Por que dormimos? Por que sonhamos?

Quando comecei a me interessar por psicanálise (interesse que se esvaeceu em pouco tempo…) tive a chance de participar de um congresso comemorativo dos cem anos de publicação da “Interpretação dos sonhos”, de Freud. Confesso que essa é uma obra que não li, pois sou mais interessado no chamado ciclo “antropológico” de Freud (“o mal estar na civilização”, “o futuro de uma ilusão”, “totem e tabu”, “Moisés e o monoteísmo” etc.), mas conheço um pouco do livro, e já li algumas passagens. Deixando de lado a questão da validade das hipóteses freudianas, é interessante notar que a natureza dos sonhos depende necessariamente das particularidades únicas do aparelho psíquico humano, que se supõem inexistentes em outras espécies animais. Nesse congresso em particular a maior parte dos palestrantes tinha uma orientação lacaniana, e daí a importância dada à palavra e aos discursos na atividade onírica: boa parte das análises e interpretações baseavam-se na natureza do discurso, nos detalhes às vezes mínimos da associação das palavras. Pode-se supor que não há sonhos se não houver linguagem, da mesma maneira que muitos teóricos afirmam que não há pensamento se não houver linguagem; logo, não há sonhos se não houver linguagem e pensamento. Desta forma, mesmo que validemos as hipóteses freudianas e lacanianas, não poderíamos utilizar (ou pelo menos não da forma que hoje se encontra…) o que foi construído pela psicanálise para tentar explicar a origem do sono e dos sonhos, por uma razão bastante simples: uma grande quantidade de outros animais dorme e sonha. Continuar lendo