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	<title>Biologia Evolutiva</title>
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	<description>Porque, em se tratando de evolução, não há destino nem retorno...</description>
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		<title>Biologia Evolutiva</title>
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		<title>Parecido e aparentado</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Jan 2012 22:37:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gerardo Furtado</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conceitos e definições]]></category>
		<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[bonobo]]></category>
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		<category><![CDATA[sistemática filogenética]]></category>

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		<description><![CDATA[Há certos pares de palavras que possuem a capacidade de nos confundir, não apenas por serem semelhantes morfologicamente, mas por terem significados quase iguais. Quase... Às vezes, as diferenças mais sutis são as mais importantes. Há vários exemplos desses pares, mas o fito desta presente e breve nota é discutir um que possui grande importância para a biologia evolutiva e para a sistemática filogenética. Trata-se do par parecido e aparentado.<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biologiaevolutiva.wordpress.com&amp;blog=8176203&amp;post=797&amp;subd=biologiaevolutiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há certos pares de palavras que possuem a capacidade de nos confundir, não apenas por serem semelhantes morfologicamente, mas por terem significados quase iguais. Quase&#8230; Às vezes, as diferenças mais sutis são as mais importantes. Há vários exemplos desses pares, mas o fito desta presente e breve nota é discutir um que possui grande importância para a biologia evolutiva e para a sistemática filogenética. Trata-se do par <em>parecido</em> e <em>aparentado</em>.</p>
<p>Antes de prosseguirmos, convém deixar claro e definido o que significa cada palavra. Quanto a <em>parecido</em> não deve restar dúvidas: refere-se à semelhança, à similitude, à similaridade, à parecença. <em>Aparentado</em>, por outro lado, refere-se à proximidade familiar, a uma distância menor na árvore familiar. Os problemas são dois: Em primeiro lugar, ambas as palavras derivam da mesma raiz latina. Para quem já conhece os conceitos de sistemática filogenética, podemos traçar um paralelo e dizer que essas palavras são “homólogas”. Além disso, em segundo lugar, temos que dois elementos aparentados, por serem parentes próximos, são por consequência parecidos. Talvez essa última observação seja a principal responsável pela confusão que existe entre esses dois termos.</p>
<p>Chegamos então ao que nos interessa: O que significam esses termos e como eles devem ser utilizados em biologia evolutiva e em sistemática filogenética? Para ajudar a esclarecer nossas explicações e para ilustrar os conceitos, vamos apresentar um cladograma bem simples, com apenas três elementos e dois nós.</p>
<div id="attachment_799" class="wp-caption alignnone" style="width: 350px"><a href="http://biologiaevolutiva.files.wordpress.com/2012/01/cladograma.jpg"><img class="size-full wp-image-799" title="cladograma" src="http://biologiaevolutiva.files.wordpress.com/2012/01/cladograma.jpg?w=500" alt=""   /></a><p class="wp-caption-text">Cladograma mostrando a relação filogenética entre homens, chimpanzés e bonobos.</p></div>
<p>Relembremos que há duas regras básicas em sistemática filogenética:</p>
<ol start="1">
<li>Dados dois elementos, A e B, há um ancestral comum (compartilhado por ambos).</li>
<li>Dados três elementos, A, B e C, há um ancestral comum a dois deles que não é ancestral do terceiro.</li>
</ol>
<p>Essas regras são universais e se aplicam a toda e qualquer filogênese. Assim sendo, voltando à nossa figura, percebemos claramente que o bonobo (<em>Pan paniscus</em>) é mais aparentado com chimpanzé (<em>Pan troglodytes</em>) que com ser humano (<em>Homo sapiens</em>). Pelo mesmo raciocínio, o chimpanzé é mais aparentado com bonobo que com ser humano. Isso se dá porque chimpanzés e bonobos compartilham um ancestral que não é ancestral do ser humano. Esse ancestral, comum a chimpanzés e bonobos, é descendente do ancestral comum mais recente de humanos e do grupo {chimpanzés + bonobos}.</p>
<p>Assim sendo, podemos tranquilamente dar “bonobo” como resposta à pergunta “o chimpanzé é mais aparentado com o bonobo ou com o ser humano?”. Do mesmo modo, se perguntarmos com quem o chimpanzé é mais <em>parecido</em>, ninguém (em seu juízo perfeito) irá responder outra coisa que não “bonobo”. Percebe-se que quem é mais aparentado é por consequência mais parecido.</p>
<p>A complicação vem agora: imaginemos que a pergunta é “com quem o ser humano é mais aparentado, com o chimpanzé ou com o bonobo?”. A resposta é nenhum dos dois! Ou, para sermos mais corretos, “com os dois em igual medida”. O grau de parentesco entre o ser humano e o chimpanzé e entre o ser humano e o bonobo tem que ser <em>exatamente</em> igual, porque bonobos e chimpanzés relacionam-se filogeneticamente com o ser humano pelo ancestral comum aos dois primeiros. Portanto, se perguntarmos “o ser humano é mais aparentado com o chimpanzé ou com o bonobo?”, a resposta correta é: “o grau de parentesco é exatamente o mesmo”.</p>
<p>Então, se perguntarmos com quem o ser humano é mais parecido, se com o chimpanzé ou com o bonobo, teremos que dar a mesma resposta, certo? Não necessariamente! O fato do parentesco entre humanos e chimpanzés e entre humanos e bonobos ser exatamente igual não significa que os humanos não possam ser mais parecidos com um ou com outro. Isso ocorre porque, como já havíamos deixado claro, parecido e aparentado não são sinônimos. Eu, por exemplo, sempre achei os seres humanos mais parecidos com os bonobos que com os chimpanzés. Essa é uma questão de gestalt minha, subjetiva, idiossincrática, particular&#8230; Mas não há nada de errado nisso! Afinal de contas, há quem ache fulano parecido com cicrano, mesmo que todos os seus colegas discordem e zombem disso.</p>
<p>Deixando de lado a subjetividade e indo para uma abordagem mais objetiva, podemos analisar o grau de parecença de estruturas isoladas, e não do organismo como um todo. Isso nos dá resultados interessantes: imaginemos que o ancestral de humanos, bonobos e chimpanzés possua uma determinada estrutura, que chamaremos de A. Após a separação de bonobos e chimpanzés, esses últimos tiveram a estrutura A modificada em uma estrutura B (tecnicamente, dizemos que, em chimpanzés, a estrutura B é uma apomorfia e a estrutura A é uma plesiomorfia). Desta forma, mesmo que os bonobos sejam mais aparentados com os chimpanzés que com os seres humanos, quanto à estrutura que estamos analisando os bonobos seriam mais parecidos com os seres humanos que com os chimpanzés, uma vez que humanos e bonobos teriam a estrutura A, enquanto os chimpanzés teriam a estrutura B.</p>
<p>Isso é fundamental para quem trabalha com biologia molecular: mesmo que o genoma de um lobo seja mais semelhante ao genoma de um urso que ao de uma arara, nada impede que, quanto a um gene específico e isolado, encontremos mais semelhanças entre lobos e araras que entre lobos e ursos. Isso não é o fim do mundo: significa apenas que aquele gene, praticamente inalterado desde o ancestral comum aos três indivíduos dados, passou a sofrer grandes alterações na linhagem dos ursos, após a separação do ancestral comum com os lobos.</p>
<p>Para finalizar, um corolário bastante interessante dessa análise é dado por Dawkins no seu agradável livro “The ancestor’s tale”. Entre os vários absurdos difundidos pelos europeus na idade moderna e contemporânea, encontra-se o racismo associado à <em>scala naturae</em>: Segundo Dawkins, os primeiros exploradores europeus a encontrarem grandes símios nas florestas africanas associavam esses primatas mais aos africanos negros que a si próprios (caso dissessem apenas que achavam os chimpanzés mais <em>parecidos</em> com os negros africanos que consigo mesmos, não haveria muita coisa a objetar; mas, uma vez que utilizaram o conceito de “aparentado”, a coisa ficou bem diferente). Assim, os negros eram postos, na <em>scala naturae</em>, no meio do caminho entre chimpanzés e europeus brancos. Além de inadmissível e moralmente repudiável, esse conceito está biologicamente errado. Para não falarmos de todos os absurdos da <em>scala naturae</em>, restringiremos-nos ao que discutimos nessa nota: o grau de parentesco entre dois primos e um indivíduo num grupo externo tem que ser exatamente igual. Assim sendo, o grau de parentesco entre o explorador branco e os chimpanzés e entre os negros africanos e os chimpanzés é precisamente o mesmo!</p>
<br />Filed under: <a href='http://biologiaevolutiva.wordpress.com/category/conceitos-e-definicoes/'>Conceitos e definições</a>, <a href='http://biologiaevolutiva.wordpress.com/category/geral/'>Geral</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/biologiaevolutiva.wordpress.com/797/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/biologiaevolutiva.wordpress.com/797/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/biologiaevolutiva.wordpress.com/797/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/biologiaevolutiva.wordpress.com/797/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/biologiaevolutiva.wordpress.com/797/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/biologiaevolutiva.wordpress.com/797/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/biologiaevolutiva.wordpress.com/797/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/biologiaevolutiva.wordpress.com/797/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/biologiaevolutiva.wordpress.com/797/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/biologiaevolutiva.wordpress.com/797/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/biologiaevolutiva.wordpress.com/797/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/biologiaevolutiva.wordpress.com/797/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/biologiaevolutiva.wordpress.com/797/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/biologiaevolutiva.wordpress.com/797/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biologiaevolutiva.wordpress.com&amp;blog=8176203&amp;post=797&amp;subd=biologiaevolutiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Darwin não disse isso</title>
		<link>http://biologiaevolutiva.wordpress.com/2011/12/24/darwin-nao-disse-isso/</link>
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		<pubDate>Sat, 24 Dec 2011 12:51:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gerardo Furtado</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[autoajuda]]></category>
		<category><![CDATA[Darwin]]></category>
		<category><![CDATA[falsa autoria]]></category>

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		<description><![CDATA[O Facebook é o novo ambiente de propagação de uma praga que já ocorre há um certo tempo: as falsas atribuições de autoria. E a mais nova vítima desse processo é o nosso simpático Charles Darwin.<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biologiaevolutiva.wordpress.com&amp;blog=8176203&amp;post=787&amp;subd=biologiaevolutiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O Facebook é o novo ambiente de propagação de uma praga que já ocorre há um certo tempo. Bem antes das redes sociais na internet se tornarem populares andou circulando por aí uma poesia bastante piegas (talvez possa até dizer dela que era um tiquinho interessante) chamada “Instantes”, atribuída a Jorge Luis Borges. Para quem não lembra é aquela que começa com &#8220;Se eu pudesse novamente viver a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros&#8230;&#8221;. Quem quer que já tenha lido dez por cento de um conto de Borges sabe que ele jamais seria o autor daquela peça melosa e açucarada. Mas na internet, onde é tão fácil escrever (e reproduzir) informações, a praga das falsas autorias se alastrou. São bobagens (geralmente mal escritas, diga-se, sem querer ofender&#8230;) atribuídas a Luís Fernando Veríssimo, Shakespeare, Fernando Pessoa, Kafka&#8230; Lembro-me de, um dia, em sala de aula, encontrar fixado no quadro de avisos um texto de autoajuda, com todos aqueles chavões os quais não é necessário aqui reproduzir, que lá foi posto com o intuito de relaxar os alunos e diminuir a tensão anterior ao vestibular, o que é uma iniciativa louvável. Findando o texto, porém, havia um garrafal “Carlos Drummond de Andrade”. Bem, não tenho nada contra uma pessoa escrever um texto de auto ajuda, um texto motivacional. Mas assinar seu texto com o nome de Drummond é uma desonestidade, para dizer o mínimo. No Facebook encontramos Bob Marley, Clarice Lispector, Arnaldo Jabor e uma legião de outras criaturas cujo nome subescreve as mais diversas bobagens.<span id="more-787"></span></p>
<p>Muito bem, estava eu a perder o meu tempo (e o dos outros) no Facebook quando me deparo com uma postagem de um colega, onde na figura, que reproduzo abaixo, podemos ler uma simpática frase do nosso querido Charles Darwin. À primeira vista, nada de errado, certo? Bem, para começo de conversa, Darwin nunca escreveu isso. Depois de citar as fontes (sim, citar as fontes é um hábito perigosamente em desuso, tanto que um grande número de pessoas nem sabe o que isso significa), tentarei explicar por que essa frase não faz sentido, nem pra Darwin (aqui vou usar muita suposição, uma vez que Darwin já morreu e, a não ser que eu tenha essa mui complexa capacidade de falar com os mortos, não posso saber o que se passava na cabeça dele) nem para a biologia evolutiva dos dias de hoje.</p>
<div id="attachment_790" class="wp-caption alignnone" style="width: 460px"><a href="http://biologiaevolutiva.files.wordpress.com/2011/12/darwinnaodisse.jpg"><img class="size-full wp-image-790" title="darwinnaodisse" src="http://biologiaevolutiva.files.wordpress.com/2011/12/darwinnaodisse.jpg?w=500" alt=""   /></a><p class="wp-caption-text">Eis a imagem que circulou pelo Facebook (o selo &quot;Darwin não disse isso&quot; foi adicionado por mim).</p></div>
<p>Dizer que determinada personagem <strong><em>não</em></strong> é o autor de uma citação é uma tarefa não apenas inglória como também desnecessária: a pessoa que afirma uma determinada autoria é quem tem o ônus da prova, é ela quem deve ir procurar nos livros, revistas, entrevistas ou outros documentos e nos mostrar a citação. Mas, nesse caso, há dois facilitadores. Em primeiro lugar, toda a obra de Darwin (inclusive cartas e outros documentos pessoais) está digitalizada e é facilmente encontrada, como por exemplo no excelente site <a href="http://darwin-online.org.uk/"><em>The Complete Work of Charles Darwin Online</em></a>. Assim, é fácil fazer uma busca por uma palavra ou, para melhorar o filtro, por um conjunto de palavras. Mas, além disso, eu tive certa sorte: <a href="http://www.darwinproject.ac.uk/six-things-darwin-never-said">num site da universidade de Cambridge</a>, não só essa citação (juntamente com outras) é explicitamente dita como não sendo de Darwin, como a universidade oferece um prêmio, uma cópia de uma obra, à primeira pessoa que seguramente identificar a origem da citação.</p>
<p>O que mais nos interessa aqui, contudo, é a interpretação dessa frase. Em primeiro lugar, me parece muito estranho Darwin falar de “espécies”. No pensamento darwinista ortodoxo qualquer nível organizacional pode sofrer seleção e, por conseguinte, ser o nível de ocorrência do processo evolutivo. Mas, para quem já leu Darwin, é estranho ouvir ele falar de “espécie”&#8230; Ele normalmente falaria de população, ou variedade, ou grupo, ou mesmo indivíduo. Convenhamos, porém, que essa é uma possibilidade. Há outro problema, e esse relaciona-se com as noções modernas da biologia evolutiva.</p>
<p>Essa frase associa evolução a mudanças no ambiente. Essa associação é infelizmente tão ubíqua que dificilmente a vemos sendo analisada ou mesmo contestada.  Acontece que, compreendendo “evolução” como mudanças na composição genética de uma população, tanto pode ocorrer uma notável evolução nas espécies de um meio estável como, o mais importante, pode não ocorrer evolução alguma nas espécies de um meio instável. A razão disso é tão importante que irei aqui usar um bullet point:</p>
<ul>
<li>A evolução é uma contingência.</li>
</ul>
<p>O que quero dizer com isso é que o processo evolutivo é algo que ocorre, mas que pode muito bem não ocorrer. Uma população pode sofrer sucessivas mudanças em sua composição, ou ficar milhares de milhares de anos praticamente inalterada. Temos que parar de associar evolução a mudanças no ambiente, e sucesso evolutivo à capacidade de se adaptar a essas mudanças. Futuyma tem um parágrafo bastante esclarecedor a esse respeito:</p>
<blockquote><p>It is naïve<em> </em>to think that if a species&#8217; environment changes, the species must adapt or else become extinct. Not all environmental changes reduce population size. Nonetheless, an environmental change that does not threaten extinction may set lip selection for change in some characteristics. Thus white fur in polar bears may be advantageous, but not necessary for survival. Just as a changed environment need not set in motion selection for new adaptations, new adaptations may evolve in an unchanging environment if new mutations arise that are superior to any pre-existing genetic variations. We have already stressed that the probability of extinction of a population or species does not in itself constitute selection on individual organisms, and so cannot cause the evolution of adaptations.</p></blockquote>
<p>Se quisermos considerar que a espécie é o nível onde se dão os processos seletivos, seria muito mais acertado dizer que a espécie que sobrevive (seja isso o que for&#8230;) é aquela que apresenta vantagens competitivas, apenas isso.</p>
<p>Por fim, me parece que essa frase tem um pouco do cheiro dos discursos de autoajuda que surgiram no fim do milênio passado, imbuída de um inegável juízo de valor: quem é capaz de suportar mudanças é melhor, quem é capaz de se adaptar em um novo meio é melhor. Bem, no mundo empresarial esses podem de fato ser conselhos de grande valia. Mas Darwin não disse isso.</p>
<p><em>Post Scriptum: Acabei de ver no site da universidade de Cambridge que o autor dessa frase foi identificado. Segundo o site, &#8220;the source he has identified is in the writings of Leon C. Megginson, Professor of Management and Marketing at Louisiana State University at Baton Rouge.&#8221;</em></p>
<br />Filed under: <a href='http://biologiaevolutiva.wordpress.com/category/geral/'>Geral</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/biologiaevolutiva.wordpress.com/787/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/biologiaevolutiva.wordpress.com/787/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/biologiaevolutiva.wordpress.com/787/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/biologiaevolutiva.wordpress.com/787/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/biologiaevolutiva.wordpress.com/787/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/biologiaevolutiva.wordpress.com/787/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/biologiaevolutiva.wordpress.com/787/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/biologiaevolutiva.wordpress.com/787/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/biologiaevolutiva.wordpress.com/787/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/biologiaevolutiva.wordpress.com/787/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/biologiaevolutiva.wordpress.com/787/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/biologiaevolutiva.wordpress.com/787/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/biologiaevolutiva.wordpress.com/787/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/biologiaevolutiva.wordpress.com/787/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biologiaevolutiva.wordpress.com&amp;blog=8176203&amp;post=787&amp;subd=biologiaevolutiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>“Mentira” e outras palavras bonitas</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Nov 2011 17:26:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gerardo Furtado</dc:creator>
				<category><![CDATA[Evolução e comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[etologia]]></category>
		<category><![CDATA[etologia cognitiva]]></category>
		<category><![CDATA[intensionalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Koko]]></category>
		<category><![CDATA[mentira]]></category>
		<category><![CDATA[teoria da mente]]></category>

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		<description><![CDATA[A mentira é uma das mais complexas atividades mentais, requerendo não só a presença de uma "teoria da mente", como também uma intencionalidade de terceira ordem. Um maior número de trabalhos pesquisando sobre a mentira em animais não-humanos seria fundamental para o desenvolvimento da etologia cognitiva.<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biologiaevolutiva.wordpress.com&amp;blog=8176203&amp;post=781&amp;subd=biologiaevolutiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tenho um grande prazer, cujas origens me escapam, de conhecer e de brincar com a etimologia. Não o nego, apesar de ter certas razões para tal. Contudo, ao custo de um esforço deliberado, não sou daqueles que se apegam ferrenhamente ao significado primeiro da palavra (se é que há tal coisa) e que não compreendem que as palavras cambiam. Essas vicissitudes são, na verdade, uma das características mais interessantes das línguas e das linguagens.<span id="more-781"></span></p>
<p>Ainda assim, é interessante (pelo menos um passatempo mental) comentar sobre palavras que, ao longo de sua história, adquiriram um sentido completamente distinto do original (mais uma vez: se é que há tal coisa) e, em certos casos, diametralmente oposto. Lembro-me de <em>bizarro</em>, que já significou um dia elegante, nobre, pomposo, bonito, para atualmente situar-se em algum lugar perto de estranho, esquisito, feio e assustador.</p>
<p>Algumas palavras atualmente associadas a coisas ruins ou malévolas têm um sentido original bem diferente, e às vezes verdadeiramente bonito. Diabo, por exemplo, vem de διαβάλλω (diabálló), que significa “lançar através”, “transpor”, “separar”, “atacar” e “acusar”. O diabo, portanto, é um acusador. O mesmo ocorre com um exemplo bem mais famoso, Lúcifer, composto de “lux” e “fero”, adjetivo que significa luminoso, que dá claridade, que traz luz.</p>
<p>O fito desta presente e curta nota é falar sobre uma dessas palavras, associada atualmente a um defeito, mas cuja etimologia revela um sentido genuinamente bonito: mentir. Todos sabemos o que significa mentir, não perderei o meu e o seu tempo detalhando o que é uma inverdade, uma calúnia, uma falsidade. Meu intuito é outro: atentar para o fato de que “mentir” é uma capacidade cognitiva altamente complexa e elaborada, dentro das possibilidades evolutivas dos comportamentos das atuais espécies animais (que tenham sistema nervoso, é claro&#8230;). A beleza da palavra “mentir” é relativamente óbvia, para quem já parou para analisá-la: ela vem de <em>mens</em>, “mente”, que significa mente, espírito, inteligência, e por consequência: intenção, plano, projeto, razão, discernimento.</p>
<p>O que fica claro quando se percebe a conexão entre os vocábulos <em>mentir</em> e <em>mente</em> é que a mentira é um processo cognitivo que requer uma elaborada e complexa atividade mental; isso ocorre porque, para mentir, o indivíduo deve supor que possui uma informação desconhecida para outro indivíduo. E aqui chegamos ao ponto importante: para que uma entidade seja capaz de mentir, ela deve necessariamente ser capaz de supor um estado mental numa segunda entidade (aquela para a qual a mentira é dirigida), ou seja, ser capaz de possuir uma “teoria da mente” e demonstrar não apenas intencionalidade, mas uma surpreendente intencionalidade de terceira ordem! (Para quem quiser se familiarizar com os conceitos de “teoria da mente” e “intencionalidade” — não, não há relação com o significado cotidiano da palavra “intenção” —, aconselho que pesquisem no <a href="http://plato.stanford.edu/">Stanford Encyclopedia of Philosophy</a>) Possuir consciência já é uma realização evolutiva tremenda; ser capaz de atribuir a outrem consciência é algo mais espantoso ainda. Quando <strong><em>a</em></strong> mente para <strong><em>b</em></strong>, <strong><em>a</em></strong> não apenas determina que ele próprio possui uma informação que <strong><em>b</em></strong> não possui, mas principalmente <strong><em>a</em></strong> a determina que <strong><em>b</em></strong> possui um estado mental interno. Isso não é pouca coisa, em relação à complexidade do aparato mental capaz de realizar tal tarefa.</p>
<p>E por que me enveredei nesse caminho? Para, mais uma vez, lutar contra a noção estúpida, merofilética, anacrônica e infundada de Descartes, de que os animais não-humanos são apenas autômatos, desprovidos de qualquer capacidade cognitiva e incapazes sequer de sentir dor. As razões religiosas, sociais e filosóficas por trás desse pensamento são várias e vêm sendo bastante discutidas; interessa-me aqui apenas mostrar como a etologia cognitiva pode contribui para reformular essas balelas e crendices que infelizmente perduram em pleno século XIX.</p>
<p>Em primeiro lugar, convém tentar estabelecer um discurso mais adequado, do ponto de vista evolutivo. Apesar de defensor dos “direitos animais” e ativista (de meia tigela), não posso escrever coisas como “os animais têm sentimentos”. Esponjas também teriam, organismos que sequer têm tecido nervoso? E Mesozoários? E hidras? Claramente não. Portanto, para tentar estabelecer um grupo monofilético, quero falar apenas dos mamíferos. Gostaria de ter escrito “amniotas”, mas não tenho dados pra alargar dessa forma o grupo.</p>
<p>Não há muitas dúvidas, para quem analisa a coisa por um ponto de vista científico e deixa de lado seus escrúpulos religiosos, que a consciência é um fenômeno comum entre os mamíferos&#8230; De muitas espécies com certeza, possivelmente uma apomorfia do grupo, quem sabe até mesmo uma arqueomorfia (ou seja, grupos irmãos também teriam o caráter). Mas, levando-se em consideração o que foi dito sobre a mentira, não apenas a consciência é uma característica comum em mamíferos, mas a teoria da mente também.</p>
<div id="attachment_782" class="wp-caption alignnone" style="width: 310px"><a href="http://biologiaevolutiva.files.wordpress.com/2011/11/koko.jpg"><img class="size-full wp-image-782" title="koko" src="http://biologiaevolutiva.files.wordpress.com/2011/11/koko.jpg?w=500" alt=""   /></a><p class="wp-caption-text">A gorila Koko e um de seus vários gatinhos de estimação.</p></div>
<p>Diversos mamíferos mentem, desde a famosa gorila Koko (que se comunicava rudemente por sinais) até cães, sendo certamente os primatas o grupo mais bem documentado (uma vez que, quanto mais complexo o sistema de comunicação, mais eficaz é a elaboração da mentira). Ainda assim, o número de estudos é pequeno, e deve haver um vasto campo inexplorado de mentiras, blefes, engodos e pistas falsas&#8230; O que proponho aqui como ideia, para quem gosta de comportamento animal e anda meio sem criatividade para pensar numa linha de pesquisa interessante, é que se crie uma “etologia da mentira”, ou uma “etologia cognitiva da mentira”. O número de trabalhos é tão escasso que, mesmo entre os biólogos, não são poucos os que dizem “animais não pensam”, “só seres humanos têm consciência” e assim por diante. Serão esses a minoria? A maioria? Não saberei dizer.</p>
<p>Um maior número de artigos sobre esse tema não só melhoraria nossa capacidade de entender como animais não-humanos mentem como ajudaria a determinar se essa capacidade de mentir, tomando duas espécies, é uma homologia ou uma analogia. Além disso, com um maior número de estudos, poderemos determinar de forma cada vez mais correta o que é de fato mentira e o que não é: um lagarto que exibe tanatose quando o seguramos, apesar de aparentemente estar mentindo (ao se fingir de morto), pode muito bem estar apenas deflagrando um padrão motor fixo, não sendo necessárias aqui estripulias filosóficas como intencionalidade ou teoria da mente. Ao contrário, quando o tratador de Koko pergunta “quem mexeu aqui?”, e Koko responde “foi a gata” (sendo que foi Koko quem havia mexido, a gata era inocente!), temos um claro e inegável exemplo de mentira. De qualquer forma, a etologia cognitiva está apenas engatinhando.</p>
<p>E, por falar em engatinhando, convém notar que nem todos os seres humanos são capazes de mentir, para termos uma ideia clara de o quão complexo é esse comportamento. Estou me referindo a crianças com menos de 5 anos. Um experimento clássico é mostrar para a criança dois bonecos, Alice e Bob, e duas caixinhas coloridas. O palco da encenação pode ser uma mesa. Alice põe uma moeda na caixinha vermelha, e sai do palco. Em seguida Bob tira a moeda da caixinha vermelha e põe na caixinha azul. Quando Alice volta, o experimentador pergunta à criança, “em que caixinha Alice procurará a moeda?” Todas as crianças respondem “a caixinha azul”, porque elas não compreendem que a informação que possuem é ignorada por Alice. Desta forma, a criança crê que o que ela sabe é do conhecimento de todas as outras pessoas, sendo incapaz, portanto, de mentir. A partir dos seis anos as crianças percebem claramente que possuem uma informação (Bob trocou a posição da moeda) que Alice desconhece, e respondem &#8220;a caixinha vermelha&#8221;.</p>
<p>Não quero dizer com isso que a ontogênese humana reviva a filogênese desse caráter. A ontogênese <strong><em>não</em></strong> revive a filogênese. Essa, por enquanto, é uma tecla na qual não devemos nos cansar de bater.</p>
<br />Filed under: <a href='http://biologiaevolutiva.wordpress.com/category/evolucao-e-comportamento/'>Evolução e comportamento</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/biologiaevolutiva.wordpress.com/781/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/biologiaevolutiva.wordpress.com/781/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/biologiaevolutiva.wordpress.com/781/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/biologiaevolutiva.wordpress.com/781/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/biologiaevolutiva.wordpress.com/781/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/biologiaevolutiva.wordpress.com/781/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/biologiaevolutiva.wordpress.com/781/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/biologiaevolutiva.wordpress.com/781/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/biologiaevolutiva.wordpress.com/781/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/biologiaevolutiva.wordpress.com/781/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/biologiaevolutiva.wordpress.com/781/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/biologiaevolutiva.wordpress.com/781/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/biologiaevolutiva.wordpress.com/781/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/biologiaevolutiva.wordpress.com/781/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biologiaevolutiva.wordpress.com&amp;blog=8176203&amp;post=781&amp;subd=biologiaevolutiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>O teste do canário</title>
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		<pubDate>Sat, 08 Oct 2011 20:33:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gerardo Furtado</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[canário]]></category>
		<category><![CDATA[Charles Darwin]]></category>
		<category><![CDATA[On the origin of species]]></category>
		<category><![CDATA[pato]]></category>
		<category><![CDATA[plágio]]></category>
		<category><![CDATA[tradução]]></category>

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		<description><![CDATA[Se você tem "A origem das espécies" em português, é quase certo se tratar de uma tradução feita de uma tradução francesa. Ou seja, é uma tradução de segunda mão, que não foi feita a partir do original! Faça o "teste do canário" e descubra.<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biologiaevolutiva.wordpress.com&amp;blog=8176203&amp;post=771&amp;subd=biologiaevolutiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Traduttore, traitore</em>. A primeira e única vez que me deparei com esse ditado italiano foi lendo “Os chistes e sua relação com o inconsciente”, há muitos e muitos anos, mas até hoje me lembro dele. Bem, para fazermos justiça, se não fossem os tradutores não teríamos acesso a uma quantidade formidável de obras indispensáveis. A maioria de nós não lê em inglês, muito menos em alemão, italiano ou francês. E o que dizer do russo, do latim, do grego, do japonês ou do árabe?<span id="more-771"></span></p>
<p>Ainda assim, o tradutor (eu juro que quase escrevi <em>traidor</em>!) é um mal circunstancial, que deve ser descartado sempre que possível. Quem quer que saiba inglês percebe que não há tradução, nem a de Fernando Pessoa nem a de Machado de Assis, que seja o mesmo (e como seria possível ser?) que ler “The Raven” no original. Tenho o imenso prazer (resultado de um imenso esforço) de ler Platão em grego (Aristófanes, infelizmente, está muito acima de meu nível&#8230;), e posso dizer que não há como pintar, em português, as cores que só o grego é capaz. Não estou afirmando aqui, em hipótese alguma, que existam pensamentos e imagens mentais que só são capazes em uma língua, como naquela bobagem do “só é possível filosofar em alemão”. O grego tem o neutro, o português não; ainda assim, todos nós entendemos a noção do neutro (do mesmo modo que os anglófonos conseguem entender o conceito de adjetivos masculinos e femininos, mesmo inexistindo tal distinção no inglês). Sou da opinião, portanto, que a estrutura linguística do pensamento humano é similar em todos os membros da espécie. O que estou dizendo é que há particularidades em cada língua que se perdem irremediavelmente quando se faz uma tradução. Em relação ao grego, por exemplo, como traduzir o aoristo, o infinitivo futuro, a beleza do uso do particípio como sujeito ou mesmo a sonoridade dos casos (que no grego são cinco) para o português? Assim, vou chover no molhado: O ideal é ler no original.</p>
<p>Mas a coisa fica bem mais grave quando há uma tradução da tradução! Aí não há alternativa senão evitar a leitura, a não ser que ela seja urgentemente necessária. Lembro-me que passei um bom tempo sem ler os irmãos Karamázov, como uma série de outros livros de Dostoiévski, pois simplesmente me recusava a ler uma tradução de uma edição em francês traduzida do russo, uma tradução de uma tradução. Até que Bóris Schnaiderman, Paulo Bezerra e outros vieram melhorar a situação, com traduções diretamente do russo. E por que cheguei à questão de traduções de segunda ou terceira mão?</p>
<p>Estava um dia desses a passear pela internet quando me deparei com o excelente blog <a href="http://naogostodeplagio.blogspot.com/"><em>Não gosto de plágio</em></a>, escrito por Denise Bottmann. Comecei a clicar aqui e ali, até que encontrei uma seção sobre Darwin. Isso mesmo, ela não escreveu uma postagem apenas sobre a sofrida e maltratada <em>Origin of species</em>: há uma seção inteira, e a novela é longa! Para quem quiser ler, <a href="http://naogostodeplagio.blogspot.com/search/label/darwin">eis aqui o link</a>.</p>
<div id="attachment_772" class="wp-caption alignnone" style="width: 460px"><a href="http://biologiaevolutiva.files.wordpress.com/2011/10/on-the-origin-of-species.jpg"><img class="size-full wp-image-772" title="On-the-Origin-of-Species" src="http://biologiaevolutiva.files.wordpress.com/2011/10/on-the-origin-of-species.jpg?w=500" alt=""   /></a><p class="wp-caption-text">Foto de um exemplar da primeira edição de &quot;On the origin of species&quot; (Fonte: The complete work of Charles Darwin online, http://darwin-online.org.uk/).</p></div>
<p>Tenho uma versão da “Origem” em português, da editora Hemus, mas nunca a li. Já sabia previamente que todas as traduções existentes em português haviam sido feitas a partir da sexta edição da “Origem”, e por isso mesmo resolvi que, se iria ler a “Origem”, deveria ser a primeira edição, a de 1859, indiscutivelmente a melhor das seis que Darwin escreveu (as justificativas disso podem ser assunto para uma postagem futura). Com isso em mente, fiz uma procura na Amazon e descobri um fac-símile da primeira edição, feita pela Harvard University Press, que comprei imediatamente. Até hoje, é a única edição que eu li da &#8220;Origem&#8221;. Há um link para ela na seção <a href="http://biologiaevolutiva.wordpress.com/listmania/"><em>prateleira</em></a>.</p>
<p>Porém, o que eu ignorava redondamente é que a edição em português que eu tenho, juntando poeira em minha estante, não é uma tradução do inglês, e sim uma tradução do francês! Mais estarrecedor ainda foi saber que não apenas a edição da Hemus, mas a da Ediouro, a da Folha de São Paulo e muitas outras são cópias <strong>da mesma tradução</strong> feita a partir do francês, tradução esta elaborada em 1913 por Joaquim da Mesquita Paul.</p>
<p>O fato curioso é que nosso finado tradutor não parecia ter uma afinidade muito grande com o francês: em sua versão, ele traduziu <em>canard</em> como canário. Acontece que, em francês, <em>canard</em> significa pato! Canário, em francês, é <em>canari</em>, palavra que por sinal vem do latim para “cachorro”, mas isso é outra história&#8230; Creio que nosso amigo achou que pato em francês fosse <em>pateau</em>, ou alguma coisa do tipo. Que fiz eu, então? Abri minha edição da Hemus e achei, na página 25, uma encantadora passagem onde se lê que os ossos da coxa pesam mais no canário doméstico que no canário selvagem! Que maravilha!</p>
<p>Eis aqui o texto original de Darwin, a tradução francesa e a tradução portuguesa, feita a partir do francês:</p>
<ul>
<li><em></em>Original (sexta edição): <em>Changed habits produce an inherited effect as in the period of the flowering of plants when transported from one climate to another. With animals the increased use or disuse of parts has had a more marked influence; thus I find in the domestic duck that the bones of the wing weigh less and the bones of the leg more, in proportion to the whole skeleton, than do the same bones in the wild duck.</em><em></em></li>
<li>Tradução francesa: <em>Le changement des habitudes produit des effets héréditaires ; on pourrait citer, par exemple, l’époque de la floraison des plantes transportées d’un climat dans un autre. Chez les animaux, l’usage ou le non-usage des parties a une influence plus considérable encore. Ainsi, proportionnellement au reste du squelette, les os de l’aile pèsent moins et les os de la cuisse pèsent plus chez le canard domestique que chez le canard sauvage.</em></li>
<li>Tradução portuguesa (Mesquita Paul, 1913): <em>A mudança dos hábitos produz efeitos hereditários; poderia citar-se, por exemplo, a época da floração das plantas transportadas de um clima para outro. Nos animais, o uso ou não uso das partes tem uma influência mais considerável ainda. Assim, proporcionalmente ao resto do esqueleto, os ossos da asa pesam menos e os ossos da coxa pesam mais no canário doméstico que no canário selvagem.</em></li>
</ul>
<p>Imagine quantos outros absurdos não devem existir ao longo dessa tradução medonha! Tentei fazer uma pesquisa, mas não consegui descobrir se existe em português uma tradução da “Origem” feita diretamente do inglês (essa língua tão exótica e incomum, com tradutores tão difíceis de serem encontrados). O blog <em>Não gosto de plágio</em> diz que a tradução da editora Itatiaia foi feita diretamente do inglês, mas não pude verificar isso ainda. Por enquanto, fica aqui a dica: Faça o teste do canário. Se você tem uma tradução das origens, procure, no capítulo I (“Variação das espécies no estado doméstico”), pelo primeiro parágrafo da seção “Efeito dos hábitos e do uso ou não-uso das partes”, parágrafo esse que começa com “<em>A mudança dos hábitos produz efeitos&#8230;”</em>. Muito bem: se lá estiver escrito “canário doméstico” e “canário selvagem”, você é o infeliz proprietário de uma tradução não apenas tosca como nem mesmo feita a partir do original.</p>
<p>Deu até vontade de traduzir a “Origem” agora&#8230; Se você, fortuito leitor deste post, é um editor em busca de uma novidade no ramo, taí uma boa oportunidade! Dá pra fazer uma publicidade interessante, algo como “pela primeira vez no Brasil uma tradução feita a partir do original inglês”&#8230; E eu cobro baratinho!</p>
<br />Filed under: <a href='http://biologiaevolutiva.wordpress.com/category/geral/'>Geral</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/biologiaevolutiva.wordpress.com/771/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/biologiaevolutiva.wordpress.com/771/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/biologiaevolutiva.wordpress.com/771/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/biologiaevolutiva.wordpress.com/771/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/biologiaevolutiva.wordpress.com/771/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/biologiaevolutiva.wordpress.com/771/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/biologiaevolutiva.wordpress.com/771/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/biologiaevolutiva.wordpress.com/771/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/biologiaevolutiva.wordpress.com/771/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/biologiaevolutiva.wordpress.com/771/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/biologiaevolutiva.wordpress.com/771/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/biologiaevolutiva.wordpress.com/771/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/biologiaevolutiva.wordpress.com/771/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/biologiaevolutiva.wordpress.com/771/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biologiaevolutiva.wordpress.com&amp;blog=8176203&amp;post=771&amp;subd=biologiaevolutiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>A idade média é agora: uma pequena nota sobre gatos</title>
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		<pubDate>Tue, 04 Oct 2011 14:46:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gerardo Furtado</dc:creator>
				<category><![CDATA[Evolução e comportamento]]></category>
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		<category><![CDATA[etologia]]></category>
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		<category><![CDATA[Keith Thomas]]></category>

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		<description><![CDATA[Até meados do século XVIII praticamente não havia uma história natural ou, em termos mais modernos, um estudo da natureza em que seus elementos fossem considerados por si só, independente de alguma relação que pudessem ter com o ser humano. Assim, os animais simbolizavam qualidades ou defeitos humanos. Muitos desses estereótipos sobrevivem até hoje, e pouco são questionados. Discutir essa herança em relação aos comportamentos que atribuímos aos gatos é o fito da presente nota.<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biologiaevolutiva.wordpress.com&amp;blog=8176203&amp;post=760&amp;subd=biologiaevolutiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Até meados do século XVIII praticamente não havia uma história natural ou, em termos mais modernos, um estudo da natureza em que seus elementos fossem considerados por si só, independente de alguma relação que pudessem ter com o ser humano. De forma geral, não apenas a existência da natureza como um todo era encarada por um ponto de vista extremamente antropocêntrico (os demais seres vivos existiam com o único propósito de servir ao ser humano), mas o próprio mundo da vida selvagem encontrava-se repleto de “imagens especulares para as relações humanas”, como nos diz Keith Thomas em seu “Man and natural world”. Enquanto as plantas eram imbuídas de <em>assinaturas</em>, entre os animais encontrávamos as mais variadas facetas dos comportamentos humanos. Cada animal simbolizava uma qualidade ou um defeito dos homens.<span id="more-760"></span></p>
<p>Esses estereótipos, é bem claro, baseavam-se muito mais na herança literária grega, romana e principalmente medieval que na observação dos comportamentos reais dos animais (que, para o homem medieval e moderno seiscentista e setecentista, pouco ou nada valia – vide Cremonini e Galileu). Para George Cheyne, “raro é o animal<a title="" href="#_ftn1"><sup>[1]</sup></a>, pássaro, réptil ou inseto que, em cada clima particular, não instrui ou censura a espécie humana de alguma verdade necessária para sua felicidade, seja no corpo ou na mente”. Assim, a raposa é astuta, a cabra é lasciva, a formiga é previdente. Para Oliver Goldsmith, o porco é repulsivo, o tigre é cruel e a doninha é impiedosa. A coruja é o símbolo da sabedoria e da magia, enquanto o sapo simboliza a avareza (pois, apesar de poder se alimentar de areia – assim se pensava na idade média – e ter abundância dessa ao seu redor, não a come). Em cada uma das gravuras que fez para os sete pecados capitais, Brueghel representou um animal ao lado do personagem principal: o asno para a preguiça, o urso para a ira, o peru para a inveja, e assim por diante (infelizmente, na excelente coletânea portuguesa que tenho de Brueghel, falta-me a gravura da luxúria). O vaga-lume representava o espírito santo, assim como a lagarta representava a ressurreição.</p>
<p>Como é bem sabido, cada um de nós tem uma opinião sobre si mesmo um pouco mais bondosa e positiva que a realidade; do mesmo modo, tendemos a ver nossa época como mais esclarecida e intelectualmente iluminada que épocas passadas. Mas, como infelizmente é bastante comum, costumamos perpetuar preconceitos e equívocos sem pensarmos muito a respeito, apenas por fazerem parte de uma tradição, por terem se instalado, devido à repetição incessante, naquilo que chamamos de “sabedoria popular”, e pelo fato de o repetirmos constantemente – o que, é óbvio, não faz um engano tornar-se uma verdade. Dessa forma, para um grande número de fatos sobre o mundo natural, comportamos-nos como o homem medieval: repetimos uma tradição literária equivocada e simplesmente não observamos a realidade. Esse é o caso das características (defeitos e, em menor grau, virtudes) que atribuímos aos gatos.</p>
<div id="attachment_763" class="wp-caption alignnone" style="width: 460px"><a href="http://biologiaevolutiva.files.wordpress.com/2011/10/domestic_cat-spl.jpg"><img class="size-full wp-image-763 " title="Domestic_cat-SPL" src="http://biologiaevolutiva.files.wordpress.com/2011/10/domestic_cat-spl.jpg?w=500" alt=""   /></a><p class="wp-caption-text">Atualmente associado à má sorte, a aparição de um gato preto era, há poucos séculos, sinal de boa sorte... (Fonte: Science Photo Library)</p></div>
<p>Quase tudo (o “quase” é apenas um recurso retórico para evitar críticas mais severas) o que dizemos sobre os gatos, ou que o “senso comum” diz sobre os gatos, é herança de uma simbologia clássica ou medieval, sedimentada através das gerações. Da simbologia vitoriana aos quadrinhos que abundam na internet (onde um cão diz “se os homens me alimentam, os homens devem ser deuses”, e o gato diz “se os homens me alimentam, eu devo ser deus”), uma por uma, todas essas características são derrubadas se pararmos para observar o comportamento real dos gatos. Sem antropomorfismos, sem paixões, sem preconceitos&#8230; Uma etologia direta e científica, para honrarmos Lorenz, Tinbergen e tanta gente boa que surgiu nos últimos setenta anos (mais ou menos o tempo de vida que a etologia moderna tem).</p>
<p>Vejamos:</p>
<p><em>Os gatos são traiçoeiros</em>. Bem, eu nunca emprestei 50 reais a nenhum dos meus gatos. Nem pedi que algum deles vigiasse pra ver se uma visita limpava o nariz no sofá enquanto eu ia ao banheiro. Nem pedi a nenhum deles que segurasse a escada enquanto eu fazia um reparo no telhado. Portanto, não sei o que essa “traição” significa. Deixando o sarcasmo de lado, o que as pessoas querem dizer é que não podem confiar num gato, em relação a se o gato irá atacá-las ou não. Isso, contudo, reflete uma ignorância das pessoas em relação ao gato, e não uma traição desse. Quem quer que tenha convivido com gatos e os observado suficientemente para entender algumas de suas sinalizações não tem dificuldades nesse campo. Em todas as circunstâncias em que eu vi um gato se incomodar com carinhos humanos, em absolutamente todas, ficou bastante claro para mim que o gato estava incomodado e eu poderia prever, com razoável grau de acerto, se o gato iria morder, arranhar ou simplesmente fugir do ser humano. Basta saber perceber os sinais, que são bastante claros. <em>Então os gatos não gostam de carinho</em>, dirão alguns. Bem, se o ser humano gosta de se vangloriar de ser a mais inteligente espécie da Terra, é hora de fazer jus à fama: em primeiro lugar, deve-se ter em vista que encarar um gato, olhando-o diretamente nos olhos (coisa comum em quem faz carinho), é sinal de agressividade. Além disso, gatos gostam de carinho no pescoço ou no dorso, e com uma pressão maior; jamais na barriga, nem por períodos prolongados na mesma região.</p>
<p><em>Os gatos não demonstram contentamento</em>. Mais uma vez, trata-se de não saber observar o comportamento de uma espécie dada. Muita gente, por exemplo, quando vê um chimpanzé mostrando os dentes, acha que ele está rindo; acontece que chimpanzés riem de outra maneira, aquilo não é um riso. Em relação a cachorros, muita gente associa a imagem da boca aberta à alegria, quando o cão está apenas termorregulando. Do mesmo modo, balançar o rabo não significa necessariamente alegria canina: cães balançam o rabo antes de atacar (mas para um lado e numa frequência distinta do balançar por alegria). Voltando aos felinos, gatos cumprimentam quando esfregam a base da orelha contra alguma parte sua; gatos beijam, quando olham para você e em seguida fecham lentamente as pálpebras, girando a cabeça para um dos lados; e, por fim, gatos demonstram claramente contentamento: a forma mais óbvia é contraindo e estendendo alternadamente os dedos das patas anteriores. O ronronar também está associado ao contentamento, mas aqui deve-se ter uma certa cautela: gatos ronronam nas mais diversas situações, inclusive após uma lesão grave.</p>
<p><em>Gatos têm apego pelo lugar, e não pelo dono</em>. Essa é uma “verdade popular” divulgada principalmente por aqueles que defendem a (falsa) dicotomia “você gosta de cão ou de gato?”. Logicamente, cães e gatos têm comportamentos distintos, apesar de compartilharem uma série de homologias comportamentais (uma vez que o ancestral comum dessas duas espécies não está tão distante assim no passado). Um gato se adapta a um novo ambiente em poucas horas, ao passo que pode demorar dias ou semanas para se adaptar a um novo ser humano ou a uma nova família de humanos (isso quando ele se adapta!). O fato de gatos serem tímidos e, ao contrário de cães, não gostarem de seguir seus donos (ou tutores, para usar um termo mais adequado) pela rua diz respeito ao receio que os gatos têm de novos ambientes, e não a uma hipotética falta de amor pelos donos. Havendo condições adequadas e, principalmente, inexistindo fatores que os ameacem ou os amedrontem, os gatos estarão quase sempre perto de seus tutores. O fato de eles não manterem a proximidade que cães mantêm, nem a frequência de proximidade que os cães mantêm, em nada diminui esse apego. Pelo contrário: quando se compreende que cães (evolutivamente, lobos pedomórficos) são altamente hierárquicos e que gatos, mesmo castrados, podem manter sob sua tutela um território de mais de um quilômetro quadrado, nos impressionamos mais ainda com o apego que gatos podem demonstrar pelo seu tutor.</p>
<p><em>Gatos trazem azar</em>. Bem, se você é supersticioso&#8230; A idade média é mesmo a sua época!</p>
<p>De certa forma, a relação do tema desta curta nota com a biologia evolutiva não é tão distante como se poderia julgar. Juntamente com outras mudanças paradigmáticas dos séculos XIX e XX, a biologia evolutiva é uma ferramenta extremamente poderosa para modificar nossa concepção do mundo, e especificamente nossa concepção das espécies não humanas.</p>
<div>
<hr align="left" size="1" width="33%" />
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<p><a title="" href="#_ftnref1">[1]</a> Perceba que o termo “animal” era usado para se referir aos mamíferos.</p>
</div>
</div>
<br />Filed under: <a href='http://biologiaevolutiva.wordpress.com/category/evolucao-e-comportamento/'>Evolução e comportamento</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/biologiaevolutiva.wordpress.com/760/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/biologiaevolutiva.wordpress.com/760/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/biologiaevolutiva.wordpress.com/760/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/biologiaevolutiva.wordpress.com/760/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/biologiaevolutiva.wordpress.com/760/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/biologiaevolutiva.wordpress.com/760/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/biologiaevolutiva.wordpress.com/760/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/biologiaevolutiva.wordpress.com/760/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/biologiaevolutiva.wordpress.com/760/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/biologiaevolutiva.wordpress.com/760/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/biologiaevolutiva.wordpress.com/760/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/biologiaevolutiva.wordpress.com/760/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/biologiaevolutiva.wordpress.com/760/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/biologiaevolutiva.wordpress.com/760/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biologiaevolutiva.wordpress.com&amp;blog=8176203&amp;post=760&amp;subd=biologiaevolutiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Em defesa de um certo determinismo biológico</title>
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		<pubDate>Fri, 29 Jul 2011 14:16:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gerardo Furtado</dc:creator>
				<category><![CDATA[Evolução e comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[behaviorismo]]></category>
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		<category><![CDATA[determinismo]]></category>
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		<category><![CDATA[Stephen Jay Gould]]></category>
		<category><![CDATA[Steven Pinker]]></category>
		<category><![CDATA[William James]]></category>

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		<description><![CDATA[O determinismo biológico clássico é não apenas equivocado e enviesado como é também associado a toda sorte de desmandos, injustiças e opressões. Mas será correto irmos para o extremo oposto e aceitarmos a visão padrão das ciências sociais do século XX, que o ser humano é um animal desprovido de qualquer instinto e cujo comportamento pode assumir toda e qualquer forma?<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biologiaevolutiva.wordpress.com&amp;blog=8176203&amp;post=752&amp;subd=biologiaevolutiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Por Zeus, não acredito que estou prestes a fazer isso! Irei mesmo defender um tipo de determinismo biológico? Já prevejo os comentários enfurecidos, uma vez que, em relação a certos tópicos e certos temas, apenas a opinião do establishment acadêmico é aceita, e todo o resto é anátema&#8230; Bem, dentro daquela ótica do “falem mal, mas falem de mim”, pelo menos o blog estaria recebendo algumas visitinhas extras.<span id="more-752"></span></p>
<p>Estava essa semana assistindo a algumas palestras do <a href="http://www.ted.com/">TED</a>, um dos meus passatempos preferidos atualmente, e apesar de achar que ele não tem uma retórica muito boa (por outro lado, ele escreve muito bem), resolvi assistir a <a href="http://www.ted.com/talks/lang/eng/steven_pinker_chalks_it_up_to_the_blank_slate.html">uma palestra</a> de Steven Pinker, sobre o conceito de <em>tabula rasa</em>.</p>
<p>E eis que, logo no início da palestra, me deparo com uma frase de Stephen Jay Gould que não poderia ir mais de encontro às minhas opiniões sobre etologia (para quem não tem uma boa capacidade de compreensão textual, “de encontro” significa que eu não concordo!). Na verdade, não foi surpresa para mim, uma vez que eu já conhecia a completa fúria de Gould contra todo tipo de conceito ou alegação que remotamente cheire a determinismo biológico. Mas, de qualquer forma, me desconcertou um pouco. Eis a frase, em um slide na apresentação de Pinker:</p>
<div id="attachment_753" class="wp-caption alignnone" style="width: 510px"><a href="http://biologiaevolutiva.files.wordpress.com/2011/07/blank-slate.jpg"><img class="size-full wp-image-753" title="blank slate" src="http://biologiaevolutiva.files.wordpress.com/2011/07/blank-slate.jpg?w=500&#038;h=318" alt="" width="500" height="318" /></a><p class="wp-caption-text">Slide da apresentação de Steven Pinker no TED</p></div>
<p>Antes que eu prossiga, devo alertar para um fato importante (em defesa de Gould): Steven Pinker não foi completamente honesto em sua citação. De fato, a frase é quase essa, e quem já leu bastante Gould não duvida que ele tenha querido dizer isso mesmo, uma vez que já se pronunciou a esse respeito outras vezes (o ataque que Gould faz ao Konrad Lorenz é de deixar o leitor constrangido, tamanha a deselegância – e, segundo minha opinião, tamanho o equívoco). Mas a frase está dentro de um parágrafo maior, num texto em que Gould critica Edward Wilson, e a leitura do parágrafo como um todo faz com que a frase tenha seu peso bem reduzido, pois Gould diz (pelo menos aqui!) que não defende um total “ambientalismo não-biológico”. Para quem quiser ler, eis o texto original de Gould:</p>
<blockquote><p>Thus, my criticism of Wilson does not invoke a nonbiological environmentalism; it merely pits the concept of biological potentiality – a brain capable of the full range of human behaviors and rigidly predisposed toward none – against the idea of biological determinism – specific genes for specific behavioral traits.</p></blockquote>
<p>Com esse ponto esclarecido, vamos tentar esboçar o pano de fundo histórico.</p>
<p>O determinismo biológico foi uma corrente de pensamento que defendia que os comportamentos humanos eram devidos a diferenças biológicas, hereditárias e inatas. De forma absurda e falaciosa, o determinismo biológico estabelecia que as diferenças sociais entre os diversos componentes de uma sociedade, particularmente no que diz respeito ao bem estar econômico e ao sucesso financeiro, se deveria a diferenças biológicas. Os diferentes níveis tecnológicos entre as diferentes etnias do século XIX e início do século XX eram explicados em termos de “superioridade” e “inferioridade” dessas etnias, respaldadas em suas diferenças biológicas. Do mesmo modo as diferenças entre os sexos. Propensão à criminalidade, ao alcoolismo, ao fracasso, estaria tudo determinado biologicamente.</p>
<p>Não há dúvidas de que o determinismo biológico clássico do século XIX é um absurdo, da mesma forma que seu contemporâneo e derivado, o darwinismo social. Gould é um humanista na melhor acepção do termo, e sua voz se levanta contra essa e outras formas de falácia. Há livros inteiros dedicados a esses “desmandos” cometidos por grandes autoridades científicas de suas épocas, como por exemplo “A falsa medida do homem”, obra com tradução em português.</p>
<p>O problema é que às vezes, tentando nos afastar de algo que discordamos, fazemos um movimento tão violento e exagerado que acabamos parando muito além de onde deveríamos ter parado, indo demasiadamente para o outro lado e incorrendo em um erro normalmente tão grave quanto. Para Margareth Mead, Skinner, Franz Boaz, John Watson e muitos outros, o ser humano não tem qualquer restrição comportamental. Não há nenhum comportamento pré-determinado no aparelho mental humano, e todo e qualquer comportamento é culturalmente definido, determinado pelo meio. O ser humano nasce como uma completa tabula rasa, e é capaz de exibir todo e qualquer comportamento imaginável. A cultura é capaz de fazer o comportamento variar em qualquer direção possível.</p>
<p>Os críticos dessa postura tão comum entre as ciências sociais denominam-na de Modelo Padrão das Ciências Sociais (SSSM, Standard Social Science Model), ou “determinismo cultural”. Não vou usar essa nomenclatura, pois ela nasceu no seio da psicologia evolutiva, e eu tenho tanto ou mesmo mais críticas em relação à psicologia evolutiva que em relação à abordagem clássica das ciências sociais (apesar de louvar a <em>intenção</em> original da psicologia evolutiva). Portanto, vou fazer uma brincadeira aqui e, com galhardia, denominar essa visão de “Total Desvinculação da Biologia”.</p>
<p>Eu simplesmente não admito, apesar de compreender as razões disso, que essa seja ainda a visão predominante entre as ciências sociais, em pleno século XXI. Querer ignorar que nós temos um sistema nervoso evolutivamente construído, repleto de módulos comportamentais e de redes neurais espécie-específicas, que nós constituímos uma espécie e que, como qualquer outra espécie, temos uma série de características morfológicas, fisiológicas e comportamentais específicas me lembra bastante Cremonini, dizendo que não fará bem algum em olhar pelo telescópio de Galileu&#8230;</p>
<p>Além disso, o que me incomoda bastante na postura vigente entre as ciências sociais é seu duplo padrão, sua dupla medida, quando afirma que o comportamento humano é completamente plástico e sem nenhuma base biológica, mas simultaneamente diz que o comportamento de <em>todos os outros animais</em> (um grupo claramente merofilético!) é determinado biologicamente. Da sociologia à psicologia, passando pela história e a geografia, pessoas que (em sua maioria) não têm noção alguma de zoologia, não conhecem biologia evolutiva, nunca leram sobre etologia, nunca estudaram etologia cognitiva, afirmam que todos os outros animais, com exceção do ser humano, são autômatos, desprovidos de consciência, sentimento ou estados mentais internos, <em>porque Descartes disse assim</em>! Mais uma vez, Cremonini com Aristóteles debaixo do braço. Nesse ponto eu tenho que ser honesto com os behavioristas clássicos: pelo menos eles são mais coerentes, quando dizem que todas as espécies são uma tabula rasa.</p>
<p>O que defendo aqui, espero que fique bastante óbvio, não é o determinismo clássico absurdo e criminoso, usado para justificar em nome de uma ciência enviesada todo tipo de opressão e dominação. Não estou falando de diferenças entre os seres humanos. O que estou falando aqui é da espécie humana como um todo: nós formamos um grupo animal com uma história evolutiva única, um sistema nervoso particular e que, apesar das pequenas diferenças entre os indivíduos de nossa espécie, tem um modelo característico e fácil de ser identificado. Nós já nascemos repletos de comportamentos determinados, somos animais com uma quantidade gigantesca de comportamentos geneticamente modulados, o que o público leigo chama de instintos. Isso mesmo! É elementar que somos capazes de aprender, mas a nossa própria capacidade de aprender, a maneira como nós aprendemos, as particularidades de nossos processos de aquisição cognitiva, até isso é determinado pela arquitetura de nosso sistema nervoso. Esse é o “determinismo biológico” que defendo, como afirmei na introdução da presente nota. Entre os filósofos, ele é chamado de “soft determinism” ou, ainda, de “compatibilismo”. Trata-se de repelir com rigor a falácia naturalista ridícula do determinismo biológico clássico, mas trata-se também de não abraçar completamente e de forma estúpida a igualmente ridícula “Total Desvinculação da Biologia”.</p>
<p>Nosso comportamento não é completamente livre para se manifestar de todas as maneiras possíveis e imagináveis. Como uma espécie animal, nosso comportamento é claramente variável, e pra quem gosta de uma competiçãozinha (sempre alguém tem que falar “mas o ser humano é a espécie mais <em>numseiquê</em> do mundo”&#8230;), posso sem problema algum admitir que o ser humano é o animal com o comportamento mais variavelmente plástico entre todas as espécies existentes. Mas esse comportamento varia dentro de certos limites, limites estabelecidos por nossa biologia, por nossa arquitetura cerebral, por nossa história evolutiva.</p>
<p>Creio que nada mais conveniente que encerrar com uma passagem do psicólogo e filósofo William James, que diz de forma bem mais profunda e elegante o que tentei defender aqui. Vale à pena a leitura:</p>
<blockquote><p>It takes a mind debauched by learning to carry the process of making the natural seem strange so far as to ask for the <em>why</em> of any instinctive human act. To the metaphysician alone can such questions occur as : Why do we smile, when pleased, and not scowl? Why are we unable to talk to a crowd as we talk to a single friend? Why does a particular maiden turn our wits so upside down? The common man can only say, &#8220;<em>of course</em> we smile, <em>of course</em> our heart palpitates at the sight of the crowd, <em>of course</em> we love the maiden, that beautiful soul clad in that perfect form, so palpably and flagrantly made from all eternity to be loved!&#8221;</p>
<p>And so probably does each animal feel about the particular things it tends to do in presence of particular objects. They, too, are <em>a priori</em> syntheses. To the lion it is the lioness which is made to be loved ; to the bear, the she-bear. To the broody hen the notion would probably seem monstrous that there should be a creature in the world to whom a nestful of eggs was not the utterly fascinating and precious and never-to-be-too-much-sat-upon object which it is to her.</p>
<p>Thus we may be sure that, however mysterious some animals&#8217; instincts may appear to us, our instincts will appear no less mysterious to them. And we may conclude that, to the animal which obeys it, every impulse and every step of every instinct shines with its own sufficient light, and seems at the moment the only eternally right and proper thing to do. It is done for its own sake exclusively. What voluptuous thrill may not shake a fly, when she at last discovers the one particular leaf, or carrion, or bit of dung, that out of all the world can stimulate her ovipositor to its discharge? Does not the discharge then seem to her the only fitting thing? And need she care or know anything about the future maggot and its food ?</p></blockquote>
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		<title>Seleção para o comportamento</title>
		<link>http://biologiaevolutiva.wordpress.com/2011/06/26/selecao-para-o-comportamento/</link>
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		<pubDate>Sun, 26 Jun 2011 17:15:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gerardo Furtado</dc:creator>
				<category><![CDATA[Evolução e comportamento]]></category>
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		<description><![CDATA[Em sua longa associação com seres humanos, os cães têm sido criados de acordo com as necessidades humanas. Mas quais são essas necessidades hoje? Estamos satisfazendo-as ao criarmos cães com morfologias cada vez mais extremas, sem considerar seu comportamento ou sua saúde?<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biologiaevolutiva.wordpress.com&amp;blog=8176203&amp;post=734&amp;subd=biologiaevolutiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em><strong>Prolegômeno</strong>: Antes que os puristas da língua e gramáticos de plantão reclamem do título da presente nota (“quem seleciona seleciona algo”, dirão, “portanto é seleção de, e não seleção para”), a fórmula seleção para tem um sentido bem determinado em biologia evolutiva, conforme proposto por Sober. Esse, por sinal, pode ser o tema para uma nota futura.</em></p>
<p>Que muitas pessoas vivem de aparência não é novidade pra ninguém. Um infeliz exemplo disso é a triste condição de uma quantidade inimaginável de cães abandonados e em perfeitas condições para adoção, preteridos em favor de cães “de raça”, seja isso o que for (para quem não compreendeu o sarcasmo, <a title="Sobre cães, raças e preconceito" href="http://biologiaevolutiva.wordpress.com/2009/09/25/sobre-caes-racas-e-preconceito/">eis uma nota a respeito</a>), comprados em pet shops ou, absurdo dos absurdos, em puppy mills. Escolhendo o seu cão por critérios puramente estéticos, esquecem ou escolhem ignorar a principal característica dos cães, aquilo que tanto contribuiu para nossa relação com essa variedade de lobo: seu comportamento.<span id="more-734"></span></p>
<p>Já é passada e muito a hora de esquecermos a aparência e privilegiarmos o comportamento nos cruzamentos (eu poderia falar de humanos, mas antes que me acusem de eugenia positiva, vou ficar só nos cães mesmo&#8230;), ou, para não sermos tão radicais, pelo menos dar mais importância ao comportamento que à aparência, na determinação dos cruzamentos e nos chamados “padrões da raça”, estabelecidos por criadores e Kennel Clubs. Eu, que recentemente tive minha cadela atacada e quase morta por outro cachorro (minha cadela tem mais de 40 quilos, daí dá pra imaginar o tamanho dos combatentes), cujo proprietário imbecil levou pra passear sem coleira, sei bem da importância disso. Para passear sem coleira o cão tem que ser perfeitamente submisso ao dono (ou ao tutor, pra não usar a palavra “dono”). E essa submissão seria facilitada com a seleção de cães mais dóceis, mais amigáveis e mais companheiros. Como telespectador e fã do Cesar Millan, sei que na imensa maioria das vezes (poderei chutar uns 95%, uns 19 de cada 20?) os problemas comportamentais dos cães são resultado de erros, incompreensões, abusos ou estupidezes praticadas pelos seus tutores. Já que a maioria dos tutores não sabe impor disciplina e dar carinho (nessa ordem) a seus cães, cães mais amigáveis e dóceis ajudariam e muito os humanos que, em sua maioria, têm dificuldades em educar corretamente seus cães.</p>
<p>Bem, escrevo essa nota com o intuito de divulgar uma entrevista sobre esse assunto feita com o professor James Serpell, da Escola de Medicina Veterinária da Universidade da Pennsylvania, que tive o grande prazer de conhecer e assistir uma de suas palestras num congresso de etologia em Brasília, há alguns anos. A entrevista original, publicada pela Stay Free Magazine, está <a href="http://www.stayfreemagazine.org/archives/22/james-serpell-dog-breeding.html">aqui</a>. Devo avisar de antemão que se trata de uma revista de variedades e, sendo assim, há algumas incorreções científicas aqui e acolá, mas nada de muito grave; a tentação foi grande, mas procurei não alterá-las.</p>
<p>Escrevi para os editores da revista diversas vezes requerendo autorização para traduzir a entrevista, mas não me responderam. Bem, mesmo sem autorização, eis a tradução. As notas são minhas.</p>
<h2><strong>Por que cães “de raça pura” não brincam de ir pegar: Uma entrevista com James Serpell</strong></h2>
<p>Como os lobos se transformaram nos Greyhounds, Pugs e Yorkshires dos dias de hoje? Algumas teorias tentam explicar. A maioria dos historiadores acredita que antigos humanos<a href="#f1"><sup>[1]</sup></a> adotavam filhotes de lobo órfãos e os criavam como companheiros de caçada. Outra perspectiva sugere que lobos corajosos o bastante para procurar comida perto de assentamentos humanos tinham maiores taxas de sobrevivência e reprodução. Com o tempo, segundo essa teoria, essa população de lobos perdeu seu medo dos humanos.</p>
<p>Esses antigos humanos tinham poucos recursos para manter esses animais como “pets” e necessitavam que eles trabalhassem para justificar sua manutenção. Moradores rurais criavam cães para proteger contra predadores, para ajudar a lidar com o gado e para caçar. Os hábitos de criação mudaram, contudo, quando as exposições e competições caninas surgiram na Inglaterra Vitoriana. Uma grande classe ociosa buscava símbolos de status, que os criadores forneceram com os recém-descobertos princípios da genética e da seleção natural de Darwin.</p>
<p>Ao manter registros das genealogias e ao adotar práticas como o endocruzamento (acasalando um reprodutor com sua progênie), os criadores passaram a produzir cães tão variados que eles pareciam diferir de seus ancestrais como diferiam de gatos ou bodes. O American Kennel Club e o British Kennel Club emergiram na década de 1880 para regulamentar os aspectos morfológicos de “raças” específicas, gerenciar registros de cruzamentos e organizar exibições para designar cães campeões. Ao dar prioridade à aparência dos cães, contudo, os Kennel Clubs negligenciaram outras características – nomeadamente, seu comportamento e sua saúde. Como resultado, cães de “raça pura” manifestam centenas de patologias devido a seu histórico de endocruzamentos.</p>
<p>Em sua longa associação com seres humanos, os cães têm sido criados de acordo com as necessidades humanas. Mas quais são essas necessidades hoje? Estamos satisfazendo-as ao criarmos cães com morfologias cada vez mais extremas, sem considerar seu comportamento ou sua saúde? O Dr. James Serpell, diretor do Center for the Interaction of Animals and Society, na Universidade da Pennsylvania, tem escrito extensivamente sobre criação de animais de estimação e sociedades humanas. Seu trabalho mais bem conhecido sobre o tema é <em>In the company of animals</em>. Stay Free entrevistou o Dr. Serpell por telefone, em março de 2004.</p>
<div id="attachment_735" class="wp-caption alignnone" style="width: 210px"><a href="http://biologiaevolutiva.files.wordpress.com/2011/06/serpell.jpg"><img class="size-full wp-image-735" title="serpell" src="http://biologiaevolutiva.files.wordpress.com/2011/06/serpell.jpg?w=500" alt=""   /></a><p class="wp-caption-text">James Serpell</p></div>
<p>Stay Free: Em um programa recente da TV Nova, Dogs and more dogs, você sugeriu que os criadores de cães deveriam cruzá-los focando seu comportamento, ao invés da aparência e outras características morfológicas. Dado que a maioria dos norte-americanos vive em cidades, quais seriam as características desses cães?</p>
<p>James Serpell: Eu conduzi uma pesquisa, há alguns anos, para saber se o que as pessoas esperavam de um cachorro era diferente do que elas esperavam de um gato. Contrariamente à minha hipótese, não houve praticamente diferença alguma. As pessoas querem animais de estimação que sejam carinhosos e interativos, que as deem bastante atenção e que não tenham aquelas características indesejáveis: não seja agressivo ou excitável, que não lata<a href="#f2"><sup>[2]</sup></a> muito. Elas querem uma certa previsibilidade. Uma vez que há certa uniformidade em relação ao que as pessoas querem, por que não reproduzir cães com essas características? Era assim que as pessoas originalmente reproduziam cães: se você precisava de um cão que reouvesse patos (um retriever), você faria uma seleção para essa função, o que incluiria ter a forma correta, a pelagem correta, entre outras características. Tudo vem junto, num pacote, que é a forma como a evolução opera. Por que nós não fazemos isso para os pets?</p>
<p>Stay Free: Pode-se achar isso óbvio. Porém, a criação<a href="#f3"><sup>[3]</sup></a> de cães – pelo menos nos Kennel Clubs – parece focar inteiramente na estética. Muitas raças não podem mais sequer executar suas funções originais. Há muitos retrievers de “raça pura”, por exemplo, que não brincam de ir pegar. Que papel tem nisso os padrões estabelecidos para as raças?</p>
<p>James Serpell: Todo ano, o American Kennel Club publica o <em>The complete dog book</em>, que contém os padrões das raças. Para cada raça há uma descrição bem específica do tamanho do nariz, da cor das orelhas, e assim por diante. Mas, ao falar de comportamento, o livro lista termos vagos como “corajoso e impassível”. Se você parar pra pensar, significa que o cão tem um temperamento em que não se pode confiar. Nós não queremos cães “corajosos e impassíveis” no ambiente urbano, mas esse é o padrão da raça. Se desafiado, o American Kennel Club vai dizer que está selecionando para certas funções. Mas não faz sentido criar cães de companhia com as características de um cão de guarda potencialmente perigoso.</p>
<p>Stay Free: Muitos cães de “raça pura” não são saudáveis. Bulldogs, por exemplo, precisam nascer por cesariana. Por que isso?</p>
<p>James Serpell: Quase todos os criadores de bulldogs com pedigree fazem o nascimento por cesariana por causa da estreiteza da bacia da cadela e o tamanho da cabeça dos filhotes. Essa é uma clássica ilustração do problema dos “padrões de raça”. O padrão original para os bulldogs era que a cabeça deveria ser o mais larga possível, e por isso os criadores têm continuamente acentuado essa característica.</p>
<p>Stay Free: As pessoas ainda tentam usar a genética para assegurar a pureza de uma raça específica?</p>
<p>James Serpell: Sim, isso está implícito no processo. Criadores consideram um cão “misto” como uma coisa terrível. Há muito orgulho em relação à linhagem do cão, ao seu pedigree – como se os criadores estivessem falando de sua própria árvore familiar, como se fossem descendentes de uma aristocracia. A ideia de um exocruzamento, de cruzar com uma raça distinta para atenuar uma característica não saudável, é uma blasfêmia, porque destrói a “pureza” da linhagem. Criadores justificam isso dizendo “se a raça é pura, ela é previsível, e as pessoas saberão o que têm em mãos”. Mas na realidade ainda há uma grande variação dentro de uma raça. Isso é devido parcialmente à genética e parcialmente às condições nas quais os cães se desenvolvem.</p>
<p>Stay Free: A genética é capaz de distinguir as raças?</p>
<p>James Serpell: Não, você não pode fazer uma distinção entre duas raças de cães com as técnicas genéticas atuais. Na verdade, você não pode sequer diferenciar um cão de um lobo de forma confiável. Algumas análises de DNA mitocondrial põem o lobo no meio das outras raças, fazendo o lobo parecer apenas outra raça<a href="#f4"><sup>[4]</sup></a>. Além disso, você pode ter dois cães da mesma raça separados por quilômetros num mapa de DNA. Na Inglaterra, quando decidiram banir o American Pit Bull Terrier, eles imediatamente tiveram problemas em identificar geneticamente os cães. Havia tantos híbridos que a lei teve que ser, afinal, modificada.</p>
<p>Stay Free: Eu ouvi que alguns veterinários tem tentado achar um “gene para violência” em Pit Bulls. Essa procura ainda continua?</p>
<p>James Serpell: Muitas organizações gostariam de continuar. Mas isso não foi muito longe, por uma série de razões. Primeiro, não há muita verba. Pesquisadores em genética comportamental preferem camundongos e moscas-das-frutas, que eles podem reproduzir rapidamente, enquanto reproduzir cães tem um custo elevado. Outra razão é que a genética do comportamento é imensamente complicada; eles nunca vão achar um “gene para violência”.  Eles podem achar um gene que, quando presente em certos indivíduos, os predispõe a mais provavelmente expressar certos traços de violência, mas tanta coisa é filtrada pelo ambiente no qual eles se desenvolvem que você não pode prever com certeza que indivíduo irá se comportar mal. Até cientistas em genética populacional humana falam disso o tempo todo: de que forma eles vão achar um gene para esse comportamento ou para aquele comportamento&#8230; Mas é uma maneira simplificada de falar de algo que é enormemente complexo. Eu acho que ainda há um longo caminho até haver um quadro genético da agressão.</p>
<p>Stay Free: Você vê alguma conexão entre o pensamento racista e alguns dos pensamentos dos criadores de cães?</p>
<p>James Serpell: Nunca fui capaz de estabelecer uma conexão explícita, mas é difícil imaginar que não haja alguma.</p>
<p>Stay Free: As outras partes do mundo praticam a criação de cães da forma como os Estados unidos e a Grã-Bretanha fazem?</p>
<p>James Serpell: Cada país tende a focar em sua raça nacional, ou pelo menos em sua raça preferida. Eu me lembro de ficar assustado ao ver quantos Setters Ingleses há na Noruega. Não é uma raça que se vê frequentemente em outros lugares. Os alemães têm academias para pastores alemães com programas de treinamento, onde eles são treinados como cães de guarda – quase cães de guerra. Eles os fazem passar por vários testes, como por exemplo ficar ao lado de uma espingarda que dispara e não se assustar.</p>
<div>
<hr align="left" size="1" width="33%" />
<div>
<p><a title="" name="f1"></a>[1] A data mais provável para a domesticação do lobo é 15 mil anos antes do presente (paleolítico superior), em regiões da Ásia central e oriental.</p>
</div>
<div>
<p><a title="" name="f2"></a>[2] No original, “fart”. Creio que houve um mal entendido, e o Dr. Serpell tenha dito “bark”; afinal, foi uma entrevista pelo telefone, e “fart” não faz muito sentido no contexto.</p>
</div>
<div>
<p><a title="" name="f3"></a>[3] O termo “criação”, ao longo da entrevista, é usado não no sentido de “cuidar” e sim no sentido de cruzar seletivamente, selecionar. Refere-se, portanto, aos criadores profissionais e à cinofilia.</p>
</div>
<div>
<p><a title="" name="f4"></a>[4] Na verdade, por incrível que pareça, os cães são biologicamente uma variedade do lobo, não constituindo uma espécie distinta. São todos, portanto, <em>Canis lupus</em>.</p>
</div>
</div>
<br />Filed under: <a href='http://biologiaevolutiva.wordpress.com/category/evolucao-e-comportamento/'>Evolução e comportamento</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/biologiaevolutiva.wordpress.com/734/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/biologiaevolutiva.wordpress.com/734/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/biologiaevolutiva.wordpress.com/734/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/biologiaevolutiva.wordpress.com/734/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/biologiaevolutiva.wordpress.com/734/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/biologiaevolutiva.wordpress.com/734/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/biologiaevolutiva.wordpress.com/734/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/biologiaevolutiva.wordpress.com/734/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/biologiaevolutiva.wordpress.com/734/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/biologiaevolutiva.wordpress.com/734/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/biologiaevolutiva.wordpress.com/734/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/biologiaevolutiva.wordpress.com/734/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/biologiaevolutiva.wordpress.com/734/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/biologiaevolutiva.wordpress.com/734/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biologiaevolutiva.wordpress.com&amp;blog=8176203&amp;post=734&amp;subd=biologiaevolutiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>1% de diferença. O que isso significa?</title>
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		<pubDate>Thu, 26 May 2011 03:05:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gerardo Furtado</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[chimpanzés]]></category>
		<category><![CDATA[DNA]]></category>
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		<category><![CDATA[proteoma]]></category>
		<category><![CDATA[sequenciamento]]></category>

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		<description><![CDATA[O fito da presente nota é discutir sobre um mal-entendido, um conceito ou informação científica que, ao ser vulgarizada, foi deturpada de tal forma que levou a uma derivação absurda em meio ao público leigo. Eis a informação: “O DNA de um ser humano (Homo sapiens) e o de um chimpanzé (Pan troglodytes) diferem em apenas 1%”. O que isso significa?<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biologiaevolutiva.wordpress.com&amp;blog=8176203&amp;post=725&amp;subd=biologiaevolutiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A alfabetização científica é um processo fundamental. No entanto, durante a vulgarização de certos conceitos, mal-entendidos podem e vão acontecer, e o que chega ao público leigo é bem diferente do que partiu da comunidade científica. Boa parte dos vulgarizadores está bem consciente disso. Por exemplo, os livros-texto de genética ou evolução costumam alertar repetidamente que o conceito de herdabilidade que o público leigo possui (quantos por cento de uma característica se devem a fatores genéticos) difere substancialmente do conceito correto (quantos por cento das diferenças de uma característica, observadas numa população, se devem a fatores genéticos), e isso tem consequências sérias para a correta compreensão do conceito de herdabilidade, como se pode perceber na tão comum (e sem sentido) pergunta “quanto da inteligência se deve aos genes e quanto se deve à influência do ambiente?”. O fito da presente nota é discutir sobre um mal-entendido semelhante, um conceito ou informação científica que, ao ser vulgarizada, foi deturpada de tal forma que levou a uma derivação absurda em meio ao público leigo. Eis a informação: “O DNA de um ser humano (<em>Homo sapiens</em>) e o de um chimpanzé (<em>Pan troglodytes</em>) diferem em apenas 1%”. O que isso significa? Tentarei mostrar que essa informação, a não ser que você seja um(a) geneticista ou trabalhe com construção de filogenias, tem o seguinte significado: nenhum. Devo alertar, antes de prosseguir, que o que passo a alegar logo abaixo não é nada inédito, muito menos conclusões de minha cabeça, lavra própria; diversos livros de evolução ou genética fazem o mesmo alerta, ou um alerta semelhante. Contudo, como uma das propostas deste blog é a vulgarização científica, creio ser pertinente falar desse assunto pois suspeito que infelizmente, entre o público leigo, paira uma conclusão fundamentalmente incorreta, derivada dessa informação sobre o DNA dos humanos e dos chimpanzés.<span id="more-725"></span></p>
<div id="attachment_726" class="wp-caption alignnone" style="width: 460px"><a href="http://biologiaevolutiva.files.wordpress.com/2011/05/dna_analysis.jpg"><img class="size-full wp-image-726 " title="DNA analysis" src="http://biologiaevolutiva.files.wordpress.com/2011/05/dna_analysis.jpg?w=500" alt=""   /></a><p class="wp-caption-text">Sequenciamento das bases de um DNA (fonte: Science Photo Library)</p></div>
<p>Primeiramente, vamos olhar mais de perto o dado. Um por cento, essa é a diferença entre o material genético de um ser humano e de um chimpanzé. Mas do que estamos falando aqui, precisamente? O material genético do ser humano é constituído por 30% de genes propriamente ditos e 70% de sequências intergênicas, ou seja, <em>espaços</em> entre os genes. Se o número 1% se refere ao total do material genético, então, considerando apenas os genes propriamente ditos, a diferença pode variar entre 0% (todas as diferenças nas regiões intergênicas) e 3,3% (todas as diferenças nos genes). Acontece que esses genes propriamente ditos são constituídos aproximadamente, em sua totalidade, por 95% de introns e por 5% de exons. Assim, se quisermos considerar apenas as sequências codificantes, que são as que de fato interessam para a manufatura das proteínas (enquanto não se estabelece devidamente o papel, se é que há algum, destes 98,5% do DNA humano constituído por sequências intergênicas e introns), vamos chegar ao intervalo entre 0% e 66,7% de diferença entre o material genético (codificante) de um humano e de um chimpanzé. Perceba que o caminho pode ser também o oposto: se esses 1% tão divulgados pela mídia referirem-se às sequências codificantes, então a diferença total entre o DNA humano e o DNA chimpanzé pode ser qualquer valor entre 0,015% e 98,515%, uma vez que não haveria qualquer informação sobre as sequências não-codificantes. Para piorar ainda mais as coisas, a porcentagem do DNA de chimpanzés que é formada por genes não tem que ser a mesma (30%) que a do DNA humano, nem também a porcentagem de exons. “Afinal de contas”, você se pergunta, “esse valor de 1% se refere a que, à totalidade do DNA ou apenas aos genes, ou ainda apenas aos exons? Você não vai esclarecer esse ponto antes de prosseguir?” Não, eis a minha resposta, porque não importa. Qualquer que seja o número, ele não terá significado prático.</p>
<p>Por quê? Vejamos. Imagine dois textos, cada um com 100 palavras, cada palavra com 100 letras. Temos, portanto, 10.000 (dez mil) letras em cada texto. Como você corretamente já antecipou, cada texto é o DNA de uma das espécies, seres humanos e chimpanzés, cada palavra corresponde a um gene e cada letra de cada palavra corresponde a um nucleotídeo. Nessa analogia não haverá sequências não-codificantes. Muito bem, eu digo pra você que há 1% de diferença entre os dois textos. Matematicamente, há 100 letras diferentes. Agora vem o interessante: é possível que entre estes dois textos apenas uma palavra seja diferente, com todas as suas 100 letras discordantes. Uma palavra em 100 não é muita coisa. Por outro lado, é possível que <strong>todas</strong> as palavras sejam diferentes! Basta que haja uma letra diferente em cada palavra, ou seja, 1% de diferença em cada uma das palavras. Vamos ter 100 letras diferentes ao final (totalizando 1% de diferença), e 100% de palavras diferentes. No fim das contas, o que você percebeu de forma clara é que simplesmente não dá pra saber quantas palavras são diferentes comparando-se os dois textos, apenas por saber que 1% das letras difere. O 1% de diferença entre o DNA humano e o DNA de chimpanzés pode levar a 1% de diferença entre seus genes, ou 16%, ou 72%, ou 98%, ou mesmo 100%.</p>
<p>E por que nós damos tanta importância às <em>palavras</em> nessa analogia? Porque os genes, determinando as proteínas que são produzidas em diferentes tecidos e em diferentes momentos, são o principal (mas não o único) componente responsável por determinar aquilo que chamamos de <em>características</em> de um organismo vivo. A informação de que “a diferença entre o DNA humano e o DNA chimpanzé é de 1%” não nos ajuda em nada a determinar quantos por cento das proteínas de um ser humano são diferentes das de um chimpanzé. E, mesmo que a análise de proteomas não envolvesse coisas tão complexas como <em>quando</em>, <em>onde</em> e <em>quanto</em> (ao contrário do genoma, que é sempre presente e sempre igual, o local onde uma proteína é sintetizada, o quanto dela é produzida e em que época do desenvolvimento ocorre tal produção são fatores fundamentais), mesmo assim, mesmo que soubéssemos, isso pouco adiantaria. Por quê?</p>
<p>Uma proteína é uma estrutura muito complexa, cuja função é determinada por uma topografia tridimensional bastante elaborada. Dizer que x% ou y% dos aminoácidos entre duas proteínas dadas difere não é informação suficiente: qual a posição de cada aminoácido? Qual aminoácido específico foi trocado por qual aminoácido específico. Trocar um aspartato por um glutamato pode não ser muita coisa, mas trocar um aspartato por uma lisina pode ser fatal. Dependendo da localização, você pode trocar 5 ou 10%  dos aminoácidos de uma proteína e a função dela continua quase inalterada; ou então, como no famoso exemplo da siclemia, você pode trocar um só aminoácido entre centenas e alterar totalmente o funcionamento protéico.</p>
<p>A conclusão, portanto, é que não é possível relacionar um dado sobre a diferença genética entre duas espécies às diferenças de fato entre elas (seja isso o que for), ou seja, em relação a suas morfologias, fisiologias, comportamentos, particularidades bioquímicas&#8230; enfim, àquilo que chamamos de <em>fenótipo</em>. Um ser humano não é 1% diferente de um chimpanzé&#8230; Uma frase como essa não só é errada mas também um desserviço à construção de um saber científico. Os seres humanos e os chimpanzés são organismos que compartilham uma série de características (o termo correto é <em>estruturas</em>) devido à sua história evolutiva comum, e que, cada um por seu lado, possuem uma série de características únicas, exclusivas. Muitas delas são genéticas, algumas são hereditárias e não-genéticas, algumas até mesmo nem hereditárias nem genéticas&#8230; Não faz sentido (nem é possível) quantificá-las. Imagine a frase “os seres humanos são 4,7% diferentes dos cavalos”, ou “os caranguejos são 16,8% diferentes das gaivotas”. O que isso quer dizer? Qual o significado biológico disso?</p>
<p>Esse famoso 1% de diferença entre o DNA humano e o DNA de chimpanzés na verdade tem significância, pois para geneticistas e biólogos evolutivos que trabalham com comparações moleculares essas informações são importantes para a construção de filogenias e outros estudos evolutivos. Daí a dizer, como dizem <em>por aí</em>, que os chimpanzés são 1% distintos dos seres humanos há uma grande distância&#8230;</p>
<br />Filed under: <a href='http://biologiaevolutiva.wordpress.com/category/geral/'>Geral</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/biologiaevolutiva.wordpress.com/725/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/biologiaevolutiva.wordpress.com/725/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/biologiaevolutiva.wordpress.com/725/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/biologiaevolutiva.wordpress.com/725/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/biologiaevolutiva.wordpress.com/725/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/biologiaevolutiva.wordpress.com/725/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/biologiaevolutiva.wordpress.com/725/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/biologiaevolutiva.wordpress.com/725/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/biologiaevolutiva.wordpress.com/725/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/biologiaevolutiva.wordpress.com/725/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/biologiaevolutiva.wordpress.com/725/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/biologiaevolutiva.wordpress.com/725/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/biologiaevolutiva.wordpress.com/725/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/biologiaevolutiva.wordpress.com/725/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biologiaevolutiva.wordpress.com&amp;blog=8176203&amp;post=725&amp;subd=biologiaevolutiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Por que há decussação? Comentários&#8230;</title>
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		<pubDate>Sun, 22 May 2011 06:44:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gerardo Furtado</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Decussação]]></category>

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		<description><![CDATA[Finalizando a postagem sobre decussação, gostaria de agradecer os comentários recebidos e disponibilizar um interessante paper sobre o assunto.<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biologiaevolutiva.wordpress.com&amp;blog=8176203&amp;post=717&amp;subd=biologiaevolutiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Gostaria de agradecer a todos que gentilmente escreveram seus comentários na postagem sobre <a title="Por que há decussação?" href="http://biologiaevolutiva.wordpress.com/2011/04/28/por-que-ha-decussacao/">decussação</a>, na verdade os comentários foram mais numerosos do que eu imaginava.<span id="more-717"></span></p>
<p>Quero começar pelo comentário do Ricardo: como ele nos fala, &#8220;o controle nervoso contralateral é importante para o padrão de locomoção em S dos cordados, que apresentam musculatura na forma de somitos. Esse tipo de locomoção requer uma coordenação de contração e relaxamento entre os dois lados do corpo para ser eficiente&#8221;&#8230; mas de que maneira a posição do pericário relativo àquela fibra eferente vai ter alguma influência na melhor coordenação dos movimentos? Porque um controle ipsilateral não pode fazer a mesmíssima coisa?</p>
<p>Esse foi exatamente o ponto levantado no comentário do Lucas, quando ele diz &#8220;E eu não consigo ver como o cruzamento da maior parte das fibras poderia aumentar a agilidade da resposta a um estímulo de luta ou fuga. Aliás, isto apenas aumenta o tempo que o impulso leva para chegar até o destino&#8221;. Apesar de, segundo ele, não ter respondido nada, não só esse comentário foi interessante, mas também o comentário seguinte: &#8220;As fibras espino-cerebelares surgem de um lado da medula, cruzam para o lado oposto, e, ao entrar no cerebelo, descruzam! Realmente, a explicação para esses cruzamentos de fibras são um desafio…&#8221; Esse descruzamento, por si só, dá muito pano pra manga.</p>
<p>O Bruno, em seu comentário, lembra algo importante: a decussação das pirâmides é só um exemplo num esquema maior de decussação. Aqui o erro foi meu: deveria ter alertado, no texto original, que &#8220;decussação das piramides&#8221;não é de forma alguma o mesmo que &#8220;decussação&#8221; apenas.</p>
<p>Mas, enfim, qual a vantagem da decussação? O melhor artigo que achei, como comentei no post original (e que coincidentemente também me foi enviado pelo meu grande amigo Felipe Pessoa, depois de ler o post), nos diz que a posição contralateral e ipsilateral dos pericários é apenas aparentemente de igual eficácia. Segundo o artigo, quando o número de fibras cresce a partir de um certo número, o posicionamento contralateral é substancialmente mais robusto quanto ao surgimento de erros nas conexões. &#8220;Mas por quê?&#8221;, você pergunta. Ah, aí você vai ter que ler o paper&#8230;</p>
<p>Eis o Abstract, e mais abaixo o paper, para download:</p>
<blockquote><p>Many vertebrate motor and sensory systems ‘‘decussate’’ or cross the midline to the opposite side of the body. The successful crossing of millions of axons during development requires a complex of tightly controlled regulatory processes. Because these processes have evolved in many distinct systems and organisms, it seems reasonable to presume that decussation confers a significant functional advantage—yet if this is so, the nature of this advantage is not understood. In this article, we examine constraints imposed by topology on the ways that a three-dimensional processor and environment can be wired together in a continuous, somatotopic, way. We show that as the number of wiring connections grows, decussated arrangements become overwhelmingly more robust against wiring errors than seemingly simpler same-sided wiring schemes. These results provide a predictive approach for understanding how 3D networks must be wired if they are to be robust, and therefore have implications both for future large-scale computational networks and for complex biomedical devices.</p></blockquote>
<p><a href="http://biologiaevolutiva.files.wordpress.com/2011/05/why-decussate.pdf">Why Decussate? Topological Constraints on 3D Wiring</a>. THE ANATOMICAL RECORD 291:1278–1292 (2008)</p>
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		<title>Por que há decussação?</title>
		<link>http://biologiaevolutiva.wordpress.com/2011/04/28/por-que-ha-decussacao/</link>
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		<pubDate>Thu, 28 Apr 2011 05:50:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gerardo Furtado</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Decussação]]></category>
		<category><![CDATA[decussação das pirâmides]]></category>
		<category><![CDATA[evolução]]></category>
		<category><![CDATA[hipóteses]]></category>
		<category><![CDATA[Vertebrata]]></category>

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		<description><![CDATA[Por que ocorre a decussação das pirâmides? Não sei a resposta; na verdade, não parece haver ainda uma explicação amplamente aceita. Essa postagem é exatamente um convite: colabore escrevendo o que você acha, qual sua hipótese favorita para explicar esse fenômeno, tão ubíquo entre os vertebrados e, ainda assim, tão pouco compreendido evolutivamente.<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biologiaevolutiva.wordpress.com&amp;blog=8176203&amp;post=710&amp;subd=biologiaevolutiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Estou passando por alguns problemas pessoais que me impedem de escrever com a frequência que gostaria. Porém, como já havia dito numa postagem ao final do ano passado, blog parado é blog morto. Logo, na impossibilidade de escrever um artigo mais adequadamente preparado, mas ainda assim precisando publicar alguma coisa, resolvi postar uma dúvida minha. Isso mesmo, uma dúvida.<span id="more-710"></span></p>
<p>Tenho, ultimamente, escrito muito sobre a natureza de algumas justificativas para processos evolutivos, alegando que muitas dessas justificativas são apenas suposições, algumas mais verossímeis do que outras, mas ainda assim apenas suposições. A <a title="Cabeleira cabeluda" href="http://biologiaevolutiva.wordpress.com/2011/04/02/cabeleira-cabeluda/">postagem anterior</a> foi basicamente sobre isso. Quando a estava escrevendo, arrolei (que palavra feia!) mentalmente algumas características, muito provavelmente seletivas, cuja explanação do porque serem tão frequentes é complexa, controversa ou difícil de ser estabelecida com exatidão. Uma dessas características é a decussação.</p>
<p>Até onde eu saiba, a decussação ocorre em todos os vertebrados (estou aqui supondo que Vertebrata é um clado, ou seja, um grupo monofilético), e ocorre em alguns outros grupos animais, em menor extensão (a torção dos gastrópodos não é propriamente o que definimos como decussação&#8230;). A decussação, ou decussação das pirâmides em vertebrados como os seres humanos, é um fenômeno no qual as fibras nervosas cruzam obliquamente o plano mediano, passando para o lado oposto. O resultado é um controle nervoso contralateral (e não ipsilateral): o córtex motor esquerdo controla a porção direita do corpo do animal, enquanto o córtex motor direito controla a porção esquerda. Mais chãmente ainda: seu córtex motor esquerdo controla os movimentos da sua mão direita, enquanto seu córtex motor direito controla sua mão esquerda. Creio que a maioria das pessoas, mesmo as menos alfabetizadas cientificamente, já ouviu falar desse &#8220;cruzamento&#8221; do controle nervoso. Ao que tudo indica, esse fenômeno surgiu em algum momento após a diversificação dos primeiros Chordata e antes da diversificação dos Vertebrada, uma vez que todos esses últimos apresentam decussação.</p>
<div id="attachment_711" class="wp-caption alignnone" style="width: 417px"><a href="http://biologiaevolutiva.files.wordpress.com/2011/04/decussation.png"><img class="size-full wp-image-711 " title="decussation" src="http://biologiaevolutiva.files.wordpress.com/2011/04/decussation.png?w=500" alt=""   /></a><p class="wp-caption-text">Decussação das pirâmides: fibras do lado esquerdo passam para o lado direito, e vice-versa (Fonte: Henry Gray&#039;s Anatomy of the Human Body)</p></div>
<p>Surge portanto a pergunta: por que há decussação? Trata-se de uma característica seletiva? Se sim, qual a vantagem que ela confere? É muito interessante perceber que não há uma explicação científica preferida; na verdade, não há sequer uma explicação adequada, a maioria das hipóteses para explicar esse fenômeno ainda está &#8220;engatinhando&#8221; rumo à aceitação unânime (que, às vezes, não vale muita coisa&#8230;). A hipótese da qual mais gosto, apesar de não entender muita coisa, não é uma hipótese propriamente biológica, e sim uma hipótese no campo da topologia (uma área da matemática). Não estou aqui com falsa modéstia, falo sério: não entendi praticamente nada do que li! Topologia é uma área bastante complexa da matemática, com suas superfícies, seus espaços topológicos, seus teoremas de transformação, seus homeomorfismos, e por aí vai&#8230;</p>
<p>Minha proposta, enfim, é a seguinte: gostaria de que os leitores desse blog pensassem a respeito e enviassem, postando nos <em>comentários</em>, qual a sua hipótese preferida para explicar a decussação, esse fenômeno tão ubíquo, tão bem descrito, tão bem compreendido, mas ainda assim cuja evolução é tão obscura. Fiquem à vontade para enviar referências, postar comentários sem referências ou mesmo criar suas próprias hipóteses, de lavra própria, que você não leu em lugar nenhum. Os melhores comentários ganharão&#8230; bem, não ganharão nada, mas ao final de maio irei reeditar essa postagem, com os melhores comentários.</p>
<p>Se nenhum comentário for enviado (cenário altamente provável!), irei <em>tentar</em> entender o artigo que justifica a decussação através de explicações topológicas e escrever um pequeno resumo a seu respeito. Desde já, agradeço a todos aqueles que se dispuserem a comentar suas hipóteses e suposições.</p>
<br />Filed under: <a href='http://biologiaevolutiva.wordpress.com/category/geral/'>Geral</a>  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/biologiaevolutiva.wordpress.com/710/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/biologiaevolutiva.wordpress.com/710/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/biologiaevolutiva.wordpress.com/710/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/biologiaevolutiva.wordpress.com/710/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/biologiaevolutiva.wordpress.com/710/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/biologiaevolutiva.wordpress.com/710/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/biologiaevolutiva.wordpress.com/710/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/biologiaevolutiva.wordpress.com/710/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/biologiaevolutiva.wordpress.com/710/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/biologiaevolutiva.wordpress.com/710/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/biologiaevolutiva.wordpress.com/710/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/biologiaevolutiva.wordpress.com/710/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/biologiaevolutiva.wordpress.com/710/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/biologiaevolutiva.wordpress.com/710/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=biologiaevolutiva.wordpress.com&amp;blog=8176203&amp;post=710&amp;subd=biologiaevolutiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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