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Há certos pares de palavras que possuem a capacidade de nos confundir, não apenas por serem semelhantes morfologicamente, mas por terem significados quase iguais. Quase… Às vezes, as diferenças mais sutis são as mais importantes. Há vários exemplos desses pares, mas o fito desta presente e breve nota é discutir um que possui grande importância para a biologia evolutiva e para a sistemática filogenética. Trata-se do par parecido e aparentado.

Antes de prosseguirmos, convém deixar claro e definido o que significa cada palavra. Quanto a parecido não deve restar dúvidas: refere-se à semelhança, à similitude, à similaridade, à parecença. Aparentado, por outro lado, refere-se à proximidade familiar, a uma distância menor na árvore familiar. Os problemas são dois: Em primeiro lugar, ambas as palavras derivam da mesma raiz latina. Para quem já conhece os conceitos de sistemática filogenética, podemos traçar um paralelo e dizer que essas palavras são “homólogas”. Além disso, em segundo lugar, temos que dois elementos aparentados, por serem parentes próximos, são por consequência parecidos. Talvez essa última observação seja a principal responsável pela confusão que existe entre esses dois termos.

Chegamos então ao que nos interessa: O que significam esses termos e como eles devem ser utilizados em biologia evolutiva e em sistemática filogenética? Para ajudar a esclarecer nossas explicações e para ilustrar os conceitos, vamos apresentar um cladograma bem simples, com apenas três elementos e dois nós.

Cladograma mostrando a relação filogenética entre homens, chimpanzés e bonobos.

Relembremos que há duas regras básicas em sistemática filogenética:

  1. Dados dois elementos, A e B, há um ancestral comum (compartilhado por ambos).
  2. Dados três elementos, A, B e C, há um ancestral comum a dois deles que não é ancestral do terceiro.

Essas regras são universais e se aplicam a toda e qualquer filogênese. Assim sendo, voltando à nossa figura, percebemos claramente que o bonobo (Pan paniscus) é mais aparentado com chimpanzé (Pan troglodytes) que com ser humano (Homo sapiens). Pelo mesmo raciocínio, o chimpanzé é mais aparentado com bonobo que com ser humano. Isso se dá porque chimpanzés e bonobos compartilham um ancestral que não é ancestral do ser humano. Esse ancestral, comum a chimpanzés e bonobos, é descendente do ancestral comum mais recente de humanos e do grupo {chimpanzés + bonobos}.

Assim sendo, podemos tranquilamente dar “bonobo” como resposta à pergunta “o chimpanzé é mais aparentado com o bonobo ou com o ser humano?”. Do mesmo modo, se perguntarmos com quem o chimpanzé é mais parecido, ninguém (em seu juízo perfeito) irá responder outra coisa que não “bonobo”. Percebe-se que quem é mais aparentado é por consequência mais parecido.

A complicação vem agora: imaginemos que a pergunta é “com quem o ser humano é mais aparentado, com o chimpanzé ou com o bonobo?”. A resposta é nenhum dos dois! Ou, para sermos mais corretos, “com os dois em igual medida”. O grau de parentesco entre o ser humano e o chimpanzé e entre o ser humano e o bonobo tem que ser exatamente igual, porque bonobos e chimpanzés relacionam-se filogeneticamente com o ser humano pelo ancestral comum aos dois primeiros. Portanto, se perguntarmos “o ser humano é mais aparentado com o chimpanzé ou com o bonobo?”, a resposta correta é: “o grau de parentesco é exatamente o mesmo”.

Então, se perguntarmos com quem o ser humano é mais parecido, se com o chimpanzé ou com o bonobo, teremos que dar a mesma resposta, certo? Não necessariamente! O fato do parentesco entre humanos e chimpanzés e entre humanos e bonobos ser exatamente igual não significa que os humanos não possam ser mais parecidos com um ou com outro. Isso ocorre porque, como já havíamos deixado claro, parecido e aparentado não são sinônimos. Eu, por exemplo, sempre achei os seres humanos mais parecidos com os bonobos que com os chimpanzés. Essa é uma questão de gestalt minha, subjetiva, idiossincrática, particular… Mas não há nada de errado nisso! Afinal de contas, há quem ache fulano parecido com cicrano, mesmo que todos os seus colegas discordem e zombem disso.

Deixando de lado a subjetividade e indo para uma abordagem mais objetiva, podemos analisar o grau de parecença de estruturas isoladas, e não do organismo como um todo. Isso nos dá resultados interessantes: imaginemos que o ancestral de humanos, bonobos e chimpanzés possua uma determinada estrutura, que chamaremos de A. Após a separação de bonobos e chimpanzés, esses últimos tiveram a estrutura A modificada em uma estrutura B (tecnicamente, dizemos que, em chimpanzés, a estrutura B é uma apomorfia e a estrutura A é uma plesiomorfia). Desta forma, mesmo que os bonobos sejam mais aparentados com os chimpanzés que com os seres humanos, quanto à estrutura que estamos analisando os bonobos seriam mais parecidos com os seres humanos que com os chimpanzés, uma vez que humanos e bonobos teriam a estrutura A, enquanto os chimpanzés teriam a estrutura B.

Isso é fundamental para quem trabalha com biologia molecular: mesmo que o genoma de um lobo seja mais semelhante ao genoma de um urso que ao de uma arara, nada impede que, quanto a um gene específico e isolado, encontremos mais semelhanças entre lobos e araras que entre lobos e ursos. Isso não é o fim do mundo: significa apenas que aquele gene, praticamente inalterado desde o ancestral comum aos três indivíduos dados, passou a sofrer grandes alterações na linhagem dos ursos, após a separação do ancestral comum com os lobos.

Para finalizar, um corolário bastante interessante dessa análise é dado por Dawkins no seu agradável livro “The ancestor’s tale”. Entre os vários absurdos difundidos pelos europeus na idade moderna e contemporânea, encontra-se o racismo associado à scala naturae: Segundo Dawkins, os primeiros exploradores europeus a encontrarem grandes símios nas florestas africanas associavam esses primatas mais aos africanos negros que a si próprios (caso dissessem apenas que achavam os chimpanzés mais parecidos com os negros africanos que consigo mesmos, não haveria muita coisa a objetar; mas, uma vez que utilizaram o conceito de “aparentado”, a coisa ficou bem diferente). Assim, os negros eram postos, na scala naturae, no meio do caminho entre chimpanzés e europeus brancos. Além de inadmissível e moralmente repudiável, esse conceito está biologicamente errado. Para não falarmos de todos os absurdos da scala naturae, restringiremos-nos ao que discutimos nessa nota: o grau de parentesco entre dois primos e um indivíduo num grupo externo tem que ser exatamente igual. Assim sendo, o grau de parentesco entre o explorador branco e os chimpanzés e entre os negros africanos e os chimpanzés é precisamente o mesmo!

O Facebook é o novo ambiente de propagação de uma praga que já ocorre há um certo tempo. Bem antes das redes sociais na internet se tornarem populares andou circulando por aí uma poesia bastante piegas (talvez possa até dizer dela que era um tiquinho interessante) chamada “Instantes”, atribuída a Jorge Luis Borges. Para quem não lembra é aquela que começa com “Se eu pudesse novamente viver a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros…”. Quem quer que já tenha lido dez por cento de um conto de Borges sabe que ele jamais seria o autor daquela peça melosa e açucarada. Mas na internet, onde é tão fácil escrever (e reproduzir) informações, a praga das falsas autorias se alastrou. São bobagens (geralmente mal escritas, diga-se, sem querer ofender…) atribuídas a Luís Fernando Veríssimo, Shakespeare, Fernando Pessoa, Kafka… Lembro-me de, um dia, em sala de aula, encontrar fixado no quadro de avisos um texto de autoajuda, com todos aqueles chavões os quais não é necessário aqui reproduzir, que lá foi posto com o intuito de relaxar os alunos e diminuir a tensão anterior ao vestibular, o que é uma iniciativa louvável. Findando o texto, porém, havia um garrafal “Carlos Drummond de Andrade”. Bem, não tenho nada contra uma pessoa escrever um texto de auto ajuda, um texto motivacional. Mas assinar seu texto com o nome de Drummond é uma desonestidade, para dizer o mínimo. No Facebook encontramos Bob Marley, Clarice Lispector, Arnaldo Jabor e uma legião de outras criaturas cujo nome subescreve as mais diversas bobagens. Continuar Lendo »

Tenho um grande prazer, cujas origens me escapam, de conhecer e de brincar com a etimologia. Não o nego, apesar de ter certas razões para tal. Contudo, ao custo de um esforço deliberado, não sou daqueles que se apegam ferrenhamente ao significado primeiro da palavra (se é que há tal coisa) e que não compreendem que as palavras cambiam. Essas vicissitudes são, na verdade, uma das características mais interessantes das línguas e das linguagens. Continuar Lendo »

Traduttore, traitore. A primeira e única vez que me deparei com esse ditado italiano foi lendo “Os chistes e sua relação com o inconsciente”, há muitos e muitos anos, mas até hoje me lembro dele. Bem, para fazermos justiça, se não fossem os tradutores não teríamos acesso a uma quantidade formidável de obras indispensáveis. A maioria de nós não lê em inglês, muito menos em alemão, italiano ou francês. E o que dizer do russo, do latim, do grego, do japonês ou do árabe? Continuar Lendo »

Até meados do século XVIII praticamente não havia uma história natural ou, em termos mais modernos, um estudo da natureza em que seus elementos fossem considerados por si só, independente de alguma relação que pudessem ter com o ser humano. De forma geral, não apenas a existência da natureza como um todo era encarada por um ponto de vista extremamente antropocêntrico (os demais seres vivos existiam com o único propósito de servir ao ser humano), mas o próprio mundo da vida selvagem encontrava-se repleto de “imagens especulares para as relações humanas”, como nos diz Keith Thomas em seu “Man and natural world”. Enquanto as plantas eram imbuídas de assinaturas, entre os animais encontrávamos as mais variadas facetas dos comportamentos humanos. Cada animal simbolizava uma qualidade ou um defeito dos homens. Continuar Lendo »

Por Zeus, não acredito que estou prestes a fazer isso! Irei mesmo defender um tipo de determinismo biológico? Já prevejo os comentários enfurecidos, uma vez que, em relação a certos tópicos e certos temas, apenas a opinião do establishment acadêmico é aceita, e todo o resto é anátema… Bem, dentro daquela ótica do “falem mal, mas falem de mim”, pelo menos o blog estaria recebendo algumas visitinhas extras. Continuar Lendo »

Prolegômeno: Antes que os puristas da língua e gramáticos de plantão reclamem do título da presente nota (“quem seleciona seleciona algo”, dirão, “portanto é seleção de, e não seleção para”), a fórmula seleção para tem um sentido bem determinado em biologia evolutiva, conforme proposto por Sober. Esse, por sinal, pode ser o tema para uma nota futura.

Que muitas pessoas vivem de aparência não é novidade pra ninguém. Um infeliz exemplo disso é a triste condição de uma quantidade inimaginável de cães abandonados e em perfeitas condições para adoção, preteridos em favor de cães “de raça”, seja isso o que for (para quem não compreendeu o sarcasmo, eis uma nota a respeito), comprados em pet shops ou, absurdo dos absurdos, em puppy mills. Escolhendo o seu cão por critérios puramente estéticos, esquecem ou escolhem ignorar a principal característica dos cães, aquilo que tanto contribuiu para nossa relação com essa variedade de lobo: seu comportamento. Continuar Lendo »

A alfabetização científica é um processo fundamental. No entanto, durante a vulgarização de certos conceitos, mal-entendidos podem e vão acontecer, e o que chega ao público leigo é bem diferente do que partiu da comunidade científica. Boa parte dos vulgarizadores está bem consciente disso. Por exemplo, os livros-texto de genética ou evolução costumam alertar repetidamente que o conceito de herdabilidade que o público leigo possui (quantos por cento de uma característica se devem a fatores genéticos) difere substancialmente do conceito correto (quantos por cento das diferenças de uma característica, observadas numa população, se devem a fatores genéticos), e isso tem consequências sérias para a correta compreensão do conceito de herdabilidade, como se pode perceber na tão comum (e sem sentido) pergunta “quanto da inteligência se deve aos genes e quanto se deve à influência do ambiente?”. O fito da presente nota é discutir sobre um mal-entendido semelhante, um conceito ou informação científica que, ao ser vulgarizada, foi deturpada de tal forma que levou a uma derivação absurda em meio ao público leigo. Eis a informação: “O DNA de um ser humano (Homo sapiens) e o de um chimpanzé (Pan troglodytes) diferem em apenas 1%”. O que isso significa? Tentarei mostrar que essa informação, a não ser que você seja um(a) geneticista ou trabalhe com construção de filogenias, tem o seguinte significado: nenhum. Devo alertar, antes de prosseguir, que o que passo a alegar logo abaixo não é nada inédito, muito menos conclusões de minha cabeça, lavra própria; diversos livros de evolução ou genética fazem o mesmo alerta, ou um alerta semelhante. Contudo, como uma das propostas deste blog é a vulgarização científica, creio ser pertinente falar desse assunto pois suspeito que infelizmente, entre o público leigo, paira uma conclusão fundamentalmente incorreta, derivada dessa informação sobre o DNA dos humanos e dos chimpanzés. Continuar Lendo »

Gostaria de agradecer a todos que gentilmente escreveram seus comentários na postagem sobre decussação, na verdade os comentários foram mais numerosos do que eu imaginava. Continuar Lendo »

Estou passando por alguns problemas pessoais que me impedem de escrever com a frequência que gostaria. Porém, como já havia dito numa postagem ao final do ano passado, blog parado é blog morto. Logo, na impossibilidade de escrever um artigo mais adequadamente preparado, mas ainda assim precisando publicar alguma coisa, resolvi postar uma dúvida minha. Isso mesmo, uma dúvida. Continuar Lendo »

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