As capacidades sobrenaturais dos outros animais

A biologia evolutiva é uma ciência que olha para o passado. Numa época onde os chavões imperam e a baboseira empresarial de auto-ajuda é chamada de “literatura”, olhar para o passado é um absurdo inadmissível, inaceitável: não se olha para o passado, é para o futuro que se olha, dirão alguns. Bem, em primeiro lugar, convém lembrar que a biologia evolutiva é uma ciência, cuja metodologia não deve variar ao sabor das escolas filosóficas dominantes ou das visões políticas preponderantes; este foi um parágrafo um tanto obscuro para alguns, cujo esclarecimento demandará uma ocasião especial. Em segundo lugar, não há nada de inerentemente errado em se olhar para o passado.

A biologia evolutiva não olha para o futuro porque não é pertinente a ela qualquer tentativa de prever fenômenos evolutivos, ou de se estabelecer tendências evolutivas, concepção notadamente mal entendida pela maior parte dos leigos em biologia evolutiva, e sobre a qual eu já escrevi duas ou três palavras neste blog. Os conhecimentos obtidos na biologia evolutiva podem perfeitamente ser usados para descrever os processos em um sistema, para descrever os possíveis resultados de uma intervenção, para elaborar políticas ambientais ou para estabelecer cenários em desequilíbrios ecológicos, entre várias aplicações possíveis. Isso, contudo, não é a biologia evolutiva olhando para o futuro: é o resultado dos conhecimentos dessa ciência sendo aplicados para prever ou descrever eventos futuros.

Olhando para o passado nós podemos reconstituir as histórias evolutivas de diferentes ramos filogenéticos ou, numa linguagem mais acessível, de diferentes espécies. Compreendendo o meio natural de adaptabilidade (como diz Bowlby) de um determinado grupo animal, ou seja, o meio e as circunstâncias na qual um determinado comportamento surgiu, podemos ter uma noção bem mais clara de como seus comportamentos foram modificados através dos tempos e que funções (não confundir com propósitos teleológicos) esses comportamentos desempenhavam, ainda tendo em vista o meio natural de adaptabilidade.

Alguns cuidados são fundamentais: primeiramente, vamos mais uma vez fazer um alerta contra o uso de falácias naturalistas, isto é, dizer que comportamentos comuns no meio natural de adaptabilidade são “bons”, “desejáveis” e que comportamentos inexistentes nesse meio natural de adaptabilidade são “ruins”, “doentios”. Isso está completamente errado, e tal ponto de vista deve ser evitado por todos aqueles que lidam não só com biologia evolutiva ou com etologia, mas com as ciências como um todo. Em segundo lugar, há o problema da legitimação (que, na verdade, deriva das falácias naturalistas), que consiste em usar a história evolutiva para legitimar certos padrões comportamentais. Algo como “essa raça de cães é geralmente violenta, portanto esse cão X é violento, não há nada a ser feito”. Em seres humanos, é algo como “ah, a violência é um comportamento normal em humanos, daí se justifica os homicídios cometidos por X”, ou “os estupros”, ou seja o que for. Por exemplo, conheço e tenho lido sobre homossexuais que se sentiriam mais confortáveis se fosse descoberto um “gene” para homossexualidade, pois assim seu comportamento seria legitimado como algo mais forte que suas vontades, algo contra o qual eles nada poderiam fazer. Esse desconforto com sua orientação sexual é bastante comum em homossexuais que tiveram uma marcante educação religiosa. Em meu modo de ver, que é apenas uma opinião e portanto posso estar redondamente enganado, esse pensamento é deplorável porque leva à conclusão de que a homossexualidade é uma patologia, cuja ocorrência deve ser justificada. Penso que o mais saudável é o indivíduo que aceita sua orientação (não se deve falar em opção, uma vez que o indivíduo não marcou numa folha sua escolha) sexual sem necessitar de justificativas legitimizantes. Para mim, que sou heterossexual, é muito fácil falar. Mas eu também faço parte (não aqui onde moro) de uma minoria hostilizada, sendo ateu. Traçando um paralelo com o que falei antes, imaginemos um indivíduo torcendo para que os cientistas encontrem um “gene” para o ateísmo, de forma a justificar seu comportamento e redimir sua culpa, fazendo-o se sentir melhor consigo mesmo. Essa busca por causas genéticas e evolutivas de comportamentos humanos, por justificativas e por exclusões de culpa é tipicamente norteamericana, e uma das características da pobreza psicológica que assola aquela sociedade.

As falácias naturalistas devem ser evitadas tanto para comportamentos que apresentamos como também para comportamentos que não apresentamos. Aqui chegamos ao objetivo desta presente nota, e assunto que costuma me incomodar muitíssimo.

O ser humano possui um órgão formidável, um cérebro com mais de 1300 ml, capaz de coisas inacreditavelmente complexas, que os neurofisiologistas mal começaram a “tentar” explicar. Contudo, a maioria dos seres humanos (e isso se deve, entre outras coisas, à péssima qualidade do ensino de biologia, que se preocupa em ensinar um monte de bobagens e ignora coisas fundamentais para uma alfabetização científica elementar) falha miseravelmente em perceber que outros animais, pertencentes a outras linhagens evolutivas, têm comportamentos próprios e particulares, que devem ser compreendidos à luz de seus ambientes naturais de adaptabilidade e de suas histórias filogenéticas. Não compreendem que histórias evolutivas particulares levam a características e propriedades únicas, e que a diferença entre os aparelhos mentais dos diversos animais (que possuam sistema nervoso, é claro) não pode ser medida por uma escala de capacidade. Ainda assim, a esmagadora maioria das pessoas põe os animais numa escala (a velha scala naturae…), o ser humano no topo, é claro, e estabelece os graus de inteligência de cada um. Nada mais comum e infeliz que a comparação dos animais (grupo parafilético, perceba) com bebês e com débeis mentais! Num dia desses estava lendo um fórum sobre utilitarismo, em que se discutia a forma de aferir o bem de uma determinada ação, quando uma criatura perguntou “mas e as crianças, os retardados mentais e os animais, que não podem escolher suas ações?” Fechei o navegador na mesma hora.

Todos os animais são iguais, e todos são igualmente retardados! E se fazem algo que demonstre inteligência, é sempre algo semelhante a uma ação humana. A capacidade de um cachorro em compreender, num varrer de olhos, os vários graus hierárquicos dos elementos que compõem um grupo social não é sequer percebida. Mas a um cachorro que dá a patinha quando um humano estende a mão o mais elevado grau de inteligência é reputado.

Mas o mais curioso é o fato de que, apesar de a maioria das pessoas listarem os animais como criaturas de “menor grau de inteligência” quando comparadas ao ser humano, essa mesma maioria espera de diferentes animais comportamentos e capacidades que elas mesmas não têm, e que por vezes chegam ao grau de superpoderes.

O primeiro exemplo vem de uma situação que ocorreu há alguns anos. Eu estava dando uma aula de zoologia, quando um aluno falou “professor, eu estava no meu sítio, onde há muitos morcegos, que passam a noite toda voando pelo alpendre…” e eu “ã-hãm”, “… quando eu pensei em fazer um teste, peguei um cabo de vassoura e agitei-o no ar o mais rápido possível, da parede ao fim do alpendre…” e eu “ã-hãm”, “… mas o morcego não conseguiu passar pela vassoura!”, no que eu falei “e o que é que você esperava?”. Em minha opinião, o morcego já demonstrou extrema perspicácia e sagacidade ao perceber que um mané fazia palhaçadas no alpendre, e voou pelo lado de fora. Comparativamente, será que um ser humano consegue mandar uma cusparada por entre as pás de um ventilador? Primeiramente, há as restrições dos sistemas sensoriais: nós não conseguimos sequer ver as pás individualmente. Em seguida, vem a restrição motora: é simplesmente impossível cuspir em tal velocidade. Então, por que um morcego deveria ser capaz de voar entre as pás de um ventilador, ou pelas idas e vindas de uma vassoura assassina?

Morcego, grupo campeão nas atribuições de poderes "sobrenaturais" (Fontes: Science Photo Library)

Pássaros batendo em janelas ou portas de vidro também assombram as pessoas: “mas como é possível? Será que ele não percebeu?” Primeiramente, convém lembrar que o ser humano, com seu cérebro de 1,3 litro, frequentemente tropeça e bate em toda sorte de obstáculos: dedinho no pé da cama, cotovelo em quinas de parede, cabeças em tetos de automóveis… Comparativamente, os pássaros são assombrosamente hábeis. Mas por que um pássaro deveria estar evolutivamente preparado para um material quase que perfeitamente transparente e ainda assim duro como pedra?

Esse é um ponto fundamental na análise: perguntar-se se há razão evolutiva para que um dado comportamento ocorra. Se placas de vidro fossem um material abundante na terra desde o mesozóico, os pássaros certamente teriam desenvolvido estruturas comportamentais responsáveis por detectá-las e evitá-las.

O mesmo ocorre com cães ou gatos atropelados nas ruas e estradas. As pessoas se perguntam “por que ele não olhou ou prestou atenção no tráfego?” Acontece que, evolutivamente, não há razão alguma para que cães e gatos possuam um comportamento geneticamente modulado de olhar para os lados numa rua, uma vez que automóveis motorizados existem a apenas cem anos, tempo insuficiente para um processo seletivo destes; além disso, teríamos que por todos os cães e gatos domésticos nas ruas, deixar que boa parte morresse atropelada, manter os filhotes dos sobreviventes nas ruas e assim por diante, por gerações, até que tal comportamento se desenvolvesse. Conheço cães de rua que olham, inclusive para os dois lados, antes de atravessar. Mas isso é um comportamento aprendido, e aqui estou falando de comportamento geneticamente modulado, ou inato. Ah, e voltando a falar do ser humano com seu cérebro de 1300 mililitros, quantas pessoas não morrem atropeladas por não prestarem atenção, apesar de anos e anos de instrução sobre o tema? Então, por que um cão com 70 mililitros de cérebro, e que nunca teve aulas sobre segurança nas ruas, deveria ser diferente do que é?

Cães e gatos costumam ser fonte de frustração para seus donos quando não conseguem compreender as ordens desses últimos, como se a linguagem falada humana fosse óbvia pra qualquer animal, quando na verdade não é óbvia nem para outro humano que não fale aquela língua! Além disso, porque querer que seu cão ou gato compreenda sua linguagem quando você, com um cérebro de 1,3 litro, não compreende a dele? A maioria das pessoas não faz a menor idéia de que existem dezenas de miados diferentes, cada um com um significado particular. Pensando em cada miado como uma palavra, ou signo semiótico, qual a dificuldade de aprender 30 ou 40 palavras numa linguagem nova? E, antes dos donos se decepcionarem com seus cães e gatos, eles deveriam perceber a notável capacidade desses em reconhecer seus donos mesmo quando esses trocam de roupas, calçados e chapéus, num número praticamente infinito de combinações, enquanto esses donos mal conseguem diferenciar seus cães quando estão juntos de outros da mesma raça. Agora, imagine se seu cachorro mudasse de pelo todo dia!

Algumas aves são capazes de voar milhares de quilômetros e achar exatamente a mesma árvore em que nidificaram na estação passada, o que é um feito incrível. O ser humano é capaz de estabelecer uma linguagem falada com dezenas de milhares de signos, o que é um feito incrível. Mas um não é capaz de fazer o que o outro faz. Diferentes animais têm diferentes comportamentos, diferentes formas de cognição, diferentes modos de consciência, reflexo de suas diferentes histórias evolutivas. Criar uma escala de inteligência é tão errado quanto criar uma scala naturae da evolução.

E, para finalizar, convém mais uma vez lembrar: “animais”, sem o ser humano, é um grupo parafilético!

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4 thoughts on “As capacidades sobrenaturais dos outros animais

  1. É interessante ver você ser vítima das mesmas falácias contra as quais escreve. Por que a busca por causas genéticas para os comportamentos seria “tipicamente norteamericana”? E se a biologia evolutiva não olha para o futuro, como você pode afirmar que “se placas de vidro fossem um material abundante na terra desde o mesozóico, os pássaros certamente teriam desenvolvido estruturas comportamentais responsáveis por detectá-las e evitá-las”?

    • Nenhum dos dois casos contém falácias e, mesmo se contivessem, em nenhuma das duas a falácia seria naturalista.
      Busca por justificativas expiadoras para comportamentos é um hábito comum nos Estados Unidos, dos pesquisadores ao público leigo. Leia mais a respeito e você verá.
      Em relação ao segundo exemplo, eu deveria ter escrito provavelmente no lugar de certamente, ficaria uma frase melhor. Ainda assim, mesmo se estiver errada, não é uma falácia.
      Abraço.

  2. Gerardo,

    Eu queria pedir tua permissão para usar esse texto (com algumas modificações e citando a fonte) com os meus alunos do 7º ano. Pode ser.

    Abraço

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