Genes e alelos

Eu já fui bem mais intransigente quanto às mudanças da língua: acreditava que a maneira correta de escrever determinada palavra ou sentença era aquela e somente aquela, e que toda variante deveria ser eliminada. Eu era o que poderíamos chamar de language maven. Devo minha mudança de atitude às pacientes preleções da minha mulher e à indulgência trazida pela idade. Hoje aceito que a língua tem suas vicissitudes e que se todos passarmos a falar “nós vai estudar”, com o tempo “nós vai estudar” será o correto. Aliás, isso já aconteceu: por que o português, ao contrário do grego e do latim, usa a terceira pessoa no lugar da segunda (“você é feliz”) e no lugar da primeira (“a gente é feliz”)?

Acontece que, na comunicação científica, eu continuo sendo um intransigente defensor do uso correto dos termos, um language maven se assim quiserem. Quem acompanha este blog já deve ter percebido que uma das categorias chama-se exatamente “conceitos e definições”. E aqui a questão não é ser rabugento: o uso livre, despreocupado e relaxado dos termos empobrece a comunicação científica e eventualmente leva a erros, às vezes erros graves. É claro que, muitas vezes, o uso inadequado das definições não causa grandes estragos. Por exemplo, tomemos a seguinte frase: “O cérebro analisa os estímulos trazidos pelo nervo óptico…”. O problema aqui é que o cérebro não analisa estímulo algum: o cérebro analisa impulsos. “Estímulo” é o termo que usamos para definir um agente (luz, substâncias químicas, ondas sonoras, magnetismo, etc.) capaz de excitar um órgão sensorial, órgão esse que gera um “impulso” (um potencial de ação) que, no SNC, será analisado e convertido em uma “sensação”. Estímulo, impulso e sensação têm, portanto, usos bem definidos na biologia.

No exemplo que eu acabei de dar o uso incorreto de “estímulo” no lugar de “impulso” não tem grandes consequências: todo mundo entendeu o sentido da frase. Mas, às vezes, o uso inadequado é capaz de alterar completamente a informação. O fito desta presente e breve nota é discutir exatamente um desses casos, um que particularmente me irritava bastante: a diferença entre gene e alelo.

Eu estava dando aulas de genética para o primeiro e o segundo ano do ensino médio, provavelmente as últimas aulas que dei na minha vida. E, como no Brasil o ensino médio é voltado para o vestibular (e não o contrário!), lá fui eu treinar, com os meninos e as meninas, questões de vestibular. E mais uma vez me deparei (pois passo por isso todo ano…) com a incapacidade de boa parte dos elaboradores de entender a diferença entre gene e alelo. Eis apenas alguns exemplos, o leitor que se interessar pode achar muitos mais na internet:

(FUVEST-SP) Analise a seguinte genealogia (uma genealogia é dada). A anomalia é causada por um gene dominante ou recessivo?

(PUC-SP) Em relação à anomalia gênica autossômica recessiva albinismo, qual será a proporção de espermatozoides que conterá o gene A em um homem heterozigoto?

(FCC) Quais dos indivíduos abaixo (uma genealogia é dada), representados por números, certamente apresentarão o caráter dominante determinado pelo gene A?

(FUVEST-SP) O albinismo (ausência de pigmentação de epiderme) é condicionado por gene recessivo [...].

(UFES) Em algumas variedades de gado bovino a ausência de chifres é produzida por gene dominante C [...].

(FCMS-SP) A queratose (anomalia da pele) é derivada de um gene dominante Q [...].

(PUCCamp) As flores de uma determinada planta podem ser vermelhas ou amarelas. Dois pares de genes (Vv e Aa) determinam essa característica [...].

Em todos esses casos, o uso do termo gene está errado: o correto seria alelo. E qual a diferença?

Há várias definições de gene, mas uma das mais simples, que nos servirá aqui, é que gene é uma informação, uma informação capaz de orientar a síntese de um determinado produto proteico. Dessa forma, a hexoquinase, uma das proteínas que eu produzo em minhas células, é sintetizada porque, em meu DNA, há um gene com as informações para a síntese da hexoquinase.

Acontece que, por uma questão de redundância da informação (backup, para simplificarmos), nós, animais, não possuímos apenas uma, e sim duas cópias de cada gene, pois somos diploides. Se fôssemos triploides, possuiríamos três cópias de cada gene. Tetraplóides, quatro, e assim por diante. Cada uma dessas cópias de um gene é o que chamamos de alelo (do grego ἀλλός, “outro”). Os alelos podem ser completamente iguais, base por base, ou diferentes um do outro (aliás, esse é o propósito básico da duplicação da informação: se um alelo falha, há o outro…). Mas ambos são alelos do mesmo gene! Quando, por exemplo, dizemos que um indivíduo é genotipicamente Aa, temos aqui um só gene, e dois alelos (A e a). Da mesma forma, para um indivíduo AaBBCcdd, temos quatro genes e, portanto, oito alelos. Pelo mesmo motivo, não existe gene dominante ou gene recessivo, isso não faz sentido algum. O que existem são alelos dominantes e alelos recessivos. A única situação em que teríamos um gene dominante seria no caso de um controle epistático, mas ainda assim o termo dominante estaria errado.

allele

Na imagem, há três genes e seis alelos.

Perceba que, nesse caso, a confusão criada entre os termos gene e alelo pode alterar o significado de um enunciado, ou complicar bastante a resolução de uma questão. Quando, por exemplo, um elaborador escreve “suponha dois genes…”, eu imediatamente penso em dois loci diferentes, A e B, com quatro alelos no total. Mas ele pode estar se referindo a apenas um gene, com dois alelos, e a minha resposta pode acabar sendo diferente da resposta que o elaborador esperava. Da mesma forma, se um professor diz “fulano é homozigoto dominante para dois pares de genes”, eu pensarei “dois pares são quatro genes, logo fulano de tal é AABBCCDD”. Mas, muito provavelmente, o professor pensou em um camarada AABB.

E de onde vem essa confusão entre gene e alelo? É possível traçar a sua origem? Eu penso que sim, e a resposta pode estar num problema infeliz de tradução. Cito o artigo “Conceitos errôneos de genética em livros didáticos do ensino médio”, de uma publicação da Sociedade Brasileira de Genética intitulada Genética na escola, cuja cópia em PDF deixarei a disposição aqui. Eis a citação:

A nomenclatura de alelos como “genes alelos” aparece em diversos livros citados aqui. É possível que originalmente o termo tenha sido incorretamente traduzido do inglês “gene alleles” no qual allele é um substantivo e gene, um adjetivo ou indicativo de possessão (alelos gênicos ou alelos do gene).

Muito provavelmente foi isso mesmo o que aconteceu. Em inglês, o adjetivo costuma vir antes do substantivo. Dessa forma, “gene allele” significa “alelo do gene”. O sujeito é alelo, e não gene (se o termo estivesse em latim ou grego, “alelo” estaria no nominativo e “gene” estaria no genitivo, e não haveria sombra de dúvida sobre o papel de cada palavra). Portanto, existem os genes e os alelos de cada gene. Ao traduzir “gene allele” por “gene alelo”, os livros didáticos criaram uma confusão infeliz: nós costumamos eliminar os adjetivos e, dessa forma, “gene” e “gene alelo” acabam se tornando sinônimos ao longo do tempo. Mas, convém reiterar, “alelo” não é adjetivo, e sim o núcleo do sujeito! Gene e alelo são palavras diferentes que se referem a conceitos biológicos diferentes.

Se você é aluno, fique de olho nessa diferença. Se você é professor, verifique seu material e faça as mudanças necessárias, escrevendo “gene” onde deve constar “gene” e escrevendo “alelo” onde deve constar “alelo”. Eu sei – na prática – que corrigir e reescrever materiais didáticos dá trabalho, mas perceba que você fará isso apenas uma vez, e seus alunos estudarão por um material correto em todos os anos daqui em diante.

Diferenças

Um bom biólogo evolutivo deve ser capaz de explicar adequadamente, para uma pessoa leiga, que certos conceitos e ideias que ela toma como claros e sólidos são, para os familiarizados com a ciência, toscos e absurdos. Algumas das perguntas mais comuns que ouvimos são tão incoerentes que sequer têm resposta, como, por exemplo, “quem é mais evoluído, A ou B?”. Perguntar isso é como perguntar quanto é oito dividido por zero. Uma bobagem como essa não tem resposta e não se deve tentar respondê-la, pois isso seria dar crédito à pergunta e, por fim, validá-la. Ao contrário, deve-se explicar para o interlocutor que não há divisão por zero, e que não há sequência evolutiva de entidades atualmente existentes. Continuar lendo

Afinal, o que é um macaco?

Prolegômeno: Quem me conhece e acompanha o blog sabe que eu costumo criticar os grupos parafiléticos. Ao contrário de alguns estudiosos, eu penso que grupos parafiléticos deveriam ser, quase todos eles, eliminados. Nunca pensei que eu defenderia o uso de um grupo parafilético. Pois bem, é chegado o momento.

Eu não tenho TV e, ultimamente, tenho acompanhado muito negligentemente os sites de notícias (além de praticamente não ter mais entrado no Facebook). Por isso, estava completamente por fora dessa história de futebol, racismo, bananas, macacos e da hashtag SomosTodosMacacos. Agradeço à minha mulher, que consultei logo após um seguidor do meu Tumblr ter perguntado a minha opinião a respeito, por ter me posto a par de toda a história. Bem, quero adiantar que, se você chegou até aqui através de um mecanismo de busca (a.k.a. Google), eu não vou falar sobre racismo, nem sobre a situação do racismo nos estádios, nem sobre a copa do mundo, nem sobre questão social alguma. Fique à vontade para sair desta página. Este é um blog sobre evolução e biologia evolutiva, e o que eu quero discutir é outra coisa: afinal, o que é um macaco? Continuar lendo

Entre dois mundos

Recentemente um colega veio, pela internet, pedir a minha opinião a respeito de uma questão de vestibular. Segundo ele, os professores estavam se digladiando, alguns a favor do gabarito oficial, outros contra. Quando ele me mandou a questão reconheci-a imediatamente. Eu já havia visto a questão, e já sabia que ela possuía duas opções corretas (coisa que, dependendo do concurso, faz com que a questão seja anulada). Dei minha opinião, com a qual ele concordou, mas me disse que a polêmica continuava. Felizmente, estou a três mil quilômetros dessa briga… Continuar lendo

Evolução: testável e falseável

Eu tive um professor de filosofia bastante competente, do qual eu e boa parte da turma gostávamos muito. Na verdade, ele nos deu aulas em uma cadeira intitulada introdução à filosofia, que possuía apenas um terço da carga horária da cadeira de filosofia que meu curso originalmente possuía. Não irei citar seu nome aqui por uma questão elementar de privacidade — se ele ler esse post, o que é altamente improvável, ele vai saber que falo dele; para os demais leitores do blog, o que interessa é a história, e não os personagens. Oriundo das ciências humanas, ele tinha uma visão epistemológica um pouco diferente da nossa, criados dentro das ciências naturais, e seguia uma linha popperiana. Devo confessar (confissões são muito perigosas na internet atual, e portanto confessarei apenas o necessário) que nunca li Popper, o que conheço das ideias dele é o que li de terceiros, ou seja, o que outros autores escreveram sobre Popper. Já tive o prazer de ler Kuhn e, se Popper for uma leitura tão agradável quanto Kuhn, definitivamente vale a pena. Continuar lendo