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Não gosto nem um pouco de exercícios de previsão quando se trata de evolução. Na verdade, não gosto de exercícios de previsão em praticamente situação alguma; mas quando se tenta antecipar os eventos futuros do processo evolutivo a coisa fica perigosamente incorreta e indesejável, pois costumamos entrar num campo especulativo que, por mais que aparentemente inócuo e apenas hipotético, nos leva a poucos resultados além de uma compreensão inadequada da biologia evolutiva.

Se a biologia evolutiva é uma ciência, e poucas dúvidas restam de que ela legitimamente o seja, deve ser capaz de trabalhar com postulados científicos, com hipóteses nulas e alternativas; deve, portanto, ser capaz de trabalhar com situações experimentais (sim, ao contrário do que muita gente pensa, há experimentação em biologia evolutiva) e, por fim, ser capaz de associar os resultados dos experimentos à manutenção ou não da hipótese nula. Mas não é disso que estou falando; estou me referindo ao fato de tentarmos prever o futuro evolutivo de uma população ou de uma espécie em um intervalo de tempo muito mais longo, e normalmente de forma apenas intuitiva, confiando apenas em nossos pressentimentos para tentar antecipar como será certo caráter ou estrutura nesse futuro longínquo. Já havia tecido um comentário sobre isso numa postagem anterior, em que me referi à série do Discovery Channel intitulada “The future is wild”.

Mas creio que, em certas situações bastante específicas e delimitadas, um exercício futurológico de previsão do desenrolar evolutivo talvez seja possível. Quero ser bem enfático quanto à questão das situações específicas e delimitadas, pois a mim me parece que o principal equívoco dos produtores do “The future is wild” é tentar imaginar a morfologia e o comportamento de uma espécie hipotética em um intervalo tão imenso quanto 100 milhões de anos!

Não me entenda mal: esse parágrafo prévio pode eventualmente fazer com que me pintem como um reducionista. Reitero aqui: poucos movimentos nas ciências têm mais a minha antipatia que o reducionismo. A questão aqui não é ser reducionista, e sim ter respeito pela complexidade do sistema, pelo elevado número de variáveis, que torna totalmente infeliz a idéia de prever o futuro do sistema além de certas situações bem detalhadas. Esse respeito pela complexidade do mundo ganhei depois de ler alguns livros de divulgação científica sobre o caos, mais corretamente falando sobre o caos determinístico. Há dois desses livros de divulgação que recomendo com prazer: “Acaso e Caos”, de David Ruelle (o criador da expressão atrator estranho), e “Dos ritmos ao Caos”, de Pierre Bergé, Yves Pomeau e Monique Dubois-Gange. Desde que me familiarizei com a teoria do caos, há uns vinte anos, para mim qualquer sistema com mais de duas variáveis já impõe medo e respeito…

Após todo esse extenso mas necessário prolegômeno, passemos ao exemplo que tenho em mente. Há uma espécie de carpa denominada carpa prateada asiática, cujo nome científico é Hypophthalmichthys molitrix. É um peixe de água doce da Família Cyprinidae, nativo do norte e do nordeste da Ásia. Segundo a Wikipédia, a carpa prateada foi introduzida nos Estados Unidos nos anos 70, para controlar o crescimento de algas em tanques de aqüicultura e em estações de tratamento de água. Desnecessário dizer que, como a maioria das espécies exóticas, a carpa prateada acabou escapando e hoje é comumente encontrada nos rios Illinois, Mississipi, Ohio e em vários de seus afluentes.

Ocorre que a carpa prateada tem um comportamento bastante curioso: quando ameaçada (por um predador, no caso), ela costuma saltar para fora d’água, chegando por vezes a dois ou três metros de altura. Até onde pude determinar, esse é um comportamento comum da carpa prateada (mas não de outras espécies de carpas, apesar de algumas informações incorretas), ocorrendo em seu habitat natural. Contudo, motores de barco, de Jet ski ou de outros veículos aquáticos podem também assustar as carpas prateadas. O resultado disso, particularmente nos rios norte-americanos (onde é grande o tráfego de veículos motorizados) é que, ao navegar, a embarcação é praticamente cercada por uma nuvem de peixes desesperados, saltando para todos os lados.

"Flying carps", ou carpas saltadoras, no rio Illinois. Perceba o rastro de carpas saltando por onde o motor de popa passou, em alta velocidade.

O resultado mais comum é que várias carpas acabam seus dias se debatendo no deck dos barcos. Muita gente no rio Illinois pesca simplesmente assim: passam de barco, numa velocidade baixa, numa certa área do rio, e as carpas prateadas simplesmente pulam para dentro do barco! (na verdade, como é fácil perceber, as carpas não pulam “para dentro” do barco, elas simplesmente pulam; o resultado, para algumas, é cair dentro da embarcação). Há relatos de pessoas que se machucaram seriamente com o impacto dos peixes, principalmente se a velocidade da lancha ou do Jet ski é alta.

Aqui, numa situação bem determinada e num intervalo de tempo relativamente curto, podemos propor um futuro cenário evolutivo. Se supusermos que esse comportamento é genético (não confundir com hereditário) e dependente de reduzido número de loci (no melhor cenário, um só gene…), não há mal algum em imaginarmos que variedades da carpa prateada que não exibam esse comportamento tenham sua frequência populacional gradativamente aumentada. O que imaginamos nesse cenário é que haveria uma “tendência” evolutiva das carpas americanizadas em perder o comportamento de saltar. Os passos seriam os seguintes: há mutações genéticas que interrompem esse sistema comportamental; como esse comportamento nos rios norte-americanos é deletério, variantes mutantes para o “saltar” têm maior fitness (ajustamento) que as variantes selvagens; com o tempo, a frequência de mutantes aumentaria.

Mas, mesmo numa situação tão simples, tentar prever o processo evolutivo pode levar a erros crassos. Em primeiro lugar, não sabemos até que ponto a perda do comportamento de saltar das carpas elevaria seu ajustamento, pois devemos determinar se predadores (e quais) ocorrem em tais rios. Em segundo lugar, as carpas prateadas asiáticas estão se reproduzindo numa velocidade tão grande nos rios norte-americanos que o comportamento de saltar (e morrer dentro dos barcos) teria uma importância bem reduzida. Esse é um ponto que costumamos esquecer: se o número de mortes decorrentes desse comportamento de saltar é pequeno ou irrisório tendo em vista o tamanho da população, uma matemática simples nos mostra que não haveria uma diferença no ajustamento entre as duas variáveis comportamentais que justificasse a rápida fixação de uma carpa prateada “não-saltadora”.

Os professores do ensino médio (e eu estou incluído nesse peculiar grupo social) repetem tão exaustivamente certos conceitos que acabam por minar quase que completamente nossa capacidade analítica, nossa capacidade de pensar e estabelecer relações por nós mesmos. É certo que vários aspectos do processo cognitivo requerem repetições, mas não outros – muito menos todos! Uma dos exemplos curiosos dessas repetições nem sempre “adequadas” é a relação que acabamos sedimentando em nossas mentes das diferentes hipóteses evolutivas (que muitos chamam de “teorias”, como na famigerada frase “a teoria de Lamarck…”) com o mundo real, a realidade tangível. Senão vejamos. Continuar Lendo »

Na postagem anterior, sobre a unidade Haldane, havia dito que muitos dos artigos desse weblog referem-se a temas que não quis ou não pude tratar em meu livro sobre biologia evolutiva. A presente nota é um caso precisamente oposto: discuti-a bastante em meu livro; contudo, como a internet possui uma visibilidade e um alcance bem maiores, gostaria de discutir esse tema aqui também. Continuar Lendo »

A principal razão que me levou a iniciar este weblog foi escrever sobre coisas que não quis ou que não pude incluir em meu livro. Na verdade, trata-se de um livrinho bem pequeno, chegando a cento e oito páginas apenas; escrevi-o deliberadamente curto, para ser uma leitura objetiva e sumariada. Tive que enxugar boa parte do texto, e muitos dos tópicos que não pus no livro acabaram virando postagens por aqui. Com o tempo, dada a liberdade que os weblogs oferecem, passei a escrever sobre outros assuntos; porém, presente nota é um exemplo desses tópicos que não pude por em meu livro. Continuar Lendo »

Não, o título desse artigo não é uma brincadeira, nem algum outro tipo de ironia. Significa exatamente o que quer significar: eu não acredito em biologia evolutiva, não mais do que eu acredito em zoologia ou botânica. Do mesmo modo, não acredito em física — muito menos no modelo padrão da física quântica —, nem em química, nem na geologia ou na astronomia. Deixe-me discorrer sobre o porquê disso. Continuar Lendo »

Quando comecei a me interessar por psicanálise (interesse que se esvaeceu em pouco tempo…) tive a chance de participar de um congresso comemorativo dos cem anos de publicação da “Interpretação dos sonhos”, de Freud. Confesso que essa é uma obra que não li, pois sou mais interessado no chamado ciclo “antropológico” de Freud (“o mal estar na civilização”, “o futuro de uma ilusão”, “totem e tabu”, “Moisés e o monoteísmo” etc.), mas conheço um pouco do livro, e já li algumas passagens. Deixando de lado a questão da validade das hipóteses freudianas, é interessante notar que a natureza dos sonhos depende necessariamente das particularidades únicas do aparelho psíquico humano, que se supõem inexistentes em outras espécies animais. Nesse congresso em particular a maior parte dos palestrantes tinha uma orientação lacaniana, e daí a importância dada à palavra e aos discursos na atividade onírica: boa parte das análises e interpretações baseavam-se na natureza do discurso, nos detalhes às vezes mínimos da associação das palavras. Pode-se supor que não há sonhos se não houver linguagem, da mesma maneira que muitos teóricos afirmam que não há pensamento se não houver linguagem; logo, não há sonhos se não houver linguagem e pensamento. Desta forma, mesmo que validemos as hipóteses freudianas e lacanianas, não poderíamos utilizar (ou pelo menos não da forma que hoje se encontra…) o que foi construído pela psicanálise para tentar explicar a origem do sono e dos sonhos, por uma razão bastante simples: uma grande quantidade de outros animais dorme e sonha. Continuar Lendo »

Tive um professor de filosofia que, em suas aulas, reiterava sempre que não compreendia os alunos que diziam detestar química. “O que eles querem dizer com isso, que detestam seus próprios corpos? Que detestam a roupa que vestem, a cadeira em que sentam, o mundo em que vivem?”. O que o professor estava fazendo era chamar nossa atenção para a importância do discurso: não gostar de estudar química é uma coisa; dizer que “detesta a química” é dizer que detesta os hádrons e os léptons, os bósons e os férmions — ou seja, o mundo inteiro. É importante tomar cuidado com o discurso, pois num piscar de olhos estamos fazendo um elogio à ignorância, quando dizemos coisas como “detesto química”. Bem melhor seria dizer que a química enquanto ciência é importante, que respeita quem a estuda, mas que “não é minha praia”. É bem mais bonito e elegante; além disso, se nós fomos obrigados a estudar disciplinas com as quais não nos identificamos, é culpa de nossos professores e pedagogos, e não da disciplina em si… Eu, por exemplo, respeito bastante o trabalho dos engenheiros; adoro assistir programas como “megaconstruções”, “o segredo das coisas” ou “obras incríveis”, no National Geographic e no Discovery. Contudo, jamais poderia ser engenheiro ou físico, pois não tenho quase nenhuma habilidade matemática… Já se vão quase vinte anos que fiz cálculo I, e para mim, hoje em dia, integral é um leite que não foi desnatado. Assim sendo, admiro quem utiliza desenvoltamente a matemática, pois “não é minha praia”. Continuar Lendo »

Não, eu não vou escrever sobre Foucault. Meu objetivo nesta presente e curta nota é bem mais simples e pontual, e mesmo assim não se pode descrevê-lo como destituído de controvérsias. Nomeadamente, este objetivo é descrever como a necessidade de nomear as coisas e as estruturas pode levar a complicações gratuitas e desnecessárias na biologia evolutiva. Continuar Lendo »

Nunca fui de dar muita importância para datas “redondas” (os 100 anos do nascimento de alguém, os 10 anos de algum campeonato, os 40 anos de alguma tragédia…), mas compreendo a importância que certos números têm para o imaginário de nossa espécie. O Réveillon, por exemplo, é apenas uma noite como outra qualquer, mas é interessante pensar que ela é imbuída de um significado especial. Continuar Lendo »

O homem não veio do macaco. Todo biólogo sério deve ser capaz de explicar didaticamente esse enunciado, mesmo que não seja um especialista em biologia evolutiva – um botânico, um bioquímico, um zoólogo, um parasitologista, um ecólogo, enfim… – e, de preferência, explicar também que o macaco não veio do homem; Explicar que o homem (Homo sapiens) e o macaco (Macaca mulatta) são dois animais diferentes, duas espécies distintas, e que estão historicamente unidas por um outro motivo: compartilham um ancestral comum. A compreensão deste fato, de que o homem não veio do macaco – e de que muito menos o macaco veio do homem – é uma das premissas para afundar de vez a concepção de scala naturae, infelizmente ainda tão comum. O que se deve ter em mente é relativamente simples: dados dois elementos quaisquer, A e B, há um ancestral comum a ambos, e dados três elementos quaisquer, A, B e C, há um ancestral comum a dois deles e que não é ancestral do terceiro. Com essas regras simples em vista, constrói-se mentalmente uma árvore que deve ser capaz, depois de certo tempo, de enterrar essa “great chain of being”. Continuar Lendo »

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