Feeds:
Posts
Comentários

Em seu livro escrito num campo de prisioneiros russo (intitulado postumamente como “The natural science of human species”, mas que eu chamo simplesmente de “Manuscrito russo”), Lorenz defende uma união das psicologias em suas várias abordagens, uma união que se dê no seio de uma ciência mais abrangente, na qual as psicologias (o plural aqui é proposital) seriam inseridas, sendo essa ciência mais abrangente a biologia. O que Lorenz propôs não foi uma subordinação das psicologias à biologia, muito menos que se implementasse na psicologia esse tão nefasto e indesejável fenômeno chamado reducionismo (vale lembrar que Lorenz era um incansável crítico do behaviorismo e de seu reducionismo positivista). O que Lorenz propunha, isso sim, é que as psicologias entendessem o ser humano como uma entidade natural, dentro de um mundo orgânico evolutivamente diversificado. A mente humana, bem como a mente de outros mamíferos, não pode ser “reduzida” ao funcionamento de seus neurônios; apesar disso, dentro de uma perspectiva materialista, a mente dos animais (homem incluído), por mais complexa que seja, resulta de processos biológicos. Freud tece uma opinião semelhante (até certo ponto…) em seu “Projeto para uma psicologia científica” de 1895.

Quando comecei a ouvir falar da psicologia evolutiva (ou P.E.), pensei que essa pudesse ser uma possível aproximação de um ramo da psicologia à biologia de forma geral, algo como uma etologia humana que não fosse propriamente uma etologia, e que tivesse seus paradigmas voltados à psicologia de forma geral: em suma, uma vertente da psicologia que ensaiasse o movimento defendido por Lorenz. Contudo, o que vejo hoje é uma vertente da psicologia que nem agrada aos psicólogos de escolas como a psicanálise, a gestalt ou o behaviorismo, nem utiliza corretamente os conceitos da biologia evolutiva.

Penso que uma psicologia evolutiva que valesse o nome devesse ser, antes de tudo, uma psicologia que compreendesse a conexão histórica entre os organismos desse planeta, id est, suas ancestralidades comuns, e percebesse que certos comportamentos, como características morfológicas, podem ser homólogos tomando-se duas espécies diferentes (ou seja, que tal comportamento era presente no ancestral comum). Além disso, que compreendesse que características podem ser alvo de exaptações, exercendo assim uma função bem diferente da função primordialmente executada, quando tal caráter surgiu. Finalmente, mas muito importante, que compreendesse que nem todas as características são adaptações, e que assim sendo uma boa quantidade de comportamentos não têm função alguma, ou mesmo são disfuncionais.

Porém, o que se vê é uma psicologia evolutiva estranhamente fascinada pelo pleistoceno (época do período quaternário, que vai de 1,8 milhão de anos a 11.000 anos antes do presente), tecendo conclusões dificilmente suportadas pela biologia evolutiva. Por exemplo, já é lugar comum ouvirmos dizer que o comportamento do homem moderno é ainda um comportamento do homem das cavernas, adaptado às condições daquela época. Mas então por que o comportamento dos homens das cavernas não seria, similarmente, um resquício do comportamento dos hominídeos do plioceno (época anterior)? Se os hominídeos tiveram tantas mudanças morfologicas nos últimos 1 milhão de anos, porque não mudariam psicologicamente? Outro exemplo: os homens têm tal e tal comportamento porque eram caçadores, enquanto as mulheres têm tal e tal comportamento porque cuidavam dos afazeres domésticos. Mas essa divisão de trabalho é bem recente: os hominídeos ancestrais, e esses mesmos oriundos de ancestrais bem mais antigos, não tinham essa divisão de trabalho. Compreendo que a psicologia evolutiva busque um “comportamento humano universal”, mas por que esse comportamento teria que ter se estabelecido há 400 mil anos? Por que não há 1,5 milhão de anos? Ou há 3 milhões de anos? Apesar disso, o que mais me desagrada na psicologia evolutiva é algo que não depende dos psicólogos evolutivos em si, mas de como a população leiga vê as alegações da psicologia evolutiva. Já escrevi um post anterior sobre as falácias naturalistas, e esse me parece ser o problema: as conclusões da psicologia evolutiva não apenas explicam, mas justificam uma série de comportamentos humanos. Para muita gente essas alegações são reconfortantes, pois elas passam a pensar que são assim “porque ser assim é uma coisa natural”, e pronto! Temos, aqui, uma amenização da culpa por um comportamento: o ciume é um resquício do pleistoceno, os comportamentos de violência sexual (estupros) são um resquício do pleistoceno etc.

Há um interessante artigo da Scientific American sobre esse tema, que inclusive já conta com réplicas de psicólogos evolutivos. Quero deixar bastante claro que, apesar de discordar desses paradigmas da psicologia evolutiva, considero a psicologia evolutiva uma ciência e não uma pseudociência, e portanto considero os psicólogos evolutivos cientistas; sendo assim, penso que, sendo cientistas, estão abertos e preparados para o debate científico, que em última análise é o que move nosso ramo do conhecimento. Logo, quem quiser defender a P.E. ou discordar de alguma opinião anterior, sinta-se mais que convidado a deixar um comentário mais abaixo.

Como havia dito, comportamentos podem ser compartilhados por herança comum, e podem ser tão bons quanto características morfológicas para a construção de filogêneses. Creio que, ao invés de justificar um dado comportamento, a compreensão de seus padrões de homologia pode servir para que possamos entender as estratégias evolutivas que modularam aquele comportamento e para que possamos estabelecer uma comparação etológica entre grupos distintos.

Vamos voltar ao passado para um momento bem anterior ao pleistoceno; na verdade, voltaremos para um período anterior ao surgimento dos primeiros cordados. Supõe-se que, quando surgiu a reprodução sexuada com fecundação dos gametas, esses eram de mesmo tamanho e formato (o que se chama isogamia). Contudo, em um determinado grupo, os gametas passaram a apresentar diferenças notáveis: um deles continha material nutritivo e era portanto bem maior, sendo chamado de gameta feminino. O outro se reduziu até ser praticamente um núcleo natante, sendo chamado de gameta masculino. Essa distinção morfológica entre os gametas é denominada Oogamia. Todos os animais são oogâmicos, oriundos portanto de ancestrais que já eram oogâmicos. Nesses organismos oogâmicos uma estratégia reprodutiva se torna bastante clara e inegável: a fêmea produz poucos gametas, ao passo que o macho os produz em número bem maior. Para a fêmea, portanto, é importante escolher com critério o macho que terá oportunidade de fecundar seu gameta; para o macho, por outro lado, faz sentido tentar fecundar o maior número possível de gametas femininos.

fecundação

diferença de tamanho entre um gameta masculino (em amarelo) e um gameta feminino, em Homo sapiens (imagem: Dennis Kunkel)

O que temos aqui não é uma justificativa dos comportamentos masculino e feminino, nem uma simplificação, muito menos um reducionismo: o fato é que, com base nas diversas estratégias reprodutivas que a seleção poderia ter favorecido, é vantajoso para a fêmea escolher o macho, e é vantajoso para o macho tentar fecundar mais fêmeas. Modelos matemáticos bastante simples podem ilustrar essas conclusões. Isso tudo, perceba, é explicado diretamente pela diferença de tamanho (e, em conseqüência disso, de quantidade) entre o gameta masculino e o feminino. A esse sistema, que tem profundas implicações no comportamento da imensa maioria dos animais (humanos incluídos), chamamos de female choice. Há um excelente livro, chamado Sex wars (já pus o link na página “prateleira”), em que o autor detalha esse processo evolutivo, citando inclusive os bem menos comuns e curiosos casos de sistemas male choice, onde o macho escolhe a fêmea…

Logo, podemos concluir que entre os mamíferos, incluindo o ser humano, é um comportamento evolutivamente comum o macho procurar ativamente se aproximar da fêmea, e é um comportamento evolutivamente comum a fêmea ser o centro das atenções. Não estou querendo justificar nada, nem desculpar (no sentido original do termo) qualquer tipo de comportamento, estou apenas tentando estabelecer uma homologia para comportamentos em mamíferos, e mostrar que uma distinção comportamental fundamental entre homens e mulheres remonta a um período bem anterior à idade da pedra, e que não tem relação alguma com a suposta divisão de trabalho nos clãs primitivos. Além disso, é óbvio que comportamentos podem ser mudados: fêmeas da maioria dos mamíferos só aceitam o macho durante o estro, mas esse não é o caso nos hominídeos. Do mesmo modo, atualmente, não há mais porque as mulheres não flertarem ou darem cantadas nos homens: esse é um comportamento perfeitamente válido.

Mais um exemplo dessa distinção comportamental fundamental (essa conjectura não é minha; na verdade, vi-a pela primeira vez num documentário, cujo título não me recordo): a homossexualidade. Lembro-me que, quando criança, um familiar meu dizia que o homossexual masculino era uma mulher presa no corpo de um homem. Com exceção de casos de transgêneres (como o personagem do bom filme “transamérica”, ou a modelo Roberta Close etc…), nada pode estar mais distante da realidade. Usando o jargão freudiano, homossexuais masculinos têm uma inversão do objeto sexual, mas são comportamentalmente masculinos. Sei que vão zombar da minha opinião, mas excetuando-se os homossexuais muito afeminados e cheios de trejeitos, gays são homens que gostam de homens, mas que se comportam fundamentalmente como homens. Senão vejamos: os homens dão mais importância à aparência física que a mulher, que geralmente dá mais importância ao comportamento. A primeira coisa que olho (sou um homem típico…) numa mulher é o corpo – minha mulher sabe que, quando digo que “fulana é bonita”, não estou falando do rosto. Ora, os gays, como homens, dão muita importância à aparência, e sabem que atrairão parceiros (igualmente homens quanto ao comportamento) cuidando de sua própria aparência. Daí a imagem moderna do gay como homem que se cuida, divulgada em programas de TV como “queer eye for the straight guy”. Além disso, o homem típico não quer muita conversa: se der para ir às vias de fato o mais rápido possível, tanto melhor. Se a um homem fosse dada a chance de sair com 10 capas da Playboy (isso é uma metonímia: não estou falando das capas de papel…), praticamente nenhum titubearia. Assim, os gays, sendo homens, vão muito mais rápido ao sexo, pois ambos se comportam como homens: não temos aqui, portanto, a típica imagem do rapaz tentando despir a namorada, enquanto a moça tenta esfriar os ânimos do namorado. Ao contrário, ambos querem, e se dão ao direito de pular etapas, assim como um homem heterossexual pularia etapas se a mulher desse sinal verde. Daí, portanto, o mito de que o gay é promíscuo. Minha opinião é que o gay não é promíscuo, e sim o homem, seja ele homo ou heterossexual. Por que, então, criar um preconceito a respeito dos gays (como “os gays são inerentemente promíscuos”) imputando-lhes um comportamento que é dos homens em geral? Quero deixar claro que essa análise não deve ser usada para justificar eticamente qualquer que seja o comportamento, incorrendo mais uma vez numa falácia naturalista.

Penso, por fim, que a compreensão da história filogenética de certos comportamentos e o estabelecimento das relações de homologia comportamental pode ser bastante útil para as várias psicologias. É certo que não se pode pensar num animal da complexidade do ser humano como tendo todos os seus comportamentos filogeneticamente explicados. Contudo, ao tentar fugir do determinismo biológico, muitos se deslocam exageradamente no sentido oposto, imaginando que o ser humano nasce como uma tábua rasa e que é livre de qualquer comportamento geneticamente modulado, esquecendo que nós, como os outros animais, temos uma complexa história comportamental.

Iniciei o capítulo sobre deriva em meu livro discutindo a incapacidade do ser humano de compreender, de forma natural e espontânea, as correlações estatísticas, bem como as probabilidades isoladas de forma geral. De forma alguma foi uma idéia original: incontáveis pesquisadores já escreveram sobre esse tema, e a idéia de começar o capítulo sobre deriva discutindo a percepção enviesada das probabilidades me veio durante a leitura do “The making of the fittest”, de Sean Carroll. Continuar Lendo »

Lá vou eu, de novo, investir feito um Quixote contra o moinho da Scala Naturae. Esse monstro-conceito continua bastante vivo nos dias de hoje, para quem achava ser uma curiosidade histórica de uma epistemologia pré-Darwin, tanto nos falares dos alunos como nos dos professores, tanto implícita como explicitamente, tanto de forma consciente como de forma inconsciente. Continuar Lendo »

Nós, professores, costumamos nos enganar sobre como os alunos compreenderão um conceito ou um corpo teórico que, de antemão, classificamos como fácil ou como difícil. Eu, pelo menos, costumo quebrar a cara com certa freqüência. Às vezes discorro rápida e até displicentemente sobre determinado assunto, certo que todos estão entendendo tudo, dada a facilidade daquele conceito, até perceber que ninguém está entendendo quase nada, e ao que eu achava facílimo a cognição da garotada é completamente refratária. Outras vezes se dá o contrário, o diametralmente oposto: preparo-me para quebrar uma pedreira, imagino gastar 30 ou 40 minutos para esclarecer um conceito, quando na prática em cinco minutos eles entendem o que você planejou explicar. Continuar Lendo »

Carl Gustav Jung teceu uma excelente análise do fenômeno OVNI em seu livro “Um mito moderno sobre coisas vistas no céu”. Lá, Jung analisa esse fenômeno, típico do início do século XX, em seus aspectos simbólicos: ele está interessado em entender o que querem dizer os símbolos repetidamente trazidos pelos envolvidos nesses fenômenos. Uma abordagem diferente nos traz um outro Carl, Carl Sagan, em seu “O Mundo Assombrado pelos Demônios: a ciência vista como uma vela na escuridão”. Sagan defende a idéia de que a natureza básica do fenômeno OVNI, ou seja, as alterações neurológicas e sensoriais que eventualmente ocorrem nos seres humanos, são eventos comuns, e que em diferentes épocas suscitavam diferentes explicações, de acordo com as particularidades psicológicas do momento em questão. Assim, esses fenômenos mentais, durante a idade média, eram associados a criaturas sobrenaturais, monstros e demônios, típicos do imaginário daquela sociedade; no ocidente do início do século XX, os mesmos fenômenos mentais estavam agora associados a outras criaturas típicas daquela época: alienígenas e naves espaciais. O que Carl Sagan nos alerta, não explicitamente, é que as explicações para um mesmo fenômeno podem variar de época a época, a sabor das zeitgeists. Continuar Lendo »

Numa postagem anterior, intitulada por que sou utilitarista, referi-me brevemente ao conceito de falácia, e em particular às falácias naturalistas. Como infelizmente vivemos numa sociedade em que cada vez menos se conhece os conceitos básicos da filosofia e da lógica matemática, e em que os colégios e universidades entopem os alunos com informações que eventualmente não possuem nenhuma utilidade e negligenciam o que de fato é importante para a formação do cidadão cientificamente e filosoficamente alfabetizado, boa parte das pessoas desconhece o que sejam falácias naturalistas. Detalhar um pouco mais esse conceito é o fito desta breve nota. Continuar Lendo »

Um colega meu, que asseguro ser uma das mais promissoras mentes que conheço, me fez recentemente uma pergunta particularmente desconcertante quando se trata do conceito de espécie, e em particular ao uso do que chamamos de Conceito Biológico de Espécie (CBE), de Ernst Mayr: constituem as diferentes raças de cães uma só espécie, ou devemos considerá-las como espécies distintas? Continuar Lendo »

Definições esclarecem. Definições, porém, às vezes complicam, e em muitos casos de forma completamente desnecessária. Como partidário de uma “biologia do esclarecimento” (para buscar, como Kant, a fuga da menoridade intelectual), creio que as definições devem ser não apenas bem compreendidas mas, antes de tudo, bem construídas: e essa é uma atribuição dos pensadores que constroem o conhecimento científico. Por exemplo: no meu entender, poucos termos são mais infelizes que pseudoceloma. O que se quer dizer com isso, que os nemátodos não têm cavidade corporal? Certamente eles a possuem. Mas se a réplica é “a cavidade corporal dos nemátodos não é a mesma dos anelídeos ou dos moluscos”, por que não criar uma definição mais feliz, uma opção mais adequada? Blastoceloma é certamente uma dessas opções, pois “pseudo” (do grego ψευδος) significa mentira, falsidade. Por falar em mentira e falsidade, outro termo que me vem à mente é pseudópode: porque chamar de falsa uma estrutura real, que serve à locomoção? O termo rizópode (referindo-se à estrutura, e não ao grupo) seria bem mais adequado. Perceba que a justificativa de que os pés das amebas não são pés verdadeiros é incorreta porque nos levaria ao questionamento de “o que é um pé verdadeiro”? O “pé” aqui e em outros casos da biologia é definido por sua função. Se pé verdadeiro é a pata de um tetrápode, mudemos o nome dos Arthropoda também, pois seus apêndices locomotores (id est, seus pés…) não tem relação alguma com a pata dos tetrápodes. Continuar Lendo »

Há certos livros que classificamos como clássicos, e cuja leitura admitimos como obrigatória. Há um ensaio de Jorge Luis Borges em que ele define, de forma nada honrosa, o que torna uma obra um clássico. De qualquer forma, seja o que for que define um clássico, a segunda metade de meu enunciado parece ser verdadeira: não podemos deixar de ler livros como crime e castigo, de Dostoievski, o processo, de Kafka, a divina comédia, de Dante, admirável mundo novo, de Huxley, a ilíada, de Homero, o vermelho e o negro, de Stendhal, Édipo rei, de Sófocles, a eneida, de Vergilius, os assassinatos da Rua Morgue, de Allan Poe, e tantos e tantos outros. Entre os chamados clássicos, tenho vergonha – e devo admiti-lo – de nunca ter lido o Quixote de Cervantes, apesar de ter duas edições diferentes em minha pequena biblioteca… Continuar Lendo »

Quando estou numa aula de biologia evolutiva, ou num seminário sobre evolução, ou mesmo nos intermináveis debates sobre criacionismo versus ciências, percebo que há dois conceitos-chave das idéias de Darwin e da biologia evolutiva atual (pois, como é adequado lembrar, são coisas diferentes) que incomodam bastante aqueles que têm um pensamento mais profundamente religioso, mais místico, e que são mais devotos de forma geral. Uso aqui o termo religioso em sua concepção mais simples, referindo-me àquele que tem escrúpulos religiosos, em oposição ao humanista; poderíamos pensar em qualquer religião moderna, mas baseado em minhas experiências pessoais, estou aqui me referindo às variantes cristãs, o catolicismo e o protestantismo. Continuar Lendo »

Postagens Antigas »