Mais especulações: zebras e moscas

Este curto artigo é um retorno, quase uma nota de rodapé, a dois posts anteriores (que podem ser lidos aqui e aqui), nos quais eu tratei de um tema que me parece importante: o caráter especulativo das explicações acerca de um processo seletivo. Continuar lendo

Acaso ou adaptação? Sobre as moscas com formigas nas asas

cb2Faz tempo que não uso o selo ao lado. Trata-se de uma brincadeira que fiz na época em que o selo Research Blogging, aquele verdinho, foi lançado, e tem por objetivo lembrar uma coisa fundamental: isto aqui é um blog, e boa parte do que escrevo é conjectura, suposição, opinião. É claro que muito do que escrevo é divulgação científica, acerca de teorias e fatos devidamente comprovados e aceitos pela comunidade científica. Porém, eu me dou ao direito de escrever minhas suposições e opiniões, pois, convém repetir, isto aqui é um blog. Agradeço imensamente meus seguidores e eventuais leitores, mas é importante lembrar isso vez ou outra porque o que escrevo aqui, mesmo quando é algo solidamente comprovado, não pode ser citado como fonte, ou seja, não tem a validade de um livro ou muito menos a de um periódico revisto por pares. Continuar lendo

Três domínios? Provavelmente não…

(parte 1 de uma postagem dividida em duas partes)

Você percebe que um conceito está errado e se compromete em substituí-lo pelo conceito correto. Tenta mostrar os problemas do conceito antigo, esforça-se por educar as pessoas, faz propaganda do novo conceito até que, depois de muito trabalho, as coisas começam lentamente a mudar, o conceito novo e correto começa lentamente a se estabelecer. Até que você percebe, um belo dia, que o seu novo conceito está… ultrapassado! Hora de mudar novamente, para um terceiro conceito. Continuar lendo

Quando a evolução é muito, muito rápida

É lugar-comum pensarmos nas mudanças evolutivas como algo que leva milhares, milhões de anos para acontecer. Quem de nós já não ouviu, em nossas épocas de colégio, um professor de biologia dizer “esse processo não se dá da noite para o dia”, ou “essa transição demorou milhões de anos para ocorrer”. De fato, a ideia de que mudanças aparentemente inexplicáveis são possíveis quando associadas a um intervalo de tempo suficientemente longo foi um dos grandes trunfos da biologia evolutiva em sua aurora (período cuja figura central era Charles Darwin), época em que a biologia evolutiva lutava para se mostrar válida não apenas fora mas principalmente dentro do meio científico e acadêmico. O raciocínio, bastante familiar para quem já estudou a história da biologia evolutiva, é bem simples, e foi tomado de empréstimo da geologia: se pequenas forças, agindo por um período de tempo suficientemente longo, foram capazes de imensas alterações na estrutura geológica da terra, o que a seleção não poderia fazer com os seres vivos, dado um intervalo de tempo igualmente longo? Continuar lendo

Sobre o declínio da inteligência humana

Há alguns anos escrevi aqui neste blog duas breves notas sobre fossilização gênica (que podem ser lidas aqui e aqui). De forma bastante resumida, coisa que compromete a acurácia da explicação, a fossilização gênica ocorre quando a pressão seletiva exercida sobre um gene é reduzida ou eliminada. Isso ocorre por que o processo seletivo não é apenas responsável pela manutenção das variantes mais adequadas, ele é também responsável pela própria integridade informacional dos genes responsáveis por tais variedades. Explicando de outra forma, o processo seletivo limpa continuamente o reservatório gênico, fazendo uma faxina e eliminando as mutações deletérias. Quando um determinado gene não exerce mais nenhuma função aparente, as mutações começam a se acumular (ou, em termos físicos, a entropia aumenta), a informação genética é irreversivelmente degradada e, finalmente, o gene acaba por desaparecer, podendo eventualmente deixar alguns resquícios, ou fósseis, no material genético. Analisar algumas alegações recentemente divulgadas pela mídia à luz da fossilização gênica é o fito desta breve postagem. Continuar lendo

Quantos nós?

Estava lendo, em um dia desses, o excelente e criativo “The ancestor’s tale: a pilgrimage to the dawn of life”, de Richard Dawkins. O título do livro, em português, é uma lástima: “A grande história da evolução”, com o evolução em letras garrafais; mais comercial, impossível. Bem, voltando ao assunto, defini-o como criativo devido à maneira como Dawkins estrutura seu livro: fazendo o percurso do tempo ao contrário, Dawkins parte do presente e peregrina para o passado, ao longo da grande filogenia da vida no planeta Terra. Conforme caminha, ele vai chegando aos nós (termo técnico para as ramificações em um cladograma, plural de nó. Não confundir com o pronome nós), onde outros peregrinos juntam-se à caravana; seu intuito é, ao fim da peregrinação, chegar à base da “árvore da vida”, ao último ancestral comum (LUCA, last universal common ancestor) de todos os seres vivos do planeta. Para quem não sabe, Dawkins se inspirou no “The Canterbury tales” de Chaucer. Continuar lendo

Os negros nativos da América: tempo suficiente?

Eu havia discutido, numa postagem anterior, a relação (ou a possível falta desta) entre seleção e a cor da pele em seres humanos. Naquela ocasião eu havia argumentado que há bons indícios, ou pelo menos indícios que devem ser adequadamente explicados, que nos levam a crer que a seleção não é o único fator a determinar a cor da pele em humanos, e que essa característica pode em boa medida ser determinada também por deriva genética associada a uma estampagem sexual. Continuar lendo