O azul é a cor mais quente

Já faz mais de um mês desde minha última postagem. Não posso dar atenção ao blog, uma vez que se trata de um hobby não remunerado, adequado para quem está com a vida ganha — o que não é, definitivamente, o meu caso atualmente. Mas, como eu sempre me guiei pela máxima “blog parado é blog morto”, é fundamental que eu escreva alguma coisa, qualquer coisa, nem que seja uma breve nota como essa que segue, cuja ideia acabei de ter no banheiro (não no vaso sanitário, berçário não creditado de ideias, mas na pia, lavando as mãos).

No meu banheiro há duas torneiras, uma para água quente e outra para água fria. Felizmente a água é aquecida a gás, e não a carvão, que é a principal fonte de energia elétrica por aqui. Caso o aquecimento fosse elétrico — ou seja, no fim das contas, a carvão — é bem possível que eu, com minha preocupação ambiental, não usasse a água quente, cenário no qual me igualaria a Luis XIV, aquele adverso a banhos. Mas voltemos às torneiras.

Em todas as pias que já vi no mundo, seja qual for o país, a torneira de água quente fica à esquerda e a de água fria à direita. Essa padronização é bem útil, já abrimos a torneira correta inconscientemente. Mas na minha pia há, além dessa posição padronizada, uma codificação por cores: a torneira da água quente tem um círculo vermelho e a torneira da água fria tem um círculo azul. A associação do vermelho ao quente e do azul ao frio é bastante óbvia para qualquer um de nós. Não gosto de escrever sobre aquilo que eu não sei, mas me arrisco a dizer que essa associação linguística (“azul é uma cor fria”, “vermelho é uma cor quente”) é bem anterior à ascensão das artes plásticas no fim da idade média. A causa da correlação parece não precisar de maiores explicações: o fogo e a brasa, além da lava e mo metal fundido, são vermelhos. Já a água e o gelo são azuis (rápida observação: a água absorve luz visível próxima à fronteira do infravermelho, e por isso é azulada, e não incolor. Para verificar isso, ponha água em um tubo opaco de alguns metros, tampado com vidro incolor nas duas extremidades, e observe uma fonte de luz branca pelo tubo).

E aí vem a curiosidade, razão pela qual eu escrevi essa pequena nota. Os físicos sabem disso, mas os físicos representam uma parcela mínima da humanidade: a luz azul tem mais energia que a luz vermelha! Se você vir um fogo azul e um fogo vermelho (caso não haja íons ou metais alterando a cor da chama), saiba que o fogo azul está numa temperatura maior que o fogo vermelho. Aliás, dá pra ver isso numa vela comum: a base da chama, onde a temperatura é maior, é azul, e seu topo é amarelo-avermelhado. O laser azul (Blue Ray) tem mais energia que o verde, que por sua vez tem mais energia que o vermelho.

Outra forma de compreender isso é ver a radiação emitida por um corpo negro ideal em diferentes temperaturas. Para quem não sabe, a radiação emitida por um corpo negro depende apenas da temperatura na qual ele se encontra, e não de sua composição química, formato ou textura. Um corpo negro a 1000 Kelvin, como por exemplo lava ou metal fundido, emite uma mistura de luzes onde predomina o vermelho. Um corpo negro a 4000 Kelvin, por sua vez, emite uma luz bem mais amarelada, já quase branca. E um corpo negro a 9000 Kelvin já emite uma luz bem mais azulada.

Radiação emitida por três diferentes objetos, a 3000, 4000 e 5000 Kelvin (fonte: Wikimedia commons).

Radiação emitida por três diferentes objetos, a 3000, 4000 e 5000 Kelvin (fonte: Wikimedia commons).

Psicologicamente, é fácil entender a associação entre azul e frio, e entre vermelho e quente. Evolutivamente (eu tinha que colocar o termo “evolução” em algum lugar desse post!) é o que era de se esperar. Mas a vida tem suas ironias: fisicamente, o azul é a cor mais quente.

Um físico teórico extraterrestre com reduzidas habilidades sociais, na minha pia, talvez tivesse alguma dúvida antes de escolher qual torneira abrir para lavar as mãos.

Genes e alelos

Eu já fui bem mais intransigente quanto às mudanças da língua: acreditava que a maneira correta de escrever determinada palavra ou sentença era aquela e somente aquela, e que toda variante deveria ser eliminada. Eu era o que poderíamos chamar de language maven. Devo minha mudança de atitude às pacientes preleções da minha mulher e à indulgência trazida pela idade. Hoje aceito que a língua tem suas vicissitudes e que se todos passarmos a falar “nós vai estudar”, com o tempo “nós vai estudar” será o correto. Aliás, isso já aconteceu: por que o português, ao contrário do grego e do latim, usa a terceira pessoa no lugar da segunda (“você é feliz”) e no lugar da primeira (“a gente é feliz”)? Continuar lendo

Diferenças

Um bom biólogo evolutivo deve ser capaz de explicar adequadamente, para uma pessoa leiga, que certos conceitos e ideias que ela toma como claros e sólidos são, para os familiarizados com a ciência, toscos e absurdos. Algumas das perguntas mais comuns que ouvimos são tão incoerentes que sequer têm resposta, como, por exemplo, “quem é mais evoluído, A ou B?”. Perguntar isso é como perguntar quanto é oito dividido por zero. Uma bobagem como essa não tem resposta e não se deve tentar respondê-la, pois isso seria dar crédito à pergunta e, por fim, validá-la. Ao contrário, deve-se explicar para o interlocutor que não há divisão por zero, e que não há sequência evolutiva de entidades atualmente existentes. Continuar lendo

Afinal, o que é um macaco?

Prolegômeno: Quem me conhece e acompanha o blog sabe que eu costumo criticar os grupos parafiléticos. Ao contrário de alguns estudiosos, eu penso que grupos parafiléticos deveriam ser, quase todos eles, eliminados. Nunca pensei que eu defenderia o uso de um grupo parafilético. Pois bem, é chegado o momento.

Eu não tenho TV e, ultimamente, tenho acompanhado muito negligentemente os sites de notícias (além de praticamente não ter mais entrado no Facebook). Por isso, estava completamente por fora dessa história de futebol, racismo, bananas, macacos e da hashtag SomosTodosMacacos. Agradeço à minha mulher, que consultei logo após um seguidor do meu Tumblr ter perguntado a minha opinião a respeito, por ter me posto a par de toda a história. Bem, quero adiantar que, se você chegou até aqui através de um mecanismo de busca (a.k.a. Google), eu não vou falar sobre racismo, nem sobre a situação do racismo nos estádios, nem sobre a copa do mundo, nem sobre questão social alguma. Fique à vontade para sair desta página. Este é um blog sobre evolução e biologia evolutiva, e o que eu quero discutir é outra coisa: afinal, o que é um macaco? Continuar lendo

Mais especulações: zebras e moscas

Este curto artigo é um retorno, quase uma nota de rodapé, a dois posts anteriores (que podem ser lidos aqui e aqui), nos quais eu tratei de um tema que me parece importante: o caráter especulativo das explicações acerca de um processo seletivo. Continuar lendo

Entre dois mundos

Recentemente um colega veio, pela internet, pedir a minha opinião a respeito de uma questão de vestibular. Segundo ele, os professores estavam se digladiando, alguns a favor do gabarito oficial, outros contra. Quando ele me mandou a questão reconheci-a imediatamente. Eu já havia visto a questão, e já sabia que ela possuía duas opções corretas (coisa que, dependendo do concurso, faz com que a questão seja anulada). Dei minha opinião, com a qual ele concordou, mas me disse que a polêmica continuava. Felizmente, estou a três mil quilômetros dessa briga… Continuar lendo

A evolução humana

Há uma pergunta bastante famosa no ambiente da biologia evolutiva. Curiosamente, eu não a abordei no meu livro — pois minha intenção era a de escrever uma explicação breve e concisa sobre alguns conceitos básicos ­— nem aqui no blog, que já passa de 100 postagens. Eis a pergunta: Continuar lendo