Cladogramas e o ensino da sistemática

Nós, professores, costumamos nos enganar sobre como os alunos compreenderão um conceito ou um corpo teórico que, de antemão, classificamos como fácil ou como difícil. Eu, pelo menos, costumo quebrar a cara com certa freqüência. Às vezes discorro rápida e até displicentemente sobre determinado assunto, certo que todos estão entendendo tudo, dada a facilidade daquele conceito, até perceber que ninguém está entendendo quase nada, e ao que eu achava facílimo a cognição da garotada é completamente refratária. Outras vezes se dá o contrário, o diametralmente oposto: preparo-me para quebrar uma pedreira, imagino gastar 30 ou 40 minutos para esclarecer um conceito, quando na prática em cinco minutos eles entendem o que você planejou explicar.

Quando comecei a ensinar os conceitos básicos da sistemática filogenética para o ensino médio, no fim do milênio passado e no comecinho desse, imaginei que iria fracassar redondamente, que a garotada não iria entender nada, e que esse seria apenas mais um assunto da biologia pelo qual os alunos não se interessariam e que estudariam a contragosto (apenas para essa perda do nosso tempo denominada “prova”). Crasso engano. Em todas as turmas em que pude ensinar fundamentos de sistemática filogenética nesses últimos dez anos, desde turmas completamente “problemáticas” até grupos de alunos excelentes, sempre tive uma surpreendente facilidade em esclarecer e explicar quase tudo que planejava.

Antes de continuar, convém deixar bastante claro aqui que estou falando de conceitos fundamentais da sistemática filogenética: no segundo grau trabalhamos basicamente com cladogramas, e tentamos ensinar aos alunos apenas como interpretar um cladograma, como identificar grupos monofiléticos, como diferenciar grupos monofiléticos de parafiléticos, como decidir-se entre uma homologia e uma homoplasia etc. A sistemática filogenética como ciência é bem mais complexa, e os profissionais dessa área concordarão: não se espera que um aluno de segundo grau construa um cladograma a partir de uma matriz de dados, nem que possa resolver politomias; lembremos que o ensino médio é uma etapa de base, e que muitos que ali estão não têm interesse prático pelas ciências, quanto mais pela biologia evolutiva.

Voltando a minha proposição inicial, nunca deixo de me surpreender com a facilidade com que muitos dos alunos aprendem a interpretar e compreender um cladograma. Acho que isso tem relação com uma característica comportamental marcante dos primatas, e que nós professores devemos entender para a usarmos em nosso favor: a importância do aprendizado visual. Nós, primatas, damos uma importância cognitiva enorme para as imagens… Daí a famigerada frase “entendeu, ou quer que eu desenhe?”. Os cladogramas têm um apelo visual claro, e precisamente aqui reside o ponto central da minha discussão: os cladogramas, como ferramentas gráficas de determinação de graus de parentesco por ancestralidade comum, tornam o ensino da sistemática filogenética (volto a alertar: estou me referindo apenas aos conceitos básicos da sistemática filogenética) muito mais fácil, em vários aspectos, que o ensino da sistemática clássica, lineana.

as informações contidas num cladograma (à esquerda) são muito mais facilmente compreensíveis que a tradicional disposição hierárquica (à direita) das categorias taxonômicas.

As informações contidas num cladograma (à esquerda) são muito mais facilmente compreendidas que na tradicional disposição hierárquica (à direita) das categorias taxonômicas.

A sistemática clássica teve e tem seus méritos, mas além de ser uma abordagem ultrapassada, não é mais uma forma adequada de se ensinar sistemática. Deixando de lado o debate técnico entre sistemática clássica e filogenética, gostaria de me ater apenas à representação gráfica que podemos construir com a sistemática clássica, a de conjuntos delimitados por outros conjuntos. Ela é terrível, principalmente para os alunos do ensino fundamental (já tive a oportunidade de ensinar sistemática clássica para os alunos da antiga 6ª série, hoje em dia o 7º ano…). A idéia de subconjuntos não só é trabalhosa e pouco intuitiva, como é também graficamente complexa: qualquer professor que tenha tentado fazer no quadro um sistema hierárquico com três conjuntos, cada um contendo três subconjuntos (o que é bem pouca coisa!) sabe que, partindo de Reino, dificilmente conseguirá chegar a Ordem ou Família, antes do quadro estar completamente tomado por círculos confusos. Quando se tenta construir uma representação mais elaborada, a coisa só faz piorar: tenho um livro onde cada Reino é representado como um país, cada Filo como uma cidade, cada Ordem como um bairro, cada Família como uma rua… Que confusão! Que representação essa imagem cria na cabeça do aluno?

Os cladogramas, por outro lado, são facílimos de compreender. Penso que a capacidade de compreender dicotomias é uma habilidade cognitiva natural do ser humano. Se, suponhamos, você mostrar a uma pessoa que não tem relação alguma com a biologia (por exemplo, uma colega sua advogada ou um vizinho seu gerente de loja) um cladograma resolvido com três elementos, digamos A, B e C, sendo que B e C têm um ancestral que não é ancestral de A (havendo, portanto, dois grupos monofiléticos: BC e ABC), e perguntar a essa pessoa com quem o elemento B tem maior parentesco, se com A ou C, a maioria das pessoas responderá corretamente C. Já fiz isso diversas vezes, e quase sempre dá certo.

Já faz pouco mais de quinze anos que não dou aulas para uma turma de ensino fundamental. Se as coisas não mudaram de lá pra cá, e creio que não mudaram, o 7º ano ainda é onde os alunos estudam os seres vivos (botânica e zoologia), e onde se ensina sistemática clássica. Não tive portanto a chance de tentar, mas imagino que se nós ensinássemos para os meninos o que é um cladograma e como interpretá-lo, a maioria compreenderia, e reteria os conceitos de monofilético e merofilético de forma bem mais adequada que as categorias taxonômicas da sistemática clássica. Bem, por enquanto isso é só uma suposição; se algum professor leitor desse blog já teve a chance de tentar, sinta-se à vontade para deixar um comentário.

A maioria dos alunos só vai ter contato com os conceitos de monofilético, merofilético, apomorfia, plesiomorfia, homoplasia e outros no fim do ensino médio, no terceiro ano ou nos cursinhos, e isso apenas por causa dos vestibulares. Meu ponto é que isso não precisaria ser assim, e que os meninos no fim do ensino fundamental e no ensino médio já tem a maquinaria cognitiva (estando no operatório formal…) necessária para compreender e analisar cladogramas, e que a sistemática filogenética deveria ser a sistemática padrão em salas de aula, desde o 7º ano. Talvez as coisas não sejam assim não por culpa dos alunos, mas porque boa parte dos professores ainda não se sente confortável com a sistemática filogenética.

Apesar disso, não poderemos nos descartar da sistemática clássica de forma tão repentina, pois a maioria dos alunos, tanto no ensino médio como no nível superior, ainda precisa das categorias taxonômicas, como se fossem uma espécie de muleta. Se você fala Amniota, eles querem saber: “isso é Filo? É Classe? É Subclasse?”. Se você fala Liliopsida eles perguntam a mesma coisa. Enfim, leva tempo para nos descartarmos de certas muletas.

About these ads

18 thoughts on “Cladogramas e o ensino da sistemática

  1. Em verdade, quando se é um iniciando em sistemática, as categorias taxonômicas clássicas servem de referencial para se saber quão específico e/ou abrangente é o táxon em questão…

    Afinal, a primeira imagem que somo levados a construir a respeito é a de subconjuntos de subconjuntos de subconjuntos…

    Embora, curiosamente, todos aprendamos nos primórdios da vida escolar o conceito de árvore genealógica…

  2. Aplausos para você Gerardo, determinados conceitos em biologia poderiam estar arraigados em nossas “mentes” se os mesmos fossem, desde o primeiro contato, explicitados de forma correta e lógica. As vezes me pergunto qual o critério que foi utilizado, para que determinados músculos dos membros de bovinos seja denominados “músculos” e outras não o sejam! Não seria a picanha, a maminha e a paleta músculos também? A três anos tomei a liberdade de averiguar, o motivo pelo qual determinados alunos de determinada escola do 3o ano do ensino médio apresentavam dificuldades em compreender, ou se mostravam surpresos, sempre que eu expunha um cladograma, tal foi minha surpresa quando ouvi professores do 2o ano afirmarem “isso é de pouca importância e o tempo é curto”; concordo com a segunda justificativa. Um ensino de biologia bem fundamentado e equilibrado desde o ensino fundamental desataria o nó górdio de nossas aflições. Um forte abraço e mais uma vez parabéns pelo livro.

  3. Olá, Gerardo. Sou aluna do segundo ano do ensino médio. Apesar de meu professor orientar sobre a vastidão e relatividade da biologia e as chagas das divisões cartesianas, ele é impelido a ensinar desta maneira (vestibular, sistema de ensino da escola). Entretanto, para mim, que gosto muito disso, ele disse sobre a sistemática. Sobre ela, ele relacionou-a com todas áreas do conheimento.

    Para isso, criei o conceito de rompimento com grupo e subgrupo e surgimento de novas relações mais abrangentes e congruentes. Inclusive ter uma aula com três professores sem nenhum nomear a matéria. Unificação.

    Ando pesquisando e fico cada vez mais confusa.

    Que diabos é a sistemática? Ela relaciona-se estritamente à biologia?

    Obrigada.

    Post Script : você escreve bem. Deve ler bastante.

    • Amanda,
      parabéns pelas suas rupturas, coisa rara de se ver no segundo grau.
      de forma bem simplificada, sistemática (do verbo grego synistemi, que significa agrupar, por junto…) é um ramo das ciências que classifica os organismos através de estudos comparativos e empregando diversas ferramentas, com o objetivo de reconstruir suas histórias evolutivas e estabelecer os graus de parentesco entre eles. essa definição pode não se aplicar à sistemática clássica, lineana, mas é a que vale para os dias de hoje. dessa forma, a sistemática procura reconstituir uma história particular, de forma a permitir que possamos definir os vários graus de parentesco, e assim organizar a biodiversidade adequadamente.
      apesar de a sistemática ser um ramo da biologia, certas ferramentas da sistemática filogenética podem, com certas modificações, ser usadas em outras áreas do conhecimento. por exemplo, podemos fazer uma análise sistemática das línguas faladas, estabelecendo os diversos graus de parentesco, ou uma análise sistemática de correntes filosóficas etc.
      abraço.

  4. Muito obrigada, Gerardo. Agora que em Biologia nós, da segunda série do Ensino Médio, entramos em Metazoários, a sistemática foi mais amplamente abordada pelo material didátido e pelo professor.

    Conversamos mais sobre isso, eu e meu professor, e ele me disse que hoje o termo sistemática desvirtuou-se de certa forma e o que anda valendo por aí é o sentido de revolução na maneira de entendimento e agrupamento. Se físicos tentam rearranjar as teorias e criar novos paralelos a fim de unir o que antes considerava-se incongruente, é sistemática. pesquisei mais e o busca do Google traz o termo prostituído. Por isso de vermos SISTEMÁTICA emprestada em História e em até “filosofia de vida”. Sabemos que esta expressão fere completamente a Filosofia.

    Muito obrigada de novo pela atenção e me desculpe por qualquer incômodo. Eu sou bem chata quando não entendo algo – saio buscando e perguntando.

    Abraço!

  5. Olá Gerardo. Muito boa a sua análise e, com certeza sua intuição não está equivocada. Digo isso porque trabalho com análise filogenética. No ensino superior já aboli o termo evolução, por ex, uso filogenia (que é mais adequado e não tem interpretações distintas). Trabalho particularmente com o ensino de filogenia tanto no ensino fundamental quanto no médio, embora seja docente de universidade. Diversos docentes vem atuando neste tema. Atualmente tenho parceiros e já temos diversas experiências no ensino de filogenia tanto no fundamental como no médio. Os alunos respondem muito bem, muito mesmo. Aliás o que percebemos é que a dificuldade de adotar filogenia pra o trato da biodiversidade em todos os níveis não se deve a outro problema que a própria formação do professor. Aqui sempre alerto meus alunos de graduação: é imperativo que o professor domine o assunto – porque as crianças rapidamente matam a charada e, se o professor não estiver seguro acaba comprometendo a si próprio e ao aprendizado. Se houver interesse podemos enviar algumas das experiências neste assunto, ok?
    Um abraço
    Nazaré

    • Olá, Nazaré,
      Concordo plenamete com você, “a dificuldade de adotar filogenia pra o trato da biodiversidade em todos os níveis não se deve a outro problema que a própria formação do professor”
      De fato, as crianças matam a charada muito mais rapidamente do que a gente espera!
      Abraço

  6. Minha dificuldade é entender e construir um cladoclama. Entendo a teoria , mas quando fazem a pergunta, tipo: construa, a partir do ancestral…. Pronto!
    Matriz de dados é observar e construir, mas o cladograma para mim é um bicho de 7 cabeças sem começo e sem fim…. Me ajude, me diga uma forma simples de começar esse troço?

    • Oi Silvio,
      eu, pelo menos, sempre ensino sistemática filogenética antes começar a zoologia ou a botânica. E sei que uma série de amigos faz o mesmo. Não saberei dizer, porém, qual a situação atual do Brasil como um todo.
      Abraço,

  7. Olá, eu sou formada em Arqueologia, mas estou tentando mestrado em Geociências e nas questões da prova costuma cai sistemática filogenética e confesso que estou perdida nesse assunto. Não consigo construir cladogramas, é um assunto muito complicado, minha formação básica foi muito fraca, em uma escola que o aluno não costumava ser prioridade.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s