem características que não ocorrem nos zigomicetos, os zigomicetos também possuem características que não ocorrem nos basidiomicetos… A única certeza (cientificamente falando) que tempos é que eles compartilham um ancestral comum, apenas isso.

Mas ainda falta algo… o grupo de “ascomicetos+basidiomicetos” ocupa um espaço maior no cladograma, são mais elementos. Façamos o seguinte: dividir o grupo dos zigomicetos em dois (todo grupo monofilético pode ser dividido em dois grupos monofiléticos): os zigomicetos A e os zigomicetos B. Teremos:

cladograma 4

cladograma 4

A imagem agora está muito mais equilibrada, e a impressão de que os basidiomicetos são “mais evoluídos” fica assim bem mais fraca.

Mas ainda temos um problema iconográfico… Esses cladogramas triangulares ou diagonais, como já dito, têm uma grande reta que leva ao canto superior direito, e todas as outras retas são menores que ela. não se pode subestimar a importância psicológica disso; curiosamente, em inglês, “slanted cladogram” pode ser traduzido como cladograma diagonal mas, também, como cladograma tendencioso! (slant: to maliciously or dishonestly distort or falsify). Assim, ainda é normal que vejamos os basidiomicetos como “o destino inexorável que os fungos tiveram que tomar” (cuja veracidade eu não preciso nem comentar…).

Vamos, então, transformá-lo num cladograma retangular, bem mais adequado pedagogicamente falando:

cladograma 5

cladograma 5

Veja que a diferença é enorme: fora o fato dos basidiomicetos estarem à direita (mas isso pode ser facilmente mudado, pois os nós giram livremente), as informações não nos fazem pensar num grupo mais derivado ou menos derivado.

Para diminuirmos ainda mais os efeitos de cladogramas diagonais mal-construídos, podemos fazer o cladograma retangular de lado, procedimento muito comum quando temos vários ramos, facilitando a digitação e a leitura:

cladograma 6

cladograma 6

Lembre-se: não existe grupo derivado ou grupo menos derivado. o que existe é característica derivada; não existe grupo apomórfico: apomorfias referem-se a caracteres (ou estruturas, mas isso é assunto para outro post…), e não a taxons inteiros.

7 comentários sobre “A falácia do “grupo derivado”

  1. Acho que, apesar de a maneira com a qual nos referimos a determinados táxons em um cladograma carregar implicitamente uma ideologia científicamente inválida, é a forma como temos de nos orientar topograficamente em uma linhagem evolutiva.

  2. Cercado de praticamente todos os meus professores desfilando com essa terminologia capenga de “grupos derivados” e “grupos primitivos”, achei que estivesse louco. Parabéns pela boa análise de uma má interpretação teórica tão (irritantemente) presente.

    • Dessa interpretação distorcida decorre outra, não menos irritante: a desenvoltura com que se apontam táxons modernos como descendentes de outros táxons modernos. Quem sabe você não escreve sobre isso, Gerardo?

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